Como Beijar na Boca

Texto originalmente publicado dia 22 de Julho de 2014
 

Um momento muito difícil na vida de todos nós é a puberdade. Ela pega a gente de surpresa e só percebemos as consequências reais depois de entrar na fase adulta. Veja só como ela é traiçoeira: você passa os primeiros anos de sua existência sendo uma criança pura e feliz. Sua única preocupação é curtir o momento, ganhar brinquedos e se divertir. Claro que existem as exceções, tipo aquela porra daquela Mafalda que não sabe passar uma tirinha sem ser um porre.

 

01Puta que pariu.

 

Ô garota insuportável do caralho, fico até com raiva.

De qualquer forma, Mafaldas à parte, as crianças são seres adoráveis. Conforme você chega mais perto da puberdade, já começam a aparecer os primeiros sinais de que vai dar merda logo logo: toda aquela fofura vai sendo substituída por um negócio que não sei explicar exatamente, mas costumo chamar de SÍNDROME DA CRIANÇA ESPERTINHA. É aquele período em que parece que a criatura saiu de um filme da Sessão da Tarde onde cachorros e crianças sabem de tudo enquanto os adultos são todos burros.

 

02“Tenho um plano para isso!”

 

Daí as coisas tendem a desandar cada vez mais. Você começa a dizer que não é mais criança, você agora é PRÉ-ADOLESCENTE (mas ainda quer ganhar presentes dia 12 de outubro) e o mundo, segundo sua cabeça, precisa te entender. Sobre a adolescência eu nem preciso falar nada. É só você olhar suas fotos da época que você já pensa “eta porra, que fase hein”. SPOILER: se você não acha o seu passado babaca, é porque você ainda é babaca.

E não basta ser babaca. Não. Ser babaca é pouco. Você tem que virar uma abominação humana nesse período. Começam a nascer pelos em lugares que você não dava muita atenção, começam a brotar espinhas, o cabelo fica oleoso e os hormônios te deixam com uns peitinhos disformes. Falando em hormônios, essa é a época em que você precisa…

 
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Tempos complicados. Perder o BV, ou Boca-Virgem, era o ato de dar o seu primeiro beijinho em uma boca alheia que não fosse da sua mãe ou, em famílias mais perturbadas, do seu pai. Eu, que nunca fui um James Dean mirim, ficava meio apavorado com esse lance porque sabia da minha predisposição a fazer merda. Eu não queria nem que fosse sensacional, só não queria que terminasse em tragédia.

Por conta disso, comecei a pesquisar na internet qual era o procedimento adequado. Vamos destacar aqui que a internet daquela época era complicadíssima. Além de cara e discada, com uma velocidade de 56 kbps (com muita boa vontade), ela parecia ter no máximo uns 50 sites. Não tinha isso de Google em três milésimos de segundo te mostrando 7 bilhões de resultados.

Pra você ter uma noção, o único site que achei falando a respeito era um chamado “Sapecagem Jovem”, que, pensando bem agora, com certeza não era escrito por um jovem. Nesse site as dicas, que nunca vou me esquecer, eram:

 

  • Não fique nervoso com doenças;
  • Apenas acompanhe. O mais experiente irá conduzir;
  • Treine com sua mão ou com uma laranja.

 

E olha, que dicas MERDAS. A primeira eu não vou nem me dar o trabalho de explicar a neurose que causou. É como você falar pra uma visita “pode usar meu banheiro sim. É a segunda porta à direita, mas não se preocupa com o crocodilo que tem dentro do vaso não hein”. A segunda, que é a mais próxima de algum suporte, também não ajudava em porra nenhuma. Eu não sou uma batata frita ou um arrozinho pra ficar acompanhando, além disso, não tinha ninguém experiente na situação, poderia ser um caos.

 

04Tipo isso…

 

Aí vem a terceira. Eu ainda tenho dúvidas se a pessoa que escreveu isso era um sádico muito dedicado ao ponto de fazer um site sobre isso ou apenas um velho caduco e pedófilo esperando crianças mandarem mensagem para ele ajudar. Onde caralhos ficar beijando uma laranja resolve a tua vida? Isso sequer faz sentido. Sabe o pior? Eu treinei com uma laranja. Fiquei uns dias beijando ela e minha mão na esperança de me tornar um profissional. Foi inútil? Foi. Mas pelo menos foi uma belíssima história de amor que vivi ali.

O grande dia tinha chegado e eu daria meu primeiro beijo. Aconteceu, foi extremamente normal e ouso afirmar que na hora pensei em virar galã de novela porque parece que eu tinha nascido pra isso. Chora Fabio Junior.

A questão é: na época as informações corretas eram limitadas e hoje, aparentemente, também. O máximo que achei foram blogs de meninas explicando como funciona, naquele estilo Revista Toda Teen, bem mágico. Por conta disso, o Improbabilidade Infinita, que é um blog que te ama, veio trazer o GUIA DEFINITIVO DO BEIJO NA BOCA (com imagem de introdução)

 
 
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Vamos lá, chegou a hora de você dar aqueles amassos™ mas não está preparado ou não sabe como proceder? Pois então largue esta porra de laranja, pare de beijar sua mão e acompanhe esses 5 passos básicos:

 
– SEJA HIGIÊNICO

É o mínimo. Na adolescência, como eu disse, você é uma pessoa esquisita, oleosa e caspenta. Então além de tomar banho e usar um perfuminho, escove essa caralha desses dentes. Dá uma geral mesmo, tipo o lava-rápido de 3 andares Hot Wheels, pelo menos na semana em que você acha que vai rolar. Lembre-se que o seu primeiro beijo envolve uma segunda pessoa e ela não merece sentir o gosto do seu Nescau da manhã enquanto te dá uns pegas.

Se você usa aparelho móvel então, faça em dobro. Se puder, faça bochecho com água sanitária duas vezes ao dia (mentira, criança retardada que chegará nesse blog pelo Google. Não bote água sanitária na boca ou você vai morrer sem nunca ter beijado alguém). Todo mundo sabe que a função primária do aparelho móvel não é corrigir os seus dentes, mas deixar sua boca com cheiro de cadáver. Eu me lembro de um amigo na escola que perdeu o BV e não tomava cuidado com seu aparelho móvel. O resultado foi a menina espalhando a experiência de beijar um esgoto e ele ficando conhecido como Renato Boquinha-de-Vala.

 
– FINJA QUE SABE

A menininha ou menininho que você vai beijar provavelmente está tão inseguro quanto você. É normal? É. É legal? Nem tanto. Por isso finja que você tá totalmente por dentro daquilo e que beijar na boca pra você é tão trivial que você já pode escrever uma tese a respeito. Faça aquela cara de “eu sei pra caralho o que eu to fazendo aqui”.

 

06“Beijo na boca? Normal”

 

Se a pessoa também estiver fazendo cara de quem sabe mais que você, não se desespere. Faça cara de quem sabe mais ainda. É uma competição e você vai ganhar. O importante é passar segurança e, na hora do beijo, apenas fazer o que você viu ao longo da vida: beijar e pronto. Tem mistério nessa porra não.

 
– PENSE NEGATIVO

Isso talvez seja uma dica pra vida. Quanto menor a expectativa, mais proveitoso o momento. Sei lá, vá com a consciência de que você pode vomitar durante o beijo, algum dos dois desmaiar, arrancar um pedaço da boca alheia com os dentes e, acredite em mim, fazer cocô nas calças de tanto nervoso. Na hora possivelmente não vai acontecer nada disso e as coisas ocorrerão melhor do que você esperava.

Lembre-se sempre da dica 2: finja que tudo aquilo ali é normal pra você. Mesmo que você se cague todo, faça cara de quem estava esperando exatamente isso.

 

06“Cagar na calça? Normal”

 

 
– CONTROLE A LINGUINHA

Se você vai beijar de língua, entenda que é necessário pegar leve. Já fiquei com uma garota cuja língua achava que era a Dora Aventureira e desbravou cada canto da minha cavidade oral. Eu me senti estuprado. Se eu colocasse uma jiboia adulta dentro da minha boca, seria menos desconfortável que aquilo. Eu tive sorte de ela ter respeitado meus sentimentos e não ter enfiado a língua dentro do meu esôfago, ter feito uma endoscopia ali mesmo.

 

07“Foi bom pra você?”

 

É bem bizarro dizer isso, mas explicando melhor, a sua língua vai apenas ficar “acariciando” a outra e não simulando uma final de UFC bucal.

 
– BAIXE A BOLA

Aêêê, você oficialmente ~perdeu o BV~ de uma vez por todas. E agora? Contar pra todo mundo?! Não, imbecil. Fique na sua. Você está em fase escolar, TODO O PLANETA vai saber sem você precisar abrir a boca. Então faça aquela mesma cara de quem está mais que acostumado e ainda saia com a impressão de que você tem maturidade e não precisa ficar se vangloriando por aí.

Ah, apenas lembrando que você não tem maturidade e precisa sim ficar se vangloriando por aí, mas esse blog tem o intuito de te tornar COOL. E só para não dizer que não avisei: você irá manter a velha expressão de segurança, mas estará feliz demais para se conter nos primeiros dias e sua cara ficará assim:

 
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O importante é curtir. Você está pronto.

 


 

Como eu já disse várias vezes, a parte dos comentários aqui sempre foi um espetáculo à parte com as pessoas contando suas histórias. Conta aí como foi a catástrofe do seu primeiro beijo pra gente rir de você.

Pedras nos Rins

Texto originalmente publicado dia 28 de maio de 2014
 

Eu tenho uma seríssima dificuldade na vida que é a de desvendar sinais que meu corpo está me dando a respeito de alguma coisa. Não sei exemplificar isso de forma que eu não pareça um retardado mental, mas vamos lá: eu não bebo e, por conta disso, nunca tinha ficado de ressaca até o dia em que tomei uns 10 shots de Jägermeister (uma espécie de Biotônico Fontoura sabor alce, pelo que o rótulo sugere). Quando acordei no dia seguinte com aquela sensação de que eu havia sido atropelado por um rinoceronte, a primeira coisa que pensei foi “caralho, que sensação estranha. Acho que meu siso está nascendo. Vou passar um fio dental”.
 
Ok, entendemos como as coisas funcionam. Vamos seguir adiante.
 
Era uma quarta-feira qualquer de 2012. Acordei, fui tomar o meu café da manhã e já senti que tinha alguma coisa errada acontecendo. Era uma mistura de dor nas costas com dor na barriga. Eu realmente estava confuso e pensei “caralho, agora sim é a porra do siso nascendo”. Não era. Continuei os meus afazeres matinais normalmente, imaginando que aquele incômodo passaria, e fui assistir a alguns desenhos animados porque acredito que essa é a melhor maneira de lidar com os meus problemas.

A dorzinha achou que não estava recebendo a devida atenção e resolveu se manifestar de forma mais efetiva. Puta que pariu, agora sim. Era como se estivessem enfiando e girando na minha barriga aqueles talheres sorridentes dos anos 90 de cinco em cinco minutos.

 

talherImagina esse reizinho te perfurando

 

Foi a hora em que decidi que o que estava dentro de mim (aparentemente Satanás) precisava sair e fui vomitar para dar aquela limpada na alma. O que eu tinha esquecido era o quão doloroso o ato de vomitar era por si só. Na hora de comer aquelas amigáveis e macias bisnaguinhas Panco elas desciam tão facilmente, chega a ser incrível como na hora de subir parecia que vinham elas junto com a porra do próprio Panquinho num skate fazendo manobras nas minhas entranhas.

 

panco_skate“SOFRE AÍ, ARROMBADÃO”

 

Olhos lacrimejando, aquelas cuspidinhas pós-êmese e a sensação de missão cumprida. Dei aquela escovada nos dentes e tava pronto para seguir minha vida. Aí a dor voltou. Com tudo.

Ok, eu definitivamente estava morrendo. Nessa hora foi tão forte que caí no chão, comecei a chorar que nem uma garotinha e gritei a minha mãe. Tentei não desesperá-la e explicar a situação com calma de forma que ela me ajudasse:

 
– MÃE EU TO MORRENDO MÃE PELO AMOR DE DEUS NÃO ME DEIXA MORRER
– O que foi, Ygor?
– Ó LÁSTIMA O DERRADEIRO FIM DA VIDA ESTOU A PARTIR DESTE PLANO
– Por que você tá caído no ch…
– TAL QUAL GETÚLIO VARGAS SAIO DA VIDA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA
– Tá, eu vou ligar pro seu pai pra ele fazer algo
– QUEM TE VÊ PASSAR ASSIM POR MIM NÃO SABE O QUE É SOFRER TER Q…
 

Meu pai veio correndo me levar para um hospital. Enquanto eu o esperava, a minha mãe, que nunca teve um diploma de medicina, achou que poderia resolver a situação por conta própria e, como uma curandeira indígena, ficou esfregando um Vick Vaporub (que só descobri agora no Google que não é VAPORUBA e sempre falei errado) com Gelol nas minhas costas. Ele chegou, fomos pro hospital.

Depois de uma pontada dentro de mim a cada curva que o carro fazia no caminho, cheguei lá com cara de óbito e besuntado de Gelol com Vick. A situação era bem triste. O médico me levou para um daqueles leitos, sentou-lhe morfina nas minhas veias e eu tava revigorado. Morfina provavelmente é o nome de algum anjo da Bíblia pois aquilo ali foi a sensação de alívio mais gostosa da minha vida. Daí parti para uns exames rápidos, mijei em um copinho e fiquei aguardando o resultado com um sorriso no rosto porque depois da morfina nada me parava.

 

img_0679Eu drogado vivendo o sonho

 

FALA YGOTE! CHEGARO OS RESULTADOS LEKÃO” foi o que ouvi a enfermeira dizer pois possivelmente eu estava mais drogado do que deveria. Ela prosseguiu: “blá blá blá leucócitos blá blá blá bastonetes blá blá você está com sangue na urina”.

 
VOCÊ. ESTÁ. COM SANGUE. NA URINA.
 

Acabou sorriso, acabou morfina, acabou solzinho dos Teletubbies iluminando a minha vida. Essa frase é muito ruim de se ouvir e na hora eu já me visualizei mijando rios de sangue, menstruando pelo pau e o desespero voltou:

 
– É CÂNCER NÉ DOUTORA EU TO COM CÂNCER
– Eu sou só a enfermeira, mas não, você tá com…
– COM OS DIAS CONTADOS NÉ MULHER PARE DE JOGUINHOS PARE DE RODEIOS DIGA-ME
– É um caso simples de cálculo renal. Você deixa…
– DEIXO A VIDA PARA ENTRAR PARA A HISTÓRIA TAL QUAL GETÚLIO VARG…cálculo renal?
– É. Pedra nos rins. Basta você beber muita água e tomar esses remédios que elas saem naturalmente.
– Ah ok.
 

Voltei pra casa e os dias seguintes foram aquela agonia, né. A qualquer momento uma pedra iria passear pela minha uretra como se estivesse dando uma voltinha em um shopping. Eu sabia que na real a pedrinha era só isso

 
pedras
 

Mas como eu nunca tinha passado por essa situação antes, pra mim era isso

 
pedras-2
 

Eu já ia mijar achando que a qualquer momento sairia um Onix da minha piroca e eu desmaiaria durante o ato. Acabou que um dia aconteceu. Foi extremamente tranquilo o processo, não senti dor nenhuma. Foi tão tranquilo que acho que a pedrinha era uma ametista, tão zen que foi. Olhei pra ela, ela olhou pra mim e sabíamos que aquilo era um adeus. Filha da puta.

Hoje bebo água pra caralho pra não ter que viver esse pesadelo de novo e não ter sonhos recorrentes do Onix dizendo “AGUARDE” para mim.

 

onix
AGUARDE

 

 

socorro

Alistamento Militar

Texto originalmente publicado dia 22 de Junho de 2014

 
Assim que fiz 18 anos, além de ter que ouvir daquele tiozão engraçadota coisas como “JÁ PODE SER PRESO HEIN RSRS” ou “JÁ PODE IR PRO PUTEIRO HEIN RSRS VOU TE LEVAR PRO PUTEIRO EIN RSRS”, eu tive que me alistar no exército. O alistamento é uma forma de mostrar que a vida adulta já começou e que ela vai ser uma merda. Entendo que a carreira militar possa soar incrivelmente maneira para alguns e eu mesmo cheguei a considerar a hipótese de servir. Até me tocar de um negócio…
 
…minha vida não seria isso.
 
Soldado
 
Nem isso.
 
Soldado 2
 

Por mais que eu quisesse viver uma vida G.I. Joe, ser um bravo guerreiro, salvar a pátria durante a guerra e resgatar o soldado Ryan, a minha vida seria isso:

 

soldado-3Pátria amaaada Brasiiiiiil
 

Comecei a ver o que era preciso para essa nobre tarefa que é servir o país: eu tinha que estar em uma junta de serviço militar da minha cidade com alguns documentos às SETE DA MANHÃ pontualmente. Servir o país já estava começando a ser menos nobre do que parecia.

Cheguei lá no dia marcado às SETE DA MANHÃ (sempre lembrando em Caps Lock esse horário miserável para o ser humano) e fiquei numa fila até as 9h. Aparentemente para você ser um bom soldado de guerra você precisa estar preparado para qualquer eventual espera de duas horas. Era como se eu estivesse em uma fila para um show incrivelmente feliz da Demi Lovato, porém sem a Demi Lovato e nem felicidade.

Entrei. Mais espera. Comecei a perceber um padrão: os caras que organizavam as coisas lá falavam bem alto, lentamente e de forma agressiva. Estávamos lá só para entregar uma porra de um documento mas parecia que dali a gente iria direto para a Alemanha nazista. Era uma coisa do tipo:

 
– VOCÊS DEVEM ESTAR COM A IDENTIDADE EM MÃOS. COMPREENDIDO, JOVEM?
– Err, sim. Ela tá aqui em mãos.
– A IDENTIDADE ELA NÃO PODE ESTAR EM OUTRO LUGAR, DE FORMA QUE FACILITE O PROCESSO
– Ok
– CONSEQUÊNCIAS GRAVES ACONTECERÃO CASO A IDENTIDADE NÃO ESTEJA EM MÃOS
– Eu já enten…
– SIE MÜSSEN AUF ALLES VORBEREITET SEIN!!!!!!!
 
 

doguinhoquê?

 

Fui encaminhado a uma segunda salinha (com a identidade em mãos, claro) e lá começou um segundo cara com a delicadeza de um rinoceronte a fazer perguntas. Se fosse uma sala escura com apenas uma luz em cima de mim e dois mafiosos ao meu lado observando um terceiro me interrogar, eu me sentiria mais à vontade.

 
– YGOR FREITAS, CERTO?
– Certo
– RESPONDA APENAS SIM OU NÃO.
– Sim
– 18 ANOS, CERTO?
– Sim
– VOCÊ QUER SERVIR?
– …não
– EU NÃO OUVI DIREITO
– Estaaaamos capitão  :D
– …
– Não.
– OK, SIGA ALI EM FRENTE E DAQUI A 30 DIAS APRESENTE-SE NO QUARTEL.
 

A primeira parte tinha acabado. Perdi 4 horas daquele dia só pra responder três perguntas. E só depois eu fui descobrir que aqueles caras sequer eram militares, eram só um bando de funcionários públicos se achando a porra do Capitão Nascimento. Paciência.

Passados os 30 dias, fui para o quartel às 5 da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. Chegando lá, claro, mais fila. A diferença é que dessa vez tinham soldados de verdade e muita, MUITA gente estranha na mesma condição de espera que eu. Junta aí todos os figurantes de Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Cidade dos Homens. Era o calibre da galera que estava lá querendo servir o país. E não eram poucos. Pelo menos eles estavam lá correndo atrás de seus sonhos.

 

soldado-4Pátria amaaada Brasiiiil

 

Depois de umas 3 horas sem fazer nada além de aguardar (e, mais uma vez, sem a Demi Lovato no fim) cheguei na etapa do exame médico que consistia em: checar peso e altura, checar sua visão e checar se você tem alguma deficiência ou problema que te impeça de servir. Enquanto eu esperava minha vez, presenciei o exame de vista de um menino que, para fins ilustrativos, chamaremos de Cléber. Havia um painel na parede e Cléber tinha que dizer quais letras estavam nele. Cléber não sabia ler. O resultado foi a letra W ser chamada de “ipson”. Cléber era um batalhador.

Na minha vez, passei no exame de vista e tive que ficar sem camisa para um soldado médico que me perguntou se eu tinha alguma coisa que me impedisse de servir. Tudo o que sei é que comecei com daltonismo e daí falei tudo que era defeito que um ser humano podia ter. Sem sacanagem, falei até esquistossomose. Nunca caguei em um rio ou comi caramujo (perceba que não lembro bem como se contrai a doença), mas falei que tinha esquistossomose porque eu queria que ele me considerasse estragado demais para aquele quartel.
 
Deu errado. Passei para a próxima etapa, que era fazer uma provinha de múltipla escolha.
 
Sim, no exército você faz uma espécie de ENEM. Umas perguntas eram bem imbecis e outras eram sobre motor de jipe de guerra, um tema amplamente abordado pelo que costumam chamar de “ninguém”. Cléber a essa altura já tinha perdido as esperanças porque nesse meio tempo ele não teve a oportunidade de aprender a ler. A parte legal é que Cléber passou, a parte não legal é que eu passei. Eu iria servir. Teria que voltar naquele quartel alguns dias depois e ver para qual força armada eu havia sido convocado. Fiquei triste.

Voltei lá após alguns dias e, depois de muita fila e pouca Demi Lovato, descobri que havia sido convocado para a Aeronáutica. O tenente do exército me disse isso com as seguintes palavras: “aeronáutica? Quer dizer que temos um peixinho aqui. Boa sorte, rapaz”. Fiquei pensando na possibilidade de informar àquele senhor que a frase dele não fazia sentido tendo em vista que eu não possuía nadadeiras ou respiração branquial. Resolvi ficar quieto.

Resultado: descobri que “peixinho” é um cara com contatos dentro das forças armadas e que geralmente consegue alguma regalia, como a facilidade de servir na aeronáutica ou marinha, que são mais “elitizados”, pelo que entendi. E esse contato da aeronáutica é um amigo da família de patente altíssima (sei lá qual é o nome. Brigadeiro, major, não faço ideia) que me liberou. Hoje fico aliviado de saber que foi por muito pouco que não fiquei um período da minha vida dentro de um quartel.

 
 
Por outro lado, queria saber que fim levou o Cléber…

Morar sozinho

 

Já faz um tempinho desde que comecei a morar sozinho. Assim que peguei as chaves da casa nova, o meu primeiro pensamento foi “MERMÃO, AGORA SIM COMEÇOU A VIDA. VOU FAZER TUDO O QUE EU QUERO, VOU VIVER UMA VIDA DE REI, VOU PASSAR O DIA INTEIRO CHAMANDO A GALERA PARA FICAR ALUCINADA NAS MINHAS POOL PARTY”. Isso porque nem piscina eu tenho. Mas eu estava empolgadaço.

Chegando o grande dia, fui até meu novo lar com minhas malinhas e abri a porta. Sabe aquelas cenas de desenho onde o cara abre um baú do tesouro e vem aquele feixe de luz com uma música angelical? Foi basicamente isso, mas em vez do feixe de luz veio poeira. Muita poeira. A minha rinite ficou mais atacada que macumbeiro virado na pombagira. Nos primeiros dias era só limpeza. Puta merda, que inferno. Nem numa favela dentro do cu da Arábia Saudita devia ter tanta poeira quanto na minha nova casa. Como as minhas habilidades com tarefas domésticas são mais catastróficas que um chimpanzé com uma metralhadora, eu precisei da ajuda da Mariana.

 
Sério. Eu sequer sabia que vassoura era um negócio que existia de verdade, pra mim era coisa de Quadribol.

 

Vassoura

Minha Nimbus 2000

 

No geral, essa vida de single player é muito boa. É excelente ter um lugar só seu pra você fazer o que quiser, como andar pelado por aí tal qual faziam os selvagens no período paleolítico. O problema é que as coisas não se resolvem sozinhas. Quero dizer, uma vez eu deixei um prato na pia depois de comer e ele tá lá até hoje. Já surgiu ali um ecossistema tão bem complexo e resolvido que eu nem tenho mais coragem de interferir. O prato já é um patrimônio da Mãe Terra.

Poeira então nem se fala. Acho que depois de nazismo, adolescentes e guerras, a coisa que eu mais odeio é poeira. Eu tiro um dia inteiro pra limpar a casa, deixar ela UM BRILHO e no dia seguinte parece que uma tropa americana chegou direto do Afeganistão e resolveu sapatear na minha sala. Todo dia tem que limpar esse caralho. Se eu ficar uma semana sem limpar, ela fica igual um cenário de Dez Mandamentos.

 

PoeiraMinha sala meia hora depois de eu fazer faxina

 

“Ahhh, Ygão. Mas é só passar um pano né”. Broder…você não sabe o que nós donas de casa temos que viver. Tu já viu o preço dos produtos de limpeza? Essa indústria é uma máfia. Eu tinha um carinho tão grande pelas embalagens do Pato Purific até descobrir o preço de uma. Peguei uma implicância tão grande com patos que não posso ver um marreco na minha frente que já me bate aquele ranço.

O pior de tudo é ver que tem produtos caríssimos cuja função eu desconheço completamente. Tipo o TIRA-LIMO. Honestamente, eu não sei o que é limo, não sei o quão disposto o limo está a me prejudicar e como eu devo resolver meus problemas com ele. Se um dia aparecer limo aqui em casa, vai ter que ajudar a pagar as contas.

Ah, tem o DIABO VERDE. E isso não é uma conjuração avulsa no meio do texto. Tem realmente um produto de limpeza chamado DIABO VERDE e eu não sei como as donas de casa aceitam essa magia negra dentro do lar. Imagina um monte de senhora encapuzada no mercado escolhendo entre DIABO VERDE, SATANÁS AZUL e CRAMUNHÃO MAGENTA. Na embalagem as instruções são basicamente uma ameaça de morte “não deixa encostar na pele que seu pinto vai apodrecer” ou “cuidado para não espirrar nos olhos caso contrário os quatro cavaleiros do apocalipse vão te buscar”. Eu comprei o Diabo Verde porque as vozes me diziam que eu precisaria dele em algum momento.

 

Diabo Verde“Mate a sua família. Confie em mim”

 

“É, deve dar um trabalho limpar tanta coisa mesmo”, algum de vocês deve ter pensado. O problema é que eu sou tão inapto pra viver sozinho que NEM MÓVEIS eu tenho ainda. Tipo, tenho o necessário no quarto e no escritório, mas a única coisa que tenho na minha sala de estar é eco. Se você gritar uma palavra bem no meio dela, ela vai ficar ressoando por 40 minutos até o próprio som perceber que não tem nada pra se fazer ali e desistir da própria existência. Mesma coisa minha geladeira: só tem água e gelo. Isso quando eu lembro de encher as garrafas. O bom disso tudo é que você se torna bem mais inventivo e cria alternativas. Semana passada eu comi um guardanapo com ketchup.

É bem equilibrado porque pra cada lado ruim, tem um lado bom. O fato de não ter nada pra comer aqui me ajudou bastante com a questão dos insetos. Faz pouco mais de um mês que eu vi a última barata na minha porta com um chapeuzinho e uma maletinha indo embora, me desejando boa sorte.

Mas isso é necessário, é um aprendizado. Eu aprendi basicamente que não presto pra porra nenhuma. Se não fosse minha namorada aparecendo aqui ocasionalmente, era questão de tempo até um dia eu virar um cadáver tentando, por exemplo, instalar uma cortina.

Falando em cadáver, a pior parte de tudo é ter certeza ABSOLUTA que tem espírito nessa porra dessa casa. É a Sukita às vezes latindo pro nada, é um tal de barulho de porta abrindo na cozinha (provavelmente um espírito muito decepcionado vendo que não tem nada pra comer) e vez ou outra eu sinto que to dormindo de conchinha com alguém mesmo estando sozinho em casa.

 
Ok. Parando pra pensar, até que tenho uma entidade das sombras muito romântica vivendo comigo.
 

Mas se bate vontade de ir ao banheiro de madrugada, nem por um caralho que eu vou. Deu sede? Espero até de manhã. Fantasma é foda. Ele espera você estar num momento desses em que tu tá um lixo, tu nunca vê um fantasma enquanto está produzido pra night, com cheirinho de 212. É só em caso humilhante mesmo.

Se bobear, isso tudo aí é obra do Diabo Verde que eu comprei. Nunca pensei que a minha versão de Annabelle seria com um desentupidor de pias.


Uma das melhores coisas desse blog sempre foi o fator EXTRAS nos comentários, onde os leitores contam cada história sensacional que já aconteceu com eles. Fique à vontade para contar seus perrengues domésticos aqui embaixo.

Resenha: A Culpa é das Estrelas

Texto originalmente publicado dia 1 de Julho de 2014
 

O grande problema de chegar para alguém e dizer que gostou de um filme baseado em um livro é que as chances dessa pessoa ser uma imbecil são altas. Como você reconhece isso com precisão? Basta falar que achou o filme bom e ela automaticamente vai responder “PODE ATÉ SER MAS O LIVRO É MELHOR, É MAIS COMPLETO NÉ HIHIHI EU ACHEI O LIVRO MAIS COMPLETO PORQUE EU LI O LIVRO”.

Sim, sua filha da puta. Já viu quantas palavras existem dentro daquelas páginas? É claro que aquilo vai ser mais completo que o filme. Pare de se orgulhar só por ter lido uma caralha de um livro. Todo mundo sabe que o filme não é como o livro.

 
1
 

Então, fui ver A Culpa é das Estrelas porque muita gente tem ido e também porque estou evitando esse negócio de ter personalidade própria. Acho que foi a primeira vez que fui ver um filme sem ter lido seu livro antes e o resultado foi gratificante: eu aproveitei completamente sem ficar preocupado com partes que faltavam. Mas qual é a desse filme, afinal?

 
Câncer.
 

O filme é cheio de câncer. Câncer pra caralho. Eu saí de lá e fui direto para uma ressonância magnética só por precaução. A porra do filme tinha que se chamar A Culpa é do Tumor porque seria mais sincero. E se você acha pouco, segura aí: tem câncer infantil, pra quem curte um filme com a garotada. Fico pensando em como funciona a cabeça de um autor que escreve uma obra assim, daí fui procurar quem era John Green no Google e essa foi a imagem encontrada.

 
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“O próximo é sobre AIDS hein”

 

Logo no começo do filme somos apresentados à Hazel Grace, a protagonista. A mina já aparece com uns tubinhos no nariz, mostrando que as coisas não estão boas pra ela e que em alguma hora vai dar merda. Ela, aos 13 anos, foi diagnosticada com um estágio avançado de câncer na Tireóide. E é assim que começa o filme: você engolindo em seco a ideia de uma criancinha linda com câncer até o talo.

A menina, depois de grande, fica numa bad vibe forte (é o mínimo quando você está morrendo) e os pais dela resolvem que ela precisa frequentar um grupo cristão de apoio a pessoas com a mesma condição que ela. Em resumo, é um muquifo no porão da igreja cheio de jovens com algum defeito de fabricação. Se entra o professor Xavier naquele recinto começa um filme do X-Men.

 
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“DIVIRTA-SE COM SEUS AMIGO DOENTE, FILHA”

 

Obviamente, ela acha o grupo de apoio uma merda e faz a rebelde, diz que não vai mais. Infelizmente não dá em nada, ela é obrigada a continuar por ordem dos pais, dos médicos e possivelmente das estrelas. Mas vejam só vocês, nesse mesmo point da derrota, ela acaba esbarrando com um menino chamado Augustus Waters e fica toda ouriçada.

Augustus, como vocês devem imaginar, é o príncipe Disney da história. Ele tem toda aquela pose de galã em um primeiro momento. Depois você começa a perceber que ele fica insistentemente olhando para a Hazel, muito seguro de si pra quem está num lugar daqueles. O ar de galã passa a ser o de um possível estuprador de meninas terminais de tanto que ele fica olhando pra ela. É meio apavorante. Mas não para Hazel, que já estava com a calcinha molhada há alguns minutos

 
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“Te devoro todo, moleque dengoso”

 

Durante a reunião do grupo, ele e o amigo se apresentam a todos. O amigo, cujo nome eu realmente não lembro, diz que está lá por uma complicação que o deixará cego em pouco tempo. Vamos chamá-lo de Cegueta. Assim que Cegueta acaba, Augustus começa a falar de si mesmo. Velho, que saco. Ele começa dizendo que deu um merdelhê lá com ele que resultou na perda de sua perna direita, daí ele vai e mostra a perna mecânica pra todo mundo, se achando o Mega Man. O discurso do menino ciborgue termina com ele dizendo que seu maior medo é não ser lembrado para sempre. Hazel, querendo chamar atenção, aplica a famosa SURRA DE ESCULACHO nessa visão de vida dele e fica aquele climão no ar.

 
5

“E esse é o nosso amigo Agustus que acha que é o fodão de jaqueta, senhores…”

 

Na saída, enquanto Hazel espera sua mãe, vem ele todo galã de novo puxar assunto. O cara mete uns papos chatos pra caralho, tipo o Cazuza no filme dele, que ninguém entende porra nenhuma mas é tudo frase avulsa de fotolog e flogão. Ela sente o calor da paixão, ele a convida pra sair, eles saem juntos e daí pra frente você já sabe né.

 
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“Sua piscina estará cheia de ratos. Mentiras sinceras me interessam, vida louca vida breve.”

 

Ok, se você não sabe, é o seguinte: estamos falando de um filme cujo público consumidor é basicamente composto por meninas de 14 anos. Se o filme tem 2h de duração, pelo menos uma hora e meia aí é de ceninha mela-calcinha pra você se comover mais com o desfecho. Eles trocam livros, histórias e emoções. Ela diz quem é o autor favorito dela, ele entra em contato com o cara, tudo acontece de forma linda e você fica com cara de bunda na sala de cinema por nunca ter tido uma história de amor assim.

 
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Ela lendo o livro fofo dele

 

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Ela recebendo SMS fofo dele

 

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Ela vendo filme fofo com ele

 

Depois de 7059 cenas ~fofas~, chega um momento em que o escritor que ela mais admira os convida para um encontro em sua casa, em Amsterdã. Hazel fica LOUCAÇA de alegria e conta pra mãe. A mãe fica LOUCAÇA de alegria também mas diz que está sem dinheiro e Hazel se fode. Augustus sugere que ela gaste o desejo dela da Genie Foundation para poder viajar, entretanto, ela já havia gasto com uma viagem pra Disney (o que acho sempre um bom investimento). Augustus, novamente com aquele jeito de namorado que você nunca vai ter na vida porque é feia, age como um príncipe e usa o desejo dele para ir com ela.

Meu deus, que alegria. Tava tudo certo e os pais dela vão ao hospital para ver as condições e riscos de viagem. Os médicos ficam comovidos com toda a história e dizem “TÁ MALUCA VIAJAR PRA EUROPA Ô SUA PUTA? TÁ CHEIA DE CÂNCER NAS IDEIA E QUER VOAR DE AVIÃO PORRA? O CARALHO. VAI VIAJAR NÃO” de um jeito mais delicado.

Depois de um tempo, se tocaram de que Hazel vai morrer de qualquer jeito. Então os pais dela, Augustus e os médicos organizam tudo secretamente para que ela possa ir. “Surpresa Hazel! Você vai!”.

Quase chorei nessa hora. Foda-se, eu tava comovido. Bicha é o seu pai.
 

10

Eu tava mais ou menos assim vendo o filme

 

Augustus faz de tudo para a viagem ser incrível. Aluga limousine, vai para hotel maneiro, leva para jantar em restaurante chique, bebem do melhor champagne e jantam a especialidade do chef. Tudo perfeito demais. Hazel estava apaixonada e também ansiosa pelo grande encontro no dia seguinte.
 

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“Vai rolar uma recompensinha depois, né princesa?”

 

No dia em que eles vão conhecer o escritor, a primeira decepção. O cara é um alcoólatra sem modos e trata os dois pior do que se trata um boi. Toda aquela cortesia aparente até o momento, era na verdade de sua assistente, que é uma delícia. O cara perde a linha: fala que não tá nem aí pra doença deles, que eles sobrevivem à base de pena e que tem mais é que ficar carequinha mesmo. A raiva sobe, Hazel grita com ele, Augustus levanta, a assistente delícia fica tensa, quase rola porrada. Seria um Casos de Família europeu, mas ambos decidem ir embora da casa desolados.

A assistente decide que eles não merecem aquilo e vai por conta própria levá-los para um passeio na cidade, sem o velho ignorante. Eles aceitam (porque, como dito anteriormente, ela é uma delícia) e vão para a casa onde morou Anne Frank (se você não conhece, vai dar uma lida no Google porque não sou professor de ninguém) e Hazel passa um perrengue subindo aquelas escadas e ficando sem ar. Você acha que ela vai morrer ali pois o filme basicamente é isso, mas ela chega até o final e conhece o quarto onde Anne ficou escondida.

Augustus e ela se entreolham. Acontece o primeiro beijo do filme. Um beijo sensacional, apaixonante, envolvente e extremamente romântico…NO QUARTO EM QUE UMA MENININHA JUDIA SE ESCONDEU POR ANOS PARA NÃO MORRER EM UM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO. Eta porra de romantismo hein, Augustus? Ah, sim. Haviam várias pessoas em volta. Assim que acaba o beijo, todas elas aplaudem DENTRO DO QUARTO EM QUE UMA MENININHA JUDIA SE ESCONDEU POR ANOS PARA NÃO MORRER EM UM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO. É a cena mais “que porra é essa, gente” do filme.

 
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“Me dê uns cato aqui onde os nazistas fizeram a limpa, Augustus meu amor”

 

Augustus, depois do passeio, manda a real. Ele diz que a situação dele é pior do que parecia, bem pior, e que ele vai morrer mesmo. O tempo dele já não era muito longo. Ah, sim, por outro lado, no final da noite eles fazem aquilo que as meninas pueris e delicadas entendem por “a primeira vez”. Vou aproveitar esse spoiler aqui e dar um spoiler sobre a vida também: não vai ser assim. Vai ter muita dor, sangue, sofrimento e no dia seguinte você vai achar que está grávida.

Daí pra frente, o filme é uma roleta-russa. Você sabe que tá prestes a rolar uma morte, mas não sabe quando, então é aquilo: ele vai parar no hospital e você “É AGORA MEU PAI” e nada. Ele volta vivão. No meio de uma madrugada o celular de Hazel toca e você “PUTZ AGORA VAI HEIN” e nada. Dentro do seu coração uma voz vai dizer “MORRE LOGO CARALHO EU TO AFLITO AQUI JÁ” e, quando você menos espera, ele morre.
 

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“Ô filha, calma. Logo logo você vai estar com ele lá no céu…”

 

É aquela tristeza foda, né. Eu tava boladaço já, imagina a Hazel. No velório, quem aparece é o escritor ignorante. Hazel e Cegueta fazem o discurso final que Augustus queria que eles fizessem e mano, é lindo. Hazel vai para o carro e o escritor meio que tenta se redimir com ela, porque na verdade, a menina com câncer de seu livro era sua própria filha e ele era amargurado por ter que conviver com isso. Hazel que é a ignorante dessa vez e enxota o velho pra fora do carro. A última coisa que ele faz é entregar uma carta para ela.

Em casa, Hazel e Cegueta estão conversando. Cegueta diz que a carta que o escritor quis dar a ela era o depoimento final de Augustus, que nesse momento do filme permanecia morto. A última cena do filme é a Hazel lendo a carta com as belas palavras dele sobre aquilo que eles viveram em tão pouco tempo.

 

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“Po Hazel eu até leria pra tu mas não tá dando mais não kkkkkk flw”

 

No fim do filme, ao acender das luzes, você precisa obrigatoriamente olhar para todas as pessoas do cinema. É um mar de derrota. Mulher com lencinho, menina com olho todo vermelho, uns caras meio abatidos e um puta climão de enterro. Não vejo tanta tristeza assim desde Marley & Eu.

NOTA: 8,5

Porque a história é bem legal e cumpre bem sua função que é te deixar triste pra caralho. Você se envolve bem com o filme. Mas a porra da galera aplaudindo o beijo foi imbecil demais. Ninguém fica aplaudindo beijo dos outros na rua, sério.