As vezes em que achei que ia morrer

Texto originalmente publicado no dia 14 de fevereiro de 2016

 

Por longos anos da minha infância eu fui um menino de apartamento que não saía de casa pra nada. A minha vida era escola, video game e Cartoon Network. Por causa dessa superproteção, não tive a oportunidade de ser uma daquelas crianças que corriam só de camiseta e cueca no meio da rua. O saldo disso tudo (além de eu não virar um usuário de crack) é que eu me tornei um moleque frouxo.

A propósito, uma observação rápida sobre as crianças de cueca aqui. Já reparou que sempre tem uma dessas no seu bairro? É aquela criança com uma barriguinha protuberante, um umbiguinho estufado e que geralmente tem umas casquinhas de ferida no corpo que é melhor você não encostar. Depois procura bem.

E justamente por eu ser frouxo, quando finalmente tive liberdade para brincar nas ruas do meu Bairro Califórnia, eu não estava preparado. Eu simplesmente não tinha o Know-How. Além disso, o meu campo de diversão limitava-se apenas à minha rua (uma rua sem saída, diga-se de passagem). Ou seja, se todos quisessem brincar com o pessoal da rua do lado, eu não podia participar. Ir, por exemplo, à padaria, que era a dois quarteirões de distância, tratava-se basicamente uma aventura impossível.
 
 


Minha concepção de como era comprar pão

 

Nessa minha situação de não conhecer a vida como ela é, meio que perdi a noção de realidade muitas vezes. Coisas bobas eram o suficiente pra eu ficar neurótico e achar que iria a óbito em menos de 24h. Rapaz, se eu fosse contar todas as vezes em que achei que iria morrer por algo estúpido, daria pra escrever uma série de livros maior que Game of Thrones. E essas aqui foram três muito marcantes pra mim…

 
 

Quando eu tinha, sei lá, uns 7 anos, estava no quarto dos meus pais à noite vendo TV. Ao lado da cama, como toda boa cama, tinha um criado-mudo. E dentro dele um canivete do meu pai. Era um daqueles canivetes suíços bonitões da Victorinox que são vermelhos na medida certa pra chamar atenção de uma criança.

 

Olha só que bonito

 

Eu, explorador que só, esperei o momento certo para abrir a gaveta quando ninguém estivesse vendo para pegar aquele artefato e descobrir como ele funcionava. Comigo não tinha receio, fui abrindo tudo sem pensar nas consequências. Puxei tesourinha, puxei serrinha, puxei a pinça…aí tinha um que estava emperrado. Fiz força. Continuava emperrado. Força força. Agora sim estava quase indo e PLUFT. A função mais cortante do canivete mostrou que não estava ali pra sacanagem. Aquela lâmina abriu mais rápido do que um avião de caça americano. E com a mesma velocidade, o sangue que circulava no meu dedo descobriu que estava livre para viver uma nova vida. Eu tinha me cortado.

O negócio sangrou, e olha, como sangrou. Eu olhei pro meu dedo e estava lá o melado escorrendo. Até então eu não tinha visto algo assim na minha vida. Pelo menos não ao vivo e muito menos comigo. Aquele cortezinho pra mim era um massacre e no mínimo eu iria virar uma peça de açougue. Fui correndo ao banheiro lavar aquela sanguinolência porque na minha cabeça água salvaria. Eu botaria água lá e o sangue não sairia mais. Água é vida.

Só que nada impedia aquele dedo de sangrar.

 


A situação era basicamente essa

 

Qual o meu raciocínio lógico? Na escola aprendi que quando perdemos muito sangue, morremos. Ou seja, eu tava virando um cadáver ali mesmo. Comecei a chorar e a gritar no banheiro “EU TO MORRENDO, MAMÃE. ESTOU PERDENDO MEUS SENTIDOS, Ó MEUS PROGENITORES. YA NO PUEDO MÁS VIVIR, PAPÁ! ADIÓS”. Quando eles chegaram correndo a cena era eu no chão do banheiro sangrando esperando a morte me carregar.

 


eu

 

Não morri. Eu era só burro mesmo. A lição estava aprendida e só encostei naquele canivete depois de 10 anos.

 
 

Esse não foi um caso isolado, mas sim recorrente. Quando eu era criança, um dos presentes que mais ganhava da família era Lego. Na época eu não tinha muita noção e acabei não dando tanto valor quanto deveria, MAS VOCÊS JÁ VIRAM O PREÇO DO LEGO HOJE EM DIA? Com uma dessas caixas temáticas grandes você já pode dar entrada num apartamento duplex em Ipanema. Dei uma breve pesquisada aqui no Mercado Livre e estou inconformado.

 


Qual a necessidade disso, gente

 

Modéstia à parte, sempre mandei bem naquelas construções e vez ou outra me sentia o próprio Le Corbusier (acabei de colocar “melhor arquiteto do mundo” no Google e peguei o primeiro nome. Não vou mentir pra vocês). Minha carreira ia de vento em popa até o dia eu cometi o erro de ler a caixa do Lego.

Situando vocês melhor, sabe quando você pega uma bula de remédio depois de tomar, lê os efeitos colaterais e do nada começa a sentir todos ao mesmo tempo? É basicamente isso. Só que eu acredito que tenha levado a psicologia a um patamar muito maior: eu li que aquele brinquedo não era recomendado para crianças menores de 3 anos pois continha peças que poderiam ser engolidas.

Maluco…PRA QUÊ. Não teve nem desenrolo, NO ATO eu senti uma peça de Lego obstruindo a minha garganta. Isso sequer fazia sentido porque minhas duas mãos estavam segurando a caixa, eu não tinha colocado nada na boca e já tinha muito mais de 3 anos de idade. Não fez diferença: lá estava eu agoniado com a certeza de que meu sufocamento era iminente. Eu ia ficar roxo até morrer e pronto. Comecei a tossir alto como se tivesse sido envenenado com Cianeto, com as mãozinhas segurando meu pescoço e me estrebuchando no chão até meus pais chegarem no quarto.

 


eu de novo

 

O que sei é que mesmo depois de constatarmos que não havia nada na minha glote, eu continuava sentindo ela lá. Inclusive só de ter lembrado disso eu já to sentindo de novo. É hoje.

 
 

A escola primária serve não só pra te dar uma base de conhecimento e te ensinar, mas também pra aterrorizar as suas noites de sono tranquilo. Quero dizer, nas aulas de ciências a gente via coisas que uma criança não pode ver assim sem uma preparação, sabe? Tem coisa perturbadora ali, coisa que mexe com a nossa cabecinha.

Tipo, lembra daquela imagem do Ciclo da Esquistossomose? Meu amigo, eu tinha um pavor daquilo. Até hoje eu não sei como funciona. Se eu prestasse atenção demais eu ia cismar que qualquer coisa que acontecesse comigo seria esquistossomose. Se eu entendi bem, parece que eu não posso ir em um lago e cagar em um caracol, sei lá. Olha a cara desse caipira.

 


quê

 

Numa dessas aulas conheci o Tétano. Esse bad boy foi o meu terror por muitos anos porque eu sabia que o tétano era uma realidade e que ele estava pronto pra me matar a qualquer deslize. Não tinha essa de anti-tetânica não. Pra mim ele era invencível. Tu já viu como o tétano te mata? Você começa a envergar que nem um berimbau e se der mole tu vai envergando até quebrar ao meio. TU ENVERGA ATÉ MORRER. Isso não é doença, isso é praga bíblica.

Aí um dia eu estava brincando na rua com um menino chamado Pedrinho. O Pedrinho era mais velho que eu, o que nas regras das ruas, significava que eu sempre teria uma desvantagem. A brincadeira era show de bola: pegamos duas barras de ferro que achamos no chão da rua e encenamos clássicas cenas de combates de espadas. Tinha tudo pra dar certo.

Eu tava me sentindo o próprio Sephiroth de Nova Iguaçu quando num momento de distração VLÁU a espada (barra de ferro) do Pedrinho cortou minha perna. Foi um corte razoável na panturrilha, sangrou bem mas não era nada que um poderoso Band-Aid não resolvesse. Só que eu lembrei o que causou aquele corte. E lembrei das aulas de ciências.

Puta merda eu tava com tétano. Tinha nem argumento. Aquele bastão de ferro a gente pegou na rua, é o próprio tétano em forma de objeto.

Fui correndo pra casa tomar banho com aquele desespero tomando conta de mim e antes de dormir eu peguei uma camiseta e meio que amarrei meus pulsos no meu tornozelo, de forma que eu ficasse deitado em posição fetal pra não envergar até morrer durante noite. Acordei inteirão e nunca mais me preocupei com tétano.

Quer dizer, eu fui dar uma olhadinha rápida na Wikipedia e…

 


 
 

Meu deus do céu, eu nunca mais saio de casa

Aparecida, a doméstica

Texto originalmente publicado no dia 4 de junho de 2013
 

Era uma terça feira nublada de setembro como todas as terças feiras nubladas de setembro costumam ser. Eu iria voltar para casa mais cedo naquele dia por não ter tido aula na faculdade. Nada de extraordinário. Fiz meu caminho, cheguei em casa, entrei pela garagem como de costume, subi as escadas, peguei meu chaveiro do Yoshi e abri a porta da cozinha. Na sala, uma gritaria por causa de uma mulher que vivia no Forró. Era Casos de Família. A TV estava ligada porque Aparecida, a moça que limpa, mulher batalhadora, gostava de passar as roupas ouvindo a realidade da família brasileira.

 
-Oi, Aparecida! Minha mãe tá aí?
-Ai Jesus, Igu! Nem te vi chegar menino. Ó, ela tá não. Ela ficou fora o dia todo ela.
-Ah, sim. Mas tá tudo bem, Aparecida? Precisa de alguma coisa?
-Nada ô, eu me viro. Tu me conhece né. Ó, arrumei lá seu quarto.
 

Senti um calafrio. Todas as vezes em que Aparecida resolvia arrumar meu quarto, ela mudava as coisas de lugar de forma que nem eu as achava e nem ela podia me ajudar a achar. Não por má vontade, mas por não saber responder coisas do tipo “você viu meu iPod?” tendo em vista que as respostas eram “Ih Ingo, sei que é isso de ‘ai pode’ não. Só aipode tá no seu quarto, tirei nada daí” acompanhadas de um gostoso sorriso com os poucos e tímidos dentes que lhe restavam.

Cheguei no meu quarto e, aparentemente, estava tudo normal. Exceto pela webcam que costumava ficar na gaveta e que, nesse dia específico, estava acoplada ao computador. Até aí nada demais, minha mãe costumava usá-la e não guardar. Coisa de mãe que usa webcam. O que importava é que dessa vez, Aparecida tinha feito seu trabalho sem mudar nada de lugar e eu estava feliz com isso.

O que eu não sabia é que aquele era o último dia de Aparecida lá em casa contribuindo nas tarefas domésticas. No fim do turno ela me explicou que iria voltar para o Maranhão pois o irmão dela estava passando por problemas de saúde e que meus pais já haviam acertado tudo com ela. Eu odiava abraços de despedida.

 
Houve um abraço de despedida.
 

Naquele instante Aparecida disse que eu era um jovem inteligente, carismático e que torcia pelo meu sucesso. Agradeci emocionado, mesmo intrigado com aquele cheiro de Leite de Rosas que iria demorar pra sair de mim. Foi seu último adeus. Hoje em dia as belas palavras de Aparecida ainda ecoam na minha mente e me emocionam. Espero que ela esteja bem no Maranhão.

 

– 3 meses depois –

 

Praticamente recuperado de todo um processo depressivo pelo qual eu estava passando no segundo semestre de 2011, eu tinha decidido a voltar a escrever no blog. O caderno de brainstorms estava lotado, o tempo me sobrava, a saudade e inspiração estavam pegando fogo. Notas e mais notas no iPad mostravam que já estava na hora. Sentei na frente do computador, virei o meu boné como um Ash Ketchum, entrei na página inicial, cliquei em login e… minha senha não estava salva.

Puta merda.

Um mar de sentimentos passou pela minha mente. Uma tempestade de palavras pulsava nos meus neurônios. Achei que toda a esperança de voltar com o blog havia morrido. Lembrei que, por precaução, um backup das minhas senhas estava em alguma pasta do meu computador e comecei a procurá-lo. Depois de alguns minutos achei as senhas. Ao navegar pela pasta Meus Documentos para ver se tinha algum brainstorm interessante, vi que tinha uma pasta da qual nunca tinha tomado conhecimento chamada Webcam Archives. Dentro, uma outra pasta chamada Photos e dentro, um arquivo chamado September-27-2011.jpg.

Abri o arquivo e tudo passou a fazer sentido…

 

oi

 

…A FILHA DA PUTA DA APARECIDA FICAVA USANDO A PORRA DO MEU COMPUTADOR SEM EU SABER QUANDO NÃO TINHA NINGUÉM EM CASA, AQUELA HACKER DO SERTÃO. PODE UMA PORRA DESSAS? SABE-SE DEUS AS COISAS QUE ESSA MULHER VIU.

 
E eu achando que essas histórias de domésticas eram mentiras.

 


 

Olha, os comentários no post anterior com as histórias de vocês estavam SENSACIONAIS. Então já que estamos nessa coisa só nossa, nesse momento tão meu e seu, conta também Aquela História™ de quando alguma moça do lar resolveu, sei lá, deitar na sua cama quando você não estava.

Como Beijar na Boca

Texto originalmente publicado dia 22 de Julho de 2014
 

Um momento muito difícil na vida de todos nós é a puberdade. Ela pega a gente de surpresa e só percebemos as consequências reais depois de entrar na fase adulta. Veja só como ela é traiçoeira: você passa os primeiros anos de sua existência sendo uma criança pura e feliz. Sua única preocupação é curtir o momento, ganhar brinquedos e se divertir. Claro que existem as exceções, tipo aquela porra daquela Mafalda que não sabe passar uma tirinha sem ser um porre.

 

01Puta que pariu.

 

Ô garota insuportável do caralho, fico até com raiva.

De qualquer forma, Mafaldas à parte, as crianças são seres adoráveis. Conforme você chega mais perto da puberdade, já começam a aparecer os primeiros sinais de que vai dar merda logo logo: toda aquela fofura vai sendo substituída por um negócio que não sei explicar exatamente, mas costumo chamar de SÍNDROME DA CRIANÇA ESPERTINHA. É aquele período em que parece que a criatura saiu de um filme da Sessão da Tarde onde cachorros e crianças sabem de tudo enquanto os adultos são todos burros.

 

02“Tenho um plano para isso!”

 

Daí as coisas tendem a desandar cada vez mais. Você começa a dizer que não é mais criança, você agora é PRÉ-ADOLESCENTE (mas ainda quer ganhar presentes dia 12 de outubro) e o mundo, segundo sua cabeça, precisa te entender. Sobre a adolescência eu nem preciso falar nada. É só você olhar suas fotos da época que você já pensa “eta porra, que fase hein”. SPOILER: se você não acha o seu passado babaca, é porque você ainda é babaca.

E não basta ser babaca. Não. Ser babaca é pouco. Você tem que virar uma abominação humana nesse período. Começam a nascer pelos em lugares que você não dava muita atenção, começam a brotar espinhas, o cabelo fica oleoso e os hormônios te deixam com uns peitinhos disformes. Falando em hormônios, essa é a época em que você precisa…

 
03
 

Tempos complicados. Perder o BV, ou Boca-Virgem, era o ato de dar o seu primeiro beijinho em uma boca alheia que não fosse da sua mãe ou, em famílias mais perturbadas, do seu pai. Eu, que nunca fui um James Dean mirim, ficava meio apavorado com esse lance porque sabia da minha predisposição a fazer merda. Eu não queria nem que fosse sensacional, só não queria que terminasse em tragédia.

Por conta disso, comecei a pesquisar na internet qual era o procedimento adequado. Vamos destacar aqui que a internet daquela época era complicadíssima. Além de cara e discada, com uma velocidade de 56 kbps (com muita boa vontade), ela parecia ter no máximo uns 50 sites. Não tinha isso de Google em três milésimos de segundo te mostrando 7 bilhões de resultados.

Pra você ter uma noção, o único site que achei falando a respeito era um chamado “Sapecagem Jovem”, que, pensando bem agora, com certeza não era escrito por um jovem. Nesse site as dicas, que nunca vou me esquecer, eram:

 

  • Não fique nervoso com doenças;
  • Apenas acompanhe. O mais experiente irá conduzir;
  • Treine com sua mão ou com uma laranja.

 

E olha, que dicas MERDAS. A primeira eu não vou nem me dar o trabalho de explicar a neurose que causou. É como você falar pra uma visita “pode usar meu banheiro sim. É a segunda porta à direita, mas não se preocupa com o crocodilo que tem dentro do vaso não hein”. A segunda, que é a mais próxima de algum suporte, também não ajudava em porra nenhuma. Eu não sou uma batata frita ou um arrozinho pra ficar acompanhando, além disso, não tinha ninguém experiente na situação, poderia ser um caos.

 

04Tipo isso…

 

Aí vem a terceira. Eu ainda tenho dúvidas se a pessoa que escreveu isso era um sádico muito dedicado ao ponto de fazer um site sobre isso ou apenas um velho caduco e pedófilo esperando crianças mandarem mensagem para ele ajudar. Onde caralhos ficar beijando uma laranja resolve a tua vida? Isso sequer faz sentido. Sabe o pior? Eu treinei com uma laranja. Fiquei uns dias beijando ela e minha mão na esperança de me tornar um profissional. Foi inútil? Foi. Mas pelo menos foi uma belíssima história de amor que vivi ali.

O grande dia tinha chegado e eu daria meu primeiro beijo. Aconteceu, foi extremamente normal e ouso afirmar que na hora pensei em virar galã de novela porque parece que eu tinha nascido pra isso. Chora Fabio Junior.

A questão é: na época as informações corretas eram limitadas e hoje, aparentemente, também. O máximo que achei foram blogs de meninas explicando como funciona, naquele estilo Revista Toda Teen, bem mágico. Por conta disso, o Improbabilidade Infinita, que é um blog que te ama, veio trazer o GUIA DEFINITIVO DO BEIJO NA BOCA (com imagem de introdução)

 
 
05
 

Vamos lá, chegou a hora de você dar aqueles amassos™ mas não está preparado ou não sabe como proceder? Pois então largue esta porra de laranja, pare de beijar sua mão e acompanhe esses 5 passos básicos:

 
– SEJA HIGIÊNICO

É o mínimo. Na adolescência, como eu disse, você é uma pessoa esquisita, oleosa e caspenta. Então além de tomar banho e usar um perfuminho, escove essa caralha desses dentes. Dá uma geral mesmo, tipo o lava-rápido de 3 andares Hot Wheels, pelo menos na semana em que você acha que vai rolar. Lembre-se que o seu primeiro beijo envolve uma segunda pessoa e ela não merece sentir o gosto do seu Nescau da manhã enquanto te dá uns pegas.

Se você usa aparelho móvel então, faça em dobro. Se puder, faça bochecho com água sanitária duas vezes ao dia (mentira, criança retardada que chegará nesse blog pelo Google. Não bote água sanitária na boca ou você vai morrer sem nunca ter beijado alguém). Todo mundo sabe que a função primária do aparelho móvel não é corrigir os seus dentes, mas deixar sua boca com cheiro de cadáver. Eu me lembro de um amigo na escola que perdeu o BV e não tomava cuidado com seu aparelho móvel. O resultado foi a menina espalhando a experiência de beijar um esgoto e ele ficando conhecido como Renato Boquinha-de-Vala.

 
– FINJA QUE SABE

A menininha ou menininho que você vai beijar provavelmente está tão inseguro quanto você. É normal? É. É legal? Nem tanto. Por isso finja que você tá totalmente por dentro daquilo e que beijar na boca pra você é tão trivial que você já pode escrever uma tese a respeito. Faça aquela cara de “eu sei pra caralho o que eu to fazendo aqui”.

 

06“Beijo na boca? Normal”

 

Se a pessoa também estiver fazendo cara de quem sabe mais que você, não se desespere. Faça cara de quem sabe mais ainda. É uma competição e você vai ganhar. O importante é passar segurança e, na hora do beijo, apenas fazer o que você viu ao longo da vida: beijar e pronto. Tem mistério nessa porra não.

 
– PENSE NEGATIVO

Isso talvez seja uma dica pra vida. Quanto menor a expectativa, mais proveitoso o momento. Sei lá, vá com a consciência de que você pode vomitar durante o beijo, algum dos dois desmaiar, arrancar um pedaço da boca alheia com os dentes e, acredite em mim, fazer cocô nas calças de tanto nervoso. Na hora possivelmente não vai acontecer nada disso e as coisas ocorrerão melhor do que você esperava.

Lembre-se sempre da dica 2: finja que tudo aquilo ali é normal pra você. Mesmo que você se cague todo, faça cara de quem estava esperando exatamente isso.

 

06“Cagar na calça? Normal”

 

 
– CONTROLE A LINGUINHA

Se você vai beijar de língua, entenda que é necessário pegar leve. Já fiquei com uma garota cuja língua achava que era a Dora Aventureira e desbravou cada canto da minha cavidade oral. Eu me senti estuprado. Se eu colocasse uma jiboia adulta dentro da minha boca, seria menos desconfortável que aquilo. Eu tive sorte de ela ter respeitado meus sentimentos e não ter enfiado a língua dentro do meu esôfago, ter feito uma endoscopia ali mesmo.

 

07“Foi bom pra você?”

 

É bem bizarro dizer isso, mas explicando melhor, a sua língua vai apenas ficar “acariciando” a outra e não simulando uma final de UFC bucal.

 
– BAIXE A BOLA

Aêêê, você oficialmente ~perdeu o BV~ de uma vez por todas. E agora? Contar pra todo mundo?! Não, imbecil. Fique na sua. Você está em fase escolar, TODO O PLANETA vai saber sem você precisar abrir a boca. Então faça aquela mesma cara de quem está mais que acostumado e ainda saia com a impressão de que você tem maturidade e não precisa ficar se vangloriando por aí.

Ah, apenas lembrando que você não tem maturidade e precisa sim ficar se vangloriando por aí, mas esse blog tem o intuito de te tornar COOL. E só para não dizer que não avisei: você irá manter a velha expressão de segurança, mas estará feliz demais para se conter nos primeiros dias e sua cara ficará assim:

 
08
 

O importante é curtir. Você está pronto.

 


 

Como eu já disse várias vezes, a parte dos comentários aqui sempre foi um espetáculo à parte com as pessoas contando suas histórias. Conta aí como foi a catástrofe do seu primeiro beijo pra gente rir de você.

Pedras nos Rins

Texto originalmente publicado dia 28 de maio de 2014
 

Eu tenho uma seríssima dificuldade na vida que é a de desvendar sinais que meu corpo está me dando a respeito de alguma coisa. Não sei exemplificar isso de forma que eu não pareça um retardado mental, mas vamos lá: eu não bebo e, por conta disso, nunca tinha ficado de ressaca até o dia em que tomei uns 10 shots de Jägermeister (uma espécie de Biotônico Fontoura sabor alce, pelo que o rótulo sugere). Quando acordei no dia seguinte com aquela sensação de que eu havia sido atropelado por um rinoceronte, a primeira coisa que pensei foi “caralho, que sensação estranha. Acho que meu siso está nascendo. Vou passar um fio dental”.
 
Ok, entendemos como as coisas funcionam. Vamos seguir adiante.
 
Era uma quarta-feira qualquer de 2012. Acordei, fui tomar o meu café da manhã e já senti que tinha alguma coisa errada acontecendo. Era uma mistura de dor nas costas com dor na barriga. Eu realmente estava confuso e pensei “caralho, agora sim é a porra do siso nascendo”. Não era. Continuei os meus afazeres matinais normalmente, imaginando que aquele incômodo passaria, e fui assistir a alguns desenhos animados porque acredito que essa é a melhor maneira de lidar com os meus problemas.

A dorzinha achou que não estava recebendo a devida atenção e resolveu se manifestar de forma mais efetiva. Puta que pariu, agora sim. Era como se estivessem enfiando e girando na minha barriga aqueles talheres sorridentes dos anos 90 de cinco em cinco minutos.

 

talherImagina esse reizinho te perfurando

 

Foi a hora em que decidi que o que estava dentro de mim (aparentemente Satanás) precisava sair e fui vomitar para dar aquela limpada na alma. O que eu tinha esquecido era o quão doloroso o ato de vomitar era por si só. Na hora de comer aquelas amigáveis e macias bisnaguinhas Panco elas desciam tão facilmente, chega a ser incrível como na hora de subir parecia que vinham elas junto com a porra do próprio Panquinho num skate fazendo manobras nas minhas entranhas.

 

panco_skate“SOFRE AÍ, ARROMBADÃO”

 

Olhos lacrimejando, aquelas cuspidinhas pós-êmese e a sensação de missão cumprida. Dei aquela escovada nos dentes e tava pronto para seguir minha vida. Aí a dor voltou. Com tudo.

Ok, eu definitivamente estava morrendo. Nessa hora foi tão forte que caí no chão, comecei a chorar que nem uma garotinha e gritei a minha mãe. Tentei não desesperá-la e explicar a situação com calma de forma que ela me ajudasse:

 
– MÃE EU TO MORRENDO MÃE PELO AMOR DE DEUS NÃO ME DEIXA MORRER
– O que foi, Ygor?
– Ó LÁSTIMA O DERRADEIRO FIM DA VIDA ESTOU A PARTIR DESTE PLANO
– Por que você tá caído no ch…
– TAL QUAL GETÚLIO VARGAS SAIO DA VIDA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA
– Tá, eu vou ligar pro seu pai pra ele fazer algo
– QUEM TE VÊ PASSAR ASSIM POR MIM NÃO SABE O QUE É SOFRER TER Q…
 

Meu pai veio correndo me levar para um hospital. Enquanto eu o esperava, a minha mãe, que nunca teve um diploma de medicina, achou que poderia resolver a situação por conta própria e, como uma curandeira indígena, ficou esfregando um Vick Vaporub (que só descobri agora no Google que não é VAPORUBA e sempre falei errado) com Gelol nas minhas costas. Ele chegou, fomos pro hospital.

Depois de uma pontada dentro de mim a cada curva que o carro fazia no caminho, cheguei lá com cara de óbito e besuntado de Gelol com Vick. A situação era bem triste. O médico me levou para um daqueles leitos, sentou-lhe morfina nas minhas veias e eu tava revigorado. Morfina provavelmente é o nome de algum anjo da Bíblia pois aquilo ali foi a sensação de alívio mais gostosa da minha vida. Daí parti para uns exames rápidos, mijei em um copinho e fiquei aguardando o resultado com um sorriso no rosto porque depois da morfina nada me parava.

 

img_0679Eu drogado vivendo o sonho

 

FALA YGOTE! CHEGARO OS RESULTADOS LEKÃO” foi o que ouvi a enfermeira dizer pois possivelmente eu estava mais drogado do que deveria. Ela prosseguiu: “blá blá blá leucócitos blá blá blá bastonetes blá blá você está com sangue na urina”.

 
VOCÊ. ESTÁ. COM SANGUE. NA URINA.
 

Acabou sorriso, acabou morfina, acabou solzinho dos Teletubbies iluminando a minha vida. Essa frase é muito ruim de se ouvir e na hora eu já me visualizei mijando rios de sangue, menstruando pelo pau e o desespero voltou:

 
– É CÂNCER NÉ DOUTORA EU TO COM CÂNCER
– Eu sou só a enfermeira, mas não, você tá com…
– COM OS DIAS CONTADOS NÉ MULHER PARE DE JOGUINHOS PARE DE RODEIOS DIGA-ME
– É um caso simples de cálculo renal. Você deixa…
– DEIXO A VIDA PARA ENTRAR PARA A HISTÓRIA TAL QUAL GETÚLIO VARG…cálculo renal?
– É. Pedra nos rins. Basta você beber muita água e tomar esses remédios que elas saem naturalmente.
– Ah ok.
 

Voltei pra casa e os dias seguintes foram aquela agonia, né. A qualquer momento uma pedra iria passear pela minha uretra como se estivesse dando uma voltinha em um shopping. Eu sabia que na real a pedrinha era só isso

 
pedras
 

Mas como eu nunca tinha passado por essa situação antes, pra mim era isso

 
pedras-2
 

Eu já ia mijar achando que a qualquer momento sairia um Onix da minha piroca e eu desmaiaria durante o ato. Acabou que um dia aconteceu. Foi extremamente tranquilo o processo, não senti dor nenhuma. Foi tão tranquilo que acho que a pedrinha era uma ametista, tão zen que foi. Olhei pra ela, ela olhou pra mim e sabíamos que aquilo era um adeus. Filha da puta.

Hoje bebo água pra caralho pra não ter que viver esse pesadelo de novo e não ter sonhos recorrentes do Onix dizendo “AGUARDE” para mim.

 

onix
AGUARDE

 

 

socorro

Alistamento Militar

Texto originalmente publicado dia 22 de Junho de 2014

 
Assim que fiz 18 anos, além de ter que ouvir daquele tiozão engraçadota coisas como “JÁ PODE SER PRESO HEIN RSRS” ou “JÁ PODE IR PRO PUTEIRO HEIN RSRS VOU TE LEVAR PRO PUTEIRO EIN RSRS”, eu tive que me alistar no exército. O alistamento é uma forma de mostrar que a vida adulta já começou e que ela vai ser uma merda. Entendo que a carreira militar possa soar incrivelmente maneira para alguns e eu mesmo cheguei a considerar a hipótese de servir. Até me tocar de um negócio…
 
…minha vida não seria isso.
 
Soldado
 
Nem isso.
 
Soldado 2
 

Por mais que eu quisesse viver uma vida G.I. Joe, ser um bravo guerreiro, salvar a pátria durante a guerra e resgatar o soldado Ryan, a minha vida seria isso:

 

soldado-3Pátria amaaada Brasiiiiiil
 

Comecei a ver o que era preciso para essa nobre tarefa que é servir o país: eu tinha que estar em uma junta de serviço militar da minha cidade com alguns documentos às SETE DA MANHÃ pontualmente. Servir o país já estava começando a ser menos nobre do que parecia.

Cheguei lá no dia marcado às SETE DA MANHÃ (sempre lembrando em Caps Lock esse horário miserável para o ser humano) e fiquei numa fila até as 9h. Aparentemente para você ser um bom soldado de guerra você precisa estar preparado para qualquer eventual espera de duas horas. Era como se eu estivesse em uma fila para um show incrivelmente feliz da Demi Lovato, porém sem a Demi Lovato e nem felicidade.

Entrei. Mais espera. Comecei a perceber um padrão: os caras que organizavam as coisas lá falavam bem alto, lentamente e de forma agressiva. Estávamos lá só para entregar uma porra de um documento mas parecia que dali a gente iria direto para a Alemanha nazista. Era uma coisa do tipo:

 
– VOCÊS DEVEM ESTAR COM A IDENTIDADE EM MÃOS. COMPREENDIDO, JOVEM?
– Err, sim. Ela tá aqui em mãos.
– A IDENTIDADE ELA NÃO PODE ESTAR EM OUTRO LUGAR, DE FORMA QUE FACILITE O PROCESSO
– Ok
– CONSEQUÊNCIAS GRAVES ACONTECERÃO CASO A IDENTIDADE NÃO ESTEJA EM MÃOS
– Eu já enten…
– SIE MÜSSEN AUF ALLES VORBEREITET SEIN!!!!!!!
 
 

doguinhoquê?

 

Fui encaminhado a uma segunda salinha (com a identidade em mãos, claro) e lá começou um segundo cara com a delicadeza de um rinoceronte a fazer perguntas. Se fosse uma sala escura com apenas uma luz em cima de mim e dois mafiosos ao meu lado observando um terceiro me interrogar, eu me sentiria mais à vontade.

 
– YGOR FREITAS, CERTO?
– Certo
– RESPONDA APENAS SIM OU NÃO.
– Sim
– 18 ANOS, CERTO?
– Sim
– VOCÊ QUER SERVIR?
– …não
– EU NÃO OUVI DIREITO
– Estaaaamos capitão  :D
– …
– Não.
– OK, SIGA ALI EM FRENTE E DAQUI A 30 DIAS APRESENTE-SE NO QUARTEL.
 

A primeira parte tinha acabado. Perdi 4 horas daquele dia só pra responder três perguntas. E só depois eu fui descobrir que aqueles caras sequer eram militares, eram só um bando de funcionários públicos se achando a porra do Capitão Nascimento. Paciência.

Passados os 30 dias, fui para o quartel às 5 da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. Chegando lá, claro, mais fila. A diferença é que dessa vez tinham soldados de verdade e muita, MUITA gente estranha na mesma condição de espera que eu. Junta aí todos os figurantes de Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Cidade dos Homens. Era o calibre da galera que estava lá querendo servir o país. E não eram poucos. Pelo menos eles estavam lá correndo atrás de seus sonhos.

 

soldado-4Pátria amaaada Brasiiiil

 

Depois de umas 3 horas sem fazer nada além de aguardar (e, mais uma vez, sem a Demi Lovato no fim) cheguei na etapa do exame médico que consistia em: checar peso e altura, checar sua visão e checar se você tem alguma deficiência ou problema que te impeça de servir. Enquanto eu esperava minha vez, presenciei o exame de vista de um menino que, para fins ilustrativos, chamaremos de Cléber. Havia um painel na parede e Cléber tinha que dizer quais letras estavam nele. Cléber não sabia ler. O resultado foi a letra W ser chamada de “ipson”. Cléber era um batalhador.

Na minha vez, passei no exame de vista e tive que ficar sem camisa para um soldado médico que me perguntou se eu tinha alguma coisa que me impedisse de servir. Tudo o que sei é que comecei com daltonismo e daí falei tudo que era defeito que um ser humano podia ter. Sem sacanagem, falei até esquistossomose. Nunca caguei em um rio ou comi caramujo (perceba que não lembro bem como se contrai a doença), mas falei que tinha esquistossomose porque eu queria que ele me considerasse estragado demais para aquele quartel.
 
Deu errado. Passei para a próxima etapa, que era fazer uma provinha de múltipla escolha.
 
Sim, no exército você faz uma espécie de ENEM. Umas perguntas eram bem imbecis e outras eram sobre motor de jipe de guerra, um tema amplamente abordado pelo que costumam chamar de “ninguém”. Cléber a essa altura já tinha perdido as esperanças porque nesse meio tempo ele não teve a oportunidade de aprender a ler. A parte legal é que Cléber passou, a parte não legal é que eu passei. Eu iria servir. Teria que voltar naquele quartel alguns dias depois e ver para qual força armada eu havia sido convocado. Fiquei triste.

Voltei lá após alguns dias e, depois de muita fila e pouca Demi Lovato, descobri que havia sido convocado para a Aeronáutica. O tenente do exército me disse isso com as seguintes palavras: “aeronáutica? Quer dizer que temos um peixinho aqui. Boa sorte, rapaz”. Fiquei pensando na possibilidade de informar àquele senhor que a frase dele não fazia sentido tendo em vista que eu não possuía nadadeiras ou respiração branquial. Resolvi ficar quieto.

Resultado: descobri que “peixinho” é um cara com contatos dentro das forças armadas e que geralmente consegue alguma regalia, como a facilidade de servir na aeronáutica ou marinha, que são mais “elitizados”, pelo que entendi. E esse contato da aeronáutica é um amigo da família de patente altíssima (sei lá qual é o nome. Brigadeiro, major, não faço ideia) que me liberou. Hoje fico aliviado de saber que foi por muito pouco que não fiquei um período da minha vida dentro de um quartel.

 
 
Por outro lado, queria saber que fim levou o Cléber…