Indo para Orlando

Texto originalmente publicado no dia 01 de dezembro de 2014
 

Eu fico desgostoso da vida quando tenho que sair do conforto do meu quarto para fazer alguma coisa que não seja dentro de casa. O mundo lá fora é cruel, cheio de sol e com a música “Happy” tocando em cada esquina. Mesmo assim eu e Mariana, a namorada, resolvemos ir pra Disney curtir o Halloween de lá. Fiquei mais animado que menina de 15 anos que cria álbum com título ~WHERE DREAMS COME TRUE~. Daí começou a aventura…

Viajamos com a Copa Airlines. Isso mesmo, Copa Airlines. Talvez esse nome não lhe soe muito familiar e você ache que não conhece a companhia, né? Pois é. Você realmente não conhece. Eu não conhecia, Mariana não conhecia e nenhum ser humano conhece. Tenho certeza que nem os comissários de bordo sabiam o que estava rolando ali exatamente. O avião dos caras era compacto como um jatinho particular, porém com 200 passageiros dentro. Eu não to zoando, aquilo era um Mercadão de Madureira voador.

Quando a aeronave começou a acelerar na pista para decolar, parecia que eu tava naqueles passeios de bugre do Maranhão. Vá balançar assim na casa do caralho. Inclusive, quando ela estava voando, já sem contato nenhum com a terra, continuava a balançar. O avião era uma Kombi 74 com duas asas coladas.

 

Misericórdia

 

Durante aquelas instruções iniciais de voo eu fiz o que qualquer passageiro costuma fazer: caguei pro que eles estavam falando. Se desse qualquer merda com aquele avião, não ia ter instrução de segurança que salvasse a minha vida. Como era uma viagem longa, eu tinha que me distrair. Descobri que um dos serviços disponíveis no voo era o acesso a jogos de última geração e, GAMER QUE SOU, fui logo ver do que se tratava.

 

Aparentemente a aeronave decidiu ficar em 2004

 

Flashback. Algumas horas antes, no aeroporto, tivemos a brilhante ideia de comprar muito -MUITO- chocolate e mandar pra dentro, mesmo sem fome. Aquilo era barato. Nem fodendo que eu ia perder a oportunidade de comer, sei lá, 3 toneladas de Kinder Bueno por 15 dólares. Segura essa informação aí pois ela será importante lá na frente. Fim do Flashback.

Na hora da janta do avião, o comissário veio com uns papos de “jugo de naranja”, “manzana”, “cueca cuela sien gas”, “garrafita” e aí veio mais uma surpresa…

 

 

…a porra da companhia aérea era PANAMENHA. Pra mim panamenha era como a gente chamava mulher que engravidou, sei lá, era nome dessas comidas que avó faz. Os caras falavam em espanhol, que bosta. Era tudo o que eu queria: 12 horas de voo com uma galera falando igual ao Ligeirinho.

Eu assumo sem problemas que não sei porra nenhuma de espanhol. Ainda mais com eles falando na velocidade da luz como falam. A Mariana, por sua vez, não assume. Ela não entende espanhol também mas acha que entende. Aí já viu a fodelança que foi né:

 
– Hola. ¿Qué te gustaría cenar?
– Si si! Arriba! Una jantita gracias!
– …
– Ay caramba!
– ¿Quieres pescado o pollo, señorita?
– No no, chiquititas. Quien me va curar mi corazón partio!
– …

 

Aí por causa dessa garota, a minha comida viria no modo ALEATÓRIO. Era só falar em inglês com o cara, só isso. Nem é pedir muito. Agora eu certamente ia comer alguma porra sabor MÁ VONTADE DO PANAMÁ. E lá veio meu prato:

 

 

Até me surpreendi. Veio bonitinho e, como as pessoas ao redor estavam todas comendo peixe ou frango, o “no no no” da Mariana não seria um problema no final das contas. Aí eu abri.

 

Isso não é comida, é castigo

 

Vou nem falar o tanto de puto que eu fiquei com todo mundo comendo algo gostoso e eu provavelmente comendo uma massa temperada com suor de um cozinheiro chamado Pepe. Paciência. Depois da janta mandei pra dentro mais daqueles chocolates que a gente tinha comprado, acompanhados com a água ~sin hielo~ que eles me deram. Hora de dormir.

 

Esses assentinhos de bunda para colocar no pescoço são nota 10.

 

No meio da madrugada todo aquele chocolate que eu ingeri resolveu se manifestar. Puta que pariu, bateu aquele cagote. Era como se as minhas entranhas fossem uma arena de Jogos Vorazes tamanha a tragédia que tava rolando ali. Eu ia me arriscar a cagar naquele banheiro e derrubar o avião? Não ia. Fechei os olhos e esperei meu organismo baixar a bola. Até agora não sei se dormi ou se desmaiei.

 

Eu por dentro

 

Quando eu acordei, estava em Orlando. Eta maravilha. Fui para uma daquelas filas obrigatórias em que você precisa falar com os FEDERAIS o que diabos você quer fazer no país deles. A família que estava na minha frente (brasileira, diga-se de passagem) tinha uma velha com uma câmera digital na mão. A porra da velha resolveu tirar uma foto do neto na fila. Pergunta pra velha se ela sabia o que aquelas 30 PLACAS COM UM “PROIBIDO CÂMERAS NO RECINTO” significavam. A velha não sabia. Nisso o cara da cabine que nos ~entrevistaria~ levantou putaço das ideias quase com o dedo na cara dela.

– Senhora, isso é uma câmera? Você não tá vendo que é proibido? Desligue isso IMEDIATAMENTE. Eu não estou brincando. Se você não quiser problemas, desligue isso IMEDIATAMENTE. O que você está esperando? Não fui claro o suficiente ou você é mais uma dessas engraçadinhas?

Mermão, foda. Ela conseguiu deixar o cara puto minutos antes de ele falar comigo. Pior: ela não entendeu uma palavra do que ele disse. A reação dela foi essa:

 

“Que espirituoso esse polícia, né?”

 

Nisso a família é liberada e o senhor ainda puto grita um “PRÓXIMO” sem paciência nenhuma. Era agora que eu seria deportado. Segue o diálogo livremente traduzido para Pt-Br:

 
– O que veio fazer nos Estados Unidos?
– Eu vim pra Disney, meu senhor :DD Vim curtir uma DISNEYZITCHA NÉ
– Ficará quanto tempo?
– Ahhh, eu deixo a vida me levar né seu guarda. Acho que vim pra ficaaaar kkkkk
– …
– 9 dias
– Por que você forjou o número de seu voo?
– akshadhahkdsjh oi?
– Por que você forjou o número de seu voo?
– kshfakhfas nao entendi
– Você colocou o número do seu voo errado. O que você faz da vida?

 

 
EU COLOQUEI A CARALHA DO NÚMERO ERRADO SEM QUERER. EU JÁ TENHO UMA CARA DE ÁRABE QUE NÃO AJUDA AÍ NÃO SATISFEITO EU VOU E BOTO A PORRA DO NÚMERO ERRADO. Já tava esperando a SWAT entrar ali quebrando as janelas e me levar direto pra Guantánamo. Suei frio, quase chorei.

 
– Eu…eu escrevo
– E tá levando quanto de dinheiro pro país?
– Só o do ônibus só seu guarda peloamordedeus to aqui na humilde mesmo
– Drogas? Remédios? Algo ilícito?
– Não senhor.
*ploft*

 

Ele carimbou meu passaporte (ploft no caso é o barulho do carimbo) e falou um TEJE LIBERADO que me deixou aliviado. Fui contar para a Mariana e ela me manda um “ah, na minha cabine o cara foi supersimpático”, nem perguntou muita coisa. Fiquei meio chateado. Ser gostosa te dá dessas vantagens que eu infelizmente não tenho.

No aeroporto a gente já dá de cara com várias lojinhas bacanas. Universal, Sea World, Disney e outras mais, para te ambientar do que você está prestes a viver.

 

Por exemplo essas coisitchas de Harry Potter

 

Fomos procurar a locadora de nosso carro e no caminho tinham vários conversíveis irados, umas Mercedes, uns Mustangs com plaquinha “que tal me alugar para essa viagem?! Peça um upgrade no seu veículo!”. Obviamente eu queria um upgrade no nosso veículo porque tenho o discernimento de uma criança, mas a estraga-prazeres da Mariana falou que não tinha necessidade. Bruxa. Acabamos com um Corolla bonito, mas não era o Mustangão irado que eu queria.

 
Acontece. O importante é que no final das contas, os dias seguintes foram a melhor coisa que já me aconteceu no ano de 2014 e espero que se repita várias vezes.

Medo e delírio na autoescola

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

Post originalmente publicado em 5 de janeiro de 2016.
 

Quando eu era moleque na década de 90/início de 2000, existiam basicamente três tipos de crianças: as radicais (e geralmente protagonistas de inúmeras aventuras em que no final acabavam se tornando agentes secretos) andavam de skate ou patins; as normais (mas que acidentalmente encontravam mapas de antigos tesouros escondidos por piratas) andavam de bicicleta; e aquelas cuja maior aventura era ir pra escola e voltar pra casa sem levar um cuecão das crianças mais altas andavam de patinete.

Adivinha em qual dos três grupos eu me enquadrava.

 

Dica: eu nunca fui um Goonie.

 

O que eu posso dizer? Eu gostava do meu patinete. Era fácil, seguro, e fazia exatamente o que eu queria que ele fizesse, sem surpresas. Se eu queria ir pra esquerda, era só virar pra esquerda. Se eu queria ir pra direita, virava pra direita. Se eu quisesse parar, era só colocar um pezinho pra fora da base direto no chão. Se eu quisesse ir o mais rápido que eu pudesse… bem, aí era melhor descer, dobrar ele, colocar debaixo do braço e ir correndo mesmo.

Eventualmente eu ganhei a minha primeira bicicleta de Natal do meu avô. Quando ele tirou a mão dos meus olhos e eu vi aquele maquinário monstruoso na minha frente pela primeira vez, eu CHOREI. Afinal, eu queria um Super Nintendo e ele me aparece com uma Caloi com o dobro do meu tamanho????? Deixei aquilo pegando poeira num quartinho nos fundos da casa e continuei sendo feliz com meu patinete por mais alguns anos.

Fui crescendo, e logo comecei a sentir pela primeira vez o peso da pressão social quando todas as crianças da vila começaram a aparecer com seus patins radicais e seus skates tunados. Até as crianças mais novas que eu já estavam fazendo drifts irados e apostando rachas acirrados em suas bikes numa versão infanto-juvenil de Velozes e Furiosos, enquanto a manobra mais radical que eu conseguia fazer no meu patinete era pegar bastante impulso e me agachar em cima do patinete em movimento (o que me fazia percorrer uma distância de aproximadamente 1,5m). Logo eu comecei a ouvir os primeiros “iihhh, alá o otário do patinete” das crianças descoladas que usavam boné virado pra trás, camisa xadrez amarrada na cintura e mascavam chiclete, e percebi que a hora de vencer meu medo havia finalmente chegado.

Não tive muitas dificuldades pra aprender a andar… Meu problema mesmo era frear. As minhas perninhas se atrapalhavam toda com aquela velocidade (que nem era tanta assim), eu não conseguia me estabilizar, e o resultado era sempre BLAM!, eu e o asfalto da rua juntinhos.

Foi então desenvolvi a seguinte técnica: quando queria desmontar da minha bike, eu ia até uma área com grama da vila, tipo o campinho de futebol, tirava os pés dos pedais e… Me deixava cair. Isso mesmo. Toda vez que eu queria descer da bicicleta, eu simplesmente me jogava de cima dela e quicava feito a perereca que Wesley Safadão viria a cantar sobre anos depois.

 

Imagem ilustrativa

 

Fiz isso por muito mais tempo do que poderia ser considerado normal para uma criança mentalmente saudável, o que eu claramente não era. Na verdade, eu fiz tantas vezes que logo as peças da bicicleta começaram a se soltar, até que chegou uma hora que ela ficou completamente inutilizada de tantas quedas que tomamos juntos. E agora, anos depois, essa mesma pessoa, esse mesmo indivíduo que só era capaz de parar um veículo simples da maneira mais kamikaze possível, decidiu que estava na hora de tirar uma carteira de motorista. Só o fato de eu ter conseguido sequer passar no exame psicotécnico já demonstra a fragilidade do sistema brasileiro de formação de condutores.

Eu tenho um pouco disso que o Google está me dizendo aqui na outra aba que se chama tacofobia, ou seja, medo de altas velocidades. Isso, e o fato de que, bom, eu sou um péssimo pedestre. Eu esbarro em velhinhas, tropeço em cachorros, atropelo carros parados. Não são raras as vezes em que alguém vem na minha direção, tenta desviar por um lado, eu vou pelo mesmo, ela tenta pelo outro, eu vou também e nós ficamos nessa dança no meio da calçada até o sol se pôr. Imagina um indivíduo com essas características controlando uma máquina assassina de 1 tonelada.

Isso tudo (e, claro, o fato de aulas de direção serem caras pra porra) fez com que eu desenvolvesse receio de dirigir e fosse adiando a decisão de tirar a carteira. Nos meus 22 anos, quando todos meus amigos e pessoas da minha idade – e até mais novas – começaram a aparecer com seus carros, suas chaves penduradas no cós da calça e suas frases de “hoje não vou beber, tô dirigindo”, eu percebi que a hora de vencer meu medo havia novamente chegado.

Corri pra autoescola mais próxima, me matriculei, fiz as aulas teóricas, o simulado, a prova teórica, e logo estava apto para começar as famigeradas aulas práticas.

No meu primeiro dia de aula prática, cheguei cedo e fiquei sentado esperando o instrutor, aquele que nas próximas semanas me guiaria pelos misteriosos caminhos da direção automobilística. Ele chegou, cabeça baixa mexendo no celular. Nos cumprimentamos e fomos em direção ao carro, ele sem tirar os olhos da tela em momento algum.

Dirigir funciona mais ou menos assim: existem três pedais, o freio, acelerador e a embreagem. No freio você para, no acelerador você avança e na embreagem você TOMA NO OLHO DO SEU CU PUTA QUE PARIU QUEM INVENTOU ESSA MERDA. E ainda existe uma coisa chamada câmbio manual que é A PIROCA DO PRÓPRIO SATANÁS que você é obrigado a segurar toda vez que quiser fazer QUALQUER COISA num carro.

 

Filho duma putaaaa

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever as primeiras aulas, seria TRAUMÁTICAS. Não tô brincando, tinha vezes que eu me pegava suando frio atrás do volante tentando disfarçar meu desespero crescente. Isso sem falar quando dava um branco completo na minha cabeça e eu esquecia completamente do que deveria fazer em seguida. A minha única experiência com direção até então tinha sido no GTA, mas dirigir um carro na vida real tá bem longe de ser só R2 pra acelerar, L2 pra frear e triângulo pra roubar o NPC mais próximo. Tinha dias em que eu cheguei a pensar que dirigir definitivamente não era pra mim. Que eu nunca ia aprender. Que, no final das contas, talvez fosse mais seguro pra mim e pra sociedade no geral se eu nunca mais entrasse num carro de novo pelo resto da vida.

E meu instrutor também não ajudava em absolutamente nada. O maluco não saía do WhatsApp!!!! Toda aula era basicamente nós dois dentro do carro e ele dizendo “primeira. Segunda. Terceira. Para. Acelera. Primeira…” sem nunca tirar os olhos do zapzapson. Sem falar que, com ele controlando tudo nos pedais do banco do carona, eu nunca sabia quem tinha feito algo, eu ou ele. Eu não tinha a sensação real da coisa, só aquela falsa impressão de que eu estava no controle.

De qualquer forma, com o tempo eu fui pegando o jeito. Na segunda semana o carro já não morria a cada quarteirão e na terceira eu já tinha parado de agarrar acidentalmente a perna do meu instrutor toda vez que ia trocar a marcha. As aulas enfim chegaram ao fim, e no último dia, fui atrás do meu sensei e o cumprimentei pela última vez, como forma de agradecimento por todos seus ensinamentos passados a mim. Ele não tirou os olhos do zaptzupt. Eu sinceramente acho que ele nem lembrava mais quem eu era, mas enfim.

Enfim, era chegada a hora. O momento decisivo. O último chefão que precisava ser derrotado para concluir a jornada: a prova prática.

Mas até para se chegar no chefão é preciso concluir mais uma quest, que era… Ligar pro Detran e marcar um horário. A vida é um RPG bem sem graça. Mas eu consegui marcar, e no dia e horário marcados lá estava eu, pronto para o último desafio.

O meu avaliador chegou, nos cumprimentamos e seguimos em direção ao carro. Ele me explicou brevemente como seria – começaríamos com uma baliza, primeiro eu teria que estacionar o carro dentro da área marcada no chão e em seguida sair com ele para o percurso. Eu teria 5 minutos para a baliza e três tentativas. Ok, vamos lá.

Entrei no carro, pus o cinto, ajeitei os retrovisores. Girei a chave, baixei o freio de mão, pisei na embreagem e passei a primeira. Alinhei a roda traseira do carro com as varas da frente conforme o meu instrutor e os tutoriais que tinha visto no YouTube no dia anterior tinham me ensinado e pus na marcha-ré. Tentei não demonstrar, mas por dentro eu estava NERVOUSER.

Então algo aconteceu: ouvi uma voz muito familiar que disse dentro da minha cabeça “Luke…”. Nesse momento, todo meu nervosismo, todo meu medo e toda minha angústia foram embora. “Luke, use a Força!”, a voz de Obi-Wan Kenobi na versão dublada de Star Wars ecoava na minha cabeça. “Tudo bem, Mestre Kenobi. Eu tentarei!”, eu disse mentalmente. “Faça ou não faça, não existe tentar!”, disse outra voz, dessa vez do Mestre Yoda.

 

 

Comecei a decididamente dar a ré. Confiei em meus instintos e me deixei levar. “Sinta a Força, deixe-a fluir”, dizia a voz dentro da minha cabeça, enquanto outra fora dela dizia “para o carro”. Era o avaliador ao meu lado me mandando parar. “Para o carro. Desce.”

 
Ah não.
 

“A Força vai estar com você, sempre”, dizia o Mestre Jedi. “AH PRA PUTA QUE PARIU”, eu respondia.

Descemos do carro e ele me mostrou que eu tinha parado a roda traseira em cima de uma das faixas laterais.

― Tá vendo aqui? Não pode. Você avançou o meio-fio. É falta eliminatória. Volta lá pra dentro e espera te chamarem.

E assim, eu não durei nem 3 minutos. Igual a primeira vez que eu… Hum, pensando bem deixa quieto.

O jeito foi voltar de ônibus pra casa, o que eu faria de qualquer jeito afinal eu não ia levar o carro da autoescola pra casa né, mas enfim. No caminho de volta, vi todos os tipos de pessoas dirigindo seus carros. Vi jovens, vi velhos, vi homens e mulheres e acho que até um cachorro mas pode ter sido o reflexo do sol, não sei. Foi quando tomei uma decisão que mudaria o rumo da minha vida. Cerrei os punhos e disse em direção aos céus: eu vou treinar até me tornar o melhor motorista do mundo [da categoria B pelo menos].

Me acompanhem nesta jornada rumo a me tornar o hokage da direção automotiva.

 
Nota do Luke do Presente: Porra nenhuma. Mais de um ano desde esse post e eu não lembro mais nem como que liga o ar condicionado do carro.

Vou viver de Uber o resto da vida, desculpa aí, Luke do Passado.

O dia em que me depilei

Texto originalmente publicado no dia 09 de junho de 2014

A vida é uma jornada cruel. Antes de nascermos alguém deveria chegar e avisar “ow, depois que você sair dessa barriga, meu amigo, o caminho é só ladeira abaixo”. Explico: quando você é um bebê, a vida é uma delícia. Você só precisa dormir, comer, chorar e fazer uns barulhos engraçados. Quando você é uma criança, a vida continua uma delícia. Você só precisa se divertir, ver desenho, ralar o joelho e fazer dever de casa…

…mas quando chega a adolescência, ahhhh meu bon vivant, é aí que a coisa fica mais feia que briga de foice. Comigo, claro, não foi diferente.

Aos meus 14 anos, a puberdade estava batendo na porta, os hormônios estavam à flor da pele. Eu, vítima de um longo processo evolutivo da raça humana, percebi que era hora de mostrar meu valor. É o que renomados cientistas de Oxford chamam de “catar as mulherzinha tudo”. E para catar as mulherzinha tudo, eu precisava ser, no mínimo, um pouco visualmente atraente. Ninguém iria gostar de mim por eu jogar Yu-Gi-Oh, por exemplo.

 

Eu

 

E atraente é uma coisa que eu DEFINITIVAMENTE não era. Sabe, no começo eu fui uma criança fofa e todo mundo me achava lindo. Não sei o que aconteceu no meio do caminho que descaralhou tudo. Do nada eu era um daqueles adolescentes esquisitos, com aparelho, espinhas, magrelo e com a cara tão oleosa que você escorregava só de olhar.

 

oi vamos bjar de lingua q tal

 

Até então tudo bem, coisas da vida. Mas um dia o meu corpo resolveu me pregar uma peça. Tal qual um milagre de Natal, DO NADA eu tinha uma pequena penugem sob o meu nariz que não chegava a ser um bigode, mas também não era algo que passava despercebido. Era um meio-termo perturbador chamado “Bigode Ralinho”. Aquilo era humilhante demais. É como se o meu corpo pensasse “porra, acho que não tá esculachado o suficiente. Como será que eu posso foder de vez agora?

“Ahhhh Ygor! Que bobeira, era só raspar!”

Aí que tá. Eu tinha um medo descomunal disso porque certa vez resolvi dar uma olhada em um fórum do Orkut sobre barbas. Lá tinha um cara contando uma experiência em que ele sem querer cortou a jugular. Aí não tinha como, né. Como que eu ia fazer aquele bigode com a cabeça tranquila sabendo que em qualquer deslize eu poderia sair dali degolado?

 

Eu me barbeando seria um pouco pior que isso aí

 

Além disso, me contavam que ao raspar com lâmina, ele nasceria mais grosso. E tudo o que eu menos queria era ter um bigode. Daí eu ficava nessa sinuca de bico e não encontrava uma solução. Me restava aquele aspecto sujo de quem trabalhou duro em uma carvoaria por 3 dias sem parar. Era ridículo. Eu tava realmente perdido.

Foram meses e meses só com esse cocozinho acima dos lábios e mais nada. Nem pra me nascer uma porra de barba pra amenizar. As coisas não fluíam. Era SÓ o bigode. Bigode ralo é foda, cara. Bigode ralo é um negócio traiçoeiro. A não ser que você tenha um grupo de pagode com um nome tipo “Chocolate Sensual” ou “Sedussamba”, bigode ralinho não é algo que funciona na sociedade.

Então eu decidi que era hora de colocar um fim naquilo. Era hora de medidas drásticas.

 

 

Eu ainda não tinha a coragem de comprar uma Gillette e arriscar guilhotinar minha cabeça na pia do banheiro, então tive a brilhante ideia: “PO! UM MONTE DE GENTE SE DEPILA! VOU FAZER ISSO TAMBÉM! CACETADA COMO EU NUNCA PENSEI NISSO ANTES?”

 

“EU SOU UM GÊNIO!”

 

Eu tinha aquela panelinha de cera quente em casa? Não tinha. Eu tinha algum conhecimento no assunto para realizar a tarefa por conta própria? Não tinha. A única coisa que eu tinha ali era a motivação. Na minha cabeça o briefing era simples: você cola algo nos pelinhos e depois puxa.

Porra, não tinha mistério.

No meio da madrugada (não queria que meus pais descobrissem) concluí que era hora de agir. Abri meu estojo do NO STRESS -que, diga-se de passagem, era um belo estojo- e peguei um Durex. Isso mesmo, um Durex. Essa seria a ferramenta usada para a extinção do meu bigode.

 

Po que saudade desse tigrão

 

Como vocês devem bem imaginar, se Durex resolvesse as coisas não existiriam centros de depilação por aí. Aquela merda não resolvia nada. Eu puxava e saíam uns 7 pelinhos. Fui refazendo o processo por duas longas horas até não aguentar mais a dor e ardência da minha juvenil boquinha. Ah, sim. Eu fiz no quarto, sem espelho. Pra não correr o risco de ser pego no flagra no banheiro.

Fui dormir porque doía demais. Pelo lado bom, eu gastei um rolo inteiro de Durex pra acabar com aquele pesadelo na minha vida.

 

 

Acordei no dia seguinte, fui à cozinha tomar meu café e lá estavam meus pais. O diálogo matinal foi um pouco diferente do convencional.

 
– Bom dia
– Bom diMAS O QUE É ISSO NA SUA CARA?
– Hã?
– O QUE ACONTECEU COM VOCÊ?

 

Demorei alguns segundos até lembrar o que eu tinha feito

Quando fui no espelho, vi a catástrofe. Eu parecia um morador de Chernobil que decidiu não ir embora depois do acidente nuclear. Tipo, deu TUDO errado: a minha boca estava inchada, toda vermelha porque ficar puxando durex queimou a pele e A CARALHA DO BIGODE NÃO TINHA IDO EMBORA. Pior que isso, ele ficou lá parcialmente, todo falhado. Que inferno.

 

 

Como foi numa sexta-feira, fiquei o fim de semana inteiro naquele estado até poder ir num centro de depilação com a minha mãe. Foi humilhante. As pessoas me olhando na rua, as atendentes do local com aquele sorrisinho sacana e a depiladora perguntando o que tinha acontecido ali.

 
– Eu…eu fui me depilar com durex moça 🙁
– Mas durex não depila
– …você tá me destruindo por dentro, moça 🙁
– kkkkkk
– 🙁
 

No final deu tudo certo. Eu estava com a região do bigode limpinha. Sei que fui lá mais umas 3 vezes depilar até perceber que talvez ser degolado por uma Gillette doesse menos que aquela porra de cera. Daí pra frente virei homenzinho e comecei a me barbear como tal.

 
E evito chegar perto de qualquer fita adesiva sempre que possível. Não lido muito bem com traumas.

Avamys

Eu nasci com uma série de defeitos de fabricação. Sou meio perturbado da cabeça, daltônico, nunca terminei os filmes do Harry Potter e já fui num show do Jota Quest. De todas essas falhas, tem uma que sempre -SEMPRE- me deixou inconformado com a minha existência: a rinite alérgica.

Explicando da maneira mais científica, rinite alérgica é quando o seu corpo simplesmente desiste de você e passa a ter como objetivo destruir o seu dia. É um pesadelo. Em menos de 10 minutos você deixa de ser um jovem cheio de saúde e vigor pra cair de cabeça no fundo do poço. A pessoa fica com o rosto coçando, nariz escorrendo, espirra a cada 30 segundos e passa a ter um olhar vazio. Parece que tá o corpo ali mas a alma já foi embora há muito tempo.

 

“OW MEU CHAPA, TEM UM ANTIALÉRGICO AÍ?”

 

Existem casos de gente que tem alergia a picada de abelha. Honestamente acho isso ótimo porque as chances de isso te afetar um dia são mínimas. Acho que nem tem mais abelha. To meio por fora do mundo animal. Deve ter abelha sim. Tem algum lance aí de que se acabarem as abelhas o mundo acaba também. O que seria um alívio para as pessoas com alergia a picadas, mas por outro lado teria a parte chata de não existir mais humanidade.

Enfim, não tive o luxo de ter essas alergias boas. Eu começo a ter crise alérgica com poeira.

Poeira.

Veja bem, meus ancestrais viviam nas cavernas, tinham que matar outros mamíferos no dente, sobreviviam na selva sem uma porra de uma roupa e eu, milhares e milhares de anos depois…tenho alergia a poeira. Se Charles Darwin voltasse à vida e olhasse pra mim, com certeza teria uma notinha adicional no final do seu livro.

 

“Olha, essa porra de evolução aí…eu não boto mais a minha mão no fogo não. Vagabundo aí em 2017 vivo mas não pode tomar um banho quente e pisar no chão gelado depois. Tá meio bagunçado o negócio” – DARWIN, Charles

 

É humilhante ver que a maior fraqueza dos meus amigos geralmente é algo marcante como, sei lá, perder a família. Enquanto a minha fraqueza é um edredom de lã ou um travesseiro sem fronha especial. Eu sou patético.

 

 

Minha vida por muito tempo se resumia a acordar, acreditar que tudo daria certo, começar a espirrar, tomar anti-histamínico, morrer de sono e dormir.

Se por um lado eu basicamente vivia esse ciclo sem fim TODO SANTO DIA, por outro, fui um grande degustador de comprimidos. Não tenho conhecimento pra falar de política, mas vem falar sobre antialérgico que te trago até umas planilhas e apresentações no Powerpoint. Era Polaramine, Histamin, Hixizine (esse me derrubava tal qual fazem na África com rinocerontes), Claritin (esse nunca serviu pra nada) e o Allegra, que sempre foi o melhor de todos porém o mais caro. Allegra é como se fosse a Prada dos alérgicos, coisa chique, coisa boa. Olha essa maravilha:

As pessoas mais próximas de mim vinham com aquele papo de que existia um tratamento, mas que eu tinha que ficar, sei lá, uns 17 anos tomando uma injeção que PODERIA, dependendo da minha sorte, não funcionar. Nunca fiz porque não sou boneco de vodu pra ficarem me espetando. Eis que um amigo meu, o Junior, médico e alérgico, me falou da existência de um elixir dos deuses chamado Avamys. E foi aí que a CIÊNCIA decidiu sorrir pra mim.

 

“Opa, o Ygor vai gostar disso aqui com certeza ou o meu nome não é CIENTISTA”

 

Avamys, em resumo, é a Pedra Filosofal de quem sofre de rinite. Funciona assim: você todo dia de manhã dá duas borrifadinhas em cada narina, deixa um tempo e lança um fungão. Pronto. Em uma semana tu já não sabe mais o que é ter crises alérgicas. É um milagre, é deus em forma de medicamento.

 

Amém

 

Eu comecei a usar e nunca mais espirrei. Eu tava vivendo o sonho. Eu não queria nem saber se isso dava câncer. Que se foda o câncer, eu tinha parado de espirrar. Eu era imortal.

Mas nada nessa vida é bom demais.

Umas semanas depois, viajei pra Orlando e não vi que meu Avaminho estava no fim. Cheguei lá, fui dar aquela borrifada e fuén. Nada. Fiquei tranquilo porque eu conseguiria ter essa IMUNIDADE durante todos os dias da viagem. Pelo que entendi, a imunidade continua em você por um tempo mesmo que você pare. Mas posso estar inventando isso também. Sei lá, não sou médico. Me deixa em paz.

Tudo ia bem até o dia em que fui num famigerado OUTLET comprar roupitchas (como todo bom brasileiro faz em Orlando). Era uma noite de clima ameno. Mariana, a minha cobiçada, estava comprando coisas de menina da Victoria’s Secret e eu fui dar aquele pulo na Armani.

(Um pequeno comentário aqui. Qual é a desse pessoal que compra umas camisetas da armani que o AX é maior que A PESSOA EM SI? Eu to mandando agora um email pro Michel Temer propondo que o país proíba usar essas atrocidades)

Enfim, entrei na loja e achei uma camisa de botão linda (sem um AX do tamanho do universo). Fui ao vestiário e pus aquela bela peça branca como uma nuvem. Enquanto me olhava no espelho, bateu uma vontade de espirrar. Tudo bem, eu não fazia aquilo há meses. Vamos espirrar. Atchim.

Mermão.

MERMÃO.

Quando eu abri os olhos, sem sacanagem, se estivesse em câmera lenta virava um filme do Tarantino. Era sangue PRA TUDO QUANTO ERA LADO. Eu acho que nem um assassinato com serra elétrica faz um estrago tão grande quanto o que eu fiz naquele vestiário. Era sangue no espelho, sangue na parede, sangue na minha cara e sangue numa camisa de 60 dólares que, segundos antes, era branca e agora parecia um avental de açougueiro.

 

A situação era basicamente essa…

 

Eu fiquei desesperado 1) porque achei que tava morrendo 2) porque eu tornei aquele vestiário o cenário de um massacre 3) eu ia ser deportado com certeza. Cabô Mickey, cabô foto com o Pato Donald cabô fogos com música de Frozen.

Eu precisava pensar rápido porque já tenho essa cara de quem veio de algum lugar cheio de areia, no meio do cu do Oriente Médio. Ficar mais de 10 minutos sozinho num cubículo era, no mínimo, caso de suspeita para o FBI. Me troquei, fiquei ouvindo a movimentação e quando percebi que não tinha nenhuma vendedora por perto, fui correndo deixar a camisa vermelha-espirro junto com as outras, peguei uma nova e fui correndo no caixa. A moça ficou olhando pra minha cara (toda cagada de sangue seco) e eu com aquele sorrisão aflito do Dedé que vocês já conhecem bem.

 

“Nice weather, ein minha senhora?”

 

Paguei, fui embora e nunca mais voltei naquela loja. Nunca mais.

 

 

Nos dias seguintes, durante metade da viagem, quando eu acordava o meu nariz estava sangrando. Eu realmente não sabia o que fazer e na minha cabeça, se continuasse por mais 3 dias naquele ritmo, não ia sobrar nenhuma gota dentro de mim. Até que do nada parou e no final ficou tudo bem.

Conversei com o médico e ele disse que às vezes isso pode acontecer, que é normal. Até hoje eu uso e sou muito feliz de poder sair do banho quente, andar no gelado até um sótão cheio de poeira e ficar rolando lá dentro com a certeza de que estou imune. O final foi feliz.

Menos pra moça da Armani, que deve estar até hoje sem entender o que aconteceu dentro daquele vestiário. Espero que essa mulher possa encontrar sua paz um dia.

O maior trapézio de Belém do Pará

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 
Quando se termina um namoro que já se arrastava por meses, a melhor coisa a se fazer é ocupar a mente. Ficar em casa trancado no quarto ouvindo músicas depressivas só é bonito nos filmes, na vida real o máximo que você vai conseguir é dar um tiro na própria cabeça. Voltei a sair com os amigos, comecei a ler livros e ver filmes que estavam na minha lista faz tempo, voltei a escrever no blog e…entrei pra academia!

 

 

Durante toda a minha vida, eu sempre fugi de uma boa briga pelo medo – e certeza – de que ia levar uma surra tão grande que até os meus FILHOS iam nascer com hematomas. O tempo ia passando, cada vez mais amigos meus iam entrando para a academia e eu ia notando como isso de alguma forma afetava completamente não só o corpo mas a mente deles: na primeira semana, os comentários eram sempre “putz, tô doído demais, essa academia tá me matando”. Na segunda semana, eles já chegavam com os ombros visivelmente mais largos e dizendo “rapaz, academia é muito bom”. No segundo mês, as primeiras camisetas regata já estavam sendo usadas, sendo possível ver os primeiros músculos tomando forma nos braços.

Por volta do terceiro ou quarto mês, as regatas já davam lugar a ABADÁS, e os comentários passaram a ser coisas como “abjhbabjabja açaí com guaraná rhuahuahuahua” e “bajhabbjaba WHEY COM GRANOLA BJAABBAJBABAABA”.

A partir daí, meu amigo, foi ladeira abaixo: as camisetas foram ficando menores até sumirem de vez, os punhos não se abriam e os braços não fechavam, e quando eu me dei conta meus amigos andavam do meu lado sem camiseta exalando testosterona e Whey Protein enquanto eu continuava o mesmo nugget de frango de sempre.

Isso tudo fez com que eu formasse a ideia de que a academia era algum tipo de instituição maligna e que alguma coisa suspeita definitivamente acontecia ali, uma fábrica de Léos Stronda. Talvez fosse alguma coisa na água do bebedouro ou na música eletrônica ambiente, ou talvez as pessoas só ficassem assim de tanto cheirar o álcool usado pra limpar os equipamentos. Enfim. Mas mesmo assim, na cara e na coragem, decidi me inscrever na academia aqui perto de casa e seja o que deus quiser.

O primeiro tapa na cara veio mesmo quando me disseram que eu não podia malhar de calças jeans. Certo, tive então que comprar bermudas, camisetas de exercícios e qualquer outro tênis que não fosse All Star. O primeiro dia da academia chegou, e logo saí de casa triunfante com meus fones de ouvido e adentrei no recinto assim:

 

 – olá amigos da academia

 

Achei que ia apanhar nesse dia.

Um dos meus maiores medos de entrar na academia era justamente que as pessoas ficassem olhando pra mim e me julgando dos pés à cabeça, mas, assim como em toda a minha vida, ninguém reparou em mim. Comecei a malhar já faz um tempinho e agora já acostumei com rotina de treinos, mas no começo sempre voltava pra casa como se tivesse sido surpreendido por um grupo de caminhoneiros em um banheiro de posto de beira de estrada, espancado, carregado por um lance de escadas acima, jogado pelo mesmo lance de escadas abaixo, rolado até a rua e então atropelado pelos mesmos caminhoneiros fugindo no caminhão.

Aliás, é engraçado reparar nos vários tipos de pessoas que frequentavam o mesmo lugar que eu, e, como aqui neste blog somos adeptos do empirismo (leia-se: cago regra mesmo), tomo a minha experiência pessoal como universal: em qualquer academia de qualquer lugar do mundo, sempre tem aquele cara (ou grupo de caras) que, quando você chega, ele já está lá. Quando você sai, ele continua lá. Quando você passa de carro no final de semana na frente da academia fechada e olha pela janela, ELE AINDA CONTINUA LÁ.

É aquele cara que passou tanto tempo levantando pesos e tomando doses cavalares de proteína todos os dias que seu corpo sofreu mutações e criou músculos até onde não tem – ou não deveria ter. É o tipo de gente que volta e meia você aparece no jornal com uma necrose bizarra se espalhando pelo corpo porque um belo dia achou que injetar óleo de cozinha com três partes de anabolizante pra cavalo na batata da perna seria uma boa ideia.

 

 imagem ilustrativa

 

Tem essa garota na minha academia. Mais ou menos a minha idade, malha no mesmo horário que eu. Não faço a menor ideia do nome, mas por algum motivo imagino que seja bem bonito. Passei dias semanas elaborando na minha cabeça dezenas de frases que pudessem iniciar um possível diálogo no mínimo divertido, mas até então o melhor que eu tinha conseguido foi “oi, me empresta o álcool?”.

Um dia, finalmente reuni coragem o suficiente pra ir até lá mostrar o cara legal que eu sou. Levantei da máquina de supino, fiz meu caminho pelos diversos obstáculos da academia, desviando de pesos sendo abaixados e pés puxando cordas e braços levantando halteres – caminhar por uma academia pode ser tão perigoso quanto aquelas gincanas do Silvio Santos. Enfim, me aproximei enquanto ela descansava sentada no equipamento, e disse:

Oi!

Então, só por curiosidade, olhei pra quantidade de barras que ela levantava e…Bom, deixa pra lá.

… me empresta o álcool?

Depois desse dia, passei a malhar sempre do outro lado da academia.