Resenha: Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel

Senhor dos Anéis é uma série de filmes com uma magia que nunca consegui explicar ao certo, mas que me fazia dormir todas as vezes na metade. Por “metade”, a gente entende “5 horas depois do início”, já que o negócio tem cerca de 29 horas de duração. Assim como em Harry Potter, me obriguei a assistir – na verdade fui obrigado pela minha namorada – e agora que acabei o primeiro, vim fazer uma resenha

Vamos lá

 

 Senhor dos Anéis – A Rapeize do Anel

 

O filme começa com a historinha de que o tal do Sauron fez uma porrada de anelzinho pra distribuir por aí. Sauron era tipo um São Cosme e Damião de anéis. Daí deu 9 pros humanos, não sei quantos pros elfos, deu uns 15 pra sei lá quem, botou o resto num bexigão cheio de brinde que a gente estoura em festa infantil e, no final das contas, fez um anel só pra ele. O anel que comandava a porra toda. 

Ou seja, foda-se né. Se era pra ser assim nem precisava ter feito os outros. 10 minutos de filme e já to por aqui com as gracinhas desse Sauron. Resumo do samba: dá um merdelhê generalizado, o idiota leva uma espadada na mão e perde o anel poderoso junto com os dedos. O mundo tá salvo, eba. Daí o Isildur, carinha que decepou o Sauron, tinha só uma obrigação: destruir o anel. Mas sempre tem algum ser humano pra cagar na vara. O Isildur ficou com o anel pra ele e terminou morto.

 

 RT @Isildur kkkkk mortaaaaa

 

Passou um montão de anos e quem achou esse anel foi o Smeagol, um cracudinho que tem no filme. Ele é viciado no anel, bicho. Definhou legal ali. Daí ele perde a joia e quem acha é o Bilbo (que particularmente seria muito melhor se o nome fosse bimbo. Como o blog é meu, a partir de agora o nome é Bimbo). No final das contas entendemos que o anel é empoderado, dono de si e com uma grande capacidade de enloquecer quem fica com ele.

 

“eeeta porra SE DEI BEM”

 

70 minutos só de introdução. Aí começa o filme de verdade no vilarejo dos hobbits.

Hobbit pra quem não sabe é uma pessoinha com altura de uma criança de 8 anos mas com cara de velho. O Frodo é um hobbit e é amigo do Gandalf, um senhor de idade com poderes mágicos. Gandalf tá chegando no Condado pra comemorar o aniversário do Tio do Frodo. Quem é? Isso mesmo, o Bimbo do anel. Bimbo tá planejando um festão, coisa de gente famosa mesmo. Iria todo mundo do Condado, celebridades, ex-BBB, Ana Hickmann, coisa fina. Muita zoação, muita bebedeira, eis que chega a hora do parabéns.

 

 Hobbit gosta de zona

 

Como o Bimbo é velho, ele faz discurso. Velho já gosta de dar um discurso na hora do parabéns. O que ninguém esperava é que essa era a despedida dele. Ele coloca escondido o anel no dedo e pluft, sumiu no meio do palco. É o gran-finale dele pra nunca mais voltar para aquela favela. Todos chocados menos o Gandalf, que sacou tudo.

 

 “Esse miudinho aí vai aprontar alguma merda quer ver?”

 

Bimbo explica pro Gandalf que tá mesmo metendo o pé, fica meio bolado de deixar pra trás o anel mas mesmo assim vai embora. Que que acontece? O anel só traz danação na vida da pessoa e ainda por cima tem 9 cavaleiros do inferno procurando ele. O Gandalf que não é bobo nem nada diz pro Frodo que o coitado tem que levar o anel pra cidade dos Elfos. Um bando de exu vindo atrás da parada e ele vai fazer por conta própria? Porra nenhuma, dá pro hobbit fazer. O plano é ele e Sam (outro hobbit) irem até um bar e encontrar um tal de Aragorn que ia fazer a escolta dos dois até Valfenda.

 

“Oi será que algum de vocês teria aí um shampoo anti-oleosidade?”

 

Enquanto isso o Gandalf iria trocar uma ideia com o Saruman, que é outro velho macumbeiro. Papo vai, papo vem e o Gandalf descobre que o cara tá de conchavo com o Sauron. Aí a merda tá feita. Começa uma briga de magos, as duas velhas feiticeiras em crise. É uma briga de comadre que vou te falar. Poderzinho pra lá, poderzinho pra cá e o Gandalf perde. Vai ficar aprisionado pra aprender a não ser traidor do Movimento Sauron.

 

 Nessa época pelo visto não existia osteoporose

 

Volta pro Frodo. Os jóqueis do apocalipse encontraram ele. Numa sábia manobra hóbbitica, ele coloca o anel pra ficar invisível. Funcionou aí pra você? Pois é, nem pra ele. Os 9 cavaleiros do mal, que na verdade eram os humanos que ganharam anel lá no início do filme, conseguem ver o Frodo quando ele tá invisível. Aí já era.

 

“Broder, a gente meio que ainda tá te vendo, blz?”

 

Frodo toma-lhe uma espadada e ia ser executado ali mesmo, mas aí aparece o Aragorn, esculacha geral, taca fogo nos dementadores e vai ver as condições do Frodo. O moleque tá pra morrer porque 1) o Aragorn não tinha o que fazer 2) não tinha nenhum estudante de medicina por perto achando que sabia o que era pra fazer. Ele pega o Frodo no colo e fala “quem resolve essas porra aí é elfo” e leva o menino para aquela fadinha linda pra caralho. A que é filha do cara do Aerosmith, sabe?

 

 ai ai :3

 

No final das contas ela é uma elfa. A gente descobre que ela é crush do Aragorn, rolam uns papos chatos e eles finalmente vão para Valfenda, o point dos elfos. Nesse meio tempo, enquanto Saruman estava ocupado demais montando um exército de gente feia, Gandalf já conseguiu fugir do cárcere. Velho ardiloso.

 

 Os Campos do Jordão da Terra Média

 

Valfenda é um lugar muito bonito. É tipo o condomínio daquele seu amigo rico que tem piscina, área de lazer e academia enquanto na tua casa não tem nem o reboco da parede. Quando Frodo e o time chegam lá, tá rolando uma espécie de festa étnica. É anão, é elfo, humano, feiticeiro, hobbit, japonês e roda de samba com o grupo Art Popular + bebida liberada damas grátis até meia noite.

 

 A galera

 

Eles estão lá pra uma reuniãozinha sobre qual seria o melhor destino para o anel. A parada parece o Facebook e em questão de minutos vira uma zona. O humano quer ficar com o anel, não sei quem quer destruir, o elfo acha que o impeachment foi golpe…um barraco que só. No final das contas é decidido que o anel deve mesmo ser destruído. Só que ninguém quer ter trabalho né, aí os caras mandam os bóia-fria da Terra Média pra realizar a missão.

 

“deixa vomigo toca po pai”

 

Como ia ser insuportável ter 3 filmes só com Sam e Frodo, entra pra equipe o anão, o elfo e dois humanos. De quebra ainda vai junto outros 2 hobbits pentelhos que estão desde o início do filme enchendo o saco do pessoal. Está formado O BONDE DO ANEL.

 

 

Daí pra frente os caras só andam. É inacreditável como a galera se dispõe a andar tanto. Não é possível que eles sabiam dessa distância antes de aceitar. Eu não tenho disposição pra ir na padaria aqui na outra rua, sabe. Esse pessoal é doido. Mas ok, eles começam a subir uma montanha. Acontece que chegando lá no alto tem um monte de corvo fofoqueiro e pra eles é inviável continuar. Daí a solução é voltar e ir por outra montanha, só que cheia de neve. Imagina o tanto de ovo que esses filhos da puta iam chocar em Pokémon GO.

 

“10km pra nascer uma porra de um Zubat, puta que pariu, Boromir!”

 

Dá problema de novo (dessa vez uma bárbara avalanche causada pela magia do Saruman) e eles já não têm mais muita escolha. Segundo o anão, que se chama Gmail, a melhor opção pra eles era ir para o reino dos anões porque lá é o fervo e eles seriam muito bem recebidos pelo primo dele. Ok, né? O que é um peido pra quem tá cagado? Vamos todo mundo pra terra dos anões. Quando eles chegam, logo na portaria, os dois hobbitinho bagunceiro fazem alguma merda e despertam um polvo gigante que começa a tocar o terror. Sobrevivem.

 

Não tem UM coelho nesse filme, UM Golden Retriever. É só monstro querendo te matar.

 

Dentro da caverna dos anões eles descobrem um monte de esqueleto. Morreu todo mundo. Não sobrou nenhum. Mestre, Feliz, Zangado, Atchim, Soneca, Dunga e Dengoso TUDO CADÁVER. Fica aquele climão porque não rolou aquela recepção calorosa que havia sido prometida. O negócio tá estranho, com um silêncio macabro e aí os hobbitinhos imbecis fazem um barulhaço de novo. Pronto: despertam cerca de 30 milhões de Goblins. Goblin pra quem não sabe é o anão do mal que mata anão do bem.

 

“Olá boa tarde será que eu poderia te contar um pouco sobre as vantagens do marketing multinível?”

 

Amigos…foi aí que tudo descaralhou de vez. Nessa hora eu tinha morrido com certeza.

(Ok, pensando melhor eu provavelmente nem estaria nessa aventura porque já teria morrido de peste negra ou qualquer uma dessas doenças aí da Terra Média. Segue o baile…)

Foi aí que tudo descaralhou de vez. Era um GALERAÇO de goblins rodeando nossos herois. Não tinha mais o que fazer, era morte certa. Eis que do nada todos eles começam a fugir que nem barata quando acende a luz. A desgraça nunca vem sozinha e se a gente achava que 90 bilhões de goblins era um problema…bom, surge ninguém mais ninguém menos que LÚCIFER no recinto.

 

“cd da xuxa ao contráriooo”

 

Essa criatura chamada Balrog começa a perseguir a galera por todos os cômodos daquela pocilga e, em dado momento, o Gandalf quer dar uma de machão e fala a famosa frase do primeiro filme:

 

“SE A MADAME PENSA QUE VAI PASSAR AQUI VC TÁ MUITO ENGANADAAAAAAAA”

 

E depois disso já era o Gandalf. Virou cheeseburguer junto com o Balrog. Dava pra ter salvado o velho, só digo isso. Mas quem sou eu pra julgar? Má vontade é foda. Enquanto o Frodo faz o drama dele, todo mundo mete o pé dali pra ninguém levar a culpa.

 

“Pelo amor de deus galera é só alguém segurar minha mão aqui me ajuda pfvr”

 

Surpreendentemente o filme ainda não acabou. Sei que daí pra frente uns outros elfos encurralam os nossos meninos de ouro, tem uma parte lá com uma outra fadinha que acho caidaça, o Frodo ganha um barquinho e eles passam por aquelas estátuas gigantes. Passou dali é caminho sem volta irmão. Vou resumir porque já não aguento mais escrever: uma porrada de Orcs aparece e nesse combate morre o Boromir. O cara só tava arrumando problema por causa do anel e no final morreu. Bem feito. Está morta a guerreira Boromir.

 

 “Eu vou morrer em Game of Thrones também”

 

Além disso os Orcs sequestram os dois hobbitinhos, o Frodo decide que vai fugir sozinho, o Sam vai atrás dele e pronto. Tá separado o time. Legolas, Aragorn e Gmail entendem que os Sam e Frodo querem um pouco de privacidade e resolvem ir salvar os outros dois. Cada um pro seu lado e não lembro exatamente como termina mas é isso aí. SENHOR DOS ANÉIS.

Fim do primeiro filme.

 
PS.: o Blu-Ray bônus tem uma versão ESTENDIDA. Sai fora.

Meu primeiro emprego

Texto originalmente publicado no dia 26 de maio de 2014
 

Até os meus 20 anos, eu nunca tinha trabalhado na vida. Infelizmente não tenho uma história bacana de gente batalhadora para contar e nunca vendi bala no sinal para poder ajudar meus 70 irmãos que viviam em um barraco feito de tijolos e pedaços de outdoors de vereadores.

Minha entrada no mercado de trabalho foi no segundo semestre da faculdade (até então eu cursava Relações Internacionais na UFRJ) e, na teoria, eu estava muito bem encaminhado pois era uma grande empresa internacional, com um bom salário para estagiários e …diabos, eu estava só começando a faculdade. Tudo para ser incrível! Na teoria. Vamos descrever aqui: eu trabalharia 4 horas por dia com Ocean Export (que é apenas uma maneira pedante de dizer TRABALHAR LOGÍSTICA COM CARGAS DE NAVIO), ganharia 860 reais e usaria roupas de homens bem sucedidos.

 

A visão que eu tinha do meu futuro

 

Tudo começou na entrevista de emprego dividida em duas partes: uma provinha teórica e uma dinâmica de grupo. Na prova teórica eu já vi que as coisas estavam meio esquisitas. Existiam perguntas sobre carregamentos marítimos com um detalhe intrigante, que era o recorrente uso das palavra SEJE, ENCIMA e, como bônus, XINELOS. Ok, vamos ignorar. Eu estava muito mais interessado em meu futuro no dia do que em corrigir uma empresa de grande porte.

 

Porque esse era meu futuro

 

Passei da primeira fase e chegou a dinâmica de grupo. Foi nesse dia que percebi que eu odiava duas coisas: dinâmicas e grupos. Sabe todos aqueles clichês que você ouve e acha que são piadas? Não. O negócio é real. A ~dinâmica~ era escolher um dos papeis que estavam sobre uma mesa e, em cada papel, havia uma imagem de um objeto. Teríamos que defender esse objeto e provar que ele era o melhor de todos ali. Tinha, por exemplo, um orelhão, uma televisão, um barco, um elefante (???) e uma bússola. Peguei a bússola.

Deixei todos falarem na frente para ver o nível do que estava rolando por ali. E era mais ou menos assim:

 
– EU VOU ESTAR DEFENDENDO ESTE ORELHÃO POIS COMUNICAÇÃO É IMPORTANTE

– ORA, JÁ EU PARTO DA PREMISSA DE QUE OS MEIOS TELEVISIVOS SÃO MUITO MAIS IMPORTANTES

– ELEFANTES SÃO DIVERTIDOS

– BARCOS FLUTUAM
 

Minha cara no recinto era mais ou menos essa

 

Na minha vez eu só me dei o trabalho de responder “não adianta nada saber que existe um orelhão ou uma TV, saber que você pode ir até um deles de barco ou elefante se você não sabe se guiar. Por isso, uma bússola. Mas confesso que elefantes são divertidos”

Todos riem. Dinâmica, proatividade e humor.

Consegui a merda do emprego e nas minhas primeiras semanas eu vi o cagacê em que eu tinha me metido: era um escritório cheio daqueles malucos beirando os 40 que se acham jovens surfistas e só falam de mulherzinha, curtição e piadas do Humortadela de 2003. Sem sacanagem, era o tipo de galera que falava coisas do tipo “que mané espada. Espada corta pros dois lados, eu sou FACÃO” ou “TO PAGAAAANO”. E tinha também o meu computador que, meus amigos, vou tentar explicar…

…imagina um Windows 98. Coloque 40 atalhos no desktop com as pastas em maiúsculo. Agora pegue um orangotango de forma que ele organize essas pastas de maneira randômica e esfregue a piroca no monitor só pra deixá-lo com um aspecto meio oleoso.

Esse era meu computador.

Lá pro meu segundo mês de trabalho eu já tinha vontade de dar um tiro na cabeça. De cada um deles. E fui descobrindo que o responsável pelos SEJES, ENCIMAS e XINELO da minha prova, era o meu supervisor, que era um jegue. Sério, pense em um cara que não sabe escrever uma palavra com mais de 4 sílabas mas tinha um poder hierárquico favorecendo-o. Era por volta disso. E o meu humor cada dia mais próximo do zero, até que em uma bela situação, ele me deu alguma alfinetada leve e eu respondi “ok, da mesma forma que eu desejo esse quantidade de óleo no teu cabelo cause um incêndio na sua casa e você perca tudo aquilo que ama”

 

 

Peguei pesado? Peguei. Mas eu já não estava nem aí. Além disso eu tinha passado por um namoro lixo, estava infeliz com a faculdade e tinha que acordar cedo todo dia pra pegar metrô lotado. Ou seja, nada a perder. O clima naturalmente ficou mais tenso e eu com mais patadas, até que um dia ele me chamou para a sala de reuniões para uma ~conversinha~.

Além de todos esses motivos que citei, fui demitido por não fazer o perfil da empresa, andar muito relapso e…veja bem, USAR BRINCO. Me foi dito que eu não podia ter barba e nem usar brinco pois não seguia o Dress Code (foi quando eu descobri que existia um Dress Code).

Dei aquela fingida marota de que era triste não poder mais fazer parte da equipe, peguei minhas coisas e fui embora

 

NÃO QUERIA MAIS VOLTAR

 

Depois disso decidi que nunca trabalharia com comércio exterior na minha vida, deixei a barba crescer e continuei usando brincos tal qual faria um CORCEL INDOMÁVEL

 

Eu saindo da empresa

 

—-

 
 

Claro que provavelmente ninguém tem um primeiro emprego dos sonhos. Então como os comentários de vocês são tipo o DVD DE EXTRAS dos textos, aguardamos a histórias.

Indo para Orlando

Texto originalmente publicado no dia 01 de dezembro de 2014
 

Eu fico desgostoso da vida quando tenho que sair do conforto do meu quarto para fazer alguma coisa que não seja dentro de casa. O mundo lá fora é cruel, cheio de sol e com a música “Happy” tocando em cada esquina. Mesmo assim eu e Mariana, a namorada, resolvemos ir pra Disney curtir o Halloween de lá. Fiquei mais animado que menina de 15 anos que cria álbum com título ~WHERE DREAMS COME TRUE~. Daí começou a aventura…

Viajamos com a Copa Airlines. Isso mesmo, Copa Airlines. Talvez esse nome não lhe soe muito familiar e você ache que não conhece a companhia, né? Pois é. Você realmente não conhece. Eu não conhecia, Mariana não conhecia e nenhum ser humano conhece. Tenho certeza que nem os comissários de bordo sabiam o que estava rolando ali exatamente. O avião dos caras era compacto como um jatinho particular, porém com 200 passageiros dentro. Eu não to zoando, aquilo era um Mercadão de Madureira voador.

Quando a aeronave começou a acelerar na pista para decolar, parecia que eu tava naqueles passeios de bugre do Maranhão. Vá balançar assim na casa do caralho. Inclusive, quando ela estava voando, já sem contato nenhum com a terra, continuava a balançar. O avião era uma Kombi 74 com duas asas coladas.

 

Misericórdia

 

Durante aquelas instruções iniciais de voo eu fiz o que qualquer passageiro costuma fazer: caguei pro que eles estavam falando. Se desse qualquer merda com aquele avião, não ia ter instrução de segurança que salvasse a minha vida. Como era uma viagem longa, eu tinha que me distrair. Descobri que um dos serviços disponíveis no voo era o acesso a jogos de última geração e, GAMER QUE SOU, fui logo ver do que se tratava.

 

Aparentemente a aeronave decidiu ficar em 2004

 

Flashback. Algumas horas antes, no aeroporto, tivemos a brilhante ideia de comprar muito -MUITO- chocolate e mandar pra dentro, mesmo sem fome. Aquilo era barato. Nem fodendo que eu ia perder a oportunidade de comer, sei lá, 3 toneladas de Kinder Bueno por 15 dólares. Segura essa informação aí pois ela será importante lá na frente. Fim do Flashback.

Na hora da janta do avião, o comissário veio com uns papos de “jugo de naranja”, “manzana”, “cueca cuela sien gas”, “garrafita” e aí veio mais uma surpresa…

 

 

…a porra da companhia aérea era PANAMENHA. Pra mim panamenha era como a gente chamava mulher que engravidou, sei lá, era nome dessas comidas que avó faz. Os caras falavam em espanhol, que bosta. Era tudo o que eu queria: 12 horas de voo com uma galera falando igual ao Ligeirinho.

Eu assumo sem problemas que não sei porra nenhuma de espanhol. Ainda mais com eles falando na velocidade da luz como falam. A Mariana, por sua vez, não assume. Ela não entende espanhol também mas acha que entende. Aí já viu a fodelança que foi né:

 
– Hola. ¿Qué te gustaría cenar?
– Si si! Arriba! Una jantita gracias!
– …
– Ay caramba!
– ¿Quieres pescado o pollo, señorita?
– No no, chiquititas. Quien me va curar mi corazón partio!
– …

 

Aí por causa dessa garota, a minha comida viria no modo ALEATÓRIO. Era só falar em inglês com o cara, só isso. Nem é pedir muito. Agora eu certamente ia comer alguma porra sabor MÁ VONTADE DO PANAMÁ. E lá veio meu prato:

 

 

Até me surpreendi. Veio bonitinho e, como as pessoas ao redor estavam todas comendo peixe ou frango, o “no no no” da Mariana não seria um problema no final das contas. Aí eu abri.

 

Isso não é comida, é castigo

 

Vou nem falar o tanto de puto que eu fiquei com todo mundo comendo algo gostoso e eu provavelmente comendo uma massa temperada com suor de um cozinheiro chamado Pepe. Paciência. Depois da janta mandei pra dentro mais daqueles chocolates que a gente tinha comprado, acompanhados com a água ~sin hielo~ que eles me deram. Hora de dormir.

 

Esses assentinhos de bunda para colocar no pescoço são nota 10.

 

No meio da madrugada todo aquele chocolate que eu ingeri resolveu se manifestar. Puta que pariu, bateu aquele cagote. Era como se as minhas entranhas fossem uma arena de Jogos Vorazes tamanha a tragédia que tava rolando ali. Eu ia me arriscar a cagar naquele banheiro e derrubar o avião? Não ia. Fechei os olhos e esperei meu organismo baixar a bola. Até agora não sei se dormi ou se desmaiei.

 

Eu por dentro

 

Quando eu acordei, estava em Orlando. Eta maravilha. Fui para uma daquelas filas obrigatórias em que você precisa falar com os FEDERAIS o que diabos você quer fazer no país deles. A família que estava na minha frente (brasileira, diga-se de passagem) tinha uma velha com uma câmera digital na mão. A porra da velha resolveu tirar uma foto do neto na fila. Pergunta pra velha se ela sabia o que aquelas 30 PLACAS COM UM “PROIBIDO CÂMERAS NO RECINTO” significavam. A velha não sabia. Nisso o cara da cabine que nos ~entrevistaria~ levantou putaço das ideias quase com o dedo na cara dela.

– Senhora, isso é uma câmera? Você não tá vendo que é proibido? Desligue isso IMEDIATAMENTE. Eu não estou brincando. Se você não quiser problemas, desligue isso IMEDIATAMENTE. O que você está esperando? Não fui claro o suficiente ou você é mais uma dessas engraçadinhas?

Mermão, foda. Ela conseguiu deixar o cara puto minutos antes de ele falar comigo. Pior: ela não entendeu uma palavra do que ele disse. A reação dela foi essa:

 

“Que espirituoso esse polícia, né?”

 

Nisso a família é liberada e o senhor ainda puto grita um “PRÓXIMO” sem paciência nenhuma. Era agora que eu seria deportado. Segue o diálogo livremente traduzido para Pt-Br:

 
– O que veio fazer nos Estados Unidos?
– Eu vim pra Disney, meu senhor :DD Vim curtir uma DISNEYZITCHA NÉ
– Ficará quanto tempo?
– Ahhh, eu deixo a vida me levar né seu guarda. Acho que vim pra ficaaaar kkkkk
– …
– 9 dias
– Por que você forjou o número de seu voo?
– akshadhahkdsjh oi?
– Por que você forjou o número de seu voo?
– kshfakhfas nao entendi
– Você colocou o número do seu voo errado. O que você faz da vida?

 

 
EU COLOQUEI A CARALHA DO NÚMERO ERRADO SEM QUERER. EU JÁ TENHO UMA CARA DE ÁRABE QUE NÃO AJUDA AÍ NÃO SATISFEITO EU VOU E BOTO A PORRA DO NÚMERO ERRADO. Já tava esperando a SWAT entrar ali quebrando as janelas e me levar direto pra Guantánamo. Suei frio, quase chorei.

 
– Eu…eu escrevo
– E tá levando quanto de dinheiro pro país?
– Só o do ônibus só seu guarda peloamordedeus to aqui na humilde mesmo
– Drogas? Remédios? Algo ilícito?
– Não senhor.
*ploft*

 

Ele carimbou meu passaporte (ploft no caso é o barulho do carimbo) e falou um TEJE LIBERADO que me deixou aliviado. Fui contar para a Mariana e ela me manda um “ah, na minha cabine o cara foi supersimpático”, nem perguntou muita coisa. Fiquei meio chateado. Ser gostosa te dá dessas vantagens que eu infelizmente não tenho.

No aeroporto a gente já dá de cara com várias lojinhas bacanas. Universal, Sea World, Disney e outras mais, para te ambientar do que você está prestes a viver.

 

Por exemplo essas coisitchas de Harry Potter

 

Fomos procurar a locadora de nosso carro e no caminho tinham vários conversíveis irados, umas Mercedes, uns Mustangs com plaquinha “que tal me alugar para essa viagem?! Peça um upgrade no seu veículo!”. Obviamente eu queria um upgrade no nosso veículo porque tenho o discernimento de uma criança, mas a estraga-prazeres da Mariana falou que não tinha necessidade. Bruxa. Acabamos com um Corolla bonito, mas não era o Mustangão irado que eu queria.

 
Acontece. O importante é que no final das contas, os dias seguintes foram a melhor coisa que já me aconteceu no ano de 2014 e espero que se repita várias vezes.

Medo e delírio na autoescola

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

Post originalmente publicado em 5 de janeiro de 2016.
 

Quando eu era moleque na década de 90/início de 2000, existiam basicamente três tipos de crianças: as radicais (e geralmente protagonistas de inúmeras aventuras em que no final acabavam se tornando agentes secretos) andavam de skate ou patins; as normais (mas que acidentalmente encontravam mapas de antigos tesouros escondidos por piratas) andavam de bicicleta; e aquelas cuja maior aventura era ir pra escola e voltar pra casa sem levar um cuecão das crianças mais altas andavam de patinete.

Adivinha em qual dos três grupos eu me enquadrava.

 

Dica: eu nunca fui um Goonie.

 

O que eu posso dizer? Eu gostava do meu patinete. Era fácil, seguro, e fazia exatamente o que eu queria que ele fizesse, sem surpresas. Se eu queria ir pra esquerda, era só virar pra esquerda. Se eu queria ir pra direita, virava pra direita. Se eu quisesse parar, era só colocar um pezinho pra fora da base direto no chão. Se eu quisesse ir o mais rápido que eu pudesse… bem, aí era melhor descer, dobrar ele, colocar debaixo do braço e ir correndo mesmo.

Eventualmente eu ganhei a minha primeira bicicleta de Natal do meu avô. Quando ele tirou a mão dos meus olhos e eu vi aquele maquinário monstruoso na minha frente pela primeira vez, eu CHOREI. Afinal, eu queria um Super Nintendo e ele me aparece com uma Caloi com o dobro do meu tamanho????? Deixei aquilo pegando poeira num quartinho nos fundos da casa e continuei sendo feliz com meu patinete por mais alguns anos.

Fui crescendo, e logo comecei a sentir pela primeira vez o peso da pressão social quando todas as crianças da vila começaram a aparecer com seus patins radicais e seus skates tunados. Até as crianças mais novas que eu já estavam fazendo drifts irados e apostando rachas acirrados em suas bikes numa versão infanto-juvenil de Velozes e Furiosos, enquanto a manobra mais radical que eu conseguia fazer no meu patinete era pegar bastante impulso e me agachar em cima do patinete em movimento (o que me fazia percorrer uma distância de aproximadamente 1,5m). Logo eu comecei a ouvir os primeiros “iihhh, alá o otário do patinete” das crianças descoladas que usavam boné virado pra trás, camisa xadrez amarrada na cintura e mascavam chiclete, e percebi que a hora de vencer meu medo havia finalmente chegado.

Não tive muitas dificuldades pra aprender a andar… Meu problema mesmo era frear. As minhas perninhas se atrapalhavam toda com aquela velocidade (que nem era tanta assim), eu não conseguia me estabilizar, e o resultado era sempre BLAM!, eu e o asfalto da rua juntinhos.

Foi então desenvolvi a seguinte técnica: quando queria desmontar da minha bike, eu ia até uma área com grama da vila, tipo o campinho de futebol, tirava os pés dos pedais e… Me deixava cair. Isso mesmo. Toda vez que eu queria descer da bicicleta, eu simplesmente me jogava de cima dela e quicava feito a perereca que Wesley Safadão viria a cantar sobre anos depois.

 

Imagem ilustrativa

 

Fiz isso por muito mais tempo do que poderia ser considerado normal para uma criança mentalmente saudável, o que eu claramente não era. Na verdade, eu fiz tantas vezes que logo as peças da bicicleta começaram a se soltar, até que chegou uma hora que ela ficou completamente inutilizada de tantas quedas que tomamos juntos. E agora, anos depois, essa mesma pessoa, esse mesmo indivíduo que só era capaz de parar um veículo simples da maneira mais kamikaze possível, decidiu que estava na hora de tirar uma carteira de motorista. Só o fato de eu ter conseguido sequer passar no exame psicotécnico já demonstra a fragilidade do sistema brasileiro de formação de condutores.

Eu tenho um pouco disso que o Google está me dizendo aqui na outra aba que se chama tacofobia, ou seja, medo de altas velocidades. Isso, e o fato de que, bom, eu sou um péssimo pedestre. Eu esbarro em velhinhas, tropeço em cachorros, atropelo carros parados. Não são raras as vezes em que alguém vem na minha direção, tenta desviar por um lado, eu vou pelo mesmo, ela tenta pelo outro, eu vou também e nós ficamos nessa dança no meio da calçada até o sol se pôr. Imagina um indivíduo com essas características controlando uma máquina assassina de 1 tonelada.

Isso tudo (e, claro, o fato de aulas de direção serem caras pra porra) fez com que eu desenvolvesse receio de dirigir e fosse adiando a decisão de tirar a carteira. Nos meus 22 anos, quando todos meus amigos e pessoas da minha idade – e até mais novas – começaram a aparecer com seus carros, suas chaves penduradas no cós da calça e suas frases de “hoje não vou beber, tô dirigindo”, eu percebi que a hora de vencer meu medo havia novamente chegado.

Corri pra autoescola mais próxima, me matriculei, fiz as aulas teóricas, o simulado, a prova teórica, e logo estava apto para começar as famigeradas aulas práticas.

No meu primeiro dia de aula prática, cheguei cedo e fiquei sentado esperando o instrutor, aquele que nas próximas semanas me guiaria pelos misteriosos caminhos da direção automobilística. Ele chegou, cabeça baixa mexendo no celular. Nos cumprimentamos e fomos em direção ao carro, ele sem tirar os olhos da tela em momento algum.

Dirigir funciona mais ou menos assim: existem três pedais, o freio, acelerador e a embreagem. No freio você para, no acelerador você avança e na embreagem você TOMA NO OLHO DO SEU CU PUTA QUE PARIU QUEM INVENTOU ESSA MERDA. E ainda existe uma coisa chamada câmbio manual que é A PIROCA DO PRÓPRIO SATANÁS que você é obrigado a segurar toda vez que quiser fazer QUALQUER COISA num carro.

 

Filho duma putaaaa

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever as primeiras aulas, seria TRAUMÁTICAS. Não tô brincando, tinha vezes que eu me pegava suando frio atrás do volante tentando disfarçar meu desespero crescente. Isso sem falar quando dava um branco completo na minha cabeça e eu esquecia completamente do que deveria fazer em seguida. A minha única experiência com direção até então tinha sido no GTA, mas dirigir um carro na vida real tá bem longe de ser só R2 pra acelerar, L2 pra frear e triângulo pra roubar o NPC mais próximo. Tinha dias em que eu cheguei a pensar que dirigir definitivamente não era pra mim. Que eu nunca ia aprender. Que, no final das contas, talvez fosse mais seguro pra mim e pra sociedade no geral se eu nunca mais entrasse num carro de novo pelo resto da vida.

E meu instrutor também não ajudava em absolutamente nada. O maluco não saía do WhatsApp!!!! Toda aula era basicamente nós dois dentro do carro e ele dizendo “primeira. Segunda. Terceira. Para. Acelera. Primeira…” sem nunca tirar os olhos do zapzapson. Sem falar que, com ele controlando tudo nos pedais do banco do carona, eu nunca sabia quem tinha feito algo, eu ou ele. Eu não tinha a sensação real da coisa, só aquela falsa impressão de que eu estava no controle.

De qualquer forma, com o tempo eu fui pegando o jeito. Na segunda semana o carro já não morria a cada quarteirão e na terceira eu já tinha parado de agarrar acidentalmente a perna do meu instrutor toda vez que ia trocar a marcha. As aulas enfim chegaram ao fim, e no último dia, fui atrás do meu sensei e o cumprimentei pela última vez, como forma de agradecimento por todos seus ensinamentos passados a mim. Ele não tirou os olhos do zaptzupt. Eu sinceramente acho que ele nem lembrava mais quem eu era, mas enfim.

Enfim, era chegada a hora. O momento decisivo. O último chefão que precisava ser derrotado para concluir a jornada: a prova prática.

Mas até para se chegar no chefão é preciso concluir mais uma quest, que era… Ligar pro Detran e marcar um horário. A vida é um RPG bem sem graça. Mas eu consegui marcar, e no dia e horário marcados lá estava eu, pronto para o último desafio.

O meu avaliador chegou, nos cumprimentamos e seguimos em direção ao carro. Ele me explicou brevemente como seria – começaríamos com uma baliza, primeiro eu teria que estacionar o carro dentro da área marcada no chão e em seguida sair com ele para o percurso. Eu teria 5 minutos para a baliza e três tentativas. Ok, vamos lá.

Entrei no carro, pus o cinto, ajeitei os retrovisores. Girei a chave, baixei o freio de mão, pisei na embreagem e passei a primeira. Alinhei a roda traseira do carro com as varas da frente conforme o meu instrutor e os tutoriais que tinha visto no YouTube no dia anterior tinham me ensinado e pus na marcha-ré. Tentei não demonstrar, mas por dentro eu estava NERVOUSER.

Então algo aconteceu: ouvi uma voz muito familiar que disse dentro da minha cabeça “Luke…”. Nesse momento, todo meu nervosismo, todo meu medo e toda minha angústia foram embora. “Luke, use a Força!”, a voz de Obi-Wan Kenobi na versão dublada de Star Wars ecoava na minha cabeça. “Tudo bem, Mestre Kenobi. Eu tentarei!”, eu disse mentalmente. “Faça ou não faça, não existe tentar!”, disse outra voz, dessa vez do Mestre Yoda.

 

 

Comecei a decididamente dar a ré. Confiei em meus instintos e me deixei levar. “Sinta a Força, deixe-a fluir”, dizia a voz dentro da minha cabeça, enquanto outra fora dela dizia “para o carro”. Era o avaliador ao meu lado me mandando parar. “Para o carro. Desce.”

 
Ah não.
 

“A Força vai estar com você, sempre”, dizia o Mestre Jedi. “AH PRA PUTA QUE PARIU”, eu respondia.

Descemos do carro e ele me mostrou que eu tinha parado a roda traseira em cima de uma das faixas laterais.

― Tá vendo aqui? Não pode. Você avançou o meio-fio. É falta eliminatória. Volta lá pra dentro e espera te chamarem.

E assim, eu não durei nem 3 minutos. Igual a primeira vez que eu… Hum, pensando bem deixa quieto.

O jeito foi voltar de ônibus pra casa, o que eu faria de qualquer jeito afinal eu não ia levar o carro da autoescola pra casa né, mas enfim. No caminho de volta, vi todos os tipos de pessoas dirigindo seus carros. Vi jovens, vi velhos, vi homens e mulheres e acho que até um cachorro mas pode ter sido o reflexo do sol, não sei. Foi quando tomei uma decisão que mudaria o rumo da minha vida. Cerrei os punhos e disse em direção aos céus: eu vou treinar até me tornar o melhor motorista do mundo [da categoria B pelo menos].

Me acompanhem nesta jornada rumo a me tornar o hokage da direção automotiva.

 
Nota do Luke do Presente: Porra nenhuma. Mais de um ano desde esse post e eu não lembro mais nem como que liga o ar condicionado do carro.

Vou viver de Uber o resto da vida, desculpa aí, Luke do Passado.

O dia em que me depilei

Texto originalmente publicado no dia 09 de junho de 2014

A vida é uma jornada cruel. Antes de nascermos alguém deveria chegar e avisar “ow, depois que você sair dessa barriga, meu amigo, o caminho é só ladeira abaixo”. Explico: quando você é um bebê, a vida é uma delícia. Você só precisa dormir, comer, chorar e fazer uns barulhos engraçados. Quando você é uma criança, a vida continua uma delícia. Você só precisa se divertir, ver desenho, ralar o joelho e fazer dever de casa…

…mas quando chega a adolescência, ahhhh meu bon vivant, é aí que a coisa fica mais feia que briga de foice. Comigo, claro, não foi diferente.

Aos meus 14 anos, a puberdade estava batendo na porta, os hormônios estavam à flor da pele. Eu, vítima de um longo processo evolutivo da raça humana, percebi que era hora de mostrar meu valor. É o que renomados cientistas de Oxford chamam de “catar as mulherzinha tudo”. E para catar as mulherzinha tudo, eu precisava ser, no mínimo, um pouco visualmente atraente. Ninguém iria gostar de mim por eu jogar Yu-Gi-Oh, por exemplo.

 

Eu

 

E atraente é uma coisa que eu DEFINITIVAMENTE não era. Sabe, no começo eu fui uma criança fofa e todo mundo me achava lindo. Não sei o que aconteceu no meio do caminho que descaralhou tudo. Do nada eu era um daqueles adolescentes esquisitos, com aparelho, espinhas, magrelo e com a cara tão oleosa que você escorregava só de olhar.

 

oi vamos bjar de lingua q tal

 

Até então tudo bem, coisas da vida. Mas um dia o meu corpo resolveu me pregar uma peça. Tal qual um milagre de Natal, DO NADA eu tinha uma pequena penugem sob o meu nariz que não chegava a ser um bigode, mas também não era algo que passava despercebido. Era um meio-termo perturbador chamado “Bigode Ralinho”. Aquilo era humilhante demais. É como se o meu corpo pensasse “porra, acho que não tá esculachado o suficiente. Como será que eu posso foder de vez agora?

“Ahhhh Ygor! Que bobeira, era só raspar!”

Aí que tá. Eu tinha um medo descomunal disso porque certa vez resolvi dar uma olhada em um fórum do Orkut sobre barbas. Lá tinha um cara contando uma experiência em que ele sem querer cortou a jugular. Aí não tinha como, né. Como que eu ia fazer aquele bigode com a cabeça tranquila sabendo que em qualquer deslize eu poderia sair dali degolado?

 

Eu me barbeando seria um pouco pior que isso aí

 

Além disso, me contavam que ao raspar com lâmina, ele nasceria mais grosso. E tudo o que eu menos queria era ter um bigode. Daí eu ficava nessa sinuca de bico e não encontrava uma solução. Me restava aquele aspecto sujo de quem trabalhou duro em uma carvoaria por 3 dias sem parar. Era ridículo. Eu tava realmente perdido.

Foram meses e meses só com esse cocozinho acima dos lábios e mais nada. Nem pra me nascer uma porra de barba pra amenizar. As coisas não fluíam. Era SÓ o bigode. Bigode ralo é foda, cara. Bigode ralo é um negócio traiçoeiro. A não ser que você tenha um grupo de pagode com um nome tipo “Chocolate Sensual” ou “Sedussamba”, bigode ralinho não é algo que funciona na sociedade.

Então eu decidi que era hora de colocar um fim naquilo. Era hora de medidas drásticas.

 

 

Eu ainda não tinha a coragem de comprar uma Gillette e arriscar guilhotinar minha cabeça na pia do banheiro, então tive a brilhante ideia: “PO! UM MONTE DE GENTE SE DEPILA! VOU FAZER ISSO TAMBÉM! CACETADA COMO EU NUNCA PENSEI NISSO ANTES?”

 

“EU SOU UM GÊNIO!”

 

Eu tinha aquela panelinha de cera quente em casa? Não tinha. Eu tinha algum conhecimento no assunto para realizar a tarefa por conta própria? Não tinha. A única coisa que eu tinha ali era a motivação. Na minha cabeça o briefing era simples: você cola algo nos pelinhos e depois puxa.

Porra, não tinha mistério.

No meio da madrugada (não queria que meus pais descobrissem) concluí que era hora de agir. Abri meu estojo do NO STRESS -que, diga-se de passagem, era um belo estojo- e peguei um Durex. Isso mesmo, um Durex. Essa seria a ferramenta usada para a extinção do meu bigode.

 

Po que saudade desse tigrão

 

Como vocês devem bem imaginar, se Durex resolvesse as coisas não existiriam centros de depilação por aí. Aquela merda não resolvia nada. Eu puxava e saíam uns 7 pelinhos. Fui refazendo o processo por duas longas horas até não aguentar mais a dor e ardência da minha juvenil boquinha. Ah, sim. Eu fiz no quarto, sem espelho. Pra não correr o risco de ser pego no flagra no banheiro.

Fui dormir porque doía demais. Pelo lado bom, eu gastei um rolo inteiro de Durex pra acabar com aquele pesadelo na minha vida.

 

 

Acordei no dia seguinte, fui à cozinha tomar meu café e lá estavam meus pais. O diálogo matinal foi um pouco diferente do convencional.

 
– Bom dia
– Bom diMAS O QUE É ISSO NA SUA CARA?
– Hã?
– O QUE ACONTECEU COM VOCÊ?

 

Demorei alguns segundos até lembrar o que eu tinha feito

Quando fui no espelho, vi a catástrofe. Eu parecia um morador de Chernobil que decidiu não ir embora depois do acidente nuclear. Tipo, deu TUDO errado: a minha boca estava inchada, toda vermelha porque ficar puxando durex queimou a pele e A CARALHA DO BIGODE NÃO TINHA IDO EMBORA. Pior que isso, ele ficou lá parcialmente, todo falhado. Que inferno.

 

 

Como foi numa sexta-feira, fiquei o fim de semana inteiro naquele estado até poder ir num centro de depilação com a minha mãe. Foi humilhante. As pessoas me olhando na rua, as atendentes do local com aquele sorrisinho sacana e a depiladora perguntando o que tinha acontecido ali.

 
– Eu…eu fui me depilar com durex moça 🙁
– Mas durex não depila
– …você tá me destruindo por dentro, moça 🙁
– kkkkkk
– 🙁
 

No final deu tudo certo. Eu estava com a região do bigode limpinha. Sei que fui lá mais umas 3 vezes depilar até perceber que talvez ser degolado por uma Gillette doesse menos que aquela porra de cera. Daí pra frente virei homenzinho e comecei a me barbear como tal.

 
E evito chegar perto de qualquer fita adesiva sempre que possível. Não lido muito bem com traumas.