Avamys

Eu nasci com uma série de defeitos de fabricação. Sou meio perturbado da cabeça, daltônico, nunca terminei os filmes do Harry Potter e já fui num show do Jota Quest. De todas essas falhas, tem uma que sempre -SEMPRE- me deixou inconformado com a minha existência: a rinite alérgica.

Explicando da maneira mais científica, rinite alérgica é quando o seu corpo simplesmente desiste de você e passa a ter como objetivo destruir o seu dia. É um pesadelo. Em menos de 10 minutos você deixa de ser um jovem cheio de saúde e vigor pra cair de cabeça no fundo do poço. A pessoa fica com o rosto coçando, nariz escorrendo, espirra a cada 30 segundos e passa a ter um olhar vazio. Parece que tá o corpo ali mas a alma já foi embora há muito tempo.

 

“OW MEU CHAPA, TEM UM ANTIALÉRGICO AÍ?”

 

Existem casos de gente que tem alergia a picada de abelha. Honestamente acho isso ótimo porque as chances de isso te afetar um dia são mínimas. Acho que nem tem mais abelha. To meio por fora do mundo animal. Deve ter abelha sim. Tem algum lance aí de que se acabarem as abelhas o mundo acaba também. O que seria um alívio para as pessoas com alergia a picadas, mas por outro lado teria a parte chata de não existir mais humanidade.

Enfim, não tive o luxo de ter essas alergias boas. Eu começo a ter crise alérgica com poeira.

Poeira.

Veja bem, meus ancestrais viviam nas cavernas, tinham que matar outros mamíferos no dente, sobreviviam na selva sem uma porra de uma roupa e eu, milhares e milhares de anos depois…tenho alergia a poeira. Se Charles Darwin voltasse à vida e olhasse pra mim, com certeza teria uma notinha adicional no final do seu livro.

 

“Olha, essa porra de evolução aí…eu não boto mais a minha mão no fogo não. Vagabundo aí em 2017 vivo mas não pode tomar um banho quente e pisar no chão gelado depois. Tá meio bagunçado o negócio” – DARWIN, Charles

 

É humilhante ver que a maior fraqueza dos meus amigos geralmente é algo marcante como, sei lá, perder a família. Enquanto a minha fraqueza é um edredom de lã ou um travesseiro sem fronha especial. Eu sou patético.

 

 

Minha vida por muito tempo se resumia a acordar, acreditar que tudo daria certo, começar a espirrar, tomar anti-histamínico, morrer de sono e dormir.

Se por um lado eu basicamente vivia esse ciclo sem fim TODO SANTO DIA, por outro, fui um grande degustador de comprimidos. Não tenho conhecimento pra falar de política, mas vem falar sobre antialérgico que te trago até umas planilhas e apresentações no Powerpoint. Era Polaramine, Histamin, Hixizine (esse me derrubava tal qual fazem na África com rinocerontes), Claritin (esse nunca serviu pra nada) e o Allegra, que sempre foi o melhor de todos porém o mais caro. Allegra é como se fosse a Prada dos alérgicos, coisa chique, coisa boa. Olha essa maravilha:

As pessoas mais próximas de mim vinham com aquele papo de que existia um tratamento, mas que eu tinha que ficar, sei lá, uns 17 anos tomando uma injeção que PODERIA, dependendo da minha sorte, não funcionar. Nunca fiz porque não sou boneco de vodu pra ficarem me espetando. Eis que um amigo meu, o Junior, médico e alérgico, me falou da existência de um elixir dos deuses chamado Avamys. E foi aí que a CIÊNCIA decidiu sorrir pra mim.

 

“Opa, o Ygor vai gostar disso aqui com certeza ou o meu nome não é CIENTISTA”

 

Avamys, em resumo, é a Pedra Filosofal de quem sofre de rinite. Funciona assim: você todo dia de manhã dá duas borrifadinhas em cada narina, deixa um tempo e lança um fungão. Pronto. Em uma semana tu já não sabe mais o que é ter crises alérgicas. É um milagre, é deus em forma de medicamento.

 

Amém

 

Eu comecei a usar e nunca mais espirrei. Eu tava vivendo o sonho. Eu não queria nem saber se isso dava câncer. Que se foda o câncer, eu tinha parado de espirrar. Eu era imortal.

Mas nada nessa vida é bom demais.

Umas semanas depois, viajei pra Orlando e não vi que meu Avaminho estava no fim. Cheguei lá, fui dar aquela borrifada e fuén. Nada. Fiquei tranquilo porque eu conseguiria ter essa IMUNIDADE durante todos os dias da viagem. Pelo que entendi, a imunidade continua em você por um tempo mesmo que você pare. Mas posso estar inventando isso também. Sei lá, não sou médico. Me deixa em paz.

Tudo ia bem até o dia em que fui num famigerado OUTLET comprar roupitchas (como todo bom brasileiro faz em Orlando). Era uma noite de clima ameno. Mariana, a minha cobiçada, estava comprando coisas de menina da Victoria’s Secret e eu fui dar aquele pulo na Armani.

(Um pequeno comentário aqui. Qual é a desse pessoal que compra umas camisetas da armani que o AX é maior que A PESSOA EM SI? Eu to mandando agora um email pro Michel Temer propondo que o país proíba usar essas atrocidades)

Enfim, entrei na loja e achei uma camisa de botão linda (sem um AX do tamanho do universo). Fui ao vestiário e pus aquela bela peça branca como uma nuvem. Enquanto me olhava no espelho, bateu uma vontade de espirrar. Tudo bem, eu não fazia aquilo há meses. Vamos espirrar. Atchim.

Mermão.

MERMÃO.

Quando eu abri os olhos, sem sacanagem, se estivesse em câmera lenta virava um filme do Tarantino. Era sangue PRA TUDO QUANTO ERA LADO. Eu acho que nem um assassinato com serra elétrica faz um estrago tão grande quanto o que eu fiz naquele vestiário. Era sangue no espelho, sangue na parede, sangue na minha cara e sangue numa camisa de 60 dólares que, segundos antes, era branca e agora parecia um avental de açougueiro.

 

A situação era basicamente essa…

 

Eu fiquei desesperado 1) porque achei que tava morrendo 2) porque eu tornei aquele vestiário o cenário de um massacre 3) eu ia ser deportado com certeza. Cabô Mickey, cabô foto com o Pato Donald cabô fogos com música de Frozen.

Eu precisava pensar rápido porque já tenho essa cara de quem veio de algum lugar cheio de areia, no meio do cu do Oriente Médio. Ficar mais de 10 minutos sozinho num cubículo era, no mínimo, caso de suspeita para o FBI. Me troquei, fiquei ouvindo a movimentação e quando percebi que não tinha nenhuma vendedora por perto, fui correndo deixar a camisa vermelha-espirro junto com as outras, peguei uma nova e fui correndo no caixa. A moça ficou olhando pra minha cara (toda cagada de sangue seco) e eu com aquele sorrisão aflito do Dedé que vocês já conhecem bem.

 

“Nice weather, ein minha senhora?”

 

Paguei, fui embora e nunca mais voltei naquela loja. Nunca mais.

 

 

Nos dias seguintes, durante metade da viagem, quando eu acordava o meu nariz estava sangrando. Eu realmente não sabia o que fazer e na minha cabeça, se continuasse por mais 3 dias naquele ritmo, não ia sobrar nenhuma gota dentro de mim. Até que do nada parou e no final ficou tudo bem.

Conversei com o médico e ele disse que às vezes isso pode acontecer, que é normal. Até hoje eu uso e sou muito feliz de poder sair do banho quente, andar no gelado até um sótão cheio de poeira e ficar rolando lá dentro com a certeza de que estou imune. O final foi feliz.

Menos pra moça da Armani, que deve estar até hoje sem entender o que aconteceu dentro daquele vestiário. Espero que essa mulher possa encontrar sua paz um dia.

O maior trapézio de Belém do Pará

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 
Quando se termina um namoro que já se arrastava por meses, a melhor coisa a se fazer é ocupar a mente. Ficar em casa trancado no quarto ouvindo músicas depressivas só é bonito nos filmes, na vida real o máximo que você vai conseguir é dar um tiro na própria cabeça. Voltei a sair com os amigos, comecei a ler livros e ver filmes que estavam na minha lista faz tempo, voltei a escrever no blog e…entrei pra academia!

 

 

Durante toda a minha vida, eu sempre fugi de uma boa briga pelo medo – e certeza – de que ia levar uma surra tão grande que até os meus FILHOS iam nascer com hematomas. O tempo ia passando, cada vez mais amigos meus iam entrando para a academia e eu ia notando como isso de alguma forma afetava completamente não só o corpo mas a mente deles: na primeira semana, os comentários eram sempre “putz, tô doído demais, essa academia tá me matando”. Na segunda semana, eles já chegavam com os ombros visivelmente mais largos e dizendo “rapaz, academia é muito bom”. No segundo mês, as primeiras camisetas regata já estavam sendo usadas, sendo possível ver os primeiros músculos tomando forma nos braços.

Por volta do terceiro ou quarto mês, as regatas já davam lugar a ABADÁS, e os comentários passaram a ser coisas como “abjhbabjabja açaí com guaraná rhuahuahuahua” e “bajhabbjaba WHEY COM GRANOLA BJAABBAJBABAABA”.

A partir daí, meu amigo, foi ladeira abaixo: as camisetas foram ficando menores até sumirem de vez, os punhos não se abriam e os braços não fechavam, e quando eu me dei conta meus amigos andavam do meu lado sem camiseta exalando testosterona e Whey Protein enquanto eu continuava o mesmo nugget de frango de sempre.

Isso tudo fez com que eu formasse a ideia de que a academia era algum tipo de instituição maligna e que alguma coisa suspeita definitivamente acontecia ali, uma fábrica de Léos Stronda. Talvez fosse alguma coisa na água do bebedouro ou na música eletrônica ambiente, ou talvez as pessoas só ficassem assim de tanto cheirar o álcool usado pra limpar os equipamentos. Enfim. Mas mesmo assim, na cara e na coragem, decidi me inscrever na academia aqui perto de casa e seja o que deus quiser.

O primeiro tapa na cara veio mesmo quando me disseram que eu não podia malhar de calças jeans. Certo, tive então que comprar bermudas, camisetas de exercícios e qualquer outro tênis que não fosse All Star. O primeiro dia da academia chegou, e logo saí de casa triunfante com meus fones de ouvido e adentrei no recinto assim:

 

 – olá amigos da academia

 

Achei que ia apanhar nesse dia.

Um dos meus maiores medos de entrar na academia era justamente que as pessoas ficassem olhando pra mim e me julgando dos pés à cabeça, mas, assim como em toda a minha vida, ninguém reparou em mim. Comecei a malhar já faz um tempinho e agora já acostumei com rotina de treinos, mas no começo sempre voltava pra casa como se tivesse sido surpreendido por um grupo de caminhoneiros em um banheiro de posto de beira de estrada, espancado, carregado por um lance de escadas acima, jogado pelo mesmo lance de escadas abaixo, rolado até a rua e então atropelado pelos mesmos caminhoneiros fugindo no caminhão.

Aliás, é engraçado reparar nos vários tipos de pessoas que frequentavam o mesmo lugar que eu, e, como aqui neste blog somos adeptos do empirismo (leia-se: cago regra mesmo), tomo a minha experiência pessoal como universal: em qualquer academia de qualquer lugar do mundo, sempre tem aquele cara (ou grupo de caras) que, quando você chega, ele já está lá. Quando você sai, ele continua lá. Quando você passa de carro no final de semana na frente da academia fechada e olha pela janela, ELE AINDA CONTINUA LÁ.

É aquele cara que passou tanto tempo levantando pesos e tomando doses cavalares de proteína todos os dias que seu corpo sofreu mutações e criou músculos até onde não tem – ou não deveria ter. É o tipo de gente que volta e meia você aparece no jornal com uma necrose bizarra se espalhando pelo corpo porque um belo dia achou que injetar óleo de cozinha com três partes de anabolizante pra cavalo na batata da perna seria uma boa ideia.

 

 imagem ilustrativa

 

Tem essa garota na minha academia. Mais ou menos a minha idade, malha no mesmo horário que eu. Não faço a menor ideia do nome, mas por algum motivo imagino que seja bem bonito. Passei dias semanas elaborando na minha cabeça dezenas de frases que pudessem iniciar um possível diálogo no mínimo divertido, mas até então o melhor que eu tinha conseguido foi “oi, me empresta o álcool?”.

Um dia, finalmente reuni coragem o suficiente pra ir até lá mostrar o cara legal que eu sou. Levantei da máquina de supino, fiz meu caminho pelos diversos obstáculos da academia, desviando de pesos sendo abaixados e pés puxando cordas e braços levantando halteres – caminhar por uma academia pode ser tão perigoso quanto aquelas gincanas do Silvio Santos. Enfim, me aproximei enquanto ela descansava sentada no equipamento, e disse:

Oi!

Então, só por curiosidade, olhei pra quantidade de barras que ela levantava e…Bom, deixa pra lá.

… me empresta o álcool?

Depois desse dia, passei a malhar sempre do outro lado da academia.

Autoescola

Texto originalmente publicado no dia 08 de julho de 2014

 
Existem algumas convenções sociais que me deixam chateado com a humanidade como um todo. Uma delas é o fato de que no Brasil, com 18 anos, você já tem que estar dirigindo por aí. Eu não gosto de dirigir, então pense na minha situação ao perceber que a merda da maioridade tinha chegado e, a menos que eu fosse um motorista habilitado, eu não teria um carro para 1) me locomover com facilidade entre grandes distâncias 2) ~pegar mulherzinha na baladinha monstra de leveee rs~ 3) tunar.

 

Eu não poderia ser esse cara

 

Como eu não queria ser um perdedor, procurei o melhor curso de habilitação da minha cidade para me matricular. Não sei o que se passava naquele lugar, mas aquela era uma autoescola EXTREMAMENTE FELIZ. E não de uma maneira bacana, tipo a vida dos Ursinhos Carinhosos. Era um feliz meio incômodo, tinha aquela pitada de psicopatia naqueles funcionários.

 

 VRUM VRUM VRUM NOSSO CURSO NÃO É QUALQUER UM

 

No ato da matrícula foi aquele mar de novidades. Ganhei caneta, caderninho, apostila para aulas teóricas, chaveiro e camiseta. Se eu recebesse um beijo na boca ali mesmo, não ficaria surpreso. A primeira coisa que me informaram é que, por conta da procura, eles tinham um número muito alto de alunos e que era pra eu decidir meu turno de aulas antecipadamente. Escolhi manhã e tarde para acabar com tudo aquilo o quanto antes. Eu estava matriculado.

 

 BI BI FOM FOM VOCÊ SERÁ UM CONDUTOR BOM

 

Meu primeiro erro foi esse: ter escolhido a porra do turno da manhã. Nessa época eu ainda estava em um quadro pesado de depressão e, cá entre nós, vou lhes dar um conselho: se você está com ódio do mundo, não invente de acordar cedo. Acordar cedo só vai te fazer virar um potencial monstro. Sabe quem acordava cedo? Isso mesmo. O assassino de John Lennon, Hitler e Scar, o tio de Simba.

 

 É isso o que acontece quando você acorda cedo

 

Vou pular aqui toda a parte dos exames médicos por dois motivos: primeiro porque aquele teste psicotécnico imbecil só vai te reprovar se você for, sei lá, uma cenoura. E segundo porque eu só passei no teste de daltonismo chutando as respostas. Não quero falar sobre isso para evitar problemas com os tiras. Vamos direto para as aulas teóricas, ok?

No meu primeiro dia, às 8 da manhã (ô caralha de horário infeliz) eu estava lá e conheceria os meus colegas de classe. Percebi que aquilo não era um pré-vestibular e eles não eram exatamente todos jovens e elegantes. Na verdade isso era o que menos tinha. A maioria lá tinha pelo menos uns 30, 40 anos. E, como toda pessoa de meia-idade começando algo novo, eles estavam quase tendo um derrame de tanta ansiedade.

 
E eu putaço pois queria estar dormindo.
 

O bom de estar em uma turma em que pessoas da minha idade são raras, é que eu, desde o primeiro dia de aula, não precisei abrir a boca uma vez sequer. Velho gosta de prosa, gosta de falar dos vizinhos que já bateram o carro e desde então nunca deixaram de usar cinto de segurança. Velho gosta dessas coisas. Aquela classe era um mar de sabedoria popular. Tinha um senhor de uns 52 anos de idade, pele queimada de sol, bigode e aquela camisa regata toda feita de furinhos, ele sempre tinha uma história pra contar, um causo da vizinhança, um causo da vida. Seu nome era Jair. Conhecido pela turma como SEU JAIR.

Foram 45 horas de aulas teóricas. 45 histórias do Seu Jair. Chegou num ponto em que os professores já paravam a aula e falavam “lá veeem história do Seu Jair! :D” junto com os alunos, igual a uma porra de esquete do Zorra Total. Aquilo era um pesadelo e minha única alternativa era esperar o tempo passar. Nunca dormi em sala pois achava desrespeitoso. Por outro lado, essas aulas serviram para eu chegar ao final de Cut The Rope no iPod com todas as estrelinhas. 45h passadas e algumas semanas depois eu estava livre. Acabara a teoria (segura aí esse pretérito mais-que-perfeito). ERA HORA DE DIRIGIR.

 

 ebaaaaa

 

Mas peraí, vamos devagar.

Imagine a seguinte situação: sua alma está definhando nas profundezas do inferno por séculos e você finalmente acha que alcançou uma maneira de sair dali. Quando você está no grande portão do Inferno, praticamente se despedindo, Lúcifer te dá um tapinha no ombro e diz “vai pra onde meu nêgo fera? Estamos só começando”. Foi o que aconteceu comigo. Se eu achava que as aulas teóricas davam dor de cabeça, as aulas práticas eram um aneurisma.

Como a “procura era muito grande e tinham muitos alunos”, você tinha que marcar para ter as aulas práticas no máximo uma vez por semana porque a autoescola só tinha uns 4 carros. Vou repetir: QUATRO CARROS. Uma autoescola. Uma escola de autos. Com apenas quatro automóveis. Fico me perguntando como foi a reunião de planejamento dos imbecis responsáveis por isso.

 
– Ow, to pensando em abrir uma autoescola.
– Olha aí, interessante. O que falta?
– Os carros.
– Ah, é o de menos. Vai ter bebedouro?
– Vai, três.
– Alá, porra. Tá pronta já. Que mané carro o quê…
– Mas…
– Esquece carro, rapaz. Tudo pra você é carro eu hein…
 

Era chato e dificultava o aprendizado? Sim. Me deixou menos empolgado no primeiro dia? Não. Cheguei que nem criança em festa de aniversário, alucinadaça. Eu queria era pegar no volante, mandar uns drifts e ser aplaudido pelas ruas da cidade. Fui até com uma jaqueta maneira pra me sentir em Velozes e Furiosos. Ninguém me segurava.

 

 Eu antes de começar a aula

 

A realidade foi outra. Eu deixei o carro morrer umas 67 vezes sem nem ter saído do lugar. Soltar a embreagem devagar pra mim era um sonho inalcançável. Não tinha delicadeza. Ou eu tinha o sangue de um condutor de máquinas agrícolas correndo em minhas veias ou eu era um retardado mental. Após uma breve pensada comigo mesmo, concluí que ninguém na minha família havia manejado uma máquina agrícola na vida. Eu era só um retardado mental. Todo o meu espírito Need For Speed tinha ido embora com a minha dignidade logo no primeiro dia.

 

Eu antes de terminar a aula

 

Foram meses de aula prática até o ponto em que dirigia como um habilidoso piloto e manobrava como um experiente valet. Minhas balizas? Meu amigo, se o Seu Jair estivesse comigo naquelas aulas ele diria que jamais tinha visto balizas tão belas em sua vida. Mas é importante dar créditos ao meu professor.

O método de ensino dele não era o convencional: ele me colocava em aventuras. Eu tinha que dirigir pelos cantos mais barra-pesada da cidade. Tudo isso ao som dos batidões de funk do celular sem fone dele e ouvindo os assuntos que ele puxava sobre quantas alunas tinha comido naquele carro. Foi a primeira, inclusive, vez que ouvi o termo “MARCHETA”, que consiste no ato da aluna dirigir com uma mão no volante e outra na marcha (sendo “marcha” o nome que ele dava pro próprio pênis).

Uma coisa é bem verdade: você não vira professor de autoescola porque gosta. Você vira professor de autoescola pra comer alunas. Ele me disse aquilo uma vez e nunca mais saiu da minha cabeça o que diabos rolava naquele banco de trás. Teve uma vez em que ele falou “vamos dirigir pro outro lado da cidade, quero conhecer uma menininha que falou comigo no Facebook”. Sério. Eu tinha virado motorista particular daquele porra. O levei até a casa da garota com ele falando “deixa o motor ligado porque não sei se ela tem marido, se der qualquer merda tu arranca”.

 

 Essa cara foi a minha única reação

 

Uma coisa é certa: ele me ensinou da melhor maneira a lidar com a vida real no trânsito e pelo menos eu não estava inseguro para o grande dia da prova prática. Resolveu alguma coisa? Resolveu foi porra nenhuma. Se nas ruas eu era um Tom Cruise em Top Gun, no dia da prova eu só colocava a chave no carro e o resultado era esse:

 

 

Eu reprovei DUAS VEZES nesta bosta e não vou mentir, na primeira eu mereci. Pra minha baliza ficar pior só faltou eu ter atropelado uma velha cadeirante que estivesse passando por ali. Saí do carro com cara de “ok eu fiz merda, volto na próxima”.

Na segunda vez, o fiscal arrombado já começou respondendo o meu bom dia com um “hoje eu não to bem não”. Fiz a prova inteira com vontade de fazer cocô de tanto nervoso. Fiz o percurso de maneira impecável e na reta final ele me mandou parar. Perguntei o motivo.

 
– Tu não deu seta.
– Era uma reta. Não é preciso dar seta nessa reta. (Não era preciso)
– Eu que digo se é ou não.
– Tá, mas uma seta não me reprova. Só errei isso.
– Vai discutir comigo? Errou baliza então.
 

Ele marcou SEM PUDOR NENHUM um ponto que não existia ali na hora para mostrar que estava certo. Eu realmente não tinha o que fazer, tendo em vista que assassinatos não são bem vistos na sociedade atual. Ele trocou de lugar comigo, eu fui pro carona e ele ligou o carro. Na hora de dar partida ELE DEIXOU O CARRO MORRER. Fiquei olhando pra ele com cara de “E AGORA HEIN, Ô SAFADÃO DO TEXAS?” e ele fingiu que não aconteceu nada. Ele estava em um dia ruim e me fodi por causa disso.

Vale lembrar que entre uma prova e outra rolava um gap de um mês e pouco. O resultado disso foi: eu ficava cada vez mais inseguro por causa do espaço de tempo e cada vez mais nervoso, tendo em vista que todo esse tempo de aulas durou quase um ano (que é o prazo que você tem para conseguir sua habilitação). Se eu não passasse nessa, eu teria que começar TUDO DE NOVO.

Havia chegado o grande dia. Estava vazio. Eu aprendi com a vida que fiscais de mau humor tendem a te prejudicar. Chamaram meu nome. Puta merda, era agora. Conheci meu fiscal e ele era um senhor muito bem humorado. Ele estava conversando com um amigo enquanto seguíamos em direção ao carro:

 
– Rapaz, esse horário que o DETRAN inventou é bem ingrato né
– Nem me fala. Sem contar com esse Sol quente.
– Antes a gente fazia 10 alunos e ponto final. Agora não.
– É, quem me dera poder resolver isso.
 

NA HORA meu instinto falou mais alto e entrei na conversa com um deles.

 
– Isso aí é condição indevida de trabalho, dá processo. – Eu disse
– Sério isso? Aí, Hamilton. O cara é advogado. Fala mais.
 

Eu não era advogado, mas pelo visto eu sabia tanto de leis quanto eles, então resolvi que era hora de fingir. Não só pela minha habilitação mas pelo olhar esperançoso de Hamilton, o fiscal. Durante todo o percurso fui conversando com eles sobre como eles deveriam recorrer à justiça, inventei códigos penais, termos e instruções. Eu ajudando eles, eles me ajudando na prova com uns “opa, liga a setinha”.

Cheguei ao final sem perder nenhum ponto e eles chegaram ao final com uma motivação trabalhista nova em suas vidas. Todos nós ganhamos e hoje sou habilitado. Ainda sinto uma emoção no peito quando lembro de nos despedirmos ali e Hamilton falar “vai com Deus, doutor!”. Pobre Hamilton.

 
 
Ah, sim. Até hoje eu detesto dirigir.

As meninas do Leblon não olham mais pra mim

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 

No começo do ano, depois de confirmar minhas suspeitas de que o meu grau de miopia tinha aumentado, decidi voltar a usar óculos. Viver com miopia, mesmo que pouquinha como é o meu caso, é um saco principalmente em duas situações: a) quando você quer ver um filme, mas tem que ficar apertando os olhos até encontrar um ponto em que as legendas fiquem com o mínimo de foco necessário para serem lidas; b) você tá numa parada escura à noite e tem que ficar apertando os seus olhinhos pra enxergar o nome do ônibus que tá vindo pra saber se é o seu, mas quando finalmente consegue enxergar já é tarde demais porque ele já tá quase em cima de você e aí você tem que sair correndo atrás dele porque ele parou (QUANDO para) a 5 metros de distância de você, mas aí você tropeça numa poça de água imunda e cai. Ei, isso é mais comum do que vocês imaginam!

Por um breve momento entre 2008 e 2009, eu usava óculos. Não era muito bonito – na verdade, como tudo em mim na minha adolescência, era bem feinho, coitado. Até que um dia alguém roubou ele de mim. Sim, ROUBOU. Se esgueirou pra dentro da sala quando não tinha ninguém, braços estendidos e os dedinhos retorcidos daquele jeito típico de alguém que vai fazer alguma maldade, abriu minha mochila, abriu meu estojo e colocou os óculos dentro do saco que trazia nas costas. Certo, eu sei que não foi assim, mas é um jeito muito mais legal de imaginar uma coisa tão idiota quanto alguém roubando os seus óculos. Hoje em dia eu fico pensando: que tipo de pessoa você tem que ser pra roubar os óculos de outra? Ou alguém muito cruel, do tipo que também rouba bengalas, muletas, cadeiras de rodas, incubadoras e máquinas de ressonância eletromagnética; ou um ladrão com coincidentemente o mesmo grau de miopia que eu – o que eu acho mais improvável. Sei lá.

Depois da perda dos meus queridos óculos, eu passei esse tempo todo sem nada na cara (nem mesmo vergonha, risos), até que situações como as descritas no primeiro parágrafo passaram a ser tão frequentes que eu decidi dar um basta e recuperar a porcentagem da minha visão que me foi negada pela genética. Aí eu esbarrei no primeiro problema: ok, que modelo usar?

Internet afora, eu encontrei dicas de que formato de óculos usar de acordo com o formato do seu rosto. O problema é QUAL DESSAS É A MINHA CABEÇA?

 

 

Fui analisar minha cabeça na frente do espelho de vários ângulos e achei ela meio quadrada, mas também meio redonda, mas ao mesmo tempo meio coração mas um pouco mais oval?? Perguntei pra cinco pessoas e cada uma disse um formato diferente (inclusive “de banana”, o qual, como vocês podem ver, não está representado na imagem então não existe), o que me leva a crer de que a minha cabeça é provavelmente um dodecaedro. Não existe muita informação sobre óculos para pessoas com esse formato de cabeça na internet, então tive que deixar meu coração me guiar na escolha.

Aí eu encontrei o modelo que eu queria. Esse aqui:

 
 

 

Modelo escolhido, próxima fase: encontrar a versão física do mesmo. O que significa que eu teria de, mais uma vez, enfrentar uma das minhas maiores fobias: óticas. E eu tô usando muito dois pontos, né? Olha só: desculpa.

Eu tenho um sério problema com óticas, não com as óticas em si, mas com a quantidade absurda de espelhos que elas costumam usar na decoração. Eu não sou exatamente fã da minha aparência, então toda vez que eu entro em uma ótica, pra onde quer que eu olhe, todos os lados, tudo o que eu vejo é a minha cara, e isso não só me incomoda como meio que deprime também. Entrar numa ótica consegue ser ainda pior do que entrar numa Casa dos Espelhos, porque numa ótica a única deformação está em você mesmo. Isso sem falar naqueles espelhos de aumento pra maquiagem que tem em TODAS as óticas pra você testar os óculos. Esse tipo de espelho foi projetado com o único propósito de acabar com o seu dia.

 

Esses filhos da puta. Se acham tão espertos.

 

Você sabe quando a câmera dá um close fechado no Bob Esponja e ele vira um desenho ultrarrealista? É exatamente assim que eu me sinto quando olho num desses.

Fora isso, ainda existem os vendedores de óticas, que simplesmente não falam a mesma língua que você. Cheguei na ótica, mostrei a imagem no celular, disse que queria um modelo como esse da foto, sem edição, sem firula, sem porra nenhuma. Discreto.

 
 

― ah sim sr nós temos um igualzinho eu vou buscar no deposito pro sr e já trago, ok?
― Tá bem, obrigado.
― aqui sr eu encontrei estes modelos o sr poderia estar dando uma olhada

 

― Errr, eu vou dar mais uma olhada por aí e mais tarde eu volto, pode ser?

 

Mas podia ser bem pior: todos os vendedores de ótica poderiam ser vendedores da Chilli Beans.

Chilli Beans funciona assim: existe um área ao redor de todas as Chilli Beans com um raio de cerca de 5 metros da entrada pra fora. Se você, ao passar pela frente de uma, desavisadamente pisar com o dedinho do pé dentro dessa área, um hipster bombado de 1,90m de coque samurai e tatuagens em todas as áreas visíveis do corpo imediatamente surge e te leva contra a sua vontade pra conhecer a toda a linha de óculos da coleção Outono/Inverno que acaba de chegar na loja e que vai combinar PERFEITAMENTE com seu o estilo.

 

― BOM DIA SR VC NAO GOSTARIA DE DAR UMA CONFERIDA NA NOSSA NOVA COLEÇÃO IMPERDIVEL QUE TÁ CHEGANDO HOJE??
― opa obrigado mas eu meio que tô com pressa rs
― SÓ DAR UMA CONFERIDA SEM COMPROMISSO OLHA AQUI ESSE MODELO COMO COMBINA PERFEITO COM SEU ROSTO VAMO TESTAR?
― olha desculpa mas eu to sem tempo minha mãe acabou de sofrer um acidente de carro e tA no hospital entre a vida e a morte eu tenho que
― FICOU SEN SA CIO NAL EM VOCE SUPER TRANSADO E TÁ EM PROMOÇÃO EIN 40% OFF À VISTA 2X DE 120,00 SEM JUROS NO CARTÃO SE VOCE QUISER EU EMBALO AGORA MESMO
― amigo eu nem preciso usar óculos!!!
― AQUI SEU NOVISSIMO ÓCULOS COM A QUALIDADE CHILLI BEANS™ 1 ANO DE GARANTIA E AQUI A SUA CARTEIRA MUITO OBRIGADO VOCE GOSTARIA DE CONHECER TAMBEM NOSSA NOVA COLEÇÃO DE RELOGIOS QUE BRILHAM NO ESCURO?

 

Eu tenho uma teoria sobre vendedores da Chilli Beans. Eu acho que lá atrás, no fundo de toda loja, do outro lado daquela portinha de onde saem tantos vendedores, existe na verdade um portal pro inferno, e os vendedores são nada menos que as almas dos condenados que fizeram um trato com Satanás de serem libertados da danação eterna se conseguirem atingir a cota diária de vendas. Por trás de cada “sem compromisso, sem compromisso” está um grito desesperado de socorro, e se você olhar bem no fundo dos olhos de um vendedor, você vai ver o pedido de ajuda de uma alma miserável que só quer, enfim, descansar. Já reparou como sempre que você passa na frente de uma Chilli Beans os vendedores NUNCA são os mesmos de 20 minutos atrás? Se não, vai começar a reparar agora.

No final das contas, eu acabei encontrando uma armação até que simpática em uma ótica perto de casa. A armação parece com a que eu queria, só que maior e mais quadrada do que eu gostaria, o que às vezes me faz sentir meio ridículo, como uma hipster retardada que usa óculos vintage sem grau, ama café, Clube da Luta e passa o dia no Tumblr. Ok, de fato eu tô tomando café agora mesmo, tenho livro e filme do Clube da Luta e passo o dia no Tumblr, mas mas MAS OS MEUS ÓCULOS TÊM GRAU. E eu só os uso pra ver filme e não cair na poça de água da parada de ônibus, então não julguem a mim como eu gosto de julgar os outros.

Enfim, é muito bom voltar a enxergar. Depois de tanto tempo sem poder distinguir qualquer coisa escrita a uma certa distância de mim, usar uma lente com o meu grau é como ver tudo em uma TV full HD porreta. Quando eu coloquei os óculos já prontos pela primeira vez na ótica e voltei a enxergar depois de tantos anos, me emocionei tanto que comecei a chorar, então as vendedoras se emocionaram e choraram junto comigo, e todos nós nos abraçamos e choramos e sorrimos juntos, eu, as vendedoras, uma freira e um pequeno grupo de órfãs francesas que passavam pela rua naquele momento com um filhote de cãozinho muito esperto. Foi muito bonito, e uma versão deste post dirigida pelo Steven Spielberg já está em pré-produção, com Jake Gyllenhaal no papel de Luke e Nicolas Cage no papel de óculos.

 

13 parentes e um carnaval

Texto originalmente publicado no dia 08 de fevereiro de 2010

 
O Carnaval tá aí. Galera já se preparando para viajar e cair na perdição por uma semana. É um fenômeno incrível porque nas estradas, quando você olha pros carros ao seu redor, quase todos estão sem o tampo do porta-malas, de forma que você pode ver pelo vidro traseiro a mala socada de edredons, ventilador, colchonete e tudo aquilo que faz parecer que a pessoa tá fugindo de um apocalipse zumbi.

Eu, como todo bom carnavalesco, vou para Cabo Frio. Não gosto de zona, não gosto de calor e não gosto de praia. Pra minha sorte, em Cabo Frio tem tudo isso multiplicado por 7. Caso você não seja do Rio de Janeiro, eu te explico: Cabo Frio é uma cidade litorânea da Região dos Lagos com praias de água cristalina, areia branquinha e todos os moradores de Minas Gerais juntos.

Sério. Em época de feriado tem mais mineiro em Cabo Frio do que em Minas.

 

Olha que bonito

 

A minha família vai para lá TODO. SANTO. ANO. Carnaval em qualquer outro lugar passou a ser lenda urbana. O bacana é que eles não alugam um apartamento pra uns três, quatro pessoas. É papo de 13 cabeças num apartamento só. Sem sacanagem, parece uma porra de uma favela indiana. A parentada se diverte mesmo assim. “Só vamos usar pra dormir mesmo”, dizem. Nessa hora eles esquecem que cagam, que tomam banho e que precisam descansar.

Meu amigo, 13 pessoas pra dois banheiros está abaixo do nível de dignidade humana. Experiência própria. Lembra da abertura de O Rei do Gado? Aquele monte de bovino espremido andando na mesma direção? Era a gente voltando da praia pra tomar banho em casa.

 

Meu mundo, minha vida.

 

MAS APARTAMENTO É SÓ PRA DORMIR, NÃO É MESMO? Então vamos pras ruas. Em época de Carnaval meio que rola um senso comum de que ninguém deve se importar com porra nenhuma. Ninguém deve raciocinar nem fazer o que faria normalmente no período “Não-Carnaval” do ano. Um bom exemplo é você ir, sei lá, a um banco para sacar a grana da Kaiser e no caixa ao lado tem um cara só de sunga. Vai comprar dois reais de pão e na fila tem três cara de sunga. Isso às 7 da manhã. Até na igreja tem gente já passando o protetor pra não perder tempo na praia. Porra, até o padre usa uma berma de tactel da Billabong por baixo da batina.

 

N O R M A L

 

Mas é na praia que as coisas realmente acontecem. Você e os 13 parentes equipados com umas 70 cadeiras e guarda-sóis dão a primeira pisada na areia. A areia, claro, está quente que nem os nove círculos do Inferno. A manada começa a andar rápido exclamando “Ai, cacete” e “Quente pra caralho essa areia aí” no meio daquele mundo de guarda-sóis. Esbarra aqui, esbarra ali, joga areia na gorda deitada, esbarra mais e acha o ponto PERFEITO: de frente pro mar ao lado da barraca de um vendedor de cocos chamado Moreno.

É aquela festa. Criançada pedindo picolé pros pais, adultos ajeitando cadeiras e barracas, criançada se cagando com o picolé que ganhou dos pais e, com alguma sorte, o caçula some porque se perdeu quando voltava da água. Mãe chorando, salva-vidas pedindo informações…aquele show até a criança retardada reaparecer gritando “EU SE PERDI MÃE“.

Algumas horas depois, a supracitada localização perfeita (ao lado da barraca do Moreno, onde o seu pai provavelmente já está bebericando e conversando com o próprio Moreno sobre o Botafogo) se torna o caos: a maré subiu.

Que espetáculo! QUE ESPETÁCULO! Aquela onda vem sem piedade, como um cavaleiro do Apocalipse. Alguém da linha de frente das barracas grita o óbvio: “Ó A OOOONDA!!!“. E aí, companheiros, forte abraço. Mulherada levantando desesperadamente das cangas, homens rindo porque já estão bêbados, criançada sumindo de novo e chinelos tentando fugir para uma nova vida no mar, esperançosos. Nessa hora ninguém é de ninguém. Cada um por si. Se o mar levou teus pertences é porque Iemanjá quis assim.

Ao escurecer, todo mundo resolve ir embora. Pessoal enche as garrafinhas de Guaraviton com aquela água do raso, cheia de areia, para “limpar” os pés na orla, ir pra casa, tomar banho. E aí é aquela história dos gados…

 

Nem o Golden Antônio Fagundes resolveria a questão do nosso banheiro.

 

E fechando com chave de ouro, você tem que dormir pouco porque sempre tem aquele caralho daquele tio que acorda todo mundo cedo gritando “boooora caminhar“, “booooora pra praia” ou “tu veio pra dormir ou pra curtir?

 
 
Eu amo o Carnaval.