As meninas do Leblon não olham mais pra mim

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 

No começo do ano, depois de confirmar minhas suspeitas de que o meu grau de miopia tinha aumentado, decidi voltar a usar óculos. Viver com miopia, mesmo que pouquinha como é o meu caso, é um saco principalmente em duas situações: a) quando você quer ver um filme, mas tem que ficar apertando os olhos até encontrar um ponto em que as legendas fiquem com o mínimo de foco necessário para serem lidas; b) você tá numa parada escura à noite e tem que ficar apertando os seus olhinhos pra enxergar o nome do ônibus que tá vindo pra saber se é o seu, mas quando finalmente consegue enxergar já é tarde demais porque ele já tá quase em cima de você e aí você tem que sair correndo atrás dele porque ele parou (QUANDO para) a 5 metros de distância de você, mas aí você tropeça numa poça de água imunda e cai. Ei, isso é mais comum do que vocês imaginam!

Por um breve momento entre 2008 e 2009, eu usava óculos. Não era muito bonito – na verdade, como tudo em mim na minha adolescência, era bem feinho, coitado. Até que um dia alguém roubou ele de mim. Sim, ROUBOU. Se esgueirou pra dentro da sala quando não tinha ninguém, braços estendidos e os dedinhos retorcidos daquele jeito típico de alguém que vai fazer alguma maldade, abriu minha mochila, abriu meu estojo e colocou os óculos dentro do saco que trazia nas costas. Certo, eu sei que não foi assim, mas é um jeito muito mais legal de imaginar uma coisa tão idiota quanto alguém roubando os seus óculos. Hoje em dia eu fico pensando: que tipo de pessoa você tem que ser pra roubar os óculos de outra? Ou alguém muito cruel, do tipo que também rouba bengalas, muletas, cadeiras de rodas, incubadoras e máquinas de ressonância eletromagnética; ou um ladrão com coincidentemente o mesmo grau de miopia que eu – o que eu acho mais improvável. Sei lá.

Depois da perda dos meus queridos óculos, eu passei esse tempo todo sem nada na cara (nem mesmo vergonha, risos), até que situações como as descritas no primeiro parágrafo passaram a ser tão frequentes que eu decidi dar um basta e recuperar a porcentagem da minha visão que me foi negada pela genética. Aí eu esbarrei no primeiro problema: ok, que modelo usar?

Internet afora, eu encontrei dicas de que formato de óculos usar de acordo com o formato do seu rosto. O problema é QUAL DESSAS É A MINHA CABEÇA?

 

 

Fui analisar minha cabeça na frente do espelho de vários ângulos e achei ela meio quadrada, mas também meio redonda, mas ao mesmo tempo meio coração mas um pouco mais oval?? Perguntei pra cinco pessoas e cada uma disse um formato diferente (inclusive “de banana”, o qual, como vocês podem ver, não está representado na imagem então não existe), o que me leva a crer de que a minha cabeça é provavelmente um dodecaedro. Não existe muita informação sobre óculos para pessoas com esse formato de cabeça na internet, então tive que deixar meu coração me guiar na escolha.

Aí eu encontrei o modelo que eu queria. Esse aqui:

 
 

 

Modelo escolhido, próxima fase: encontrar a versão física do mesmo. O que significa que eu teria de, mais uma vez, enfrentar uma das minhas maiores fobias: óticas. E eu tô usando muito dois pontos, né? Olha só: desculpa.

Eu tenho um sério problema com óticas, não com as óticas em si, mas com a quantidade absurda de espelhos que elas costumam usar na decoração. Eu não sou exatamente fã da minha aparência, então toda vez que eu entro em uma ótica, pra onde quer que eu olhe, todos os lados, tudo o que eu vejo é a minha cara, e isso não só me incomoda como meio que deprime também. Entrar numa ótica consegue ser ainda pior do que entrar numa Casa dos Espelhos, porque numa ótica a única deformação está em você mesmo. Isso sem falar naqueles espelhos de aumento pra maquiagem que tem em TODAS as óticas pra você testar os óculos. Esse tipo de espelho foi projetado com o único propósito de acabar com o seu dia.

 

Esses filhos da puta. Se acham tão espertos.

 

Você sabe quando a câmera dá um close fechado no Bob Esponja e ele vira um desenho ultrarrealista? É exatamente assim que eu me sinto quando olho num desses.

Fora isso, ainda existem os vendedores de óticas, que simplesmente não falam a mesma língua que você. Cheguei na ótica, mostrei a imagem no celular, disse que queria um modelo como esse da foto, sem edição, sem firula, sem porra nenhuma. Discreto.

 
 

― ah sim sr nós temos um igualzinho eu vou buscar no deposito pro sr e já trago, ok?
― Tá bem, obrigado.
― aqui sr eu encontrei estes modelos o sr poderia estar dando uma olhada

 

― Errr, eu vou dar mais uma olhada por aí e mais tarde eu volto, pode ser?

 

Mas podia ser bem pior: todos os vendedores de ótica poderiam ser vendedores da Chilli Beans.

Chilli Beans funciona assim: existe um área ao redor de todas as Chilli Beans com um raio de cerca de 5 metros da entrada pra fora. Se você, ao passar pela frente de uma, desavisadamente pisar com o dedinho do pé dentro dessa área, um hipster bombado de 1,90m de coque samurai e tatuagens em todas as áreas visíveis do corpo imediatamente surge e te leva contra a sua vontade pra conhecer a toda a linha de óculos da coleção Outono/Inverno que acaba de chegar na loja e que vai combinar PERFEITAMENTE com seu o estilo.

 

― BOM DIA SR VC NAO GOSTARIA DE DAR UMA CONFERIDA NA NOSSA NOVA COLEÇÃO IMPERDIVEL QUE TÁ CHEGANDO HOJE??
― opa obrigado mas eu meio que tô com pressa rs
― SÓ DAR UMA CONFERIDA SEM COMPROMISSO OLHA AQUI ESSE MODELO COMO COMBINA PERFEITO COM SEU ROSTO VAMO TESTAR?
― olha desculpa mas eu to sem tempo minha mãe acabou de sofrer um acidente de carro e tA no hospital entre a vida e a morte eu tenho que
― FICOU SEN SA CIO NAL EM VOCE SUPER TRANSADO E TÁ EM PROMOÇÃO EIN 40% OFF À VISTA 2X DE 120,00 SEM JUROS NO CARTÃO SE VOCE QUISER EU EMBALO AGORA MESMO
― amigo eu nem preciso usar óculos!!!
― AQUI SEU NOVISSIMO ÓCULOS COM A QUALIDADE CHILLI BEANS™ 1 ANO DE GARANTIA E AQUI A SUA CARTEIRA MUITO OBRIGADO VOCE GOSTARIA DE CONHECER TAMBEM NOSSA NOVA COLEÇÃO DE RELOGIOS QUE BRILHAM NO ESCURO?

 

Eu tenho uma teoria sobre vendedores da Chilli Beans. Eu acho que lá atrás, no fundo de toda loja, do outro lado daquela portinha de onde saem tantos vendedores, existe na verdade um portal pro inferno, e os vendedores são nada menos que as almas dos condenados que fizeram um trato com Satanás de serem libertados da danação eterna se conseguirem atingir a cota diária de vendas. Por trás de cada “sem compromisso, sem compromisso” está um grito desesperado de socorro, e se você olhar bem no fundo dos olhos de um vendedor, você vai ver o pedido de ajuda de uma alma miserável que só quer, enfim, descansar. Já reparou como sempre que você passa na frente de uma Chilli Beans os vendedores NUNCA são os mesmos de 20 minutos atrás? Se não, vai começar a reparar agora.

No final das contas, eu acabei encontrando uma armação até que simpática em uma ótica perto de casa. A armação parece com a que eu queria, só que maior e mais quadrada do que eu gostaria, o que às vezes me faz sentir meio ridículo, como uma hipster retardada que usa óculos vintage sem grau, ama café, Clube da Luta e passa o dia no Tumblr. Ok, de fato eu tô tomando café agora mesmo, tenho livro e filme do Clube da Luta e passo o dia no Tumblr, mas mas MAS OS MEUS ÓCULOS TÊM GRAU. E eu só os uso pra ver filme e não cair na poça de água da parada de ônibus, então não julguem a mim como eu gosto de julgar os outros.

Enfim, é muito bom voltar a enxergar. Depois de tanto tempo sem poder distinguir qualquer coisa escrita a uma certa distância de mim, usar uma lente com o meu grau é como ver tudo em uma TV full HD porreta. Quando eu coloquei os óculos já prontos pela primeira vez na ótica e voltei a enxergar depois de tantos anos, me emocionei tanto que comecei a chorar, então as vendedoras se emocionaram e choraram junto comigo, e todos nós nos abraçamos e choramos e sorrimos juntos, eu, as vendedoras, uma freira e um pequeno grupo de órfãs francesas que passavam pela rua naquele momento com um filhote de cãozinho muito esperto. Foi muito bonito, e uma versão deste post dirigida pelo Steven Spielberg já está em pré-produção, com Jake Gyllenhaal no papel de Luke e Nicolas Cage no papel de óculos.

 

13 parentes e um carnaval

Texto originalmente publicado no dia 08 de fevereiro de 2010

 
O Carnaval tá aí. Galera já se preparando para viajar e cair na perdição por uma semana. É um fenômeno incrível porque nas estradas, quando você olha pros carros ao seu redor, quase todos estão sem o tampo do porta-malas, de forma que você pode ver pelo vidro traseiro a mala socada de edredons, ventilador, colchonete e tudo aquilo que faz parecer que a pessoa tá fugindo de um apocalipse zumbi.

Eu, como todo bom carnavalesco, vou para Cabo Frio. Não gosto de zona, não gosto de calor e não gosto de praia. Pra minha sorte, em Cabo Frio tem tudo isso multiplicado por 7. Caso você não seja do Rio de Janeiro, eu te explico: Cabo Frio é uma cidade litorânea da Região dos Lagos com praias de água cristalina, areia branquinha e todos os moradores de Minas Gerais juntos.

Sério. Em época de feriado tem mais mineiro em Cabo Frio do que em Minas.

 

Olha que bonito

 

A minha família vai para lá TODO. SANTO. ANO. Carnaval em qualquer outro lugar passou a ser lenda urbana. O bacana é que eles não alugam um apartamento pra uns três, quatro pessoas. É papo de 13 cabeças num apartamento só. Sem sacanagem, parece uma porra de uma favela indiana. A parentada se diverte mesmo assim. “Só vamos usar pra dormir mesmo”, dizem. Nessa hora eles esquecem que cagam, que tomam banho e que precisam descansar.

Meu amigo, 13 pessoas pra dois banheiros está abaixo do nível de dignidade humana. Experiência própria. Lembra da abertura de O Rei do Gado? Aquele monte de bovino espremido andando na mesma direção? Era a gente voltando da praia pra tomar banho em casa.

 

Meu mundo, minha vida.

 

MAS APARTAMENTO É SÓ PRA DORMIR, NÃO É MESMO? Então vamos pras ruas. Em época de Carnaval meio que rola um senso comum de que ninguém deve se importar com porra nenhuma. Ninguém deve raciocinar nem fazer o que faria normalmente no período “Não-Carnaval” do ano. Um bom exemplo é você ir, sei lá, a um banco para sacar a grana da Kaiser e no caixa ao lado tem um cara só de sunga. Vai comprar dois reais de pão e na fila tem três cara de sunga. Isso às 7 da manhã. Até na igreja tem gente já passando o protetor pra não perder tempo na praia. Porra, até o padre usa uma berma de tactel da Billabong por baixo da batina.

 

N O R M A L

 

Mas é na praia que as coisas realmente acontecem. Você e os 13 parentes equipados com umas 70 cadeiras e guarda-sóis dão a primeira pisada na areia. A areia, claro, está quente que nem os nove círculos do Inferno. A manada começa a andar rápido exclamando “Ai, cacete” e “Quente pra caralho essa areia aí” no meio daquele mundo de guarda-sóis. Esbarra aqui, esbarra ali, joga areia na gorda deitada, esbarra mais e acha o ponto PERFEITO: de frente pro mar ao lado da barraca de um vendedor de cocos chamado Moreno.

É aquela festa. Criançada pedindo picolé pros pais, adultos ajeitando cadeiras e barracas, criançada se cagando com o picolé que ganhou dos pais e, com alguma sorte, o caçula some porque se perdeu quando voltava da água. Mãe chorando, salva-vidas pedindo informações…aquele show até a criança retardada reaparecer gritando “EU SE PERDI MÃE“.

Algumas horas depois, a supracitada localização perfeita (ao lado da barraca do Moreno, onde o seu pai provavelmente já está bebericando e conversando com o próprio Moreno sobre o Botafogo) se torna o caos: a maré subiu.

Que espetáculo! QUE ESPETÁCULO! Aquela onda vem sem piedade, como um cavaleiro do Apocalipse. Alguém da linha de frente das barracas grita o óbvio: “Ó A OOOONDA!!!“. E aí, companheiros, forte abraço. Mulherada levantando desesperadamente das cangas, homens rindo porque já estão bêbados, criançada sumindo de novo e chinelos tentando fugir para uma nova vida no mar, esperançosos. Nessa hora ninguém é de ninguém. Cada um por si. Se o mar levou teus pertences é porque Iemanjá quis assim.

Ao escurecer, todo mundo resolve ir embora. Pessoal enche as garrafinhas de Guaraviton com aquela água do raso, cheia de areia, para “limpar” os pés na orla, ir pra casa, tomar banho. E aí é aquela história dos gados…

 

Nem o Golden Antônio Fagundes resolveria a questão do nosso banheiro.

 

E fechando com chave de ouro, você tem que dormir pouco porque sempre tem aquele caralho daquele tio que acorda todo mundo cedo gritando “boooora caminhar“, “booooora pra praia” ou “tu veio pra dormir ou pra curtir?

 
 
Eu amo o Carnaval.

Como eu me tornei um pedreiro

Hoje é um dia especial.  Há uns 10, 12 anos eu lia um blog chamado “Que Diabos?” (KD, pros íntimos), do luke. Por causa dele eu comecei a ler Douglas Adams, escrever no Improbabilidade e basicamente me tornei o que sou hoje. Um lixo.

De qualquer forma, sempre fui muito fã do cara e, como tudo o que eu gosto, o KD morreu. Então decidi recuperar com o luke os melhores textos daquela época linda e postar semanalmente aqui. To me sentindo um empresário que depois de anos decide organizar a volta do Los Hermanos. Tirando o fato de que Los Hermanos é um saco e o KD é incrível. Espero que vocês o amem tanto quanto eu.

Senhoras e senhores…Lucas Guedes.

 

 

Crianças, no verão de 2012, eu estava à procura de um emprego.

Nessa sociedade em que vivemos, para termos as coisas que queremos, precisamos dessa outra coisa chamada dinheiro – o que é ótimo, afinal sem ele ainda estaríamos trocando bens de consumo por cabras ou conchinhas da praia.

Até então, eu só fazia alguns bicos sempre que podia como caixa no negócio dos meus pais, o que era mais uma forma de me manter longe da cama nas horas em que eu não estava na faculdade do que de fato um emprego. Mas chegou um momento em que o salário que me davam (que só não eram cabras ou conchinhas da praia porque aí já seria sacanagem também) já não era o suficiente. Precisava sustentar meus vícios (meus jogos e meus gibis não se comprariam sozinhos), precisava pagar minhas dívidas (até pra mulher da cantina da faculdade eu devia), precisava alimentar minha namorada, meu gato e, principalmente, alimentar a mim mesmo. Precisava de um emprego de verdade.

 

 

Além do que, eu tenho um sério problema com cartão de crédito. Cartões de crédito funcionam basicamente como viagem no tempo, só que sem aquele riscos chatos como abrir um buraco no continuum espaço-tempo ou virar seu próprio pai. Digamos que você quer fazer uma compra, mas está sem dinheiro no presente. O cartão de crédito possibilita a você (vamos chamar de Você do Presente) emprestar dinheiro de você mesmo de um futuro próximo (ou Você do Futuro Próximo) – partindo do princípio que você vai ter dinheiro num futuro próximo, lógico.

O problema é quando o dia do vencimento da fatura chega para Você do Futuro Próximo e ele só tem o valor A, sendo que o dinheiro que Você do Presente pegou emprestado foi A + B. Não tendo como pagar o valor total, o Você do Futuro Próximo resolve pagar só com o que tem disponível no momento, mas promete apertar o cinto pelo resto do mês pra juntar o resto da grana necessária para que Você do Futuro Distante possa pagar a dívida no próximo mês. Aí a próxima fatura chega no futuro distante, mas Você do Futuro Distante não tem mais o valor que tinha porque não apenas o Você do Futuro Próximo gastou todo o dinheiro em comida e cerveja como também fez AINDA mais dívidas no cartão porque achava que “nah, ainda falta muito tempo, dá pra juntar a grana até lá”.

Agora, o Você do Futuro Distante tem que pagar A + B + C, sendo C os juros que começaram a correr. Então Você do Futuro Distante fica nervoso com os Vocês do passado e decide jogar esse pepino para os Vocês de Futuros Mais Distantes Ainda, até que chega uma hora em que você está devendo A + B + C + o resto do abecedário inteiro, e a única solução é um deles viajar de volta no tempo e assassinar o Você do Presente! Ou colocar ele num curso de gestão financeira, isso resolveria também.

Enfim, lá estava eu na minha jornada em busca de um emprego. Fiz currículos, espalhei vários por aí, não só em empresas de arquitetura, mas também em lojas onde eu gostaria de trabalhar (na grande maioria, livrarias ou lojas de informática). O grande problema mesmo pra mim era o horário: pouquíssimas empresas contratam funcionários sem experiência nenhuma, que só possam trabalhar meio período e que tenham a cara de trouxa que eu tenho. Fiquei também a procura de estágios, mas a maioria das empresas só procuravam estagiários que estivessem lá pelo penúltimo ano da faculdade. Eu ainda estava nos primeiros anos da faculdade de arquitetura, e até então não sabia projetar nenhuma casa que fosse mais complexa do que um retângulo com um trapézio em cima.

 


E uma árvore do lado.

 

Foi nessa situação em que um amigo da minha mãe que gerenciava uma obra em um banco surgiu e me ofereceu um emprego – não um estágio, um emprego mesmo, de carteira assinada e tudo. Era um salário mínimo, mas pra um estudante fodido que só podia trabalhar na parte da manhã, eu dei sorte demais.

Quando me contrataram, disseram que seria interessante porque eu conheceria de perto o dia-a-dia da obra, aprenderia sobre os materiais, as ferramentas, vistoriaria as plantas, as construções, etc. Seria ótimo pra mim, afinal como já me disseram várias vezes, as coisas mais importantes da profissão a gente aprende fora da faculdade. Bom, isso foi o que me disseram. Na prática, eu fui jogado num almoxarifado úmido e sujo no subsolo do prédio, numa salinha empoeirada com aquelas lâmpadas que, se não estão fazendo aquele som de zzzzzzzzzzzzzzz, é porque queimaram e eu estou no escuro de novo. Além disso, por ser uma obra, a maior parte dos meus colegas de trabalho eram pedreiros.

 


– ÔOOO, GOSTOSA

 

No meu primeiro dia de trabalho, eu coloquei a minha melhor camisa social, meus sapatos novos, penteei meu cabelinho e pus o crachá no pescoço, pronto pra causar aquela boa impressão nos chefes. Assim que pus os pés pela primeira vez no almoxarifado, eu ouvi um deles dizendo pro outro:

 
– Ê rapá, eu tava fazendo as contas aqui, e eu já devo ter comido mais de 350 bucetas.
 

E assim eu conheci o Anderson, que seria meu parceiro de almoxarifado pelos próximos 6 meses.

Por um bom tempo, era o único que eu sabia o nome. Sabe quando você é novo na sala, e tem tanta gente que parece que é impossível um dia decorar o nome de todos? Pois é. Pra mim, eram “os pedreiros” e só.

De repente, era como se eu estivesse em uma sitcom: personagem novo chega ao lugar e tem dificuldade pra se adequar ao ambiente e às pessoas de lá, resultando em várias situações cômicas e risadas de plateia pré-gravadas. O clássico trope do fish out of water.

As conversas dos pedreiros giravam sempre em torno de dois principais tópicos: mulheres e o intercurso com elas. Sabe aquele amigo mala que todo mundo tem que parece cuja mente parou de se desenvolver por volta da puberdade? De repente eu estava cercado por 30 desses amigos. Às vezes eles também comentavam sobre um amigo que falecera tragicamente (desmembrado pelo cachorro do dono da boca rival), da mulher que se separou do marido (pois esfaqueou ele e a amante 57 vezes), assuntos leves do tipo para se ter num agradável fim de tarde no trabalho.

Logo na minha primeira semana de trabalho, me convidaram para um lugar chamado Casa das Primas, o qual toda vez que eu perguntava do que se tratava eles só respondiam “quando a gente te levar lá tu vai saber”. Hoje em dia parece meio idiota não ter sacado de primeira do que se tratava, mas a Casa das Primas era nada mais que o puteiro mais próximo, para o qual eles iam toda primeira sexta-feira depois do 5º dia útil “fuder até estourar a chapuleta”, como eles gostavam de falar.

Das primeira vezes que me chamaram pra Casa das Primas, foi algo como:

 
– Vamo levar o Lucas pra Casa das Primas hoje pra apresentar pra ele!
– Ahnn, nãaao, obrigado, é que eu tenho namorada…
– E daí? Todo mundo aqui tem.
 

Ah. Hum.

Também tinha o Seu Ricardo, o chefe do almoxarifado, que ia muito com a minha cara. Claro, eu fazia merda aqui e ali, e daí tinha que aguentar ele brigando comigo. O problema é que até quando eu fazia as coisas certas ou em menos tempo do que o espero, tinha que ouvir comentários do tipo:

 
– O senhor é muito rápido. Imagina o senhor em cima de uma mulher numa noite fria de inverno.
 

Um dia, eu me dei conta de que, se fosse continuar vivendo ali naquele ambiente todo santo dia, eu precisava me adequar. Foi quando eu criei um personagem que interpretaria todo dia em que pisasse no trabalho, que seria tão pedreiro quanto os outros pedreiros. Os pedreiros inevitalmente puxariam assunto comigo, então eu teria que ser tão pedreiro quanto eles pra conversarmos de igual pra igual. Tipo uma vez que eu estava andando pela obra, quando vi eles reunidos vendo alguma coisa. Fui me aproximar pra ver do que se tratava, pra encontrar todos eles assistindo um vídeo no celular.

 
– Opa opa, eu quero ver também
– E AÍ LUCAS, O QUE TU FAZIA COM UMA DESSAS?
 

 
– Porra, mano, eu… pffffffff, porra, eu… pfffff, preciso dizer? Pôurra.
– ÊEEEEE DA-LHE LUCÃO
 

Um dia eu (fingia que) arrumava as coisas nas prateleiras, quando o Anderson me chamou pra mostrar uma coisa no celular: um vídeo amador, possivelmente filmado com o mesmo celular que o reproduzia ali, e mais possivelmente ainda pelo mesmo homem que o segurava naquele momento. Sem saber exatamente como ele esperava que eu reagisse, perguntei “… CARA, TU err, conhece essa gostosa aí?”, um tanto preocupado com a possibilidade do meu colega de trabalho estar me mostrando o próprio pau.

 
– Não. Mas olha só bem aqui, tá vendo? – ele disse, apontando pra tela. – Essa doida tem uns 35 anos.
 

Eu disse que o vídeo era um CLOSE FECHADO? Pois bem, o vídeo era um close fechado, e não era no rosto.

 
– Ué, como tu sabe?
– Sabendo, cara. Lucas… – ele começou a dizer, com a voz e a propriedade que somente um homem que já comeu mais de 350 bocetas teria. – … nessa vida eu já comi mais de 700 bucetas. Já te disse isso? Chega uma hora que só de bater o olho tu já sabe.
– Sério?
– Sério, pô. Por exemplo, deixa eu te mostrar – ele abriu outro vídeo no celular. – Ó, essa aqui, tá vendo? Aqui e aqui? Então. Essa tem uns 28. Olha essa outra aqui. Tá vendo? Essa tem uns 22. Agora, olha essa. Tá vendo isso bem aqui? Essa tem uns…
 

Então ele disse a idade e, meu deus, eu espero que ele esteja errado.

Todo dia eu aprendia uma palavra nova no trabalho, quase nenhuma relacionada à arquitetura ou engenharia. Vejam vocês, eu nunca imaginei que existissem tantos sinônimos para pênis, vaginas ou pênis em vaginas. Pra mim, que achava que já tinha aprendido todos no ensino médio, meu vocabulário se expandiu consideravelmente. Algumas eram engraçadas, outras não faziam o menor sentido, mas algumas eram uns palavrões tão cabeludos que não me deixavam dormir à noite.

Com o tempo, eu fui aprendendo o nome de cada um deles. Bem, “nome”, entre aspas. Tinha o Chupa, o Coiote, o Tropeço, o Beija, o Sassá, o Miserê, o Belezão (que tinha o costume de chamar todo os caras de Beleza), o Japonês (que era negro), o Negão (que seria engraçado, mas não era japonês), o Seu Zaca (que TODA vez que me via me dava uma balinha de café!!! Sério, ele tinha um estoque infinito), e por aí vai. E não eram todos pedreiros. Tinha o bombeiro hidráulico, o eletricista, o técnico de ar condicionado, o marceneiro, o encarregado de obras…

Um dia, o Anderson e mais alguns deles chegaram com umas sacolas do supermercado e me chamaram pra ir lá com eles. Eles tinham comprado pão, margarina, mortadela e uma garrafa de Coca-Cola, e disseram que eu podia me servir. O Seu Ricardo não gostava que a gente lanchasse no meio do expediente, então tínhamos que comer escondidos atrás de algumas estantes enquanto alguém ficava no balcão vigiando. Peguei uma fatia de mortadela, abri o pão com os dedos e, quando perguntei o que tinha pra passar a margarina, me estenderam uma faca descartável que ficava lá pelo almoxarifado (era isso ou o estilete enferrujado que o Coiote usou). Mas bom, eu já tinha visto vezes que alguns deles viravam a marmita dentro do próprio capacete e faziam ele de prato, pra depois lavar e colocar de volta na cabeça pra voltar a trabalhar, então aquilo até que foi bem higiênico em comparação.

Eu não gosto de mortadela, e com certeza devo ter pegado alguma doença aquele dia, mas quer saber? Eu nem liguei. Foi divertido estar ali, dividindo o lanche e comendo escondido entre as prateleiras do almoxarifado com aqueles caras que, se não fosse aquele emprego, eu nunca teria conhecido.

No meu tempo na empresa, eu aprendi bastante coisa. Não só como fazer uma surpresa pra minha namorada com leite condensado (“espera ela pelado em casa e vai derramando assim pelo peito até a cabeça do tico”, me ensinou o Belezão fazendo os movimentos com uma caixa de leite condensado invisível), mas também coisas que eu devo usar um dia na vida. Como instalar tomadas ou como pintar uma parede. Acabei aprendendo também, como prometido, bastante sobre os materiais e as ferramentas. Se quando eu cheguei eu não sabia nem da existência da maioria, quando saí já sabia até as situações em que cada uma devia ser usada. Além disso, aprendi como lidar e respeitar com as pessoas que, se tudo der certo, provavelmente um dia vão trabalhar comigo. Afinal, se eu chegar a algum dia ser um arquiteto, tenho que entender não só com o que eu vou trabalhar, mas com quem.

Depois de 6 meses a obra chegou ao fim, assim como o meu tempo lá. Tive que voltar mais uma vez pra buscar meus documentos e mais uma papelada necessária, e toda a piãozada que passava por mim me cumprimentava, perguntava como eu tava, pra onde ia depois dali e, claro, me convidava pra ir na Casa das Primas quando tivesse um tempo.

 
– Um dia, um dia.
– Pô, tá beleza então. Mas aí, já te contei que eu já comi mais de 1.400 bucetas?
 

Medo de Fantasmas

Existe uma pesquisa que demonstra que cerca de 79% dos medos que temos partem de uma premissa irracional, algo improvável ou, simplesmente, fruto da nossa imaginação. Ignorando o fato de que tanto essa pesquisa quanto essa porcentagem foram inventadas por mim, posso confirmar que ela é bem precisa.

 
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Essa neurose começa quando ainda somos crianças e os móveis da casa estalam. Sabe do que eu to falando? De madrugada, aquele silêncio, aquela paz e do nada um CREC que congela até o esfíncter? Hoje nós sabemos que aquilo é um fenômeno ligado a temperatura, dilatação e física geral. Mas na época o meu conhecimento científico a respeito daquilo era “Lúcifer tá subindo nos meus móveis pronto pra pular em cima de mim e dilacerar minha alma”. Eu sei que o planeta tem 7 bilhões de pessoas, mas nada me convencia de que naquela noite o Sete-Peles não resolveu usar o tempo dele pra aterrorizar a MINHA CASA.

Hoje em dia, já com 25 anos, sempre tento racionalizar o medo e acabo conseguindo, mas tem horas que é mais forte que eu. Teoricamente eu que sou ateu deveria lidar superbem com isso, mas não é raro eu ter uns mini-ataques cardíacos de vez em quando. Por exemplo, odeio ter que apagar uma luz e ficar de costas pra escuridão. Você sabe que não tem nada ali mas a sensação é de que umas 300 entidades estão te seguindo lentamente. Já aconteceu de eu dormir com todas as luzes da minha casa acesas pra não ter que lidar com seres do além.

 

luzesTODA. VEZ. É ISSO.

 

(E foda-se o meio ambiente. O meio-ambiente não vai vir aqui em casa me salvar de fantasmas porque a gente sabe que ele não faz isso. Pode até produzir umas frutas show de bola, mas salvar a gente de entidade ele não salva não)

Nessas horas eu queria ser crente porque crente não tá nem aí. Qualquer frase de crente que envolve o Satanás (veja bem, não to falando de um fantasma bunda-mole qualquer. Eu to falando é do Rei do Mal, do Pai Satã, do cara no comando) é com o crente pisando no inimigo.

Porra, se ele fala isso do próprio Diabo, imagina o que ele não faria com um espírito maligno. Se tiver que sair na porrada com uma aparição, o crente vai mesmo. Ele não tá nem aí. Ele desfigura o inimigo na porrada em nome de Cristo Rei.

 

img_6782“Se o espírito de Deus se move em mim eu desço a porrada como o Rei Davi”

 

Como eu não possuo a Espada de Javé, o Leão de Judá ou sequer o escudo da Serpente de Canaã (tô meio por fora do nome dos itens), eu sou um frouxo mesmo. Minha solução é pedir na humildade pros fantasmas me deixarem em paz. Na moral mesmo, cada um no seu canto. Já presenciei coisas que, mesmo anos depois, não consegui explicar racionalmente do que se tratavam. Nesse post vou falar especificamente de 3 contatos com o desconhecido que…bom, to precisando desabafar há anos porque são bem vergonhosos.

Sério.

 
 
1-pinscher
 

Esse é um dos que eu gostaria muito de ignorar pro resto da minha vida, mas era muito recorrente e eu não posso deixá-lo de fora. É exatamente isso que você leu: o fantasma de um Pinscher. Eu tinha uma mania de toda madrugada acordar para ir ao banheiro ou beber água na casa dos meus pais e, pelo menos uma vez por semana, acontecia a mesma coisa: eu tava saindo da cama e aí me assusto porque vejo que tem alguma coisa no chão. Quando olho diretamente pra coisa, é como se fosse um vulto no formato de um Pinscher olhando pra mim por alguns milésimos de segundos, o tempo de eu dar aquela coçada nos olhos e o negócio não estar mais lá.

Veja bem, eu não sei como funciona o outro lado, mas tenho quase certeza que Pinschers não andam por aí observando pessoas de madrugada. Eu realmente não sabia como lidar porque 1) o negócio sumia rápido 2) posteriormente eu sabia que ele estaria ali me encarando de novo 3) eu não estava com disposição para colar cartazes por aí dizendo “ENCONTREI SEU DOG FANTASMA”. Um dia ele simplesmente parou de aparecer.

Espero do fundo da minha alma que a carrocinha do Além tenha capturado aquilo.

 
 

 

Eu não tenho um nome prático para explicar esse. Eu lembro que aconteceu quando eu era criança, em plena luz do dia e com minha mãe em casa. Certamente a aparição mais abusada que já vi na minha vida. Foi assim: minha mãe estava na cozinha fazendo o almoço e eu estava todo serelepe prestes a sair da cozinha e ir para o corredor que dá no meu quarto. Assim que cheguei na porta do corredor, essa “forma” bem alta estava vindo na direção contrária numa velocidade de quem estava correndo, passou por mim e eu simplesmente caí de costas no chão.

Eu perguntei para a minha mãe “CÊ VIU ISSO?”, mas a panela de feijão era bem mais interessante que eu. Ninguém presenciou a cena. O mais curioso foi que não senti um contato físico, mas senti uma pressão que me fez cair. Fantasma estabanado do caralho.

Ah, sim. O nome. Essa é a parte mais ridícula: na minha memória, o formato do negócio era semelhante ao de inimigo do jogo de Harry Potter pra Playstation 1. Tipo uma armadura. Eu realmente procurei muito tempo uma imagem boa disso e o máximo que consegui foi essa.

 

Olha aí o derrubão do além.

 
 


 

Broder, esse eu não me conformo. Sério mesmo. Se existe um mundo dos mortos, isso deveria ser proibido entre eles. Fica aí a dica pra caso algum espírito esteja lendo esse blog: vocês perderam a linha.

Eu tinha uns 8 anos e estava dormindo sozinho no meu quarto. Da minha janela eu começo a escutar uma risada macabra. Já fiquei bolado. A risada parou por uns 10 minutos e quando eu estava voltando a dormir começou de novo. A minha janela tinha visão para uma escuridão total, então nem por um caralho que eu iria olhar o que estava acontecendo.

Definitivamente não era o vizinho porque aquele som não era som de gente. Fui no quarto dos meus pais e pedi pro meu pai me dar um auxílio ali naquela situação porque certamente o Bafomé tava querendo me carregar pros mármores do inferno. Meu pai acordou puto, falou que eu tava sonhando e me deu a solução: toma um copo de leite que você dorme.

Sim.

Eu tava numa situação de alta periculosidade e meu pai me manda tomar leite. Como se o Cramunhão fosse chegar no meu quarto pra me levar pros Vales da Danação e pensar “epa esse moleque bebeu leite. Vou ter que deixar pra próxima”.

Enfim, tomei o leite (nunca se sabe, né) e voltei pro meu quarto. Deitei na cama de bruços, tava pegando no sono e PIMBA. Aconteceu. Eu senti uma dedada no fiofó. Tá ligado aquelas dedadas superficiais que é só pra sacanear a galera? O famoso PULA-PIRATA? Então, foi isso.

Levantei desesperado, fiquei olhando ao redor tentando entender e a porra do espírito não teve nem a coragem de se manifestar. Ele só lançou o fura furico e foi embora pra sempre. Que ódio. Desde esse dia ATÉ HOJE eu não durmo mais com a bunda pra cima.

Se tem uma coisa que a vida me ensinou é que fantasma não tem ética não. Toma cuidado você também.

 


 

Bom, não preciso nem lembrar que a melhor parte desse blog são os comentários né. Conta aí embaixo sua experiência com o sobrenatural pra gente rir da sua cara.

As vezes em que achei que ia morrer

Texto originalmente publicado no dia 14 de fevereiro de 2016

 

Por longos anos da minha infância eu fui um menino de apartamento que não saía de casa pra nada. A minha vida era escola, video game e Cartoon Network. Por causa dessa superproteção, não tive a oportunidade de ser uma daquelas crianças que corriam só de camiseta e cueca no meio da rua. O saldo disso tudo (além de eu não virar um usuário de crack) é que eu me tornei um moleque frouxo.

A propósito, uma observação rápida sobre as crianças de cueca aqui. Já reparou que sempre tem uma dessas no seu bairro? É aquela criança com uma barriguinha protuberante, um umbiguinho estufado e que geralmente tem umas casquinhas de ferida no corpo que é melhor você não encostar. Depois procura bem.

E justamente por eu ser frouxo, quando finalmente tive liberdade para brincar nas ruas do meu Bairro Califórnia, eu não estava preparado. Eu simplesmente não tinha o Know-How. Além disso, o meu campo de diversão limitava-se apenas à minha rua (uma rua sem saída, diga-se de passagem). Ou seja, se todos quisessem brincar com o pessoal da rua do lado, eu não podia participar. Ir, por exemplo, à padaria, que era a dois quarteirões de distância, tratava-se basicamente uma aventura impossível.
 
 


Minha concepção de como era comprar pão

 

Nessa minha situação de não conhecer a vida como ela é, meio que perdi a noção de realidade muitas vezes. Coisas bobas eram o suficiente pra eu ficar neurótico e achar que iria a óbito em menos de 24h. Rapaz, se eu fosse contar todas as vezes em que achei que iria morrer por algo estúpido, daria pra escrever uma série de livros maior que Game of Thrones. E essas aqui foram três muito marcantes pra mim…

 
 

Quando eu tinha, sei lá, uns 7 anos, estava no quarto dos meus pais à noite vendo TV. Ao lado da cama, como toda boa cama, tinha um criado-mudo. E dentro dele um canivete do meu pai. Era um daqueles canivetes suíços bonitões da Victorinox que são vermelhos na medida certa pra chamar atenção de uma criança.

 

Olha só que bonito

 

Eu, explorador que só, esperei o momento certo para abrir a gaveta quando ninguém estivesse vendo para pegar aquele artefato e descobrir como ele funcionava. Comigo não tinha receio, fui abrindo tudo sem pensar nas consequências. Puxei tesourinha, puxei serrinha, puxei a pinça…aí tinha um que estava emperrado. Fiz força. Continuava emperrado. Força força. Agora sim estava quase indo e PLUFT. A função mais cortante do canivete mostrou que não estava ali pra sacanagem. Aquela lâmina abriu mais rápido do que um avião de caça americano. E com a mesma velocidade, o sangue que circulava no meu dedo descobriu que estava livre para viver uma nova vida. Eu tinha me cortado.

O negócio sangrou, e olha, como sangrou. Eu olhei pro meu dedo e estava lá o melado escorrendo. Até então eu não tinha visto algo assim na minha vida. Pelo menos não ao vivo e muito menos comigo. Aquele cortezinho pra mim era um massacre e no mínimo eu iria virar uma peça de açougue. Fui correndo ao banheiro lavar aquela sanguinolência porque na minha cabeça água salvaria. Eu botaria água lá e o sangue não sairia mais. Água é vida.

Só que nada impedia aquele dedo de sangrar.

 


A situação era basicamente essa

 

Qual o meu raciocínio lógico? Na escola aprendi que quando perdemos muito sangue, morremos. Ou seja, eu tava virando um cadáver ali mesmo. Comecei a chorar e a gritar no banheiro “EU TO MORRENDO, MAMÃE. ESTOU PERDENDO MEUS SENTIDOS, Ó MEUS PROGENITORES. YA NO PUEDO MÁS VIVIR, PAPÁ! ADIÓS”. Quando eles chegaram correndo a cena era eu no chão do banheiro sangrando esperando a morte me carregar.

 


eu

 

Não morri. Eu era só burro mesmo. A lição estava aprendida e só encostei naquele canivete depois de 10 anos.

 
 

Esse não foi um caso isolado, mas sim recorrente. Quando eu era criança, um dos presentes que mais ganhava da família era Lego. Na época eu não tinha muita noção e acabei não dando tanto valor quanto deveria, MAS VOCÊS JÁ VIRAM O PREÇO DO LEGO HOJE EM DIA? Com uma dessas caixas temáticas grandes você já pode dar entrada num apartamento duplex em Ipanema. Dei uma breve pesquisada aqui no Mercado Livre e estou inconformado.

 


Qual a necessidade disso, gente

 

Modéstia à parte, sempre mandei bem naquelas construções e vez ou outra me sentia o próprio Le Corbusier (acabei de colocar “melhor arquiteto do mundo” no Google e peguei o primeiro nome. Não vou mentir pra vocês). Minha carreira ia de vento em popa até o dia eu cometi o erro de ler a caixa do Lego.

Situando vocês melhor, sabe quando você pega uma bula de remédio depois de tomar, lê os efeitos colaterais e do nada começa a sentir todos ao mesmo tempo? É basicamente isso. Só que eu acredito que tenha levado a psicologia a um patamar muito maior: eu li que aquele brinquedo não era recomendado para crianças menores de 3 anos pois continha peças que poderiam ser engolidas.

Maluco…PRA QUÊ. Não teve nem desenrolo, NO ATO eu senti uma peça de Lego obstruindo a minha garganta. Isso sequer fazia sentido porque minhas duas mãos estavam segurando a caixa, eu não tinha colocado nada na boca e já tinha muito mais de 3 anos de idade. Não fez diferença: lá estava eu agoniado com a certeza de que meu sufocamento era iminente. Eu ia ficar roxo até morrer e pronto. Comecei a tossir alto como se tivesse sido envenenado com Cianeto, com as mãozinhas segurando meu pescoço e me estrebuchando no chão até meus pais chegarem no quarto.

 


eu de novo

 

O que sei é que mesmo depois de constatarmos que não havia nada na minha glote, eu continuava sentindo ela lá. Inclusive só de ter lembrado disso eu já to sentindo de novo. É hoje.

 
 

A escola primária serve não só pra te dar uma base de conhecimento e te ensinar, mas também pra aterrorizar as suas noites de sono tranquilo. Quero dizer, nas aulas de ciências a gente via coisas que uma criança não pode ver assim sem uma preparação, sabe? Tem coisa perturbadora ali, coisa que mexe com a nossa cabecinha.

Tipo, lembra daquela imagem do Ciclo da Esquistossomose? Meu amigo, eu tinha um pavor daquilo. Até hoje eu não sei como funciona. Se eu prestasse atenção demais eu ia cismar que qualquer coisa que acontecesse comigo seria esquistossomose. Se eu entendi bem, parece que eu não posso ir em um lago e cagar em um caracol, sei lá. Olha a cara desse caipira.

 


quê

 

Numa dessas aulas conheci o Tétano. Esse bad boy foi o meu terror por muitos anos porque eu sabia que o tétano era uma realidade e que ele estava pronto pra me matar a qualquer deslize. Não tinha essa de anti-tetânica não. Pra mim ele era invencível. Tu já viu como o tétano te mata? Você começa a envergar que nem um berimbau e se der mole tu vai envergando até quebrar ao meio. TU ENVERGA ATÉ MORRER. Isso não é doença, isso é praga bíblica.

Aí um dia eu estava brincando na rua com um menino chamado Pedrinho. O Pedrinho era mais velho que eu, o que nas regras das ruas, significava que eu sempre teria uma desvantagem. A brincadeira era show de bola: pegamos duas barras de ferro que achamos no chão da rua e encenamos clássicas cenas de combates de espadas. Tinha tudo pra dar certo.

Eu tava me sentindo o próprio Sephiroth de Nova Iguaçu quando num momento de distração VLÁU a espada (barra de ferro) do Pedrinho cortou minha perna. Foi um corte razoável na panturrilha, sangrou bem mas não era nada que um poderoso Band-Aid não resolvesse. Só que eu lembrei o que causou aquele corte. E lembrei das aulas de ciências.

Puta merda eu tava com tétano. Tinha nem argumento. Aquele bastão de ferro a gente pegou na rua, é o próprio tétano em forma de objeto.

Fui correndo pra casa tomar banho com aquele desespero tomando conta de mim e antes de dormir eu peguei uma camiseta e meio que amarrei meus pulsos no meu tornozelo, de forma que eu ficasse deitado em posição fetal pra não envergar até morrer durante noite. Acordei inteirão e nunca mais me preocupei com tétano.

Quer dizer, eu fui dar uma olhadinha rápida na Wikipedia e…

 


 
 

Meu deus do céu, eu nunca mais saio de casa