O dia em que me depilei

Texto originalmente publicado no dia 09 de junho de 2014

A vida é uma jornada cruel. Antes de nascermos alguém deveria chegar e avisar “ow, depois que você sair dessa barriga, meu amigo, o caminho é só ladeira abaixo”. Explico: quando você é um bebê, a vida é uma delícia. Você só precisa dormir, comer, chorar e fazer uns barulhos engraçados. Quando você é uma criança, a vida continua uma delícia. Você só precisa se divertir, ver desenho, ralar o joelho e fazer dever de casa…

…mas quando chega a adolescência, ahhhh meu bon vivant, é aí que a coisa fica mais feia que briga de foice. Comigo, claro, não foi diferente.

Aos meus 14 anos, a puberdade estava batendo na porta, os hormônios estavam à flor da pele. Eu, vítima de um longo processo evolutivo da raça humana, percebi que era hora de mostrar meu valor. É o que renomados cientistas de Oxford chamam de “catar as mulherzinha tudo”. E para catar as mulherzinha tudo, eu precisava ser, no mínimo, um pouco visualmente atraente. Ninguém iria gostar de mim por eu jogar Yu-Gi-Oh, por exemplo.

 

Eu

 

E atraente é uma coisa que eu DEFINITIVAMENTE não era. Sabe, no começo eu fui uma criança fofa e todo mundo me achava lindo. Não sei o que aconteceu no meio do caminho que descaralhou tudo. Do nada eu era um daqueles adolescentes esquisitos, com aparelho, espinhas, magrelo e com a cara tão oleosa que você escorregava só de olhar.

 

oi vamos bjar de lingua q tal

 

Até então tudo bem, coisas da vida. Mas um dia o meu corpo resolveu me pregar uma peça. Tal qual um milagre de Natal, DO NADA eu tinha uma pequena penugem sob o meu nariz que não chegava a ser um bigode, mas também não era algo que passava despercebido. Era um meio-termo perturbador chamado “Bigode Ralinho”. Aquilo era humilhante demais. É como se o meu corpo pensasse “porra, acho que não tá esculachado o suficiente. Como será que eu posso foder de vez agora?

“Ahhhh Ygor! Que bobeira, era só raspar!”

Aí que tá. Eu tinha um medo descomunal disso porque certa vez resolvi dar uma olhada em um fórum do Orkut sobre barbas. Lá tinha um cara contando uma experiência em que ele sem querer cortou a jugular. Aí não tinha como, né. Como que eu ia fazer aquele bigode com a cabeça tranquila sabendo que em qualquer deslize eu poderia sair dali degolado?

 

Eu me barbeando seria um pouco pior que isso aí

 

Além disso, me contavam que ao raspar com lâmina, ele nasceria mais grosso. E tudo o que eu menos queria era ter um bigode. Daí eu ficava nessa sinuca de bico e não encontrava uma solução. Me restava aquele aspecto sujo de quem trabalhou duro em uma carvoaria por 3 dias sem parar. Era ridículo. Eu tava realmente perdido.

Foram meses e meses só com esse cocozinho acima dos lábios e mais nada. Nem pra me nascer uma porra de barba pra amenizar. As coisas não fluíam. Era SÓ o bigode. Bigode ralo é foda, cara. Bigode ralo é um negócio traiçoeiro. A não ser que você tenha um grupo de pagode com um nome tipo “Chocolate Sensual” ou “Sedussamba”, bigode ralinho não é algo que funciona na sociedade.

Então eu decidi que era hora de colocar um fim naquilo. Era hora de medidas drásticas.

 

 

Eu ainda não tinha a coragem de comprar uma Gillette e arriscar guilhotinar minha cabeça na pia do banheiro, então tive a brilhante ideia: “PO! UM MONTE DE GENTE SE DEPILA! VOU FAZER ISSO TAMBÉM! CACETADA COMO EU NUNCA PENSEI NISSO ANTES?”

 

“EU SOU UM GÊNIO!”

 

Eu tinha aquela panelinha de cera quente em casa? Não tinha. Eu tinha algum conhecimento no assunto para realizar a tarefa por conta própria? Não tinha. A única coisa que eu tinha ali era a motivação. Na minha cabeça o briefing era simples: você cola algo nos pelinhos e depois puxa.

Porra, não tinha mistério.

No meio da madrugada (não queria que meus pais descobrissem) concluí que era hora de agir. Abri meu estojo do NO STRESS -que, diga-se de passagem, era um belo estojo- e peguei um Durex. Isso mesmo, um Durex. Essa seria a ferramenta usada para a extinção do meu bigode.

 

Po que saudade desse tigrão

 

Como vocês devem bem imaginar, se Durex resolvesse as coisas não existiriam centros de depilação por aí. Aquela merda não resolvia nada. Eu puxava e saíam uns 7 pelinhos. Fui refazendo o processo por duas longas horas até não aguentar mais a dor e ardência da minha juvenil boquinha. Ah, sim. Eu fiz no quarto, sem espelho. Pra não correr o risco de ser pego no flagra no banheiro.

Fui dormir porque doía demais. Pelo lado bom, eu gastei um rolo inteiro de Durex pra acabar com aquele pesadelo na minha vida.

 

 

Acordei no dia seguinte, fui à cozinha tomar meu café e lá estavam meus pais. O diálogo matinal foi um pouco diferente do convencional.

 
– Bom dia
– Bom diMAS O QUE É ISSO NA SUA CARA?
– Hã?
– O QUE ACONTECEU COM VOCÊ?

 

Demorei alguns segundos até lembrar o que eu tinha feito

Quando fui no espelho, vi a catástrofe. Eu parecia um morador de Chernobil que decidiu não ir embora depois do acidente nuclear. Tipo, deu TUDO errado: a minha boca estava inchada, toda vermelha porque ficar puxando durex queimou a pele e A CARALHA DO BIGODE NÃO TINHA IDO EMBORA. Pior que isso, ele ficou lá parcialmente, todo falhado. Que inferno.

 

 

Como foi numa sexta-feira, fiquei o fim de semana inteiro naquele estado até poder ir num centro de depilação com a minha mãe. Foi humilhante. As pessoas me olhando na rua, as atendentes do local com aquele sorrisinho sacana e a depiladora perguntando o que tinha acontecido ali.

 
– Eu…eu fui me depilar com durex moça 🙁
– Mas durex não depila
– …você tá me destruindo por dentro, moça 🙁
– kkkkkk
– 🙁
 

No final deu tudo certo. Eu estava com a região do bigode limpinha. Sei que fui lá mais umas 3 vezes depilar até perceber que talvez ser degolado por uma Gillette doesse menos que aquela porra de cera. Daí pra frente virei homenzinho e comecei a me barbear como tal.

 
E evito chegar perto de qualquer fita adesiva sempre que possível. Não lido muito bem com traumas.

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16 Comentários

  1. Acontece quase o mesmo quando eu tento fazer a barba pois um dia a pele tá Lisa lisa e no outro ta cheira de pelado de novo saxoxoxo

  2. Uma coisa que todo homem já teve que passar é: não saber lidar com a primeira barbinha/bigode. O pior que essa barbinha/bigode de nada dura em mim até hoje, tenho 24 anos e cresce nada alem dessa penuginha.

  3. fico imaginando o que passou na cabeça do Ygor até ele decidir que durex era a melhor solução hahahahaha

  4. Puta merda, eu to rindo que nem um búfalo. Reconheço que esse maldito bigode ralo e cinza me atormenta até hoje, com meus 23 anos.

  5. Ana

    Eu imagino tu narrando a história e fazendo as vozes, acho que isso faz ficar mais engraçado. Ficou ótimo, parabéns.

  6. No meu caso, a primeira aparição da entidade capilar facial, foi uma belíssima barbixa de bode (not bad). Mas nada que meu lifestyle e conceitos sobre vestuário (certamente menos desenvolvidos que seu famigerado bigodinho), não fossem capazes de compensar, é claro.

  7. Bom demais o texto. HAHAHAHAHAHAHAHAHA. Quem nunca fez merda na barba q atire a primeira pedra

  8. Uma vez eu passei a gilete na sobrancelha porque ela tava começando a se unificar foi horrível

  9. Patrick Herick

    HAUHUAHAUHAUHA puta que pario
    Não foi a melhor solução, a sua.

    Desde os 15 mais ou menos comecei a tirar com uma certa frequência esses pelos ridículos que aparecem, mas agora tenho 18 e tô deixando só pra ver a sociedade me julgar. Na verdade, além disso, eu também tenho a esperança que passando uns 30 dias vou ficar selo homão da porra.

  10. Kat

    Parcialmente eu entendo, embora o meu problema não tenha sido bem no meio da cara… porque minha mãe não me deixava depilar as pernas quando eu tinha uns 13 anos, um dia eu peguei durex pra tentar tirar os pêlos… Daí quando eu vi que não resolveu peguei a tesourinha de cortar papel e comecei a aparar os pêlos para que eles ao menos ficassem menores…

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