Minhas (quase) brigas de rua

Esses dias em minha magnífica cidade eu estava na farmácia comprando sabonetes e, no corredor ao lado, uma menina estava me encarando. Quando eu olhava, ela desviava o olhar. Por alguns minutos eu pensei “QUE ISSO TIGRÃO, SÓ ESMIUÇANDO O CORAÇÃO DA MULHERADA HEIN”, mas ainda rolava aquele sentimento de que eu conhecia a garota de algum lugar. No caminho de volta pra casa eu tive aquele estalo e lembrei quem era. Foi mágico demais. Ela foi a asquerosa responsável por eu quase apanhar na rua na minha época de escola.

 

 Deixe-me contar para vocês, meus jovens…

 

Eu estudava no Colégio Iguaçuano desde que me entendo por gente e lá pela quinta, sexta série (eu já não sei mais como chamam hoje em dia) fiz amizade com uma menina que estudava uma série abaixo da minha. Honestamente não faço a menor ideia de como começou, mas lembro que eu a considerava uma das pessoas mais legais de se conviver na época. Nós passávamos os recreios juntos, falando sobre a vida, professores e todos aqueles assuntos que adolescentes gostam. Sei lá, MTV. Em determinado momento dessa convivência, eu comecei a gostar dela. Afinal, ela era bonita, divertida e usava aparelho.

 
Por algum motivo eu achava isso muito atraente. Os tempos eram outros, me deixa.
 

Sabe aquele amorzinho adolescente em que a gente troca olhares e começa do nada a escola toda a dançar? Foi completamente oposto a isso. Eu simplesmente abri o jogo com ela e falei “Ei, eu gosto de você. Tipo, mesmo. Mas é aquilo, antes de qualquer coisa somos amigos, então quero deixar bem claro que mesmo querendo ficar contigo, eu não vou mudar a maneira como lidamos um com o outro”

O que parando pra pensar agora, foi extremamente maduro da minha parte, visto que uma atitude mais provável pro Ygor da época seria ajoelhar na frente dela e gritar “PELO AMOR DE DEUS FICA COMIGO EU SOU MUITO FEIO E VOU MORRER”. Mas fui maduro. Vou já dar o spoiler pra vocês de que não rolou porque nem eu ficaria comigo naquela época. Eu só tinha muitos amigos porque eu compensava sendo legal, mas é aquilo…

 

O padrão de beleza escolar era esse

 

E eu era assim

 

Pra minha sorte, nada mudou. Continuamos amigos, nos encontrávamos em festas no ~Country Club~ e tudo era uma maravilha. Nos afastamos nas férias de julho porque né…férias. Eu tinha muito Tony Hawk pra jogar. Nisso, no comecinho do mês de agosto, quando já voltamos a ter aulas, o negócio tava meio esquisito. Não nos falávamos mais todo dia e, acho que naturalmente, foi acontecendo essa falta de interesse dos dois lados em manter a amizade como antes. Sem brigas, sem nada. Coisas da vida.

Eis que um dia, eu em casa ainda mandando muito no Tony Hawk, ouço o telefone tocar. Na época existia um negócio chamado TELEFONE FIXO e era tipo um celular, só que pra casa inteira e sem aplicativos ou Gemidão do Zap. Eu era adolescente e adolescente gostava de atender o telefone de casa. Atendi. Era uma voz de um garoto que eu não conhecia:

 
– Alô? É o Ygor?
– Opa 😀 Sou eu. Quem é?
– Vai tomar no cu, rapá.
 

E desligou. Por mais clara que tenha sido a mensagem, eu não tinha entendido muito bem. Achei que era meu amigo Rodrigo me sacaneando, ou até mesmo …OPA o telefone começou a tocar de novo. Atendi.

 
– Alô?
– É o Ygor?
– Cara você ligou pro mesmo número, acredito que seja o Ygor sim
– Aí Ygor, eu vou te cobrir de porrada.
 

E desligou de novo. O meu interlocutor tinha esse talento incrível de ser extremamente específico e ao mesmo tempo misterioso. Eu sabia que era pra eu tomar no cu e que ele iria me cobrir de porrada. A porra do telefone tocou mais uma vez e eu tava nervoso não pelas ameaças, mas por não conseguir terminar meu Tony Hawk em paz (era o 2. Eu tava jogando com o Rodney Mullen na fase da escola).

 
– QUIÉ
– Oi Ygor! hahahah
 

Era ela, a menina. Eu achei estranho e ao mesmo tempo fiquei bastante feliz porque não nos ligávamos há muito tempo. Ela continuou:

 
– Não liga pro Henrique não. Ele tá zoando só. *risadinhas ao fundo* Estamos eu, ele e minha irmã aqui no clube. Ele tá só implicando.
– Ah sim. Hahahah. Quem é Henrique, no caso?
 

Nisso o Henrique (eu não lembro o nome real dele. Queria muito procurar no Facebook hoje) pegou o telefone e começou:

 
– Aí moleque, nem to zoando não. Vou te quebrar mesmo só pra deixar de ser otário. E po, tu era a fim dela né? Vai apanhar duas vezes porque ela não quer nada contigo, seu comédia. Depois dessa se eu fosse você, cuspia no chão e nadava. Segunda-feira depois da aula eu te pego.
 

Desligou de novo. O Henrique tinha uma séria dificuldade em falar mais de cinco frases sem desligar um telefone. Sei de duas coisas: 1) eu nunca tinha ouvido a expressão “cospe no chão e sai nadando”; 2) eu definitivamente ia apanhar segunda-feira e sequer sabia o motivo. Esse diálogo foi num sábado. Passei o fim de semana com as perninhas bambas de tanto desespero.

 

Chegou o dia do abate.

 

Não quero ficar dando voltas pra te enrolar, caro leitor. Então vou direto ao ponto: eu nunca tive emocional pra brigar. Só de pensar em sair no braço com alguém eu já ficava com dor de barriga.

Fim de aula. Era hora de eu virar cadáver. Saí da escola e lá estava o sujeito com cara de mau e as duas irmãs cacarejando atrás dele. Descobri que o menino tinha metade do meu tamanho e uns 2kg abaixo do meu peso. O que segurava o personagem ali era a cara de invocadinho que ele fazia.

Eu tenho esse sério problema de começar a rir quando vejo alguém com cara de invocadinho porque a pessoa quer parecer um bad boy mas acaba parecendo um Chihuahua. Que se foda, ri mesmo. Daí o cara ficou mais tiririca ainda. O lance é que ele foi esperto: tava sem uniforme da escola. Eu tava uniformizado. Se eu brigasse, além de correr o risco de tomar uns socos bem dados, ainda seria suspenso no Iguaçuano por causa daquela roupa.

Ri do cara e passei direto por ele. As duas cacarejando ainda. Ele começou a me seguir. “Pronto. O cabra vai me desovar em algum terreno de Nova Iguaçu”, pensei. Daí o meu plano era andar o máximo possível pra ver o quão disposto ele estava a me bater. 10 minutos andando e ainda estavam os 3 atrás de mim. Um invocadinho e duas cacarejando.

O que mais me intriga é que se ele desse uns 6 passos mais rápidos, ele me alcançava e poderia me desossar. Mas não. Ele APENAS ficou que nem um encosto atrás de mim. Era o meu shinigami particular.

 

Eu e o invocadinho

 

Os 3 queriam andar? Beleza. Subi a rua da delegacia (pra quem não é daqui de Nova Iguaçu, é uma subida insuportavelmente chata pra se fazer a pé) e decidi ir até o final. Segue abaixo um mapa do meu trajeto.

 

Beleza, na minha cabeça era um percurso muito maior, com pelo menos uns 20 minutos. Mas o Google gosta mesmo de destruir nossos sonhos.

 

Na metade do caminho encontrei meus amigos Bruno e Filipe. Eles começaram a me acompanhar e perguntaram “tá fazendo o que aqui?”. Respondi que um invocadinho e duas estudantes galináceas estavam me seguindo. Eles olharam pra trás e não tinha ninguém.

 
Venci.
 

Daí fomos pra casa do Filipe jogar Nintendo 64.

 

100% a gente

 

Durante o resto do ano o invocadinho continuava me encarando na escola (cada um com seus hobbies) e as palhaças, felizmente, nunca mais falaram comigo.

 
 
Pensando bem, eu deveria ter voltado naquela farmácia e jogado meu sabonete nela.

Faça algum elogio aqui

14 Comentários

  1. Ygor adoro seus textos hahahahaha
    Parece sempre que fazemos parte da sua história, é sensacional!
    Ri demais do “shinigami particular” HAUAHAUAHAUAHUAAHA

    Parabéns e sucesso pra ti!

  2. Me vi nesse texto pois ocorreu em demasias vezes comigo esse fato (mentira só umas 2x no ensino fundamental todo)

  3. Daniel

    o Igor é aquele com cosplay de justin Timberlake ali na direita né?

  4. 1) eu nunca tinha ouvido a expressão “cospe no chão e sai nadando”
    nem eu, e o significado permanece um mistério pra mim

  5. Patrick

    HAUHAUH eu já tive uma similar. Eu tava na escola, no meio de muvuca de gente, esbarrei a mão na bunda de uma garota. Pivete que era, contei pro meu colega com empolgação. Eis que o cara vem me ameaçar falando que tava assediando a prima dele. Ainda bem que um amigo me defendeu!

  6. Medroso

    Mto bom o texto, ja tive situacao parecida, discuti com um cara pelo mIRC e ele disse que sabia quem eu era, que era da mesma serie q eu e q isso n ia ficar assim. No dia seguinte um amigo meu veio assustado falar cmg perguntando o q eu tinha feito, pq tinha uma caralhada de mlk querendo me bater. Eu fiquei assustado pra krl pq nao imaginava q ia tomar essa dimensão uma briguinha no mIRC e fui no diretor da escola falar com ele. Resumindo, durante 1 semana o DIRETOR da escola ficou praticamente me escoltando da escola até o predio q eu morava, ficava uns 10-15 minutos da escola. Dps disso a parada meio que morreu e dentro da escola um monte de mlk q eu nunca tinha visto ficou me encarando durante meses, foi assustador demais.

  7. Daniel

    “Cospe no chão e sai nadando”. Não entendi, mas mal posso esperar para aplicar numa conversa.

    Muito legal o texto, cara. Acabei lamentando o fato de tu não ter jogado o sabonete nela.

  8. Confesso que meu dia estava meio bosta, mas ri horrores agora aushaussh e eu sou de N.I!!

  9. (era o 2. Eu tava jogando com o Rodney Mullen na fase da escola).
    Fato bastante importante para o desenrolar da história.

    Muito bom o texto, parabéns.

  10. Eu tava tristinha hj, comecei a ler seu texto e por mais que eu tenha lutado, foi inevitável rir!! Obrigada, Ygor. Continua escrevendo que eu continuo lendo.

  11. Fernanda

    Não confia no Google não, esses dias ele me disse que a estação (do metrô) mais próxima do meu destino era a estação X e tinha, pelo menos, mais umas 5 estações pra eu estar realmente próxima de onde eu ia. E ainda teve a coragem de colocar “seis minutos a pé”, o que era uma enorme mentira, já que nem dá estação realmente próxima dava seis minutos de caminhada. Gosto muito dos seus textos, confio em você quando diz que era uns 20 minutos, espero que não pare de postar aqui e obrigada por compartilhar essas histórias.

  12. Rose

    Hoje sou mãe de um garoto de 14 anos é uma garota de 12. E além da escola e do curso de inglês, se tem uma coisa que não abro mão e que aprendam defesa pessoal.

    Eles não sabem o motivo exato disso, nem o pai, acreditam que seja paranóia de mãe com a violência e tal. Mas na verdade (abrindo o coração) e que tenho pavor de escola no fundamental e médio. Passei muito perrengue de graça (alguma amiga aprontava e no rolo me jogava no meio), mas pra manter a cara marrenta e impor respeito peitava as brigas (mal parava em pé de tanto medo de apanhar). Aí pela força da fé e oração invocada em todas as línguas da minha imaginação, nunca apanhei, na verdade as brigas sempre era abafadas na hora, e eu saia com cara de “fodona”.

    Como não sei o tamanho da fé dos meus filhos, nem da imaginação pra rezar, estou preparando guerreiros do MMA praticamente.

  13. Fábio

    Acho que a expressão, que te sugeria praticar natação na própria saliva, é um pouco anterior ao seu tempo de escola.
    Pois eu ouvi a mesma várias vezes.

  14. Fiquei mais intrigada com o Iguaçuano haha, sou de Foz do Iguaçu, sempre falo que sou iguaçuana ou iguaçuína ficam me olhando de cara feia pq o certo é iguaçuense, mostrarei esse colégio agora pra quem falar algo.
    Na vdd vc devia ter voltado e ficar seguindo a infeliz mas só um pouco pra ela sentir na pele como é e não dar tempo de chamar a polícia kkk

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