Meu primeiro emprego

Texto originalmente publicado no dia 26 de maio de 2014
 

Até os meus 20 anos, eu nunca tinha trabalhado na vida. Infelizmente não tenho uma história bacana de gente batalhadora para contar e nunca vendi bala no sinal para poder ajudar meus 70 irmãos que viviam em um barraco feito de tijolos e pedaços de outdoors de vereadores.

Minha entrada no mercado de trabalho foi no segundo semestre da faculdade (até então eu cursava Relações Internacionais na UFRJ) e, na teoria, eu estava muito bem encaminhado pois era uma grande empresa internacional, com um bom salário para estagiários e …diabos, eu estava só começando a faculdade. Tudo para ser incrível! Na teoria. Vamos descrever aqui: eu trabalharia 4 horas por dia com Ocean Export (que é apenas uma maneira pedante de dizer TRABALHAR LOGÍSTICA COM CARGAS DE NAVIO), ganharia 860 reais e usaria roupas de homens bem sucedidos.

 

A visão que eu tinha do meu futuro

 

Tudo começou na entrevista de emprego dividida em duas partes: uma provinha teórica e uma dinâmica de grupo. Na prova teórica eu já vi que as coisas estavam meio esquisitas. Existiam perguntas sobre carregamentos marítimos com um detalhe intrigante, que era o recorrente uso das palavra SEJE, ENCIMA e, como bônus, XINELOS. Ok, vamos ignorar. Eu estava muito mais interessado em meu futuro no dia do que em corrigir uma empresa de grande porte.

 

Porque esse era meu futuro

 

Passei da primeira fase e chegou a dinâmica de grupo. Foi nesse dia que percebi que eu odiava duas coisas: dinâmicas e grupos. Sabe todos aqueles clichês que você ouve e acha que são piadas? Não. O negócio é real. A ~dinâmica~ era escolher um dos papeis que estavam sobre uma mesa e, em cada papel, havia uma imagem de um objeto. Teríamos que defender esse objeto e provar que ele era o melhor de todos ali. Tinha, por exemplo, um orelhão, uma televisão, um barco, um elefante (???) e uma bússola. Peguei a bússola.

Deixei todos falarem na frente para ver o nível do que estava rolando por ali. E era mais ou menos assim:

 
– EU VOU ESTAR DEFENDENDO ESTE ORELHÃO POIS COMUNICAÇÃO É IMPORTANTE

– ORA, JÁ EU PARTO DA PREMISSA DE QUE OS MEIOS TELEVISIVOS SÃO MUITO MAIS IMPORTANTES

– ELEFANTES SÃO DIVERTIDOS

– BARCOS FLUTUAM
 

Minha cara no recinto era mais ou menos essa

 

Na minha vez eu só me dei o trabalho de responder “não adianta nada saber que existe um orelhão ou uma TV, saber que você pode ir até um deles de barco ou elefante se você não sabe se guiar. Por isso, uma bússola. Mas confesso que elefantes são divertidos”

Todos riem. Dinâmica, proatividade e humor.

Consegui a merda do emprego e nas minhas primeiras semanas eu vi o cagacê em que eu tinha me metido: era um escritório cheio daqueles malucos beirando os 40 que se acham jovens surfistas e só falam de mulherzinha, curtição e piadas do Humortadela de 2003. Sem sacanagem, era o tipo de galera que falava coisas do tipo “que mané espada. Espada corta pros dois lados, eu sou FACÃO” ou “TO PAGAAAANO”. E tinha também o meu computador que, meus amigos, vou tentar explicar…

…imagina um Windows 98. Coloque 40 atalhos no desktop com as pastas em maiúsculo. Agora pegue um orangotango de forma que ele organize essas pastas de maneira randômica e esfregue a piroca no monitor só pra deixá-lo com um aspecto meio oleoso.

Esse era meu computador.

Lá pro meu segundo mês de trabalho eu já tinha vontade de dar um tiro na cabeça. De cada um deles. E fui descobrindo que o responsável pelos SEJES, ENCIMAS e XINELO da minha prova, era o meu supervisor, que era um jegue. Sério, pense em um cara que não sabe escrever uma palavra com mais de 4 sílabas mas tinha um poder hierárquico favorecendo-o. Era por volta disso. E o meu humor cada dia mais próximo do zero, até que em uma bela situação, ele me deu alguma alfinetada leve e eu respondi “ok, da mesma forma que eu desejo esse quantidade de óleo no teu cabelo cause um incêndio na sua casa e você perca tudo aquilo que ama”

 

 

Peguei pesado? Peguei. Mas eu já não estava nem aí. Além disso eu tinha passado por um namoro lixo, estava infeliz com a faculdade e tinha que acordar cedo todo dia pra pegar metrô lotado. Ou seja, nada a perder. O clima naturalmente ficou mais tenso e eu com mais patadas, até que um dia ele me chamou para a sala de reuniões para uma ~conversinha~.

Além de todos esses motivos que citei, fui demitido por não fazer o perfil da empresa, andar muito relapso e…veja bem, USAR BRINCO. Me foi dito que eu não podia ter barba e nem usar brinco pois não seguia o Dress Code (foi quando eu descobri que existia um Dress Code).

Dei aquela fingida marota de que era triste não poder mais fazer parte da equipe, peguei minhas coisas e fui embora

 

NÃO QUERIA MAIS VOLTAR

 

Depois disso decidi que nunca trabalharia com comércio exterior na minha vida, deixei a barba crescer e continuei usando brincos tal qual faria um CORCEL INDOMÁVEL

 

Eu saindo da empresa

 

—-

 
 

Claro que provavelmente ninguém tem um primeiro emprego dos sonhos. Então como os comentários de vocês são tipo o DVD DE EXTRAS dos textos, aguardamos a histórias.

Faça algum elogio aqui

16 Comentários

  1. Meu primeiro emprego foi maravilhoso. Trabalhei num lugar ótimo, com pessoas maravilhosas, ganhava bem, me divertia. Pena que tive que sair pq me mudei =/

  2. Meu primeiro emprego foi com 16 anos, contra a vontade da minha mãe porque pra trabalhar eu teria que estudar a noite e cagar na minha vida escolar. Eu fui trabalhar pro pai da minha amiga, num estúdio de fotografia. Lugar legal, perto da minha casa, com pessoas conhecidas e um horário super tranquilo. Porém a porra do lugar era infestado de BARATAS QUE PARECIAM TER NADADO EM LIXO RADIOATIVO ANTES DE IR PRA LÁ. Eu não to brincando, eram uns monstros que apareciam do nada pra te atacar, eu acho até que eles tinham parceria com a SBP, porque só assim pra dar conta daquelas desgraças. Além disso, na frente do prédio tinha um bar de um gordo que andava sem camisa e com a bermuda pelo meio da bunda. Eu trabalhava na recepção, então eu tinha o PRIVILÉGIO de ver aquilo toda manhã. Tinha tb a questão de eu ser a única mulher lá, então a higiene do lugar dependia totalmente de mim. Apesar de todas essas coisas maravilhosas eu não durei um mês lá e ainda repeti de ano pq estudar a noite foi a coisa mais imbecil que eu fiz na vida. Agradeço a minha amiga pela oportunidade que ela me deu, mas sempre lembro ela dessa cilada que ela me colocou.

  3. Meu primeiro emprego de carteira assinada foi em um curso de inglês. A primeira parte da entrevista foi uma dinâmica de grupo (Onde eu tive que defender copos descartáveis e ainda descobri em um teste tipo “revista capricho do meio corporativo” que meu animal interior era um golfinho) e a segunda parte era uma entrevista pessoal, onde a cada pergunta, eu suava mais que porco em dia de abate (não sei se porcos ficam suados em dia de abate mas acho que sim). No final das contas, fiquei em uma unidade do curso de inglês para crianças e adolescentes. Aguentando pais revoltados e apressados demais pois só queriam pagar e sair correndo, além de ter que ir panfletar nos sinais e ir para escolas de rico no bairro próximo para divulgar a marca e dar brindes para crianças que cuspiam em você quando descobriam que o brinde era um copo e não um playstation . Ou seja, eu descobri que sou um golfinho para no final das contas ter que ficar renovando o desodorante de meia em meia hora porque você tá no sol transpirando demais para qualquer rexona antitranspirante. Saí desse lugar mais feliz que pinto no lixo (se porcos podem ficar suados em dias de abate, acredito que pintos também possam ficar felizes em lixos).

  4. Meu primeiro emprego foi numa loja de roupas chamada Faceirinha Boutique. No meu primeiro dia, assim que eu cheguei, a dona e uma funcionária estavam colocando o letreiro com o nome da loja na fachada. A que estava em cima da escada disse pra mim “pega o C”, mas como eu estava muito nervousar, entendi “pega o CESTO”, que eu julguei ser o de lixo. Entrei na loja e fiquei feito louca procurando o diabo desse cesto de lixo e não encontrava, até que eu finalmente achei e levei pra calçada, mesmo sem fazer ideia do motivo da mulher querer um cesto naquela ocasião. Elas já estavam impacientes sem entender a demora, pq a porra do C tava bem na entrada, até que eu cheguei com o lixinho e disse “tá aqui, quase não encontrei rsrs”. Elas não falaram nada na hora mas a expressão facial delas (que era algo como a que você​ fez na dinâmica de grupo, só que potencializada) dizia muita coisa. Eu quase ouvi o pensamento da dona dizer “não acredito que assinei a carteira dessa pessoa”. Percebi que até falaram mais lento comigo, achando que eu tinha algum atraso cognitivo, mas talvez tenha sido impressão minha. Apesar dessa primeira impressão que causei, me destaquei no emprego e só saí pq encontrei outro melhor (onde houveram mais micos, claro).

  5. meu primeiro emprego foi aos 16 como temporária numa papelaria, no setor de uniformes. antes de tudo devo dizer que essa era a papelaria que durante toda minha vida escolar minha mãe ia pra comprar os materiais e tal, entao era legal trabalhar num lugar conhecido há tantos anos. eu ganhava uns 500 pra trabalhar das 7 da manhã às 22 da noite, todos os dias da semana, sem folga, sem registro na carteira também. o almoço era na própria empresa (e era bem bom pra falar a verdade, a tia anastacia mandava bem) mas era engolir a comida e voltar pro balcão. acabo de perceber o quão errada essa empresa era! ok, apesar de tudo, eu fui muito bem na minha função, até dei uma organizada numas coisas, inovei, melhorei processos etc e tal, curti o trabalho. até que no fim do período determinado do contrato o gerente veio agradecer e elogiar meu trabalho e garantiu que eu seria efetivada (mas por algum motivo que não me lembro, eu não podia contar pra ninguém). fiquei feliz obviamente… daí na semana que a empresa ia ~liberar~ os primeiros temporários, adivinha o primeiro nome citado. sim, isso mesmo, o meu, veja só você! me senti um lixo, fui embora tal qual um cãozinho abandonado andando sem rumo e nunca mais entrei nessa papelaria nem pra comprar um lápis.

  6. Julio César

    Meu primeiro foi em um supermercado, gostei bastante na vdd, apesar de trabalhar sábados e domingos o que era um saco. Falando em saco (puta gancho de assunto), comecei trabalhando lá como empacotador que não é um dos melhores trabalhos, entretanto 2meses depois e um funcionário do mes ganhi fui promovido para atendente de hortifruti, onde trabalhei pra caralho pq 1 mês depois que entrei lá mandaram o meu supervisor embora, tive que ensinar o pouco que sabia pra minha nova supervisora , que trabalhou 3 meses e foi mandada embora tbm, tive que ensinar novamente outro supervisor, trabalhei mais 2 meses ensinando ele e em 4 ele já tava melhor que Neymar nos dibres, totalizou um ano desde que entrei lá no pacote de caixa, quando pensei que o meu gerente ia me chamar pra assinar as férias ele me manda embora.

    P.s: tirando as coisas “ruins” que aconteceram nesse 1 ano de trabalho, como: cortar a cabeça fatiando a melancia pro cliente; deixar caixas cair em cima do meu gerente; ter que capturar ratos do tamanho de jacarés; me machucar diversas vezes carregando peso, foi bem loko trabalhar lá. Fiz diversas amizades com clientes e funcionários.

  7. Luiza

    Meu primeiro emprego foi em uma empresa de recursos humanos que oferecia serviços de limpeza para outros lugares, eu basicamente ia pra lá organizar papelada e os contra-cheques das pessoas, o trabalho era fácil mas minha chefe sempre olhava pros estagiários como se a gente não tivesse fazendo nada e só se aproveitando do dinheiro da empresa (o salário era 420,00), o problema era que na época eu tinha 16 anos tava no ensino médio e minha aula terminava 12:30 e eu tinha q chegar no trabalho 13:00 sendo q era do outro lado da cidade, resultado eu não almoçava corria pra chegar e eles não ofereciam almoço (passava o dia com fome sim) então quando eu ia comer era aqueles salgados de parada de ônibus 18:00 até eu chegar em casa pra jantar isso se não tivesse morta do ônibus de demorava 2 horas até minha casa, resultado eu emagreci e não vivia e tudo isso por apenas 420 doletas no final do mês, então quando passou um mês nisso eu parei de ir e depois me procuraram para eu assinar os papéis da demissão e ainda falaram que eu causei prejuízo para a empresa, obg de nada!

  8. meu primeiro trampo foi numa loja de informática perto de casa, com pouco mais de uma hora lá dentro eu vi o dono da loja tretar com a mulher dele que também trabalhava lá, eu assustei até descobrir que isso era rotina por lá 😀

  9. Cara, meu primeiro emprego foi supimpa.
    Trabalhei numa dessas locadoras de filmes (que ainda existem em lugares tais que não possuem ruas pavimentadas, as pessoas se locomovem em charretes e a Internet é uma merda) e foi uma experiência sensacional.
    Meu patrão tinha assistido a porcaria da locadora inteira e adorava indicar filme dos anos 80 com o Brad Pitt sem um pelo na cara pra clientes de 15 anos; eu amava sua falta de discernimento pra conhecer o gosto da clientela.
    Eu já briguei feio com cliente por acharem Mad Max ruim, cobrei uma multa de DVD atrasado por R$800,00 (não era DVD, era “blu-ray”), uma estante de filmes já caiu na minha cabeça, fazia locação de filmes pornôs diariamente para homens com mais de 50 anos, bebi vodka e comi bolonha enquanto trabalhava, conversava sobre inúmeras experiências ilícitas com minha patroa, já vi casal se agredindo e mãe batendo em filho, ganhei uma cacetada de pôsteres de filmes de 2015, assistia filme todo dia durante o trabalho e quando chegava em casa, EU ERA PAGO PRA DAR OPINIÕES DESONESTAS SOBRE FILMES ZOADOS
    Melhor emprego de todos, sempre que posso vou lá alugar um filme.
    (Obs: a frase que eu mais escutei na vida é: “ME INDICA AÍ UM FILMÃO, MAS FILMÃO BOM. NADA DE COISA DE CHORAR”. As pessoas têm um sério problema com filme de drama.)

  10. Meu primeiro emprego era o sonho de qualquer estudante de primeiro período, assim como eu naquela época: trabalhar cinco horas por dia em um escritório super bonitinho e ganhando 500 reais. Nos primeiros meses percebi que nem tudo são flores: torrava meu salário em um segundo, passava a tarde sem ter o que fazer porque minha chefe só ia uma vez por semana e eu ficava sozinha lá. Um belo fim de tarde, fui usar o banheiro e fazer o famoso “número 2”. Porém eu não sabia que o vaso sanitário da sala principal não funcionava muito bem… Fiz, voltei para minha mesa e enquanto esperava dar a hora, alguns clientes chegaram na sala de espera para aguardar o fotógrafo que trabalhava lá. Fui embora e no outro dia minha chefe por acaso também estava. Como quem não queria nada, ela me pergunta “você usou o banheiro ontem?”. Suei frio e respondi “não lembro” – lembrava sim – “por quê?”. Foi aí que ela disse “porque quando eu cheguei a sala estava podre, parecia que alguem tinha morrido aqui. Fui no banheiro, dei descarga, joguei vários baldes de água e não desceu. Quando o fotógrafo chegou, ele também jogou vários, até que enfim desceu. Foi você? Se não foi, deve ter sido alguém que veio aqui ontem a noite.” Nesse momento eu não sabia se ela estava jogando verde pra ver se eu jogava a culpa em alguém ou algo do tipo, mas eu já tava tão nervorsa que pensei – o que é um peido pra quem tá cagada, né? – e respondi “fui eu não, deve ter sido algum cliente”. Ela aceitou aquilo como resposta, não falei mais nada o resto da semana de tanta vergonha… Ainda trabalhei lá por uns 8 meses, mas até hoje nunca mais fiz cocô no trabalho!

  11. Empresas de importação e comércio exterior me aterrorizam desde 2013. Na época eu estava em dúvida entre fazer faculdade de administração, economia ou comércio exterior, mas o trauma de trabalhar no setor de importação de uma montadora alemã aqui no Brasil foi tão grande que eu estou no quarto ano de direito e correndo sem olhar pra trás. Aliás, a descrição do ambiente me fez ter um deja vu, estou tentando me recuperar ainda hahahaha

  12. Laís

    Meu primeiro emprego foi no escritório de uma tia que eu adoro. Ela comprava pastel pra mim todo dia e eu engordei uns 20kg. Mas descobri o que fazer na vida e na faculdade por causa desse emprego. Só não descobri como emagrecer mesmo.

  13. Juliana Sipert

    Eu fiquei 2 anos e meio no meu primeiro emprego, era numa produtora de modelos (bizarro). Nesse tempo não tirei férias, ouvia gritos do meu chefe diariamente e frases legais tipo “vou cortar as asas dessa cabrita” (a cabrita era eu). Até que os negócios começaram a ir mal e o cara simplesmente sumiu. Abandonou a empresa, largou tudo lá. Fiquei sem receber 3 meses de salário, 2 anos e meio de férias, quando fomos ver ele nunca tinha depositado fundo de garantia e pago inss, me fudi bonito.

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