Medo e delírio na autoescola

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

Post originalmente publicado em 5 de janeiro de 2016.
 

Quando eu era moleque na década de 90/início de 2000, existiam basicamente três tipos de crianças: as radicais (e geralmente protagonistas de inúmeras aventuras em que no final acabavam se tornando agentes secretos) andavam de skate ou patins; as normais (mas que acidentalmente encontravam mapas de antigos tesouros escondidos por piratas) andavam de bicicleta; e aquelas cuja maior aventura era ir pra escola e voltar pra casa sem levar um cuecão das crianças mais altas andavam de patinete.

Adivinha em qual dos três grupos eu me enquadrava.

 

Dica: eu nunca fui um Goonie.

 

O que eu posso dizer? Eu gostava do meu patinete. Era fácil, seguro, e fazia exatamente o que eu queria que ele fizesse, sem surpresas. Se eu queria ir pra esquerda, era só virar pra esquerda. Se eu queria ir pra direita, virava pra direita. Se eu quisesse parar, era só colocar um pezinho pra fora da base direto no chão. Se eu quisesse ir o mais rápido que eu pudesse… bem, aí era melhor descer, dobrar ele, colocar debaixo do braço e ir correndo mesmo.

Eventualmente eu ganhei a minha primeira bicicleta de Natal do meu avô. Quando ele tirou a mão dos meus olhos e eu vi aquele maquinário monstruoso na minha frente pela primeira vez, eu CHOREI. Afinal, eu queria um Super Nintendo e ele me aparece com uma Caloi com o dobro do meu tamanho????? Deixei aquilo pegando poeira num quartinho nos fundos da casa e continuei sendo feliz com meu patinete por mais alguns anos.

Fui crescendo, e logo comecei a sentir pela primeira vez o peso da pressão social quando todas as crianças da vila começaram a aparecer com seus patins radicais e seus skates tunados. Até as crianças mais novas que eu já estavam fazendo drifts irados e apostando rachas acirrados em suas bikes numa versão infanto-juvenil de Velozes e Furiosos, enquanto a manobra mais radical que eu conseguia fazer no meu patinete era pegar bastante impulso e me agachar em cima do patinete em movimento (o que me fazia percorrer uma distância de aproximadamente 1,5m). Logo eu comecei a ouvir os primeiros “iihhh, alá o otário do patinete” das crianças descoladas que usavam boné virado pra trás, camisa xadrez amarrada na cintura e mascavam chiclete, e percebi que a hora de vencer meu medo havia finalmente chegado.

Não tive muitas dificuldades pra aprender a andar… Meu problema mesmo era frear. As minhas perninhas se atrapalhavam toda com aquela velocidade (que nem era tanta assim), eu não conseguia me estabilizar, e o resultado era sempre BLAM!, eu e o asfalto da rua juntinhos.

Foi então desenvolvi a seguinte técnica: quando queria desmontar da minha bike, eu ia até uma área com grama da vila, tipo o campinho de futebol, tirava os pés dos pedais e… Me deixava cair. Isso mesmo. Toda vez que eu queria descer da bicicleta, eu simplesmente me jogava de cima dela e quicava feito a perereca que Wesley Safadão viria a cantar sobre anos depois.

 

Imagem ilustrativa

 

Fiz isso por muito mais tempo do que poderia ser considerado normal para uma criança mentalmente saudável, o que eu claramente não era. Na verdade, eu fiz tantas vezes que logo as peças da bicicleta começaram a se soltar, até que chegou uma hora que ela ficou completamente inutilizada de tantas quedas que tomamos juntos. E agora, anos depois, essa mesma pessoa, esse mesmo indivíduo que só era capaz de parar um veículo simples da maneira mais kamikaze possível, decidiu que estava na hora de tirar uma carteira de motorista. Só o fato de eu ter conseguido sequer passar no exame psicotécnico já demonstra a fragilidade do sistema brasileiro de formação de condutores.

Eu tenho um pouco disso que o Google está me dizendo aqui na outra aba que se chama tacofobia, ou seja, medo de altas velocidades. Isso, e o fato de que, bom, eu sou um péssimo pedestre. Eu esbarro em velhinhas, tropeço em cachorros, atropelo carros parados. Não são raras as vezes em que alguém vem na minha direção, tenta desviar por um lado, eu vou pelo mesmo, ela tenta pelo outro, eu vou também e nós ficamos nessa dança no meio da calçada até o sol se pôr. Imagina um indivíduo com essas características controlando uma máquina assassina de 1 tonelada.

Isso tudo (e, claro, o fato de aulas de direção serem caras pra porra) fez com que eu desenvolvesse receio de dirigir e fosse adiando a decisão de tirar a carteira. Nos meus 22 anos, quando todos meus amigos e pessoas da minha idade – e até mais novas – começaram a aparecer com seus carros, suas chaves penduradas no cós da calça e suas frases de “hoje não vou beber, tô dirigindo”, eu percebi que a hora de vencer meu medo havia novamente chegado.

Corri pra autoescola mais próxima, me matriculei, fiz as aulas teóricas, o simulado, a prova teórica, e logo estava apto para começar as famigeradas aulas práticas.

No meu primeiro dia de aula prática, cheguei cedo e fiquei sentado esperando o instrutor, aquele que nas próximas semanas me guiaria pelos misteriosos caminhos da direção automobilística. Ele chegou, cabeça baixa mexendo no celular. Nos cumprimentamos e fomos em direção ao carro, ele sem tirar os olhos da tela em momento algum.

Dirigir funciona mais ou menos assim: existem três pedais, o freio, acelerador e a embreagem. No freio você para, no acelerador você avança e na embreagem você TOMA NO OLHO DO SEU CU PUTA QUE PARIU QUEM INVENTOU ESSA MERDA. E ainda existe uma coisa chamada câmbio manual que é A PIROCA DO PRÓPRIO SATANÁS que você é obrigado a segurar toda vez que quiser fazer QUALQUER COISA num carro.

 

Filho duma putaaaa

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever as primeiras aulas, seria TRAUMÁTICAS. Não tô brincando, tinha vezes que eu me pegava suando frio atrás do volante tentando disfarçar meu desespero crescente. Isso sem falar quando dava um branco completo na minha cabeça e eu esquecia completamente do que deveria fazer em seguida. A minha única experiência com direção até então tinha sido no GTA, mas dirigir um carro na vida real tá bem longe de ser só R2 pra acelerar, L2 pra frear e triângulo pra roubar o NPC mais próximo. Tinha dias em que eu cheguei a pensar que dirigir definitivamente não era pra mim. Que eu nunca ia aprender. Que, no final das contas, talvez fosse mais seguro pra mim e pra sociedade no geral se eu nunca mais entrasse num carro de novo pelo resto da vida.

E meu instrutor também não ajudava em absolutamente nada. O maluco não saía do WhatsApp!!!! Toda aula era basicamente nós dois dentro do carro e ele dizendo “primeira. Segunda. Terceira. Para. Acelera. Primeira…” sem nunca tirar os olhos do zapzapson. Sem falar que, com ele controlando tudo nos pedais do banco do carona, eu nunca sabia quem tinha feito algo, eu ou ele. Eu não tinha a sensação real da coisa, só aquela falsa impressão de que eu estava no controle.

De qualquer forma, com o tempo eu fui pegando o jeito. Na segunda semana o carro já não morria a cada quarteirão e na terceira eu já tinha parado de agarrar acidentalmente a perna do meu instrutor toda vez que ia trocar a marcha. As aulas enfim chegaram ao fim, e no último dia, fui atrás do meu sensei e o cumprimentei pela última vez, como forma de agradecimento por todos seus ensinamentos passados a mim. Ele não tirou os olhos do zaptzupt. Eu sinceramente acho que ele nem lembrava mais quem eu era, mas enfim.

Enfim, era chegada a hora. O momento decisivo. O último chefão que precisava ser derrotado para concluir a jornada: a prova prática.

Mas até para se chegar no chefão é preciso concluir mais uma quest, que era… Ligar pro Detran e marcar um horário. A vida é um RPG bem sem graça. Mas eu consegui marcar, e no dia e horário marcados lá estava eu, pronto para o último desafio.

O meu avaliador chegou, nos cumprimentamos e seguimos em direção ao carro. Ele me explicou brevemente como seria – começaríamos com uma baliza, primeiro eu teria que estacionar o carro dentro da área marcada no chão e em seguida sair com ele para o percurso. Eu teria 5 minutos para a baliza e três tentativas. Ok, vamos lá.

Entrei no carro, pus o cinto, ajeitei os retrovisores. Girei a chave, baixei o freio de mão, pisei na embreagem e passei a primeira. Alinhei a roda traseira do carro com as varas da frente conforme o meu instrutor e os tutoriais que tinha visto no YouTube no dia anterior tinham me ensinado e pus na marcha-ré. Tentei não demonstrar, mas por dentro eu estava NERVOUSER.

Então algo aconteceu: ouvi uma voz muito familiar que disse dentro da minha cabeça “Luke…”. Nesse momento, todo meu nervosismo, todo meu medo e toda minha angústia foram embora. “Luke, use a Força!”, a voz de Obi-Wan Kenobi na versão dublada de Star Wars ecoava na minha cabeça. “Tudo bem, Mestre Kenobi. Eu tentarei!”, eu disse mentalmente. “Faça ou não faça, não existe tentar!”, disse outra voz, dessa vez do Mestre Yoda.

 

 

Comecei a decididamente dar a ré. Confiei em meus instintos e me deixei levar. “Sinta a Força, deixe-a fluir”, dizia a voz dentro da minha cabeça, enquanto outra fora dela dizia “para o carro”. Era o avaliador ao meu lado me mandando parar. “Para o carro. Desce.”

 
Ah não.
 

“A Força vai estar com você, sempre”, dizia o Mestre Jedi. “AH PRA PUTA QUE PARIU”, eu respondia.

Descemos do carro e ele me mostrou que eu tinha parado a roda traseira em cima de uma das faixas laterais.

― Tá vendo aqui? Não pode. Você avançou o meio-fio. É falta eliminatória. Volta lá pra dentro e espera te chamarem.

E assim, eu não durei nem 3 minutos. Igual a primeira vez que eu… Hum, pensando bem deixa quieto.

O jeito foi voltar de ônibus pra casa, o que eu faria de qualquer jeito afinal eu não ia levar o carro da autoescola pra casa né, mas enfim. No caminho de volta, vi todos os tipos de pessoas dirigindo seus carros. Vi jovens, vi velhos, vi homens e mulheres e acho que até um cachorro mas pode ter sido o reflexo do sol, não sei. Foi quando tomei uma decisão que mudaria o rumo da minha vida. Cerrei os punhos e disse em direção aos céus: eu vou treinar até me tornar o melhor motorista do mundo [da categoria B pelo menos].

Me acompanhem nesta jornada rumo a me tornar o hokage da direção automotiva.

 
Nota do Luke do Presente: Porra nenhuma. Mais de um ano desde esse post e eu não lembro mais nem como que liga o ar condicionado do carro.

Vou viver de Uber o resto da vida, desculpa aí, Luke do Passado.

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8 Comentários

  1. no primeiro parágrafo eu já me identifiquei, também era a criança do patinete =/ e não sei dirigir até hoje (aos 27)

  2. Te entendo perfeitamente. Já no meu primeiro dia de aula prática sujei a lataria do carro com o sangue de alguns pedestres 🙁
    (Calma gente era no simulador)

  3. Lara

    Ygor, eu tbm super sofri pra tirar minha carta. Reprovei 3 vezes na prova prática e só passei na quarta pq o avaliador me ajudou hahaha. Continua escrevendo sempreeee ❤❤

  4. Tenho 21 e desde os meus 18 sofro por pressão da minha família em exigir que eu saiba dirigir, mas eu penso na segurança da sociedade em não permitir essa atrocidade porque eu tenho CERTEZA que na minha primeira corrida eu vou esquecer que eu que preciso virar a curva no volante e vou dar de cara no poste, ou em uma pessoa. Gente essa merda não é pra mim, o jeito é viver de uber e carona dos amigos mesmo

    • eu achava que também nunca iria aprender a dirigir, mas hoje consigo dar uma volta no centro, ir no mercado etc, sem medo. kkkk

  5. Isabela

    Dirigir é ótimo, você chega nos lugares com rapidez e conforto, além de ter várias histórias de quase morte pra contar pro seus filhos

  6. Jurubeba

    Pooosha!…
    Ygor, vc já sabe que a gente gosta das suas historias. E das do Lucas tb.
    Publica mais!!! 😀