Indo para Orlando

Texto originalmente publicado no dia 01 de dezembro de 2014
 

Eu fico desgostoso da vida quando tenho que sair do conforto do meu quarto para fazer alguma coisa que não seja dentro de casa. O mundo lá fora é cruel, cheio de sol e com a música “Happy” tocando em cada esquina. Mesmo assim eu e Mariana, a namorada, resolvemos ir pra Disney curtir o Halloween de lá. Fiquei mais animado que menina de 15 anos que cria álbum com título ~WHERE DREAMS COME TRUE~. Daí começou a aventura…

Viajamos com a Copa Airlines. Isso mesmo, Copa Airlines. Talvez esse nome não lhe soe muito familiar e você ache que não conhece a companhia, né? Pois é. Você realmente não conhece. Eu não conhecia, Mariana não conhecia e nenhum ser humano conhece. Tenho certeza que nem os comissários de bordo sabiam o que estava rolando ali exatamente. O avião dos caras era compacto como um jatinho particular, porém com 200 passageiros dentro. Eu não to zoando, aquilo era um Mercadão de Madureira voador.

Quando a aeronave começou a acelerar na pista para decolar, parecia que eu tava naqueles passeios de bugre do Maranhão. Vá balançar assim na casa do caralho. Inclusive, quando ela estava voando, já sem contato nenhum com a terra, continuava a balançar. O avião era uma Kombi 74 com duas asas coladas.

 

Misericórdia

 

Durante aquelas instruções iniciais de voo eu fiz o que qualquer passageiro costuma fazer: caguei pro que eles estavam falando. Se desse qualquer merda com aquele avião, não ia ter instrução de segurança que salvasse a minha vida. Como era uma viagem longa, eu tinha que me distrair. Descobri que um dos serviços disponíveis no voo era o acesso a jogos de última geração e, GAMER QUE SOU, fui logo ver do que se tratava.

 

Aparentemente a aeronave decidiu ficar em 2004

 

Flashback. Algumas horas antes, no aeroporto, tivemos a brilhante ideia de comprar muito -MUITO- chocolate e mandar pra dentro, mesmo sem fome. Aquilo era barato. Nem fodendo que eu ia perder a oportunidade de comer, sei lá, 3 toneladas de Kinder Bueno por 15 dólares. Segura essa informação aí pois ela será importante lá na frente. Fim do Flashback.

Na hora da janta do avião, o comissário veio com uns papos de “jugo de naranja”, “manzana”, “cueca cuela sien gas”, “garrafita” e aí veio mais uma surpresa…

 

 

…a porra da companhia aérea era PANAMENHA. Pra mim panamenha era como a gente chamava mulher que engravidou, sei lá, era nome dessas comidas que avó faz. Os caras falavam em espanhol, que bosta. Era tudo o que eu queria: 12 horas de voo com uma galera falando igual ao Ligeirinho.

Eu assumo sem problemas que não sei porra nenhuma de espanhol. Ainda mais com eles falando na velocidade da luz como falam. A Mariana, por sua vez, não assume. Ela não entende espanhol também mas acha que entende. Aí já viu a fodelança que foi né:

 
– Hola. ¿Qué te gustaría cenar?
– Si si! Arriba! Una jantita gracias!
– …
– Ay caramba!
– ¿Quieres pescado o pollo, señorita?
– No no, chiquititas. Quien me va curar mi corazón partio!
– …

 

Aí por causa dessa garota, a minha comida viria no modo ALEATÓRIO. Era só falar em inglês com o cara, só isso. Nem é pedir muito. Agora eu certamente ia comer alguma porra sabor MÁ VONTADE DO PANAMÁ. E lá veio meu prato:

 

 

Até me surpreendi. Veio bonitinho e, como as pessoas ao redor estavam todas comendo peixe ou frango, o “no no no” da Mariana não seria um problema no final das contas. Aí eu abri.

 

Isso não é comida, é castigo

 

Vou nem falar o tanto de puto que eu fiquei com todo mundo comendo algo gostoso e eu provavelmente comendo uma massa temperada com suor de um cozinheiro chamado Pepe. Paciência. Depois da janta mandei pra dentro mais daqueles chocolates que a gente tinha comprado, acompanhados com a água ~sin hielo~ que eles me deram. Hora de dormir.

 

Esses assentinhos de bunda para colocar no pescoço são nota 10.

 

No meio da madrugada todo aquele chocolate que eu ingeri resolveu se manifestar. Puta que pariu, bateu aquele cagote. Era como se as minhas entranhas fossem uma arena de Jogos Vorazes tamanha a tragédia que tava rolando ali. Eu ia me arriscar a cagar naquele banheiro e derrubar o avião? Não ia. Fechei os olhos e esperei meu organismo baixar a bola. Até agora não sei se dormi ou se desmaiei.

 

Eu por dentro

 

Quando eu acordei, estava em Orlando. Eta maravilha. Fui para uma daquelas filas obrigatórias em que você precisa falar com os FEDERAIS o que diabos você quer fazer no país deles. A família que estava na minha frente (brasileira, diga-se de passagem) tinha uma velha com uma câmera digital na mão. A porra da velha resolveu tirar uma foto do neto na fila. Pergunta pra velha se ela sabia o que aquelas 30 PLACAS COM UM “PROIBIDO CÂMERAS NO RECINTO” significavam. A velha não sabia. Nisso o cara da cabine que nos ~entrevistaria~ levantou putaço das ideias quase com o dedo na cara dela.

– Senhora, isso é uma câmera? Você não tá vendo que é proibido? Desligue isso IMEDIATAMENTE. Eu não estou brincando. Se você não quiser problemas, desligue isso IMEDIATAMENTE. O que você está esperando? Não fui claro o suficiente ou você é mais uma dessas engraçadinhas?

Mermão, foda. Ela conseguiu deixar o cara puto minutos antes de ele falar comigo. Pior: ela não entendeu uma palavra do que ele disse. A reação dela foi essa:

 

“Que espirituoso esse polícia, né?”

 

Nisso a família é liberada e o senhor ainda puto grita um “PRÓXIMO” sem paciência nenhuma. Era agora que eu seria deportado. Segue o diálogo livremente traduzido para Pt-Br:

 
– O que veio fazer nos Estados Unidos?
– Eu vim pra Disney, meu senhor :DD Vim curtir uma DISNEYZITCHA NÉ
– Ficará quanto tempo?
– Ahhh, eu deixo a vida me levar né seu guarda. Acho que vim pra ficaaaar kkkkk
– …
– 9 dias
– Por que você forjou o número de seu voo?
– akshadhahkdsjh oi?
– Por que você forjou o número de seu voo?
– kshfakhfas nao entendi
– Você colocou o número do seu voo errado. O que você faz da vida?

 

 
EU COLOQUEI A CARALHA DO NÚMERO ERRADO SEM QUERER. EU JÁ TENHO UMA CARA DE ÁRABE QUE NÃO AJUDA AÍ NÃO SATISFEITO EU VOU E BOTO A PORRA DO NÚMERO ERRADO. Já tava esperando a SWAT entrar ali quebrando as janelas e me levar direto pra Guantánamo. Suei frio, quase chorei.

 
– Eu…eu escrevo
– E tá levando quanto de dinheiro pro país?
– Só o do ônibus só seu guarda peloamordedeus to aqui na humilde mesmo
– Drogas? Remédios? Algo ilícito?
– Não senhor.
*ploft*

 

Ele carimbou meu passaporte (ploft no caso é o barulho do carimbo) e falou um TEJE LIBERADO que me deixou aliviado. Fui contar para a Mariana e ela me manda um “ah, na minha cabine o cara foi supersimpático”, nem perguntou muita coisa. Fiquei meio chateado. Ser gostosa te dá dessas vantagens que eu infelizmente não tenho.

No aeroporto a gente já dá de cara com várias lojinhas bacanas. Universal, Sea World, Disney e outras mais, para te ambientar do que você está prestes a viver.

 

Por exemplo essas coisitchas de Harry Potter

 

Fomos procurar a locadora de nosso carro e no caminho tinham vários conversíveis irados, umas Mercedes, uns Mustangs com plaquinha “que tal me alugar para essa viagem?! Peça um upgrade no seu veículo!”. Obviamente eu queria um upgrade no nosso veículo porque tenho o discernimento de uma criança, mas a estraga-prazeres da Mariana falou que não tinha necessidade. Bruxa. Acabamos com um Corolla bonito, mas não era o Mustangão irado que eu queria.

 
Acontece. O importante é que no final das contas, os dias seguintes foram a melhor coisa que já me aconteceu no ano de 2014 e espero que se repita várias vezes.

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12 Comentários

  1. Na primeira vez que li esse texto você tinha dito que era apenas a parte I, Ygor,pelo amor de Deus eu imploro, continua contando dessa viagem, certamente isso será mais próximo que eu chegar da Disney

  2. Na primeira vez que li esse texto você tinha dito que era apenas a parte I, Ygor, pelo amor de Deus eu imploro, continua contando dessa viagem, certamente isso será mais próximo que eu vou chegar da Disney.

  3. Lu Zanetti

    Não sei porque insisto em ler os seus textos no trabalho. Agora tô aqui disfarçando a risada (sem sucesso). Eu passei o mesmo sufoco na imigração e achei que fosse ser presa.

  4. Lana Galveias

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAH TEJE DITO: YGOR MELHOR PESSOA (depois da Mariana, lógico)

  5. isso me lembrou quando eu passei na imigração tbm e fiquei toda nervosa e respondi q tinha 50 anos (tinha 15) mas pelo menos o policial riu

  6. Ana

    “Pra mim panamenha era como a gente chamava mulher que engravidou” HSAUAHSUSHUSAHAUSHHSAU
    Melhor historia que eu poderia ler hoje.
    Obrigada por melhorar meu dia

  7. Eu ja havia comentado no post original, mas preciso salientar isso. Nao sei o que a Copa Airlines faz com as entranhas dos jovens brasileiros pq eu vivi exatamente a mesma coisa. Eu devo ter interditado um dos banheiros do aeroporto de Miami ainda em meados de 2009. E me pergunto até hj porque em um vôo conectando Brasil, onde se fala português, e Estados Unidos onde a língua é o inglês todos os comissários só falavam em espanhol ou na melhor das hipoteses num inglês incompreensivel para os meus módicos aninhos de Fisk… Comi uma espécie de baião de dois panamenho, nao entendi nada, caguei muito e nunca mais voei de Copa. Tambem nunca mais saí do Brasil, mas uma coisa nao tem nada a ver com a outra.
    Sou teu fã Ygor… Continue firme e bem hidratado.

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