Como eu me tornei um pedreiro

Hoje é um dia especial.  Há uns 10, 12 anos eu lia um blog chamado “Que Diabos?” (KD, pros íntimos), do luke. Por causa dele eu comecei a ler Douglas Adams, escrever no Improbabilidade e basicamente me tornei o que sou hoje. Um lixo.

De qualquer forma, sempre fui muito fã do cara e, como tudo o que eu gosto, o KD morreu. Então decidi recuperar com o luke os melhores textos daquela época linda e postar semanalmente aqui. To me sentindo um empresário que depois de anos decide organizar a volta do Los Hermanos. Tirando o fato de que Los Hermanos é um saco e o KD é incrível. Espero que vocês o amem tanto quanto eu.

Senhoras e senhores…Lucas Guedes.

 

 

Crianças, no verão de 2012, eu estava à procura de um emprego.

Nessa sociedade em que vivemos, para termos as coisas que queremos, precisamos dessa outra coisa chamada dinheiro – o que é ótimo, afinal sem ele ainda estaríamos trocando bens de consumo por cabras ou conchinhas da praia.

Até então, eu só fazia alguns bicos sempre que podia como caixa no negócio dos meus pais, o que era mais uma forma de me manter longe da cama nas horas em que eu não estava na faculdade do que de fato um emprego. Mas chegou um momento em que o salário que me davam (que só não eram cabras ou conchinhas da praia porque aí já seria sacanagem também) já não era o suficiente. Precisava sustentar meus vícios (meus jogos e meus gibis não se comprariam sozinhos), precisava pagar minhas dívidas (até pra mulher da cantina da faculdade eu devia), precisava alimentar minha namorada, meu gato e, principalmente, alimentar a mim mesmo. Precisava de um emprego de verdade.

 

 

Além do que, eu tenho um sério problema com cartão de crédito. Cartões de crédito funcionam basicamente como viagem no tempo, só que sem aquele riscos chatos como abrir um buraco no continuum espaço-tempo ou virar seu próprio pai. Digamos que você quer fazer uma compra, mas está sem dinheiro no presente. O cartão de crédito possibilita a você (vamos chamar de Você do Presente) emprestar dinheiro de você mesmo de um futuro próximo (ou Você do Futuro Próximo) – partindo do princípio que você vai ter dinheiro num futuro próximo, lógico.

O problema é quando o dia do vencimento da fatura chega para Você do Futuro Próximo e ele só tem o valor A, sendo que o dinheiro que Você do Presente pegou emprestado foi A + B. Não tendo como pagar o valor total, o Você do Futuro Próximo resolve pagar só com o que tem disponível no momento, mas promete apertar o cinto pelo resto do mês pra juntar o resto da grana necessária para que Você do Futuro Distante possa pagar a dívida no próximo mês. Aí a próxima fatura chega no futuro distante, mas Você do Futuro Distante não tem mais o valor que tinha porque não apenas o Você do Futuro Próximo gastou todo o dinheiro em comida e cerveja como também fez AINDA mais dívidas no cartão porque achava que “nah, ainda falta muito tempo, dá pra juntar a grana até lá”.

Agora, o Você do Futuro Distante tem que pagar A + B + C, sendo C os juros que começaram a correr. Então Você do Futuro Distante fica nervoso com os Vocês do passado e decide jogar esse pepino para os Vocês de Futuros Mais Distantes Ainda, até que chega uma hora em que você está devendo A + B + C + o resto do abecedário inteiro, e a única solução é um deles viajar de volta no tempo e assassinar o Você do Presente! Ou colocar ele num curso de gestão financeira, isso resolveria também.

Enfim, lá estava eu na minha jornada em busca de um emprego. Fiz currículos, espalhei vários por aí, não só em empresas de arquitetura, mas também em lojas onde eu gostaria de trabalhar (na grande maioria, livrarias ou lojas de informática). O grande problema mesmo pra mim era o horário: pouquíssimas empresas contratam funcionários sem experiência nenhuma, que só possam trabalhar meio período e que tenham a cara de trouxa que eu tenho. Fiquei também a procura de estágios, mas a maioria das empresas só procuravam estagiários que estivessem lá pelo penúltimo ano da faculdade. Eu ainda estava nos primeiros anos da faculdade de arquitetura, e até então não sabia projetar nenhuma casa que fosse mais complexa do que um retângulo com um trapézio em cima.

 


E uma árvore do lado.

 

Foi nessa situação em que um amigo da minha mãe que gerenciava uma obra em um banco surgiu e me ofereceu um emprego – não um estágio, um emprego mesmo, de carteira assinada e tudo. Era um salário mínimo, mas pra um estudante fodido que só podia trabalhar na parte da manhã, eu dei sorte demais.

Quando me contrataram, disseram que seria interessante porque eu conheceria de perto o dia-a-dia da obra, aprenderia sobre os materiais, as ferramentas, vistoriaria as plantas, as construções, etc. Seria ótimo pra mim, afinal como já me disseram várias vezes, as coisas mais importantes da profissão a gente aprende fora da faculdade. Bom, isso foi o que me disseram. Na prática, eu fui jogado num almoxarifado úmido e sujo no subsolo do prédio, numa salinha empoeirada com aquelas lâmpadas que, se não estão fazendo aquele som de zzzzzzzzzzzzzzz, é porque queimaram e eu estou no escuro de novo. Além disso, por ser uma obra, a maior parte dos meus colegas de trabalho eram pedreiros.

 


– ÔOOO, GOSTOSA

 

No meu primeiro dia de trabalho, eu coloquei a minha melhor camisa social, meus sapatos novos, penteei meu cabelinho e pus o crachá no pescoço, pronto pra causar aquela boa impressão nos chefes. Assim que pus os pés pela primeira vez no almoxarifado, eu ouvi um deles dizendo pro outro:

 
– Ê rapá, eu tava fazendo as contas aqui, e eu já devo ter comido mais de 350 bucetas.
 

E assim eu conheci o Anderson, que seria meu parceiro de almoxarifado pelos próximos 6 meses.

Por um bom tempo, era o único que eu sabia o nome. Sabe quando você é novo na sala, e tem tanta gente que parece que é impossível um dia decorar o nome de todos? Pois é. Pra mim, eram “os pedreiros” e só.

De repente, era como se eu estivesse em uma sitcom: personagem novo chega ao lugar e tem dificuldade pra se adequar ao ambiente e às pessoas de lá, resultando em várias situações cômicas e risadas de plateia pré-gravadas. O clássico trope do fish out of water.

As conversas dos pedreiros giravam sempre em torno de dois principais tópicos: mulheres e o intercurso com elas. Sabe aquele amigo mala que todo mundo tem que parece cuja mente parou de se desenvolver por volta da puberdade? De repente eu estava cercado por 30 desses amigos. Às vezes eles também comentavam sobre um amigo que falecera tragicamente (desmembrado pelo cachorro do dono da boca rival), da mulher que se separou do marido (pois esfaqueou ele e a amante 57 vezes), assuntos leves do tipo para se ter num agradável fim de tarde no trabalho.

Logo na minha primeira semana de trabalho, me convidaram para um lugar chamado Casa das Primas, o qual toda vez que eu perguntava do que se tratava eles só respondiam “quando a gente te levar lá tu vai saber”. Hoje em dia parece meio idiota não ter sacado de primeira do que se tratava, mas a Casa das Primas era nada mais que o puteiro mais próximo, para o qual eles iam toda primeira sexta-feira depois do 5º dia útil “fuder até estourar a chapuleta”, como eles gostavam de falar.

Das primeira vezes que me chamaram pra Casa das Primas, foi algo como:

 
– Vamo levar o Lucas pra Casa das Primas hoje pra apresentar pra ele!
– Ahnn, nãaao, obrigado, é que eu tenho namorada…
– E daí? Todo mundo aqui tem.
 

Ah. Hum.

Também tinha o Seu Ricardo, o chefe do almoxarifado, que ia muito com a minha cara. Claro, eu fazia merda aqui e ali, e daí tinha que aguentar ele brigando comigo. O problema é que até quando eu fazia as coisas certas ou em menos tempo do que o espero, tinha que ouvir comentários do tipo:

 
– O senhor é muito rápido. Imagina o senhor em cima de uma mulher numa noite fria de inverno.
 

Um dia, eu me dei conta de que, se fosse continuar vivendo ali naquele ambiente todo santo dia, eu precisava me adequar. Foi quando eu criei um personagem que interpretaria todo dia em que pisasse no trabalho, que seria tão pedreiro quanto os outros pedreiros. Os pedreiros inevitalmente puxariam assunto comigo, então eu teria que ser tão pedreiro quanto eles pra conversarmos de igual pra igual. Tipo uma vez que eu estava andando pela obra, quando vi eles reunidos vendo alguma coisa. Fui me aproximar pra ver do que se tratava, pra encontrar todos eles assistindo um vídeo no celular.

 
– Opa opa, eu quero ver também
– E AÍ LUCAS, O QUE TU FAZIA COM UMA DESSAS?
 

 
– Porra, mano, eu… pffffffff, porra, eu… pfffff, preciso dizer? Pôurra.
– ÊEEEEE DA-LHE LUCÃO
 

Um dia eu (fingia que) arrumava as coisas nas prateleiras, quando o Anderson me chamou pra mostrar uma coisa no celular: um vídeo amador, possivelmente filmado com o mesmo celular que o reproduzia ali, e mais possivelmente ainda pelo mesmo homem que o segurava naquele momento. Sem saber exatamente como ele esperava que eu reagisse, perguntei “… CARA, TU err, conhece essa gostosa aí?”, um tanto preocupado com a possibilidade do meu colega de trabalho estar me mostrando o próprio pau.

 
– Não. Mas olha só bem aqui, tá vendo? – ele disse, apontando pra tela. – Essa doida tem uns 35 anos.
 

Eu disse que o vídeo era um CLOSE FECHADO? Pois bem, o vídeo era um close fechado, e não era no rosto.

 
– Ué, como tu sabe?
– Sabendo, cara. Lucas… – ele começou a dizer, com a voz e a propriedade que somente um homem que já comeu mais de 350 bocetas teria. – … nessa vida eu já comi mais de 700 bucetas. Já te disse isso? Chega uma hora que só de bater o olho tu já sabe.
– Sério?
– Sério, pô. Por exemplo, deixa eu te mostrar – ele abriu outro vídeo no celular. – Ó, essa aqui, tá vendo? Aqui e aqui? Então. Essa tem uns 28. Olha essa outra aqui. Tá vendo? Essa tem uns 22. Agora, olha essa. Tá vendo isso bem aqui? Essa tem uns…
 

Então ele disse a idade e, meu deus, eu espero que ele esteja errado.

Todo dia eu aprendia uma palavra nova no trabalho, quase nenhuma relacionada à arquitetura ou engenharia. Vejam vocês, eu nunca imaginei que existissem tantos sinônimos para pênis, vaginas ou pênis em vaginas. Pra mim, que achava que já tinha aprendido todos no ensino médio, meu vocabulário se expandiu consideravelmente. Algumas eram engraçadas, outras não faziam o menor sentido, mas algumas eram uns palavrões tão cabeludos que não me deixavam dormir à noite.

Com o tempo, eu fui aprendendo o nome de cada um deles. Bem, “nome”, entre aspas. Tinha o Chupa, o Coiote, o Tropeço, o Beija, o Sassá, o Miserê, o Belezão (que tinha o costume de chamar todo os caras de Beleza), o Japonês (que era negro), o Negão (que seria engraçado, mas não era japonês), o Seu Zaca (que TODA vez que me via me dava uma balinha de café!!! Sério, ele tinha um estoque infinito), e por aí vai. E não eram todos pedreiros. Tinha o bombeiro hidráulico, o eletricista, o técnico de ar condicionado, o marceneiro, o encarregado de obras…

Um dia, o Anderson e mais alguns deles chegaram com umas sacolas do supermercado e me chamaram pra ir lá com eles. Eles tinham comprado pão, margarina, mortadela e uma garrafa de Coca-Cola, e disseram que eu podia me servir. O Seu Ricardo não gostava que a gente lanchasse no meio do expediente, então tínhamos que comer escondidos atrás de algumas estantes enquanto alguém ficava no balcão vigiando. Peguei uma fatia de mortadela, abri o pão com os dedos e, quando perguntei o que tinha pra passar a margarina, me estenderam uma faca descartável que ficava lá pelo almoxarifado (era isso ou o estilete enferrujado que o Coiote usou). Mas bom, eu já tinha visto vezes que alguns deles viravam a marmita dentro do próprio capacete e faziam ele de prato, pra depois lavar e colocar de volta na cabeça pra voltar a trabalhar, então aquilo até que foi bem higiênico em comparação.

Eu não gosto de mortadela, e com certeza devo ter pegado alguma doença aquele dia, mas quer saber? Eu nem liguei. Foi divertido estar ali, dividindo o lanche e comendo escondido entre as prateleiras do almoxarifado com aqueles caras que, se não fosse aquele emprego, eu nunca teria conhecido.

No meu tempo na empresa, eu aprendi bastante coisa. Não só como fazer uma surpresa pra minha namorada com leite condensado (“espera ela pelado em casa e vai derramando assim pelo peito até a cabeça do tico”, me ensinou o Belezão fazendo os movimentos com uma caixa de leite condensado invisível), mas também coisas que eu devo usar um dia na vida. Como instalar tomadas ou como pintar uma parede. Acabei aprendendo também, como prometido, bastante sobre os materiais e as ferramentas. Se quando eu cheguei eu não sabia nem da existência da maioria, quando saí já sabia até as situações em que cada uma devia ser usada. Além disso, aprendi como lidar e respeitar com as pessoas que, se tudo der certo, provavelmente um dia vão trabalhar comigo. Afinal, se eu chegar a algum dia ser um arquiteto, tenho que entender não só com o que eu vou trabalhar, mas com quem.

Depois de 6 meses a obra chegou ao fim, assim como o meu tempo lá. Tive que voltar mais uma vez pra buscar meus documentos e mais uma papelada necessária, e toda a piãozada que passava por mim me cumprimentava, perguntava como eu tava, pra onde ia depois dali e, claro, me convidava pra ir na Casa das Primas quando tivesse um tempo.

 
– Um dia, um dia.
– Pô, tá beleza então. Mas aí, já te contei que eu já comi mais de 1.400 bucetas?
 

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13 Comentários

  1. Lanita

    meu deus do ceu eu nao sei mais o q esperar do lucas…..

  2. Puta que pariu HAHAHAHA um texto melhor que o outro, e agora ainda tem os textos do Lucas! Espero ver cada vez mais postagens, você é foda hahaha

  3. Marcelo

    Po Ygor, eu achava seus textos fodas. Mas depois desse ai você virou mediano pra baixo. Valeu, corre atrás do prejuízo.

  4. Patrick

    Maneiro, ficou parecendo as histórias do pai do cid no não ouvo

  5. Ygor Freitas

    O Lucas é um presente dos deuses para a gente

    • Millena

      O site saiu do ar antes de eu salvar todos os textos. Que alívio que o Luke tem um fan do seu nível. “e ai será que ele volta?”

  6. Brou

    Sou pedreiro à 20 anos … Já contei pra vcs que já comi mais de ? Vixi perdi a conta. ..

  7. Quilua

    Saudade do KD =T
    Eu fui um dos flooders from hell

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