Medo e delírio na autoescola

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

Post originalmente publicado em 5 de janeiro de 2016.
 

Quando eu era moleque na década de 90/início de 2000, existiam basicamente três tipos de crianças: as radicais (e geralmente protagonistas de inúmeras aventuras em que no final acabavam se tornando agentes secretos) andavam de skate ou patins; as normais (mas que acidentalmente encontravam mapas de antigos tesouros escondidos por piratas) andavam de bicicleta; e aquelas cuja maior aventura era ir pra escola e voltar pra casa sem levar um cuecão das crianças mais altas andavam de patinete.

Adivinha em qual dos três grupos eu me enquadrava.

 

Dica: eu nunca fui um Goonie.

 

O que eu posso dizer? Eu gostava do meu patinete. Era fácil, seguro, e fazia exatamente o que eu queria que ele fizesse, sem surpresas. Se eu queria ir pra esquerda, era só virar pra esquerda. Se eu queria ir pra direita, virava pra direita. Se eu quisesse parar, era só colocar um pezinho pra fora da base direto no chão. Se eu quisesse ir o mais rápido que eu pudesse… bem, aí era melhor descer, dobrar ele, colocar debaixo do braço e ir correndo mesmo.

Eventualmente eu ganhei a minha primeira bicicleta de Natal do meu avô. Quando ele tirou a mão dos meus olhos e eu vi aquele maquinário monstruoso na minha frente pela primeira vez, eu CHOREI. Afinal, eu queria um Super Nintendo e ele me aparece com uma Caloi com o dobro do meu tamanho????? Deixei aquilo pegando poeira num quartinho nos fundos da casa e continuei sendo feliz com meu patinete por mais alguns anos.

Fui crescendo, e logo comecei a sentir pela primeira vez o peso da pressão social quando todas as crianças da vila começaram a aparecer com seus patins radicais e seus skates tunados. Até as crianças mais novas que eu já estavam fazendo drifts irados e apostando rachas acirrados em suas bikes numa versão infanto-juvenil de Velozes e Furiosos, enquanto a manobra mais radical que eu conseguia fazer no meu patinete era pegar bastante impulso e me agachar em cima do patinete em movimento (o que me fazia percorrer uma distância de aproximadamente 1,5m). Logo eu comecei a ouvir os primeiros “iihhh, alá o otário do patinete” das crianças descoladas que usavam boné virado pra trás, camisa xadrez amarrada na cintura e mascavam chiclete, e percebi que a hora de vencer meu medo havia finalmente chegado.

Não tive muitas dificuldades pra aprender a andar… Meu problema mesmo era frear. As minhas perninhas se atrapalhavam toda com aquela velocidade (que nem era tanta assim), eu não conseguia me estabilizar, e o resultado era sempre BLAM!, eu e o asfalto da rua juntinhos.

Foi então desenvolvi a seguinte técnica: quando queria desmontar da minha bike, eu ia até uma área com grama da vila, tipo o campinho de futebol, tirava os pés dos pedais e… Me deixava cair. Isso mesmo. Toda vez que eu queria descer da bicicleta, eu simplesmente me jogava de cima dela e quicava feito a perereca que Wesley Safadão viria a cantar sobre anos depois.

 

Imagem ilustrativa

 

Fiz isso por muito mais tempo do que poderia ser considerado normal para uma criança mentalmente saudável, o que eu claramente não era. Na verdade, eu fiz tantas vezes que logo as peças da bicicleta começaram a se soltar, até que chegou uma hora que ela ficou completamente inutilizada de tantas quedas que tomamos juntos. E agora, anos depois, essa mesma pessoa, esse mesmo indivíduo que só era capaz de parar um veículo simples da maneira mais kamikaze possível, decidiu que estava na hora de tirar uma carteira de motorista. Só o fato de eu ter conseguido sequer passar no exame psicotécnico já demonstra a fragilidade do sistema brasileiro de formação de condutores.

Eu tenho um pouco disso que o Google está me dizendo aqui na outra aba que se chama tacofobia, ou seja, medo de altas velocidades. Isso, e o fato de que, bom, eu sou um péssimo pedestre. Eu esbarro em velhinhas, tropeço em cachorros, atropelo carros parados. Não são raras as vezes em que alguém vem na minha direção, tenta desviar por um lado, eu vou pelo mesmo, ela tenta pelo outro, eu vou também e nós ficamos nessa dança no meio da calçada até o sol se pôr. Imagina um indivíduo com essas características controlando uma máquina assassina de 1 tonelada.

Isso tudo (e, claro, o fato de aulas de direção serem caras pra porra) fez com que eu desenvolvesse receio de dirigir e fosse adiando a decisão de tirar a carteira. Nos meus 22 anos, quando todos meus amigos e pessoas da minha idade – e até mais novas – começaram a aparecer com seus carros, suas chaves penduradas no cós da calça e suas frases de “hoje não vou beber, tô dirigindo”, eu percebi que a hora de vencer meu medo havia novamente chegado.

Corri pra autoescola mais próxima, me matriculei, fiz as aulas teóricas, o simulado, a prova teórica, e logo estava apto para começar as famigeradas aulas práticas.

No meu primeiro dia de aula prática, cheguei cedo e fiquei sentado esperando o instrutor, aquele que nas próximas semanas me guiaria pelos misteriosos caminhos da direção automobilística. Ele chegou, cabeça baixa mexendo no celular. Nos cumprimentamos e fomos em direção ao carro, ele sem tirar os olhos da tela em momento algum.

Dirigir funciona mais ou menos assim: existem três pedais, o freio, acelerador e a embreagem. No freio você para, no acelerador você avança e na embreagem você TOMA NO OLHO DO SEU CU PUTA QUE PARIU QUEM INVENTOU ESSA MERDA. E ainda existe uma coisa chamada câmbio manual que é A PIROCA DO PRÓPRIO SATANÁS que você é obrigado a segurar toda vez que quiser fazer QUALQUER COISA num carro.

 

Filho duma putaaaa

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever as primeiras aulas, seria TRAUMÁTICAS. Não tô brincando, tinha vezes que eu me pegava suando frio atrás do volante tentando disfarçar meu desespero crescente. Isso sem falar quando dava um branco completo na minha cabeça e eu esquecia completamente do que deveria fazer em seguida. A minha única experiência com direção até então tinha sido no GTA, mas dirigir um carro na vida real tá bem longe de ser só R2 pra acelerar, L2 pra frear e triângulo pra roubar o NPC mais próximo. Tinha dias em que eu cheguei a pensar que dirigir definitivamente não era pra mim. Que eu nunca ia aprender. Que, no final das contas, talvez fosse mais seguro pra mim e pra sociedade no geral se eu nunca mais entrasse num carro de novo pelo resto da vida.

E meu instrutor também não ajudava em absolutamente nada. O maluco não saía do WhatsApp!!!! Toda aula era basicamente nós dois dentro do carro e ele dizendo “primeira. Segunda. Terceira. Para. Acelera. Primeira…” sem nunca tirar os olhos do zapzapson. Sem falar que, com ele controlando tudo nos pedais do banco do carona, eu nunca sabia quem tinha feito algo, eu ou ele. Eu não tinha a sensação real da coisa, só aquela falsa impressão de que eu estava no controle.

De qualquer forma, com o tempo eu fui pegando o jeito. Na segunda semana o carro já não morria a cada quarteirão e na terceira eu já tinha parado de agarrar acidentalmente a perna do meu instrutor toda vez que ia trocar a marcha. As aulas enfim chegaram ao fim, e no último dia, fui atrás do meu sensei e o cumprimentei pela última vez, como forma de agradecimento por todos seus ensinamentos passados a mim. Ele não tirou os olhos do zaptzupt. Eu sinceramente acho que ele nem lembrava mais quem eu era, mas enfim.

Enfim, era chegada a hora. O momento decisivo. O último chefão que precisava ser derrotado para concluir a jornada: a prova prática.

Mas até para se chegar no chefão é preciso concluir mais uma quest, que era… Ligar pro Detran e marcar um horário. A vida é um RPG bem sem graça. Mas eu consegui marcar, e no dia e horário marcados lá estava eu, pronto para o último desafio.

O meu avaliador chegou, nos cumprimentamos e seguimos em direção ao carro. Ele me explicou brevemente como seria – começaríamos com uma baliza, primeiro eu teria que estacionar o carro dentro da área marcada no chão e em seguida sair com ele para o percurso. Eu teria 5 minutos para a baliza e três tentativas. Ok, vamos lá.

Entrei no carro, pus o cinto, ajeitei os retrovisores. Girei a chave, baixei o freio de mão, pisei na embreagem e passei a primeira. Alinhei a roda traseira do carro com as varas da frente conforme o meu instrutor e os tutoriais que tinha visto no YouTube no dia anterior tinham me ensinado e pus na marcha-ré. Tentei não demonstrar, mas por dentro eu estava NERVOUSER.

Então algo aconteceu: ouvi uma voz muito familiar que disse dentro da minha cabeça “Luke…”. Nesse momento, todo meu nervosismo, todo meu medo e toda minha angústia foram embora. “Luke, use a Força!”, a voz de Obi-Wan Kenobi na versão dublada de Star Wars ecoava na minha cabeça. “Tudo bem, Mestre Kenobi. Eu tentarei!”, eu disse mentalmente. “Faça ou não faça, não existe tentar!”, disse outra voz, dessa vez do Mestre Yoda.

 

 

Comecei a decididamente dar a ré. Confiei em meus instintos e me deixei levar. “Sinta a Força, deixe-a fluir”, dizia a voz dentro da minha cabeça, enquanto outra fora dela dizia “para o carro”. Era o avaliador ao meu lado me mandando parar. “Para o carro. Desce.”

 
Ah não.
 

“A Força vai estar com você, sempre”, dizia o Mestre Jedi. “AH PRA PUTA QUE PARIU”, eu respondia.

Descemos do carro e ele me mostrou que eu tinha parado a roda traseira em cima de uma das faixas laterais.

― Tá vendo aqui? Não pode. Você avançou o meio-fio. É falta eliminatória. Volta lá pra dentro e espera te chamarem.

E assim, eu não durei nem 3 minutos. Igual a primeira vez que eu… Hum, pensando bem deixa quieto.

O jeito foi voltar de ônibus pra casa, o que eu faria de qualquer jeito afinal eu não ia levar o carro da autoescola pra casa né, mas enfim. No caminho de volta, vi todos os tipos de pessoas dirigindo seus carros. Vi jovens, vi velhos, vi homens e mulheres e acho que até um cachorro mas pode ter sido o reflexo do sol, não sei. Foi quando tomei uma decisão que mudaria o rumo da minha vida. Cerrei os punhos e disse em direção aos céus: eu vou treinar até me tornar o melhor motorista do mundo [da categoria B pelo menos].

Me acompanhem nesta jornada rumo a me tornar o hokage da direção automotiva.

 
Nota do Luke do Presente: Porra nenhuma. Mais de um ano desde esse post e eu não lembro mais nem como que liga o ar condicionado do carro.

Vou viver de Uber o resto da vida, desculpa aí, Luke do Passado.

O maior trapézio de Belém do Pará

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 
Quando se termina um namoro que já se arrastava por meses, a melhor coisa a se fazer é ocupar a mente. Ficar em casa trancado no quarto ouvindo músicas depressivas só é bonito nos filmes, na vida real o máximo que você vai conseguir é dar um tiro na própria cabeça. Voltei a sair com os amigos, comecei a ler livros e ver filmes que estavam na minha lista faz tempo, voltei a escrever no blog e…entrei pra academia!

 

 

Durante toda a minha vida, eu sempre fugi de uma boa briga pelo medo – e certeza – de que ia levar uma surra tão grande que até os meus FILHOS iam nascer com hematomas. O tempo ia passando, cada vez mais amigos meus iam entrando para a academia e eu ia notando como isso de alguma forma afetava completamente não só o corpo mas a mente deles: na primeira semana, os comentários eram sempre “putz, tô doído demais, essa academia tá me matando”. Na segunda semana, eles já chegavam com os ombros visivelmente mais largos e dizendo “rapaz, academia é muito bom”. No segundo mês, as primeiras camisetas regata já estavam sendo usadas, sendo possível ver os primeiros músculos tomando forma nos braços.

Por volta do terceiro ou quarto mês, as regatas já davam lugar a ABADÁS, e os comentários passaram a ser coisas como “abjhbabjabja açaí com guaraná rhuahuahuahua” e “bajhabbjaba WHEY COM GRANOLA BJAABBAJBABAABA”.

A partir daí, meu amigo, foi ladeira abaixo: as camisetas foram ficando menores até sumirem de vez, os punhos não se abriam e os braços não fechavam, e quando eu me dei conta meus amigos andavam do meu lado sem camiseta exalando testosterona e Whey Protein enquanto eu continuava o mesmo nugget de frango de sempre.

Isso tudo fez com que eu formasse a ideia de que a academia era algum tipo de instituição maligna e que alguma coisa suspeita definitivamente acontecia ali, uma fábrica de Léos Stronda. Talvez fosse alguma coisa na água do bebedouro ou na música eletrônica ambiente, ou talvez as pessoas só ficassem assim de tanto cheirar o álcool usado pra limpar os equipamentos. Enfim. Mas mesmo assim, na cara e na coragem, decidi me inscrever na academia aqui perto de casa e seja o que deus quiser.

O primeiro tapa na cara veio mesmo quando me disseram que eu não podia malhar de calças jeans. Certo, tive então que comprar bermudas, camisetas de exercícios e qualquer outro tênis que não fosse All Star. O primeiro dia da academia chegou, e logo saí de casa triunfante com meus fones de ouvido e adentrei no recinto assim:

 

 – olá amigos da academia

 

Achei que ia apanhar nesse dia.

Um dos meus maiores medos de entrar na academia era justamente que as pessoas ficassem olhando pra mim e me julgando dos pés à cabeça, mas, assim como em toda a minha vida, ninguém reparou em mim. Comecei a malhar já faz um tempinho e agora já acostumei com rotina de treinos, mas no começo sempre voltava pra casa como se tivesse sido surpreendido por um grupo de caminhoneiros em um banheiro de posto de beira de estrada, espancado, carregado por um lance de escadas acima, jogado pelo mesmo lance de escadas abaixo, rolado até a rua e então atropelado pelos mesmos caminhoneiros fugindo no caminhão.

Aliás, é engraçado reparar nos vários tipos de pessoas que frequentavam o mesmo lugar que eu, e, como aqui neste blog somos adeptos do empirismo (leia-se: cago regra mesmo), tomo a minha experiência pessoal como universal: em qualquer academia de qualquer lugar do mundo, sempre tem aquele cara (ou grupo de caras) que, quando você chega, ele já está lá. Quando você sai, ele continua lá. Quando você passa de carro no final de semana na frente da academia fechada e olha pela janela, ELE AINDA CONTINUA LÁ.

É aquele cara que passou tanto tempo levantando pesos e tomando doses cavalares de proteína todos os dias que seu corpo sofreu mutações e criou músculos até onde não tem – ou não deveria ter. É o tipo de gente que volta e meia você aparece no jornal com uma necrose bizarra se espalhando pelo corpo porque um belo dia achou que injetar óleo de cozinha com três partes de anabolizante pra cavalo na batata da perna seria uma boa ideia.

 

 imagem ilustrativa

 

Tem essa garota na minha academia. Mais ou menos a minha idade, malha no mesmo horário que eu. Não faço a menor ideia do nome, mas por algum motivo imagino que seja bem bonito. Passei dias semanas elaborando na minha cabeça dezenas de frases que pudessem iniciar um possível diálogo no mínimo divertido, mas até então o melhor que eu tinha conseguido foi “oi, me empresta o álcool?”.

Um dia, finalmente reuni coragem o suficiente pra ir até lá mostrar o cara legal que eu sou. Levantei da máquina de supino, fiz meu caminho pelos diversos obstáculos da academia, desviando de pesos sendo abaixados e pés puxando cordas e braços levantando halteres – caminhar por uma academia pode ser tão perigoso quanto aquelas gincanas do Silvio Santos. Enfim, me aproximei enquanto ela descansava sentada no equipamento, e disse:

Oi!

Então, só por curiosidade, olhei pra quantidade de barras que ela levantava e…Bom, deixa pra lá.

… me empresta o álcool?

Depois desse dia, passei a malhar sempre do outro lado da academia.

As meninas do Leblon não olham mais pra mim

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 

No começo do ano, depois de confirmar minhas suspeitas de que o meu grau de miopia tinha aumentado, decidi voltar a usar óculos. Viver com miopia, mesmo que pouquinha como é o meu caso, é um saco principalmente em duas situações: a) quando você quer ver um filme, mas tem que ficar apertando os olhos até encontrar um ponto em que as legendas fiquem com o mínimo de foco necessário para serem lidas; b) você tá numa parada escura à noite e tem que ficar apertando os seus olhinhos pra enxergar o nome do ônibus que tá vindo pra saber se é o seu, mas quando finalmente consegue enxergar já é tarde demais porque ele já tá quase em cima de você e aí você tem que sair correndo atrás dele porque ele parou (QUANDO para) a 5 metros de distância de você, mas aí você tropeça numa poça de água imunda e cai. Ei, isso é mais comum do que vocês imaginam!

Por um breve momento entre 2008 e 2009, eu usava óculos. Não era muito bonito – na verdade, como tudo em mim na minha adolescência, era bem feinho, coitado. Até que um dia alguém roubou ele de mim. Sim, ROUBOU. Se esgueirou pra dentro da sala quando não tinha ninguém, braços estendidos e os dedinhos retorcidos daquele jeito típico de alguém que vai fazer alguma maldade, abriu minha mochila, abriu meu estojo e colocou os óculos dentro do saco que trazia nas costas. Certo, eu sei que não foi assim, mas é um jeito muito mais legal de imaginar uma coisa tão idiota quanto alguém roubando os seus óculos. Hoje em dia eu fico pensando: que tipo de pessoa você tem que ser pra roubar os óculos de outra? Ou alguém muito cruel, do tipo que também rouba bengalas, muletas, cadeiras de rodas, incubadoras e máquinas de ressonância eletromagnética; ou um ladrão com coincidentemente o mesmo grau de miopia que eu – o que eu acho mais improvável. Sei lá.

Depois da perda dos meus queridos óculos, eu passei esse tempo todo sem nada na cara (nem mesmo vergonha, risos), até que situações como as descritas no primeiro parágrafo passaram a ser tão frequentes que eu decidi dar um basta e recuperar a porcentagem da minha visão que me foi negada pela genética. Aí eu esbarrei no primeiro problema: ok, que modelo usar?

Internet afora, eu encontrei dicas de que formato de óculos usar de acordo com o formato do seu rosto. O problema é QUAL DESSAS É A MINHA CABEÇA?

 

 

Fui analisar minha cabeça na frente do espelho de vários ângulos e achei ela meio quadrada, mas também meio redonda, mas ao mesmo tempo meio coração mas um pouco mais oval?? Perguntei pra cinco pessoas e cada uma disse um formato diferente (inclusive “de banana”, o qual, como vocês podem ver, não está representado na imagem então não existe), o que me leva a crer de que a minha cabeça é provavelmente um dodecaedro. Não existe muita informação sobre óculos para pessoas com esse formato de cabeça na internet, então tive que deixar meu coração me guiar na escolha.

Aí eu encontrei o modelo que eu queria. Esse aqui:

 
 

 

Modelo escolhido, próxima fase: encontrar a versão física do mesmo. O que significa que eu teria de, mais uma vez, enfrentar uma das minhas maiores fobias: óticas. E eu tô usando muito dois pontos, né? Olha só: desculpa.

Eu tenho um sério problema com óticas, não com as óticas em si, mas com a quantidade absurda de espelhos que elas costumam usar na decoração. Eu não sou exatamente fã da minha aparência, então toda vez que eu entro em uma ótica, pra onde quer que eu olhe, todos os lados, tudo o que eu vejo é a minha cara, e isso não só me incomoda como meio que deprime também. Entrar numa ótica consegue ser ainda pior do que entrar numa Casa dos Espelhos, porque numa ótica a única deformação está em você mesmo. Isso sem falar naqueles espelhos de aumento pra maquiagem que tem em TODAS as óticas pra você testar os óculos. Esse tipo de espelho foi projetado com o único propósito de acabar com o seu dia.

 

Esses filhos da puta. Se acham tão espertos.

 

Você sabe quando a câmera dá um close fechado no Bob Esponja e ele vira um desenho ultrarrealista? É exatamente assim que eu me sinto quando olho num desses.

Fora isso, ainda existem os vendedores de óticas, que simplesmente não falam a mesma língua que você. Cheguei na ótica, mostrei a imagem no celular, disse que queria um modelo como esse da foto, sem edição, sem firula, sem porra nenhuma. Discreto.

 
 

― ah sim sr nós temos um igualzinho eu vou buscar no deposito pro sr e já trago, ok?
― Tá bem, obrigado.
― aqui sr eu encontrei estes modelos o sr poderia estar dando uma olhada

 

― Errr, eu vou dar mais uma olhada por aí e mais tarde eu volto, pode ser?

 

Mas podia ser bem pior: todos os vendedores de ótica poderiam ser vendedores da Chilli Beans.

Chilli Beans funciona assim: existe um área ao redor de todas as Chilli Beans com um raio de cerca de 5 metros da entrada pra fora. Se você, ao passar pela frente de uma, desavisadamente pisar com o dedinho do pé dentro dessa área, um hipster bombado de 1,90m de coque samurai e tatuagens em todas as áreas visíveis do corpo imediatamente surge e te leva contra a sua vontade pra conhecer a toda a linha de óculos da coleção Outono/Inverno que acaba de chegar na loja e que vai combinar PERFEITAMENTE com seu o estilo.

 

― BOM DIA SR VC NAO GOSTARIA DE DAR UMA CONFERIDA NA NOSSA NOVA COLEÇÃO IMPERDIVEL QUE TÁ CHEGANDO HOJE??
― opa obrigado mas eu meio que tô com pressa rs
― SÓ DAR UMA CONFERIDA SEM COMPROMISSO OLHA AQUI ESSE MODELO COMO COMBINA PERFEITO COM SEU ROSTO VAMO TESTAR?
― olha desculpa mas eu to sem tempo minha mãe acabou de sofrer um acidente de carro e tA no hospital entre a vida e a morte eu tenho que
― FICOU SEN SA CIO NAL EM VOCE SUPER TRANSADO E TÁ EM PROMOÇÃO EIN 40% OFF À VISTA 2X DE 120,00 SEM JUROS NO CARTÃO SE VOCE QUISER EU EMBALO AGORA MESMO
― amigo eu nem preciso usar óculos!!!
― AQUI SEU NOVISSIMO ÓCULOS COM A QUALIDADE CHILLI BEANS™ 1 ANO DE GARANTIA E AQUI A SUA CARTEIRA MUITO OBRIGADO VOCE GOSTARIA DE CONHECER TAMBEM NOSSA NOVA COLEÇÃO DE RELOGIOS QUE BRILHAM NO ESCURO?

 

Eu tenho uma teoria sobre vendedores da Chilli Beans. Eu acho que lá atrás, no fundo de toda loja, do outro lado daquela portinha de onde saem tantos vendedores, existe na verdade um portal pro inferno, e os vendedores são nada menos que as almas dos condenados que fizeram um trato com Satanás de serem libertados da danação eterna se conseguirem atingir a cota diária de vendas. Por trás de cada “sem compromisso, sem compromisso” está um grito desesperado de socorro, e se você olhar bem no fundo dos olhos de um vendedor, você vai ver o pedido de ajuda de uma alma miserável que só quer, enfim, descansar. Já reparou como sempre que você passa na frente de uma Chilli Beans os vendedores NUNCA são os mesmos de 20 minutos atrás? Se não, vai começar a reparar agora.

No final das contas, eu acabei encontrando uma armação até que simpática em uma ótica perto de casa. A armação parece com a que eu queria, só que maior e mais quadrada do que eu gostaria, o que às vezes me faz sentir meio ridículo, como uma hipster retardada que usa óculos vintage sem grau, ama café, Clube da Luta e passa o dia no Tumblr. Ok, de fato eu tô tomando café agora mesmo, tenho livro e filme do Clube da Luta e passo o dia no Tumblr, mas mas MAS OS MEUS ÓCULOS TÊM GRAU. E eu só os uso pra ver filme e não cair na poça de água da parada de ônibus, então não julguem a mim como eu gosto de julgar os outros.

Enfim, é muito bom voltar a enxergar. Depois de tanto tempo sem poder distinguir qualquer coisa escrita a uma certa distância de mim, usar uma lente com o meu grau é como ver tudo em uma TV full HD porreta. Quando eu coloquei os óculos já prontos pela primeira vez na ótica e voltei a enxergar depois de tantos anos, me emocionei tanto que comecei a chorar, então as vendedoras se emocionaram e choraram junto comigo, e todos nós nos abraçamos e choramos e sorrimos juntos, eu, as vendedoras, uma freira e um pequeno grupo de órfãs francesas que passavam pela rua naquele momento com um filhote de cãozinho muito esperto. Foi muito bonito, e uma versão deste post dirigida pelo Steven Spielberg já está em pré-produção, com Jake Gyllenhaal no papel de Luke e Nicolas Cage no papel de óculos.

 

Como eu me tornei um pedreiro

Hoje é um dia especial.  Há uns 10, 12 anos eu lia um blog chamado “Que Diabos?” (KD, pros íntimos), do luke. Por causa dele eu comecei a ler Douglas Adams, escrever no Improbabilidade e basicamente me tornei o que sou hoje. Um lixo.

De qualquer forma, sempre fui muito fã do cara e, como tudo o que eu gosto, o KD morreu. Então decidi recuperar com o luke os melhores textos daquela época linda e postar semanalmente aqui. To me sentindo um empresário que depois de anos decide organizar a volta do Los Hermanos. Tirando o fato de que Los Hermanos é um saco e o KD é incrível. Espero que vocês o amem tanto quanto eu.

Senhoras e senhores…Lucas Guedes.

 

 

Crianças, no verão de 2012, eu estava à procura de um emprego.

Nessa sociedade em que vivemos, para termos as coisas que queremos, precisamos dessa outra coisa chamada dinheiro – o que é ótimo, afinal sem ele ainda estaríamos trocando bens de consumo por cabras ou conchinhas da praia.

Até então, eu só fazia alguns bicos sempre que podia como caixa no negócio dos meus pais, o que era mais uma forma de me manter longe da cama nas horas em que eu não estava na faculdade do que de fato um emprego. Mas chegou um momento em que o salário que me davam (que só não eram cabras ou conchinhas da praia porque aí já seria sacanagem também) já não era o suficiente. Precisava sustentar meus vícios (meus jogos e meus gibis não se comprariam sozinhos), precisava pagar minhas dívidas (até pra mulher da cantina da faculdade eu devia), precisava alimentar minha namorada, meu gato e, principalmente, alimentar a mim mesmo. Precisava de um emprego de verdade.

 

 

Além do que, eu tenho um sério problema com cartão de crédito. Cartões de crédito funcionam basicamente como viagem no tempo, só que sem aquele riscos chatos como abrir um buraco no continuum espaço-tempo ou virar seu próprio pai. Digamos que você quer fazer uma compra, mas está sem dinheiro no presente. O cartão de crédito possibilita a você (vamos chamar de Você do Presente) emprestar dinheiro de você mesmo de um futuro próximo (ou Você do Futuro Próximo) – partindo do princípio que você vai ter dinheiro num futuro próximo, lógico.

O problema é quando o dia do vencimento da fatura chega para Você do Futuro Próximo e ele só tem o valor A, sendo que o dinheiro que Você do Presente pegou emprestado foi A + B. Não tendo como pagar o valor total, o Você do Futuro Próximo resolve pagar só com o que tem disponível no momento, mas promete apertar o cinto pelo resto do mês pra juntar o resto da grana necessária para que Você do Futuro Distante possa pagar a dívida no próximo mês. Aí a próxima fatura chega no futuro distante, mas Você do Futuro Distante não tem mais o valor que tinha porque não apenas o Você do Futuro Próximo gastou todo o dinheiro em comida e cerveja como também fez AINDA mais dívidas no cartão porque achava que “nah, ainda falta muito tempo, dá pra juntar a grana até lá”.

Agora, o Você do Futuro Distante tem que pagar A + B + C, sendo C os juros que começaram a correr. Então Você do Futuro Distante fica nervoso com os Vocês do passado e decide jogar esse pepino para os Vocês de Futuros Mais Distantes Ainda, até que chega uma hora em que você está devendo A + B + C + o resto do abecedário inteiro, e a única solução é um deles viajar de volta no tempo e assassinar o Você do Presente! Ou colocar ele num curso de gestão financeira, isso resolveria também.

Enfim, lá estava eu na minha jornada em busca de um emprego. Fiz currículos, espalhei vários por aí, não só em empresas de arquitetura, mas também em lojas onde eu gostaria de trabalhar (na grande maioria, livrarias ou lojas de informática). O grande problema mesmo pra mim era o horário: pouquíssimas empresas contratam funcionários sem experiência nenhuma, que só possam trabalhar meio período e que tenham a cara de trouxa que eu tenho. Fiquei também a procura de estágios, mas a maioria das empresas só procuravam estagiários que estivessem lá pelo penúltimo ano da faculdade. Eu ainda estava nos primeiros anos da faculdade de arquitetura, e até então não sabia projetar nenhuma casa que fosse mais complexa do que um retângulo com um trapézio em cima.

 


E uma árvore do lado.

 

Foi nessa situação em que um amigo da minha mãe que gerenciava uma obra em um banco surgiu e me ofereceu um emprego – não um estágio, um emprego mesmo, de carteira assinada e tudo. Era um salário mínimo, mas pra um estudante fodido que só podia trabalhar na parte da manhã, eu dei sorte demais.

Quando me contrataram, disseram que seria interessante porque eu conheceria de perto o dia-a-dia da obra, aprenderia sobre os materiais, as ferramentas, vistoriaria as plantas, as construções, etc. Seria ótimo pra mim, afinal como já me disseram várias vezes, as coisas mais importantes da profissão a gente aprende fora da faculdade. Bom, isso foi o que me disseram. Na prática, eu fui jogado num almoxarifado úmido e sujo no subsolo do prédio, numa salinha empoeirada com aquelas lâmpadas que, se não estão fazendo aquele som de zzzzzzzzzzzzzzz, é porque queimaram e eu estou no escuro de novo. Além disso, por ser uma obra, a maior parte dos meus colegas de trabalho eram pedreiros.

 


– ÔOOO, GOSTOSA

 

No meu primeiro dia de trabalho, eu coloquei a minha melhor camisa social, meus sapatos novos, penteei meu cabelinho e pus o crachá no pescoço, pronto pra causar aquela boa impressão nos chefes. Assim que pus os pés pela primeira vez no almoxarifado, eu ouvi um deles dizendo pro outro:

 
– Ê rapá, eu tava fazendo as contas aqui, e eu já devo ter comido mais de 350 bucetas.
 

E assim eu conheci o Anderson, que seria meu parceiro de almoxarifado pelos próximos 6 meses.

Por um bom tempo, era o único que eu sabia o nome. Sabe quando você é novo na sala, e tem tanta gente que parece que é impossível um dia decorar o nome de todos? Pois é. Pra mim, eram “os pedreiros” e só.

De repente, era como se eu estivesse em uma sitcom: personagem novo chega ao lugar e tem dificuldade pra se adequar ao ambiente e às pessoas de lá, resultando em várias situações cômicas e risadas de plateia pré-gravadas. O clássico trope do fish out of water.

As conversas dos pedreiros giravam sempre em torno de dois principais tópicos: mulheres e o intercurso com elas. Sabe aquele amigo mala que todo mundo tem que parece cuja mente parou de se desenvolver por volta da puberdade? De repente eu estava cercado por 30 desses amigos. Às vezes eles também comentavam sobre um amigo que falecera tragicamente (desmembrado pelo cachorro do dono da boca rival), da mulher que se separou do marido (pois esfaqueou ele e a amante 57 vezes), assuntos leves do tipo para se ter num agradável fim de tarde no trabalho.

Logo na minha primeira semana de trabalho, me convidaram para um lugar chamado Casa das Primas, o qual toda vez que eu perguntava do que se tratava eles só respondiam “quando a gente te levar lá tu vai saber”. Hoje em dia parece meio idiota não ter sacado de primeira do que se tratava, mas a Casa das Primas era nada mais que o puteiro mais próximo, para o qual eles iam toda primeira sexta-feira depois do 5º dia útil “fuder até estourar a chapuleta”, como eles gostavam de falar.

Das primeira vezes que me chamaram pra Casa das Primas, foi algo como:

 
– Vamo levar o Lucas pra Casa das Primas hoje pra apresentar pra ele!
– Ahnn, nãaao, obrigado, é que eu tenho namorada…
– E daí? Todo mundo aqui tem.
 

Ah. Hum.

Também tinha o Seu Ricardo, o chefe do almoxarifado, que ia muito com a minha cara. Claro, eu fazia merda aqui e ali, e daí tinha que aguentar ele brigando comigo. O problema é que até quando eu fazia as coisas certas ou em menos tempo do que o espero, tinha que ouvir comentários do tipo:

 
– O senhor é muito rápido. Imagina o senhor em cima de uma mulher numa noite fria de inverno.
 

Um dia, eu me dei conta de que, se fosse continuar vivendo ali naquele ambiente todo santo dia, eu precisava me adequar. Foi quando eu criei um personagem que interpretaria todo dia em que pisasse no trabalho, que seria tão pedreiro quanto os outros pedreiros. Os pedreiros inevitalmente puxariam assunto comigo, então eu teria que ser tão pedreiro quanto eles pra conversarmos de igual pra igual. Tipo uma vez que eu estava andando pela obra, quando vi eles reunidos vendo alguma coisa. Fui me aproximar pra ver do que se tratava, pra encontrar todos eles assistindo um vídeo no celular.

 
– Opa opa, eu quero ver também
– E AÍ LUCAS, O QUE TU FAZIA COM UMA DESSAS?
 

 
– Porra, mano, eu… pffffffff, porra, eu… pfffff, preciso dizer? Pôurra.
– ÊEEEEE DA-LHE LUCÃO
 

Um dia eu (fingia que) arrumava as coisas nas prateleiras, quando o Anderson me chamou pra mostrar uma coisa no celular: um vídeo amador, possivelmente filmado com o mesmo celular que o reproduzia ali, e mais possivelmente ainda pelo mesmo homem que o segurava naquele momento. Sem saber exatamente como ele esperava que eu reagisse, perguntei “… CARA, TU err, conhece essa gostosa aí?”, um tanto preocupado com a possibilidade do meu colega de trabalho estar me mostrando o próprio pau.

 
– Não. Mas olha só bem aqui, tá vendo? – ele disse, apontando pra tela. – Essa doida tem uns 35 anos.
 

Eu disse que o vídeo era um CLOSE FECHADO? Pois bem, o vídeo era um close fechado, e não era no rosto.

 
– Ué, como tu sabe?
– Sabendo, cara. Lucas… – ele começou a dizer, com a voz e a propriedade que somente um homem que já comeu mais de 350 bocetas teria. – … nessa vida eu já comi mais de 700 bucetas. Já te disse isso? Chega uma hora que só de bater o olho tu já sabe.
– Sério?
– Sério, pô. Por exemplo, deixa eu te mostrar – ele abriu outro vídeo no celular. – Ó, essa aqui, tá vendo? Aqui e aqui? Então. Essa tem uns 28. Olha essa outra aqui. Tá vendo? Essa tem uns 22. Agora, olha essa. Tá vendo isso bem aqui? Essa tem uns…
 

Então ele disse a idade e, meu deus, eu espero que ele esteja errado.

Todo dia eu aprendia uma palavra nova no trabalho, quase nenhuma relacionada à arquitetura ou engenharia. Vejam vocês, eu nunca imaginei que existissem tantos sinônimos para pênis, vaginas ou pênis em vaginas. Pra mim, que achava que já tinha aprendido todos no ensino médio, meu vocabulário se expandiu consideravelmente. Algumas eram engraçadas, outras não faziam o menor sentido, mas algumas eram uns palavrões tão cabeludos que não me deixavam dormir à noite.

Com o tempo, eu fui aprendendo o nome de cada um deles. Bem, “nome”, entre aspas. Tinha o Chupa, o Coiote, o Tropeço, o Beija, o Sassá, o Miserê, o Belezão (que tinha o costume de chamar todo os caras de Beleza), o Japonês (que era negro), o Negão (que seria engraçado, mas não era japonês), o Seu Zaca (que TODA vez que me via me dava uma balinha de café!!! Sério, ele tinha um estoque infinito), e por aí vai. E não eram todos pedreiros. Tinha o bombeiro hidráulico, o eletricista, o técnico de ar condicionado, o marceneiro, o encarregado de obras…

Um dia, o Anderson e mais alguns deles chegaram com umas sacolas do supermercado e me chamaram pra ir lá com eles. Eles tinham comprado pão, margarina, mortadela e uma garrafa de Coca-Cola, e disseram que eu podia me servir. O Seu Ricardo não gostava que a gente lanchasse no meio do expediente, então tínhamos que comer escondidos atrás de algumas estantes enquanto alguém ficava no balcão vigiando. Peguei uma fatia de mortadela, abri o pão com os dedos e, quando perguntei o que tinha pra passar a margarina, me estenderam uma faca descartável que ficava lá pelo almoxarifado (era isso ou o estilete enferrujado que o Coiote usou). Mas bom, eu já tinha visto vezes que alguns deles viravam a marmita dentro do próprio capacete e faziam ele de prato, pra depois lavar e colocar de volta na cabeça pra voltar a trabalhar, então aquilo até que foi bem higiênico em comparação.

Eu não gosto de mortadela, e com certeza devo ter pegado alguma doença aquele dia, mas quer saber? Eu nem liguei. Foi divertido estar ali, dividindo o lanche e comendo escondido entre as prateleiras do almoxarifado com aqueles caras que, se não fosse aquele emprego, eu nunca teria conhecido.

No meu tempo na empresa, eu aprendi bastante coisa. Não só como fazer uma surpresa pra minha namorada com leite condensado (“espera ela pelado em casa e vai derramando assim pelo peito até a cabeça do tico”, me ensinou o Belezão fazendo os movimentos com uma caixa de leite condensado invisível), mas também coisas que eu devo usar um dia na vida. Como instalar tomadas ou como pintar uma parede. Acabei aprendendo também, como prometido, bastante sobre os materiais e as ferramentas. Se quando eu cheguei eu não sabia nem da existência da maioria, quando saí já sabia até as situações em que cada uma devia ser usada. Além disso, aprendi como lidar e respeitar com as pessoas que, se tudo der certo, provavelmente um dia vão trabalhar comigo. Afinal, se eu chegar a algum dia ser um arquiteto, tenho que entender não só com o que eu vou trabalhar, mas com quem.

Depois de 6 meses a obra chegou ao fim, assim como o meu tempo lá. Tive que voltar mais uma vez pra buscar meus documentos e mais uma papelada necessária, e toda a piãozada que passava por mim me cumprimentava, perguntava como eu tava, pra onde ia depois dali e, claro, me convidava pra ir na Casa das Primas quando tivesse um tempo.

 
– Um dia, um dia.
– Pô, tá beleza então. Mas aí, já te contei que eu já comi mais de 1.400 bucetas?