Aparecida, a doméstica

Texto originalmente publicado no dia 4 de junho de 2013
 

Era uma terça feira nublada de setembro como todas as terças feiras nubladas de setembro costumam ser. Eu iria voltar para casa mais cedo naquele dia por não ter tido aula na faculdade. Nada de extraordinário. Fiz meu caminho, cheguei em casa, entrei pela garagem como de costume, subi as escadas, peguei meu chaveiro do Yoshi e abri a porta da cozinha. Na sala, uma gritaria por causa de uma mulher que vivia no Forró. Era Casos de Família. A TV estava ligada porque Aparecida, a moça que limpa, mulher batalhadora, gostava de passar as roupas ouvindo a realidade da família brasileira.

 
-Oi, Aparecida! Minha mãe tá aí?
-Ai Jesus, Igu! Nem te vi chegar menino. Ó, ela tá não. Ela ficou fora o dia todo ela.
-Ah, sim. Mas tá tudo bem, Aparecida? Precisa de alguma coisa?
-Nada ô, eu me viro. Tu me conhece né. Ó, arrumei lá seu quarto.
 

Senti um calafrio. Todas as vezes em que Aparecida resolvia arrumar meu quarto, ela mudava as coisas de lugar de forma que nem eu as achava e nem ela podia me ajudar a achar. Não por má vontade, mas por não saber responder coisas do tipo “você viu meu iPod?” tendo em vista que as respostas eram “Ih Ingo, sei que é isso de ‘ai pode’ não. Só aipode tá no seu quarto, tirei nada daí” acompanhadas de um gostoso sorriso com os poucos e tímidos dentes que lhe restavam.

Cheguei no meu quarto e, aparentemente, estava tudo normal. Exceto pela webcam que costumava ficar na gaveta e que, nesse dia específico, estava acoplada ao computador. Até aí nada demais, minha mãe costumava usá-la e não guardar. Coisa de mãe que usa webcam. O que importava é que dessa vez, Aparecida tinha feito seu trabalho sem mudar nada de lugar e eu estava feliz com isso.

O que eu não sabia é que aquele era o último dia de Aparecida lá em casa contribuindo nas tarefas domésticas. No fim do turno ela me explicou que iria voltar para o Maranhão pois o irmão dela estava passando por problemas de saúde e que meus pais já haviam acertado tudo com ela. Eu odiava abraços de despedida.

 
Houve um abraço de despedida.
 

Naquele instante Aparecida disse que eu era um jovem inteligente, carismático e que torcia pelo meu sucesso. Agradeci emocionado, mesmo intrigado com aquele cheiro de Leite de Rosas que iria demorar pra sair de mim. Foi seu último adeus. Hoje em dia as belas palavras de Aparecida ainda ecoam na minha mente e me emocionam. Espero que ela esteja bem no Maranhão.

 

– 3 meses depois –

 

Praticamente recuperado de todo um processo depressivo pelo qual eu estava passando no segundo semestre de 2011, eu tinha decidido a voltar a escrever no blog. O caderno de brainstorms estava lotado, o tempo me sobrava, a saudade e inspiração estavam pegando fogo. Notas e mais notas no iPad mostravam que já estava na hora. Sentei na frente do computador, virei o meu boné como um Ash Ketchum, entrei na página inicial, cliquei em login e… minha senha não estava salva.

Puta merda.

Um mar de sentimentos passou pela minha mente. Uma tempestade de palavras pulsava nos meus neurônios. Achei que toda a esperança de voltar com o blog havia morrido. Lembrei que, por precaução, um backup das minhas senhas estava em alguma pasta do meu computador e comecei a procurá-lo. Depois de alguns minutos achei as senhas. Ao navegar pela pasta Meus Documentos para ver se tinha algum brainstorm interessante, vi que tinha uma pasta da qual nunca tinha tomado conhecimento chamada Webcam Archives. Dentro, uma outra pasta chamada Photos e dentro, um arquivo chamado September-27-2011.jpg.

Abri o arquivo e tudo passou a fazer sentido…

 

oi

 

…A FILHA DA PUTA DA APARECIDA FICAVA USANDO A PORRA DO MEU COMPUTADOR SEM EU SABER QUANDO NÃO TINHA NINGUÉM EM CASA, AQUELA HACKER DO SERTÃO. PODE UMA PORRA DESSAS? SABE-SE DEUS AS COISAS QUE ESSA MULHER VIU.

 
E eu achando que essas histórias de domésticas eram mentiras.

 


 

Olha, os comentários no post anterior com as histórias de vocês estavam SENSACIONAIS. Então já que estamos nessa coisa só nossa, nesse momento tão meu e seu, conta também Aquela História™ de quando alguma moça do lar resolveu, sei lá, deitar na sua cama quando você não estava.

Pedras nos Rins

Texto originalmente publicado dia 28 de maio de 2014
 

Eu tenho uma seríssima dificuldade na vida que é a de desvendar sinais que meu corpo está me dando a respeito de alguma coisa. Não sei exemplificar isso de forma que eu não pareça um retardado mental, mas vamos lá: eu não bebo e, por conta disso, nunca tinha ficado de ressaca até o dia em que tomei uns 10 shots de Jägermeister (uma espécie de Biotônico Fontoura sabor alce, pelo que o rótulo sugere). Quando acordei no dia seguinte com aquela sensação de que eu havia sido atropelado por um rinoceronte, a primeira coisa que pensei foi “caralho, que sensação estranha. Acho que meu siso está nascendo. Vou passar um fio dental”.
 
Ok, entendemos como as coisas funcionam. Vamos seguir adiante.
 
Era uma quarta-feira qualquer de 2012. Acordei, fui tomar o meu café da manhã e já senti que tinha alguma coisa errada acontecendo. Era uma mistura de dor nas costas com dor na barriga. Eu realmente estava confuso e pensei “caralho, agora sim é a porra do siso nascendo”. Não era. Continuei os meus afazeres matinais normalmente, imaginando que aquele incômodo passaria, e fui assistir a alguns desenhos animados porque acredito que essa é a melhor maneira de lidar com os meus problemas.

A dorzinha achou que não estava recebendo a devida atenção e resolveu se manifestar de forma mais efetiva. Puta que pariu, agora sim. Era como se estivessem enfiando e girando na minha barriga aqueles talheres sorridentes dos anos 90 de cinco em cinco minutos.

 

talherImagina esse reizinho te perfurando

 

Foi a hora em que decidi que o que estava dentro de mim (aparentemente Satanás) precisava sair e fui vomitar para dar aquela limpada na alma. O que eu tinha esquecido era o quão doloroso o ato de vomitar era por si só. Na hora de comer aquelas amigáveis e macias bisnaguinhas Panco elas desciam tão facilmente, chega a ser incrível como na hora de subir parecia que vinham elas junto com a porra do próprio Panquinho num skate fazendo manobras nas minhas entranhas.

 

panco_skate“SOFRE AÍ, ARROMBADÃO”

 

Olhos lacrimejando, aquelas cuspidinhas pós-êmese e a sensação de missão cumprida. Dei aquela escovada nos dentes e tava pronto para seguir minha vida. Aí a dor voltou. Com tudo.

Ok, eu definitivamente estava morrendo. Nessa hora foi tão forte que caí no chão, comecei a chorar que nem uma garotinha e gritei a minha mãe. Tentei não desesperá-la e explicar a situação com calma de forma que ela me ajudasse:

 
– MÃE EU TO MORRENDO MÃE PELO AMOR DE DEUS NÃO ME DEIXA MORRER
– O que foi, Ygor?
– Ó LÁSTIMA O DERRADEIRO FIM DA VIDA ESTOU A PARTIR DESTE PLANO
– Por que você tá caído no ch…
– TAL QUAL GETÚLIO VARGAS SAIO DA VIDA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA
– Tá, eu vou ligar pro seu pai pra ele fazer algo
– QUEM TE VÊ PASSAR ASSIM POR MIM NÃO SABE O QUE É SOFRER TER Q…
 

Meu pai veio correndo me levar para um hospital. Enquanto eu o esperava, a minha mãe, que nunca teve um diploma de medicina, achou que poderia resolver a situação por conta própria e, como uma curandeira indígena, ficou esfregando um Vick Vaporub (que só descobri agora no Google que não é VAPORUBA e sempre falei errado) com Gelol nas minhas costas. Ele chegou, fomos pro hospital.

Depois de uma pontada dentro de mim a cada curva que o carro fazia no caminho, cheguei lá com cara de óbito e besuntado de Gelol com Vick. A situação era bem triste. O médico me levou para um daqueles leitos, sentou-lhe morfina nas minhas veias e eu tava revigorado. Morfina provavelmente é o nome de algum anjo da Bíblia pois aquilo ali foi a sensação de alívio mais gostosa da minha vida. Daí parti para uns exames rápidos, mijei em um copinho e fiquei aguardando o resultado com um sorriso no rosto porque depois da morfina nada me parava.

 

img_0679Eu drogado vivendo o sonho

 

FALA YGOTE! CHEGARO OS RESULTADOS LEKÃO” foi o que ouvi a enfermeira dizer pois possivelmente eu estava mais drogado do que deveria. Ela prosseguiu: “blá blá blá leucócitos blá blá blá bastonetes blá blá você está com sangue na urina”.

 
VOCÊ. ESTÁ. COM SANGUE. NA URINA.
 

Acabou sorriso, acabou morfina, acabou solzinho dos Teletubbies iluminando a minha vida. Essa frase é muito ruim de se ouvir e na hora eu já me visualizei mijando rios de sangue, menstruando pelo pau e o desespero voltou:

 
– É CÂNCER NÉ DOUTORA EU TO COM CÂNCER
– Eu sou só a enfermeira, mas não, você tá com…
– COM OS DIAS CONTADOS NÉ MULHER PARE DE JOGUINHOS PARE DE RODEIOS DIGA-ME
– É um caso simples de cálculo renal. Você deixa…
– DEIXO A VIDA PARA ENTRAR PARA A HISTÓRIA TAL QUAL GETÚLIO VARG…cálculo renal?
– É. Pedra nos rins. Basta você beber muita água e tomar esses remédios que elas saem naturalmente.
– Ah ok.
 

Voltei pra casa e os dias seguintes foram aquela agonia, né. A qualquer momento uma pedra iria passear pela minha uretra como se estivesse dando uma voltinha em um shopping. Eu sabia que na real a pedrinha era só isso

 
pedras
 

Mas como eu nunca tinha passado por essa situação antes, pra mim era isso

 
pedras-2
 

Eu já ia mijar achando que a qualquer momento sairia um Onix da minha piroca e eu desmaiaria durante o ato. Acabou que um dia aconteceu. Foi extremamente tranquilo o processo, não senti dor nenhuma. Foi tão tranquilo que acho que a pedrinha era uma ametista, tão zen que foi. Olhei pra ela, ela olhou pra mim e sabíamos que aquilo era um adeus. Filha da puta.

Hoje bebo água pra caralho pra não ter que viver esse pesadelo de novo e não ter sonhos recorrentes do Onix dizendo “AGUARDE” para mim.

 

onix
AGUARDE

 

 

socorro

Alistamento Militar

Texto originalmente publicado dia 22 de Junho de 2014

 
Assim que fiz 18 anos, além de ter que ouvir daquele tiozão engraçadota coisas como “JÁ PODE SER PRESO HEIN RSRS” ou “JÁ PODE IR PRO PUTEIRO HEIN RSRS VOU TE LEVAR PRO PUTEIRO EIN RSRS”, eu tive que me alistar no exército. O alistamento é uma forma de mostrar que a vida adulta já começou e que ela vai ser uma merda. Entendo que a carreira militar possa soar incrivelmente maneira para alguns e eu mesmo cheguei a considerar a hipótese de servir. Até me tocar de um negócio…
 
…minha vida não seria isso.
 
Soldado
 
Nem isso.
 
Soldado 2
 

Por mais que eu quisesse viver uma vida G.I. Joe, ser um bravo guerreiro, salvar a pátria durante a guerra e resgatar o soldado Ryan, a minha vida seria isso:

 

soldado-3Pátria amaaada Brasiiiiiil
 

Comecei a ver o que era preciso para essa nobre tarefa que é servir o país: eu tinha que estar em uma junta de serviço militar da minha cidade com alguns documentos às SETE DA MANHÃ pontualmente. Servir o país já estava começando a ser menos nobre do que parecia.

Cheguei lá no dia marcado às SETE DA MANHÃ (sempre lembrando em Caps Lock esse horário miserável para o ser humano) e fiquei numa fila até as 9h. Aparentemente para você ser um bom soldado de guerra você precisa estar preparado para qualquer eventual espera de duas horas. Era como se eu estivesse em uma fila para um show incrivelmente feliz da Demi Lovato, porém sem a Demi Lovato e nem felicidade.

Entrei. Mais espera. Comecei a perceber um padrão: os caras que organizavam as coisas lá falavam bem alto, lentamente e de forma agressiva. Estávamos lá só para entregar uma porra de um documento mas parecia que dali a gente iria direto para a Alemanha nazista. Era uma coisa do tipo:

 
– VOCÊS DEVEM ESTAR COM A IDENTIDADE EM MÃOS. COMPREENDIDO, JOVEM?
– Err, sim. Ela tá aqui em mãos.
– A IDENTIDADE ELA NÃO PODE ESTAR EM OUTRO LUGAR, DE FORMA QUE FACILITE O PROCESSO
– Ok
– CONSEQUÊNCIAS GRAVES ACONTECERÃO CASO A IDENTIDADE NÃO ESTEJA EM MÃOS
– Eu já enten…
– SIE MÜSSEN AUF ALLES VORBEREITET SEIN!!!!!!!
 
 

doguinhoquê?

 

Fui encaminhado a uma segunda salinha (com a identidade em mãos, claro) e lá começou um segundo cara com a delicadeza de um rinoceronte a fazer perguntas. Se fosse uma sala escura com apenas uma luz em cima de mim e dois mafiosos ao meu lado observando um terceiro me interrogar, eu me sentiria mais à vontade.

 
– YGOR FREITAS, CERTO?
– Certo
– RESPONDA APENAS SIM OU NÃO.
– Sim
– 18 ANOS, CERTO?
– Sim
– VOCÊ QUER SERVIR?
– …não
– EU NÃO OUVI DIREITO
– Estaaaamos capitão  :D
– …
– Não.
– OK, SIGA ALI EM FRENTE E DAQUI A 30 DIAS APRESENTE-SE NO QUARTEL.
 

A primeira parte tinha acabado. Perdi 4 horas daquele dia só pra responder três perguntas. E só depois eu fui descobrir que aqueles caras sequer eram militares, eram só um bando de funcionários públicos se achando a porra do Capitão Nascimento. Paciência.

Passados os 30 dias, fui para o quartel às 5 da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. Chegando lá, claro, mais fila. A diferença é que dessa vez tinham soldados de verdade e muita, MUITA gente estranha na mesma condição de espera que eu. Junta aí todos os figurantes de Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Cidade dos Homens. Era o calibre da galera que estava lá querendo servir o país. E não eram poucos. Pelo menos eles estavam lá correndo atrás de seus sonhos.

 

soldado-4Pátria amaaada Brasiiiil

 

Depois de umas 3 horas sem fazer nada além de aguardar (e, mais uma vez, sem a Demi Lovato no fim) cheguei na etapa do exame médico que consistia em: checar peso e altura, checar sua visão e checar se você tem alguma deficiência ou problema que te impeça de servir. Enquanto eu esperava minha vez, presenciei o exame de vista de um menino que, para fins ilustrativos, chamaremos de Cléber. Havia um painel na parede e Cléber tinha que dizer quais letras estavam nele. Cléber não sabia ler. O resultado foi a letra W ser chamada de “ipson”. Cléber era um batalhador.

Na minha vez, passei no exame de vista e tive que ficar sem camisa para um soldado médico que me perguntou se eu tinha alguma coisa que me impedisse de servir. Tudo o que sei é que comecei com daltonismo e daí falei tudo que era defeito que um ser humano podia ter. Sem sacanagem, falei até esquistossomose. Nunca caguei em um rio ou comi caramujo (perceba que não lembro bem como se contrai a doença), mas falei que tinha esquistossomose porque eu queria que ele me considerasse estragado demais para aquele quartel.
 
Deu errado. Passei para a próxima etapa, que era fazer uma provinha de múltipla escolha.
 
Sim, no exército você faz uma espécie de ENEM. Umas perguntas eram bem imbecis e outras eram sobre motor de jipe de guerra, um tema amplamente abordado pelo que costumam chamar de “ninguém”. Cléber a essa altura já tinha perdido as esperanças porque nesse meio tempo ele não teve a oportunidade de aprender a ler. A parte legal é que Cléber passou, a parte não legal é que eu passei. Eu iria servir. Teria que voltar naquele quartel alguns dias depois e ver para qual força armada eu havia sido convocado. Fiquei triste.

Voltei lá após alguns dias e, depois de muita fila e pouca Demi Lovato, descobri que havia sido convocado para a Aeronáutica. O tenente do exército me disse isso com as seguintes palavras: “aeronáutica? Quer dizer que temos um peixinho aqui. Boa sorte, rapaz”. Fiquei pensando na possibilidade de informar àquele senhor que a frase dele não fazia sentido tendo em vista que eu não possuía nadadeiras ou respiração branquial. Resolvi ficar quieto.

Resultado: descobri que “peixinho” é um cara com contatos dentro das forças armadas e que geralmente consegue alguma regalia, como a facilidade de servir na aeronáutica ou marinha, que são mais “elitizados”, pelo que entendi. E esse contato da aeronáutica é um amigo da família de patente altíssima (sei lá qual é o nome. Brigadeiro, major, não faço ideia) que me liberou. Hoje fico aliviado de saber que foi por muito pouco que não fiquei um período da minha vida dentro de um quartel.

 
 
Por outro lado, queria saber que fim levou o Cléber…

Morar sozinho

 

Já faz um tempinho desde que comecei a morar sozinho. Assim que peguei as chaves da casa nova, o meu primeiro pensamento foi “MERMÃO, AGORA SIM COMEÇOU A VIDA. VOU FAZER TUDO O QUE EU QUERO, VOU VIVER UMA VIDA DE REI, VOU PASSAR O DIA INTEIRO CHAMANDO A GALERA PARA FICAR ALUCINADA NAS MINHAS POOL PARTY”. Isso porque nem piscina eu tenho. Mas eu estava empolgadaço.

Chegando o grande dia, fui até meu novo lar com minhas malinhas e abri a porta. Sabe aquelas cenas de desenho onde o cara abre um baú do tesouro e vem aquele feixe de luz com uma música angelical? Foi basicamente isso, mas em vez do feixe de luz veio poeira. Muita poeira. A minha rinite ficou mais atacada que macumbeiro virado na pombagira. Nos primeiros dias era só limpeza. Puta merda, que inferno. Nem numa favela dentro do cu da Arábia Saudita devia ter tanta poeira quanto na minha nova casa. Como as minhas habilidades com tarefas domésticas são mais catastróficas que um chimpanzé com uma metralhadora, eu precisei da ajuda da Mariana.

 
Sério. Eu sequer sabia que vassoura era um negócio que existia de verdade, pra mim era coisa de Quadribol.

 

Vassoura

Minha Nimbus 2000

 

No geral, essa vida de single player é muito boa. É excelente ter um lugar só seu pra você fazer o que quiser, como andar pelado por aí tal qual faziam os selvagens no período paleolítico. O problema é que as coisas não se resolvem sozinhas. Quero dizer, uma vez eu deixei um prato na pia depois de comer e ele tá lá até hoje. Já surgiu ali um ecossistema tão bem complexo e resolvido que eu nem tenho mais coragem de interferir. O prato já é um patrimônio da Mãe Terra.

Poeira então nem se fala. Acho que depois de nazismo, adolescentes e guerras, a coisa que eu mais odeio é poeira. Eu tiro um dia inteiro pra limpar a casa, deixar ela UM BRILHO e no dia seguinte parece que uma tropa americana chegou direto do Afeganistão e resolveu sapatear na minha sala. Todo dia tem que limpar esse caralho. Se eu ficar uma semana sem limpar, ela fica igual um cenário de Dez Mandamentos.

 

PoeiraMinha sala meia hora depois de eu fazer faxina

 

“Ahhh, Ygão. Mas é só passar um pano né”. Broder…você não sabe o que nós donas de casa temos que viver. Tu já viu o preço dos produtos de limpeza? Essa indústria é uma máfia. Eu tinha um carinho tão grande pelas embalagens do Pato Purific até descobrir o preço de uma. Peguei uma implicância tão grande com patos que não posso ver um marreco na minha frente que já me bate aquele ranço.

O pior de tudo é ver que tem produtos caríssimos cuja função eu desconheço completamente. Tipo o TIRA-LIMO. Honestamente, eu não sei o que é limo, não sei o quão disposto o limo está a me prejudicar e como eu devo resolver meus problemas com ele. Se um dia aparecer limo aqui em casa, vai ter que ajudar a pagar as contas.

Ah, tem o DIABO VERDE. E isso não é uma conjuração avulsa no meio do texto. Tem realmente um produto de limpeza chamado DIABO VERDE e eu não sei como as donas de casa aceitam essa magia negra dentro do lar. Imagina um monte de senhora encapuzada no mercado escolhendo entre DIABO VERDE, SATANÁS AZUL e CRAMUNHÃO MAGENTA. Na embalagem as instruções são basicamente uma ameaça de morte “não deixa encostar na pele que seu pinto vai apodrecer” ou “cuidado para não espirrar nos olhos caso contrário os quatro cavaleiros do apocalipse vão te buscar”. Eu comprei o Diabo Verde porque as vozes me diziam que eu precisaria dele em algum momento.

 

Diabo Verde“Mate a sua família. Confie em mim”

 

“É, deve dar um trabalho limpar tanta coisa mesmo”, algum de vocês deve ter pensado. O problema é que eu sou tão inapto pra viver sozinho que NEM MÓVEIS eu tenho ainda. Tipo, tenho o necessário no quarto e no escritório, mas a única coisa que tenho na minha sala de estar é eco. Se você gritar uma palavra bem no meio dela, ela vai ficar ressoando por 40 minutos até o próprio som perceber que não tem nada pra se fazer ali e desistir da própria existência. Mesma coisa minha geladeira: só tem água e gelo. Isso quando eu lembro de encher as garrafas. O bom disso tudo é que você se torna bem mais inventivo e cria alternativas. Semana passada eu comi um guardanapo com ketchup.

É bem equilibrado porque pra cada lado ruim, tem um lado bom. O fato de não ter nada pra comer aqui me ajudou bastante com a questão dos insetos. Faz pouco mais de um mês que eu vi a última barata na minha porta com um chapeuzinho e uma maletinha indo embora, me desejando boa sorte.

Mas isso é necessário, é um aprendizado. Eu aprendi basicamente que não presto pra porra nenhuma. Se não fosse minha namorada aparecendo aqui ocasionalmente, era questão de tempo até um dia eu virar um cadáver tentando, por exemplo, instalar uma cortina.

Falando em cadáver, a pior parte de tudo é ter certeza ABSOLUTA que tem espírito nessa porra dessa casa. É a Sukita às vezes latindo pro nada, é um tal de barulho de porta abrindo na cozinha (provavelmente um espírito muito decepcionado vendo que não tem nada pra comer) e vez ou outra eu sinto que to dormindo de conchinha com alguém mesmo estando sozinho em casa.

 
Ok. Parando pra pensar, até que tenho uma entidade das sombras muito romântica vivendo comigo.
 

Mas se bate vontade de ir ao banheiro de madrugada, nem por um caralho que eu vou. Deu sede? Espero até de manhã. Fantasma é foda. Ele espera você estar num momento desses em que tu tá um lixo, tu nunca vê um fantasma enquanto está produzido pra night, com cheirinho de 212. É só em caso humilhante mesmo.

Se bobear, isso tudo aí é obra do Diabo Verde que eu comprei. Nunca pensei que a minha versão de Annabelle seria com um desentupidor de pias.


Uma das melhores coisas desse blog sempre foi o fator EXTRAS nos comentários, onde os leitores contam cada história sensacional que já aconteceu com eles. Fique à vontade para contar seus perrengues domésticos aqui embaixo.

Diarreia Infantil

Texto originalmente publicado dia 21 de Janeiro de 2012

 

Todo ser humano precisa se alimentar e, consequentemente, concluir o processo digestivo.

O problema é que -desconsiderando a possibilidade de você ser um mendigo- você não pode sair cagando por aí e a necessidade de expelir nossas fezes (cagar, no caso) nem sempre se manifesta num local propício para o ato. Quero dizer, vai me falar que você nunca suou frio por estar prendendo o que aparenta ser 3,5 toneladas de cocô por não ter aonde ir? Se não, você não sabe o que é viver no limite. E eu sinto pena da sua vida tediosa.

Lidar com esse tipo de situação já é difícil quando você é adulto. Agora imagine uma criança de 13 anos passando por isso. Vamos lá…

Eu estudava no Colégio Iguaçuano na época, sexta série, pré-adolescente e cheio de sonhos. O dia tinha aquele ar estranho, de que algo daria errado. E foi na aula de matemática entre frações e equações que ela veio. O mais estranho é que não foi aquela dor de barriga que vai acumulando, ela chegou do nada, sem dar nem um bom dia.

Como não era a minha casa, o pensamento inicial foi “vou prender porque não defeco na rua. Sou uma criança de princípios” mas era como se eu tivesse tomado dois litros de Activia no dia anterior e estivesse com cocô acumulado até o esôfago. Comecei a suar gelado, contraindo o esfíncter de forma que a cena equivalente era de uma pequena marmota saindo de sua toca para pincelar de marrom um lençol do lado de fora.

Pedi à professora para ir ao banheiro e percorri o que aparentou ser o caminho mais angustiante da minha vida. Dois andares com a vista embaçada, suor no rosto e um senso de direção e raciocínio consideravelmente afetados. Entrei no banheiro como uma chita na savana e fui direto para a última cabine.

*Vamos, nesse ponto da trama, atentar ao detalhe de que sempre usei camisetas grandes e a do uniforme escolar não era uma exceção.

Sentei no assento sanitário e deslizei o moreno com uma pressão de aproximadamente 75 atm. Para quem não é muito íntimo dos conceitos da física, é como se eu estivesse peidando uma pequena bombinha amarrada num foguete da NASA explodindo. O alívio foi imediato. Mas ainda tinha muita merda por vir. Literalmente. ~humor~

 

cazalbe

 

…tá, desculpem-me pelo trocadilho.

Devidamente aliviado, eu deveria terminar o procedimento padrão, voltar para a sala de aula e assistir ao final da aula de matemática para que o dia seguisse normalmente. Aquele dia infelizmente era hipster demais para ser como todos os outros e estava disposto a foder minha vida. Eu havia cometido o pior erro que um aluno do Iguaçuano poderia cometer no banheiro: fui direto para a cabine.

Explico. Uma peculiaridade do banheiro daquela escola era a questão do papel higiênico, que não se dispunha individualmente nas cabines mas sim num grande rolo no início do corredor para que o usuário pegasse antes de…levar a Alcione pro Water Planet. Como o II é um blog INFORMATIVO, fiz uma planta fiel à estrutura do banheiro para que vocês entendam.

 

mapinha
Ygor Freitas Arquitetura e Planejamentos®

 

Logo, com a carga despachada, eu me vi numa situação desagradabilíssima: esqueci de pegar o papel higiênico antes de fabricar o Snickers. Em cerca de 15 minutos começaria o intervalo geral da escola e todos iriam ao banheiro. Eu me vi numa cena de filme de ação, com a contagem regressiva rolando. Um Jack Bauer que lidava com cocôs. Minha criativa mente infantil não teve dúvidas do que fazer quando olhou para o meu pé e viu uma meia. E vá se foder, não me julgue. Eu era uma criança, era o que eu tinha ali.

Limpei meu simpático bumbum com a meia e percebi que havia OUTRA COISA errada. Lembra que eu disse que usava camisetas grandes? Então, ela tava meio pesada e eu me dei conta de que no desespero, havia esquecido de dar aquela levantadinha nela antes de sentar e aí foi estado de calamidade, meu querido. Eu nunca imaginaria que uma criança poderia pensar em suicídio, mas ali eu vi que existem casos.

Eu precisava agir. Tirei a camisa de forma tão escrota que acabei com coliformes nas costas e no cabelo, fazendo aquele rastro ao longo do percurso, tipo uma listra.

 

carrinhoIsso é o máximo que posso fazer para vocês visualizarem como eu fiquei

 

Caso você ainda tenha dúvidas: sim, eu já estava chorando. Chorando e cheio de cocô no corpo sentado no chão de uma cabine sanitária. Se a Loira do Banheiro aparecesse ali eu acho que até ela teria pena daquela criança que parecia ter saído de um esgoto do cu da Índia. Engoli o choro e pensei nas possibilidades. “Tirei o excesso” da camisa e o resto do meu corpinho eu limpei…

 
…com a outra meia.
 

Eu já não ligava mais para o conceito de dignidade. Voltei à ação. Como era só a parte de baixo da camisa que estava suja, botei pra dentro da calça, molhei o cabelo na pia e voltei pra sala. TODOS ME OLHANDO. Eu crente que era porque a camisa pra dentro da calça estava charmosa. Sentei me sentindo o cara, até que minha amiga Carolina vira pra mim e fala “cara, cê tá todo cagado né? Que cheiro é esse?”. Olhei de novo para a turma que, em vez de me achar charmoso, estava possivelmente cochichando “aposto que é merda. Ele tá cocozento, certeza” e rindo de mim. Saí de sala, fui para a secretaria da escola, pois eles forneciam roupas extras em casos de emergência e dei de cara com o diretor.

Sinceramente, acho que para a situação ficar pior, só faltou ele me expulsar e me mandar uma equipe do zoológico me buscar. Mas fui extremamente conciso e pedi por uma nova camiseta.

 
– Olá, Seu Edilton. Eu preciso de uma camiseta nova.
– Tudo bem. Qual seria o motivo?
– Bom, nada de muito grave além do fato de eu estar COM COLIFORMES FECAIS ATÉ NA MINHA ALMA
 

Seu Edilton, homem de bem, me deu uma camiseta e voltei para o banheiro para me trocar viver feliz para sempre.
 

Tenho quase certeza de que até hoje o zelador se pergunta antes de dormir o que aconteceu naquele banheiro para ter duas meias e uma camisa no lixo, paredes e pia, todas sujas de excrementos infantis.

A propósito, não me lembro de ter dado descarga.