Diarreia Infantil

Texto originalmente publicado dia 21 de Janeiro de 2012

 

Todo ser humano precisa se alimentar e, consequentemente, concluir o processo digestivo.

O problema é que -desconsiderando a possibilidade de você ser um mendigo- você não pode sair cagando por aí e a necessidade de expelir nossas fezes (cagar, no caso) nem sempre se manifesta num local propício para o ato. Quero dizer, vai me falar que você nunca suou frio por estar prendendo o que aparenta ser 3,5 toneladas de cocô por não ter aonde ir? Se não, você não sabe o que é viver no limite. E eu sinto pena da sua vida tediosa.

Lidar com esse tipo de situação já é difícil quando você é adulto. Agora imagine uma criança de 13 anos passando por isso. Vamos lá…

Eu estudava no Colégio Iguaçuano na época, sexta série, pré-adolescente e cheio de sonhos. O dia tinha aquele ar estranho, de que algo daria errado. E foi na aula de matemática entre frações e equações que ela veio. O mais estranho é que não foi aquela dor de barriga que vai acumulando, ela chegou do nada, sem dar nem um bom dia.

Como não era a minha casa, o pensamento inicial foi “vou prender porque não defeco na rua. Sou uma criança de princípios” mas era como se eu tivesse tomado dois litros de Activia no dia anterior e estivesse com cocô acumulado até o esôfago. Comecei a suar gelado, contraindo o esfíncter de forma que a cena equivalente era de uma pequena marmota saindo de sua toca para pincelar de marrom um lençol do lado de fora.

Pedi à professora para ir ao banheiro e percorri o que aparentou ser o caminho mais angustiante da minha vida. Dois andares com a vista embaçada, suor no rosto e um senso de direção e raciocínio consideravelmente afetados. Entrei no banheiro como uma chita na savana e fui direto para a última cabine.

*Vamos, nesse ponto da trama, atentar ao detalhe de que sempre usei camisetas grandes e a do uniforme escolar não era uma exceção.

Sentei no assento sanitário e deslizei o moreno com uma pressão de aproximadamente 75 atm. Para quem não é muito íntimo dos conceitos da física, é como se eu estivesse peidando uma pequena bombinha amarrada num foguete da NASA explodindo. O alívio foi imediato. Mas ainda tinha muita merda por vir. Literalmente. ~humor~

 

cazalbe

 

…tá, desculpem-me pelo trocadilho.

Devidamente aliviado, eu deveria terminar o procedimento padrão, voltar para a sala de aula e assistir ao final da aula de matemática para que o dia seguisse normalmente. Aquele dia infelizmente era hipster demais para ser como todos os outros e estava disposto a foder minha vida. Eu havia cometido o pior erro que um aluno do Iguaçuano poderia cometer no banheiro: fui direto para a cabine.

Explico. Uma peculiaridade do banheiro daquela escola era a questão do papel higiênico, que não se dispunha individualmente nas cabines mas sim num grande rolo no início do corredor para que o usuário pegasse antes de…levar a Alcione pro Water Planet. Como o II é um blog INFORMATIVO, fiz uma planta fiel à estrutura do banheiro para que vocês entendam.

 

mapinha
Ygor Freitas Arquitetura e Planejamentos®

 

Logo, com a carga despachada, eu me vi numa situação desagradabilíssima: esqueci de pegar o papel higiênico antes de fabricar o Snickers. Em cerca de 15 minutos começaria o intervalo geral da escola e todos iriam ao banheiro. Eu me vi numa cena de filme de ação, com a contagem regressiva rolando. Um Jack Bauer que lidava com cocôs. Minha criativa mente infantil não teve dúvidas do que fazer quando olhou para o meu pé e viu uma meia. E vá se foder, não me julgue. Eu era uma criança, era o que eu tinha ali.

Limpei meu simpático bumbum com a meia e percebi que havia OUTRA COISA errada. Lembra que eu disse que usava camisetas grandes? Então, ela tava meio pesada e eu me dei conta de que no desespero, havia esquecido de dar aquela levantadinha nela antes de sentar e aí foi estado de calamidade, meu querido. Eu nunca imaginaria que uma criança poderia pensar em suicídio, mas ali eu vi que existem casos.

Eu precisava agir. Tirei a camisa de forma tão escrota que acabei com coliformes nas costas e no cabelo, fazendo aquele rastro ao longo do percurso, tipo uma listra.

 

carrinhoIsso é o máximo que posso fazer para vocês visualizarem como eu fiquei

 

Caso você ainda tenha dúvidas: sim, eu já estava chorando. Chorando e cheio de cocô no corpo sentado no chão de uma cabine sanitária. Se a Loira do Banheiro aparecesse ali eu acho que até ela teria pena daquela criança que parecia ter saído de um esgoto do cu da Índia. Engoli o choro e pensei nas possibilidades. “Tirei o excesso” da camisa e o resto do meu corpinho eu limpei…

 
…com a outra meia.
 

Eu já não ligava mais para o conceito de dignidade. Voltei à ação. Como era só a parte de baixo da camisa que estava suja, botei pra dentro da calça, molhei o cabelo na pia e voltei pra sala. TODOS ME OLHANDO. Eu crente que era porque a camisa pra dentro da calça estava charmosa. Sentei me sentindo o cara, até que minha amiga Carolina vira pra mim e fala “cara, cê tá todo cagado né? Que cheiro é esse?”. Olhei de novo para a turma que, em vez de me achar charmoso, estava possivelmente cochichando “aposto que é merda. Ele tá cocozento, certeza” e rindo de mim. Saí de sala, fui para a secretaria da escola, pois eles forneciam roupas extras em casos de emergência e dei de cara com o diretor.

Sinceramente, acho que para a situação ficar pior, só faltou ele me expulsar e me mandar uma equipe do zoológico me buscar. Mas fui extremamente conciso e pedi por uma nova camiseta.

 
– Olá, Seu Edilton. Eu preciso de uma camiseta nova.
– Tudo bem. Qual seria o motivo?
– Bom, nada de muito grave além do fato de eu estar COM COLIFORMES FECAIS ATÉ NA MINHA ALMA
 

Seu Edilton, homem de bem, me deu uma camiseta e voltei para o banheiro para me trocar viver feliz para sempre.
 

Tenho quase certeza de que até hoje o zelador se pergunta antes de dormir o que aconteceu naquele banheiro para ter duas meias e uma camisa no lixo, paredes e pia, todas sujas de excrementos infantis.

A propósito, não me lembro de ter dado descarga.