Aparecida, a doméstica

Texto originalmente publicado no dia 4 de junho de 2013
 

Era uma terça feira nublada de setembro como todas as terças feiras nubladas de setembro costumam ser. Eu iria voltar para casa mais cedo naquele dia por não ter tido aula na faculdade. Nada de extraordinário. Fiz meu caminho, cheguei em casa, entrei pela garagem como de costume, subi as escadas, peguei meu chaveiro do Yoshi e abri a porta da cozinha. Na sala, uma gritaria por causa de uma mulher que vivia no Forró. Era Casos de Família. A TV estava ligada porque Aparecida, a moça que limpa, mulher batalhadora, gostava de passar as roupas ouvindo a realidade da família brasileira.

 
-Oi, Aparecida! Minha mãe tá aí?
-Ai Jesus, Igu! Nem te vi chegar menino. Ó, ela tá não. Ela ficou fora o dia todo ela.
-Ah, sim. Mas tá tudo bem, Aparecida? Precisa de alguma coisa?
-Nada ô, eu me viro. Tu me conhece né. Ó, arrumei lá seu quarto.
 

Senti um calafrio. Todas as vezes em que Aparecida resolvia arrumar meu quarto, ela mudava as coisas de lugar de forma que nem eu as achava e nem ela podia me ajudar a achar. Não por má vontade, mas por não saber responder coisas do tipo “você viu meu iPod?” tendo em vista que as respostas eram “Ih Ingo, sei que é isso de ‘ai pode’ não. Só aipode tá no seu quarto, tirei nada daí” acompanhadas de um gostoso sorriso com os poucos e tímidos dentes que lhe restavam.

Cheguei no meu quarto e, aparentemente, estava tudo normal. Exceto pela webcam que costumava ficar na gaveta e que, nesse dia específico, estava acoplada ao computador. Até aí nada demais, minha mãe costumava usá-la e não guardar. Coisa de mãe que usa webcam. O que importava é que dessa vez, Aparecida tinha feito seu trabalho sem mudar nada de lugar e eu estava feliz com isso.

O que eu não sabia é que aquele era o último dia de Aparecida lá em casa contribuindo nas tarefas domésticas. No fim do turno ela me explicou que iria voltar para o Maranhão pois o irmão dela estava passando por problemas de saúde e que meus pais já haviam acertado tudo com ela. Eu odiava abraços de despedida.

 
Houve um abraço de despedida.
 

Naquele instante Aparecida disse que eu era um jovem inteligente, carismático e que torcia pelo meu sucesso. Agradeci emocionado, mesmo intrigado com aquele cheiro de Leite de Rosas que iria demorar pra sair de mim. Foi seu último adeus. Hoje em dia as belas palavras de Aparecida ainda ecoam na minha mente e me emocionam. Espero que ela esteja bem no Maranhão.

 

– 3 meses depois –

 

Praticamente recuperado de todo um processo depressivo pelo qual eu estava passando no segundo semestre de 2011, eu tinha decidido a voltar a escrever no blog. O caderno de brainstorms estava lotado, o tempo me sobrava, a saudade e inspiração estavam pegando fogo. Notas e mais notas no iPad mostravam que já estava na hora. Sentei na frente do computador, virei o meu boné como um Ash Ketchum, entrei na página inicial, cliquei em login e… minha senha não estava salva.

Puta merda.

Um mar de sentimentos passou pela minha mente. Uma tempestade de palavras pulsava nos meus neurônios. Achei que toda a esperança de voltar com o blog havia morrido. Lembrei que, por precaução, um backup das minhas senhas estava em alguma pasta do meu computador e comecei a procurá-lo. Depois de alguns minutos achei as senhas. Ao navegar pela pasta Meus Documentos para ver se tinha algum brainstorm interessante, vi que tinha uma pasta da qual nunca tinha tomado conhecimento chamada Webcam Archives. Dentro, uma outra pasta chamada Photos e dentro, um arquivo chamado September-27-2011.jpg.

Abri o arquivo e tudo passou a fazer sentido…

 

oi

 

…A FILHA DA PUTA DA APARECIDA FICAVA USANDO A PORRA DO MEU COMPUTADOR SEM EU SABER QUANDO NÃO TINHA NINGUÉM EM CASA, AQUELA HACKER DO SERTÃO. PODE UMA PORRA DESSAS? SABE-SE DEUS AS COISAS QUE ESSA MULHER VIU.

 
E eu achando que essas histórias de domésticas eram mentiras.

 


 

Olha, os comentários no post anterior com as histórias de vocês estavam SENSACIONAIS. Então já que estamos nessa coisa só nossa, nesse momento tão meu e seu, conta também Aquela História™ de quando alguma moça do lar resolveu, sei lá, deitar na sua cama quando você não estava.

Faça algum elogio aqui

12 Comentários

  1. Sei de uma história que aconteceu com minha tia, não é tão parecida com a da Aparecida, mas é engraçada. Minha tia tinha uma empregada que “emprestava pra sempre” as roupas dela quando ela não estava. Ela agia de maneira minuciosa, uma peça por semana. Só descobrimos isso porque a empregada gostava de festar à noite com suas roupas novas e postar no Orkut. Uma gatuna “gênia”.

  2. Uma vez emprestei o note pra uma truta e fui dormir. Tempos depois fui fazer aquela limpeza básica e tinha varias fotos e históricos do MSN. Fui dar aquela olhada pra ver wtf era, já q eu sempre deletava. Eram conversas dessa truta com um cara x, mas putaria num nível: vou prender seu pau com meu coo. Aheuaheuahue achei tosco e fiquei com nojo de digitar pq ctz q ela não limpou meu teclado grudado 😛

  3. Tinha uma menina que veio do interior trabalhar na casa da minha tia, eu morava lá na época, tinha por volta de uns 14 anos, minha prima uns 11 e essa menina uns 18. Ela era muito engraçada e adorava uma festa, não queria fazer nada na casa e às vezes até dividia as tarefas comigo e minha prima kkkkkkk. Lembro que uma vez ela chegou bêbassa de uma festa, entrou na parte externa da casa, mas não conseguiu abrir a porta, dai foi na janela do meu quarto e ficou mexendo no meu cabelo tentando me acordar, imagina o susto que eu tive quando acordei e vi aquela mão na minha cara vindo do lado de fora da janela… kkkkkkkkkk. Ela acabou se tornando meio que uma prima minha tb. Ela casou, saiu da casa da minha tia, tem um filho e até hj ela é amiga da minha família. Esses foram os melhores dias da minha adolescência.

  4. Carol

    A doméstica da minha prima usa tudo dela quando ela não ta em casa (cremes, perfumes, roupas, óculos). Ainda posta fotos no instagram usando as coisas, como se ninguém fosse descobrir hahahahaha

  5. Há bastante tempo, na época do telefone fixo com fio, uma moça trabalhava na casa da minha avó. Certo dia minha avó deixou a Maria em casa trabalhando e foi até o centro da cidade, a certa altura ela queria avisar a Maria de alguma coisa e começou a ligar pra casa e só dava ocupado, imaginou que a Maria pudesse estar usando. Tentou diversas outras vezes e nada, só ocupado! No fim da tarde minha avó chegou em casa e viu o telefone fora do gancho, mas alinhadinho:

    – Maria, eu liguei a tarde toda, você não viu que o telefone estava assim, fora do gancho?

    – Ô d. Cidoca, eu vi o telefone todo amontoado em cima da caixinha, só quis deixar ajeitadinho.

    🙂

  6. Por algum motivo nenhuma doméstica durava muito tempo em casa. Existem várias d’Aquelas Histórias™, mas eu só consigo me lembrar duas. Uma bem chata que envolveu alguns processos trabalhistas de uma argentina bem cruel que adorava minha irmã e minha tia E ODIAVA EU E MINHA MÃE COM TODAS AS FORÇAS e uma sobre uma empregada que tivemos quando eu tinha uns 5 anos e minha irmã tinha um e que TAMBÉM ME ODIAVA (eu juro que eu sou um ser humano do bem e era legal com elas). Essa última (Didi) tinha o costume desagradável de falar para minha mãe que eu acordava minha irmã quando ela estava dormindo porque ela queria ver minha caveira. Além disso ela tinha o costume desagradável de deixar duas crianças pequenas sozinhas enquanto ia para o quintal fumar.
    Tirando os pequenos furtos relativamente comuns, essas são as histórias que eu me lembro.

    • (Acabei de perceber que usei costume desagradável duas vezes, desculpa)

  7. Maria

    Na casa da minha vó tinha uma domestica, que quando minha tia mandava ela fazer alguma
    Coisa ela mandava minha toa ir fazer, pq tava cm preguiça. Alem disso ela não levava minha prima pra escola pra ficar vendo novela com ela. Quando foi despedida ainda falou mal da familia

  8. Eu aprendi, com a ajuda da internet, como resolver o clássico cubo mágico. Por volta de 2011 eu comprei um cubo melhor e passava resolvendo. Ficava na frente do PC assistindo vídeo enquanto embaralhava e resolvia ele várias vezes. Porém, sempre deixava ele na prateleira, resolvido. Uns meses depois eu comecei a voltar da escola e encontrar ele na prateleira… embaralhado. E eu, quando me dei conta, obviamente estranhei.

    – Mãe, tu embaralhou meu cubo mágico?”
    – Claro que não.

    – Pai, tu embaralhou meu cubo mágico?
    – Olha bem pra minha cara de quem vai embaralhar teu cubo mágico.

    Só o que me faltava essa casa ser assombrada por algum espírito embaralhador de cubos mágicos. Seria a história mais merda pra se contar na volta de uma fogueira.

    Aí que, conversando com a mãe, viramos dois xeroque rolmes e investigamos a situação. Chegamos na mesma pessoa: Maria Helena.
    A Maria Helena trabalhava lá em casa na limpeza. Era muito engraçada com seus jeitos e manias.

    Cheguei da escola num outro dia e LÁ ESTAVA O CUBO EMBARALHADO DE NOVO.

    – Maria Helena, por acaso tu embaralhou meu cubo mágico
    – …
    -…
    -…sim.
    – Ah, tá. Bom saber.
    – Não podia?
    – Naah, sem problemas. Só queria entender a razão dele aparecer sempre embaralhado. Não sabia quem estava fazendo isso.
    – Ah…. É que eu não entendia como tu resolvia.
    -…e por isso tu embaralhou?
    – Sim… Pra ti resolver…
    – Tu querias aprender?
    – Sim…
    – Como que tu ia aprender se eu sempre resolveria ele sem tu ver eu resolvendo?
    -…
    -…

    Acabou que era a Maria Helena que embaralhava o cubo mágico. Ela só queria aprender. Não sei como aprenderia daquela forma, né, mas pelo menos o mistério foi resolvido.

    Ah, e ela desapareceu do mapa, um dia. Parou de ir lá em casa e depois foi ligar dizendo que não ia poder ir mais. Ela deu uns migué, mas nunca brigamos com ela nem nada. Nunca pude ensinar ela como resolver o cubo.

    Gente fina. Espero que esteja bem.

    Perdão pelo comentário longo.

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