Alistamento Militar

Texto originalmente publicado dia 22 de Junho de 2014

 
Assim que fiz 18 anos, além de ter que ouvir daquele tiozão engraçadota coisas como “JÁ PODE SER PRESO HEIN RSRS” ou “JÁ PODE IR PRO PUTEIRO HEIN RSRS VOU TE LEVAR PRO PUTEIRO EIN RSRS”, eu tive que me alistar no exército. O alistamento é uma forma de mostrar que a vida adulta já começou e que ela vai ser uma merda. Entendo que a carreira militar possa soar incrivelmente maneira para alguns e eu mesmo cheguei a considerar a hipótese de servir. Até me tocar de um negócio…
 
…minha vida não seria isso.
 
Soldado
 
Nem isso.
 
Soldado 2
 

Por mais que eu quisesse viver uma vida G.I. Joe, ser um bravo guerreiro, salvar a pátria durante a guerra e resgatar o soldado Ryan, a minha vida seria isso:

 

soldado-3Pátria amaaada Brasiiiiiil
 

Comecei a ver o que era preciso para essa nobre tarefa que é servir o país: eu tinha que estar em uma junta de serviço militar da minha cidade com alguns documentos às SETE DA MANHÃ pontualmente. Servir o país já estava começando a ser menos nobre do que parecia.

Cheguei lá no dia marcado às SETE DA MANHÃ (sempre lembrando em Caps Lock esse horário miserável para o ser humano) e fiquei numa fila até as 9h. Aparentemente para você ser um bom soldado de guerra você precisa estar preparado para qualquer eventual espera de duas horas. Era como se eu estivesse em uma fila para um show incrivelmente feliz da Demi Lovato, porém sem a Demi Lovato e nem felicidade.

Entrei. Mais espera. Comecei a perceber um padrão: os caras que organizavam as coisas lá falavam bem alto, lentamente e de forma agressiva. Estávamos lá só para entregar uma porra de um documento mas parecia que dali a gente iria direto para a Alemanha nazista. Era uma coisa do tipo:

 
– VOCÊS DEVEM ESTAR COM A IDENTIDADE EM MÃOS. COMPREENDIDO, JOVEM?
– Err, sim. Ela tá aqui em mãos.
– A IDENTIDADE ELA NÃO PODE ESTAR EM OUTRO LUGAR, DE FORMA QUE FACILITE O PROCESSO
– Ok
– CONSEQUÊNCIAS GRAVES ACONTECERÃO CASO A IDENTIDADE NÃO ESTEJA EM MÃOS
– Eu já enten…
– SIE MÜSSEN AUF ALLES VORBEREITET SEIN!!!!!!!
 
 

doguinhoquê?

 

Fui encaminhado a uma segunda salinha (com a identidade em mãos, claro) e lá começou um segundo cara com a delicadeza de um rinoceronte a fazer perguntas. Se fosse uma sala escura com apenas uma luz em cima de mim e dois mafiosos ao meu lado observando um terceiro me interrogar, eu me sentiria mais à vontade.

 
– YGOR FREITAS, CERTO?
– Certo
– RESPONDA APENAS SIM OU NÃO.
– Sim
– 18 ANOS, CERTO?
– Sim
– VOCÊ QUER SERVIR?
– …não
– EU NÃO OUVI DIREITO
– Estaaaamos capitão  :D
– …
– Não.
– OK, SIGA ALI EM FRENTE E DAQUI A 30 DIAS APRESENTE-SE NO QUARTEL.
 

A primeira parte tinha acabado. Perdi 4 horas daquele dia só pra responder três perguntas. E só depois eu fui descobrir que aqueles caras sequer eram militares, eram só um bando de funcionários públicos se achando a porra do Capitão Nascimento. Paciência.

Passados os 30 dias, fui para o quartel às 5 da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. Chegando lá, claro, mais fila. A diferença é que dessa vez tinham soldados de verdade e muita, MUITA gente estranha na mesma condição de espera que eu. Junta aí todos os figurantes de Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Cidade dos Homens. Era o calibre da galera que estava lá querendo servir o país. E não eram poucos. Pelo menos eles estavam lá correndo atrás de seus sonhos.

 

soldado-4Pátria amaaada Brasiiiil

 

Depois de umas 3 horas sem fazer nada além de aguardar (e, mais uma vez, sem a Demi Lovato no fim) cheguei na etapa do exame médico que consistia em: checar peso e altura, checar sua visão e checar se você tem alguma deficiência ou problema que te impeça de servir. Enquanto eu esperava minha vez, presenciei o exame de vista de um menino que, para fins ilustrativos, chamaremos de Cléber. Havia um painel na parede e Cléber tinha que dizer quais letras estavam nele. Cléber não sabia ler. O resultado foi a letra W ser chamada de “ipson”. Cléber era um batalhador.

Na minha vez, passei no exame de vista e tive que ficar sem camisa para um soldado médico que me perguntou se eu tinha alguma coisa que me impedisse de servir. Tudo o que sei é que comecei com daltonismo e daí falei tudo que era defeito que um ser humano podia ter. Sem sacanagem, falei até esquistossomose. Nunca caguei em um rio ou comi caramujo (perceba que não lembro bem como se contrai a doença), mas falei que tinha esquistossomose porque eu queria que ele me considerasse estragado demais para aquele quartel.
 
Deu errado. Passei para a próxima etapa, que era fazer uma provinha de múltipla escolha.
 
Sim, no exército você faz uma espécie de ENEM. Umas perguntas eram bem imbecis e outras eram sobre motor de jipe de guerra, um tema amplamente abordado pelo que costumam chamar de “ninguém”. Cléber a essa altura já tinha perdido as esperanças porque nesse meio tempo ele não teve a oportunidade de aprender a ler. A parte legal é que Cléber passou, a parte não legal é que eu passei. Eu iria servir. Teria que voltar naquele quartel alguns dias depois e ver para qual força armada eu havia sido convocado. Fiquei triste.

Voltei lá após alguns dias e, depois de muita fila e pouca Demi Lovato, descobri que havia sido convocado para a Aeronáutica. O tenente do exército me disse isso com as seguintes palavras: “aeronáutica? Quer dizer que temos um peixinho aqui. Boa sorte, rapaz”. Fiquei pensando na possibilidade de informar àquele senhor que a frase dele não fazia sentido tendo em vista que eu não possuía nadadeiras ou respiração branquial. Resolvi ficar quieto.

Resultado: descobri que “peixinho” é um cara com contatos dentro das forças armadas e que geralmente consegue alguma regalia, como a facilidade de servir na aeronáutica ou marinha, que são mais “elitizados”, pelo que entendi. E esse contato da aeronáutica é um amigo da família de patente altíssima (sei lá qual é o nome. Brigadeiro, major, não faço ideia) que me liberou. Hoje fico aliviado de saber que foi por muito pouco que não fiquei um período da minha vida dentro de um quartel.

 
 
Por outro lado, queria saber que fim levou o Cléber…

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16 Comentários

  1. Eduurs

    No meu alistamento eu queria mt ser dispensado daí fiquei treinando em casa até, qnd cheguei lá o cara me perguntou várias coisas e falou
    “cê tem algum problema respiratório?”
    “tenho asma”
    “que tipo”
    “tipo tal”
    “vc usa remédio?”
    “uso”
    “qual”
    “corticoide”
    “que tipo”
    “alenia”
    “que dosagem”
    “tal dosagem”

    Mano, só sei que fiquei 40 minutos numa batalha de rap com o cara até ele me deixar em paz, sendo que EU REALMENTE TENHO ASMA

  2. José Junior

    Lembro quando fui, além de dar umas mancadinhas falsas, ficar com a expressão facial mais triste que eu podia (essa sem fingir), PAGAR 200 PAU PRA UM ORTOPEDISTA ASSINAR UM PAPEL FALANDO QUE TENHO OSGOOD SCHLATER NO JOELHO (que tenho mesmo) PRO DOUTOR QUE SEQUER LEVANTOU DA CADEIRA PRA VER MEU JOELHO FALAR “Ah, isso não é motivo pra te dispensarem, mas pode tentar” e, além disso, falar/mentir na entrevista que já tive relação sexual com pessoas do mesmo sexo. Eu estava DESESPERADO. Bom, fui até a última fase da seleção, de lá era ser dispensado ou pegar a farda. Acabou que sofri isso tudo, DEI 200 reais pra um arrombado, e todos que estavam comigo lá foram dispensados por excesso de contingente. Até hoje não posso ouvir nada de exército que já dá um ódio misturado com desespero. Pior época.

  3. Vitor Santos

    quando fui servir eu falei que ia prestar vestibular e tinha uma cirurgia de vesícula que ia em breve, o que era verdade. e me dispensaram por isso huahahuha

  4. Lucas Aguiar

    Eu fui me alistar esse ano, e eu creio que o responsável pelo meu exame médico não estava com muita vontade de me analisar, pois ocorreu um curto diálogo:

    -Você tem algum problema de vista? (Eu estava com meu óculos no rosto)
    -Sim senhor.
    -Quer servir?
    -Não senhor.
    -Ok, tá liberado.

    Eu comemorei muito, afinal eu estava liberado; porém eu fiquei imaginando se ele me olhou e percebeu ali mesmo que eu sou tão inútil a ponto de não servir NEM PRA FAZER O EXAME MÉDICO.

    OBS: Eles com toda a certeza possuem problemas na hora de falar. Eu estava do lado do responsável pelos documentos e ele gritava desesperadamente no meu ouvido CARTEIRA DE IDENTIDADE EM MÃOS, CADÊ A CARTEIRA? CARTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRA

  5. Quando eu fui eu tive que ficar de cueca, o cara mandou eu alongar a mãe até o pé e viu que eu tenho uma baita corcunda de notre dame. A partir desse dia passei a amar minha lordose.

  6. Patrick

    Porra, eu fiz esse ano. Muita espera, muita fila mas fui dispensado na primeira salinha, onde estavam analisando os dentes. Olhou meus dentes, perguntou: Deseja servir? – Não – Pode esperar ali. Mais espera, orei pra bandeira e é nois, nunca mais olho para esse lado cruel do brasil -q. Me senti um pouco escravo sendo analisado pelos dentes? Senti, mas tudo bem.

  7. Gabriel N

    Queria ter uma história legal mas eu simplesmente tive que ficar esperando cinco fucking horas sem fazer nada, NO SOL até ser liberado e ainda tive que sair correndo pois tinha prova.

  8. Vitor Malburg Kolb

    Quando fui me apresentar, fui o último da fila pro exame médico – e puta merda, que fila grande. Fiquei duas horas em pé, tentando convencer a todos ao meu redor de que tava tudo beleza com um sorriso no rosto e de vez em quando uma estufadinha no peito, sendo que, na verdade, eu tava mais é cagado de medo de ser convocado, a ponto de estar tremendo. Ok, fila passa, e finalmente sou o próximo a entrar no exame médico. Do nada, e eu juro que foi do nada mesmo, surge a personificação de um coronel nazi na minha frente e que, transpirando ódio, penetra nos confins da minha alma com uma encarada antes de me perguntar:
    -“VAMOS SERVIR ANO QUE VEM, SOLDADO?? MÁQUINA ZERO NA CABEÇA, FARDA, COTURNO E FUZIL TODO DIA!!! GRRRRRRRRHHHH”.
    Nisso, tudo o que um dia eu chamei de almoço já tinha firmemente se acomodado nas profundezas da minha calça. Minha primeira reação foi estufar mais ainda o peito para, com esperança, poder bater de frente com tamanha masculinidade exacerbada do coronel Streichholzschachtel (nome fictício com fins literários). Para minha tristeza, mais tarde, em casa, imitei a mesma pose em frente ao espelho e descobri uma impressionante semelhança entre mim e um pombo (algum dia isso ainda vai me conquistar o amor da minha vida).
    Mas enfim, voltando ao quartel, lá estava eu, estufado, cagado e mudo perante o meigo coronel Streichholzschachtel. Nesse momento, eu lembrei que ele ainda tava esperando uma resposta minha, e cheguei à conclusão em frações de segundo de que eu deveria respondê-lo com certo tom de humor, para, quem sabe, amenizar o clima, mas também deixando claro minha intenção de NÃO servir o exército. Então, dos confins da minha consciência e em ressonância com partes do corpo que eu inclusive nem sabia que existiam, sai de mim em minha mais fina e clara imitação do Serginho do BBB a nobre exclamação:
    “Ashoo ki naun eh pra mim isso di exércitu naum hein hihihiHIHIHI”.
    Mais tarde, fui dispensado por ser míope.

  9. Cássio

    Bem, o seu alistamento, perto do meu, foi até calmo, pois, por sorte, fui eliminado do processo perto da hora de ficar nu numa sala com vários garotos e os militares. Tremi.

    O militar perguntou “queres servir?”. E eu, com o olhar aflito e desesperado, respondi com um “não” bem categórico, sendo em seguida dispensando e saio de lá cantando “Let it Go”.

  10. Gilberto

    Quando me alistei um maluco foi com a MÃE. Ele tomou tanta zoação dos soldados na segunda etapa que mesmo que ele fosse manco, caolho ou com algum retardo mental grave ele ia servir. Dito e feito, foi chamado pra servir e o apelido que deram no dia do resultado foi “filhinho da mamãe”.

  11. Luis Filipe

    No meu caso, eu fui dispensado logo de cara. Só que ainda tive que ir na junta umas quatro vezes, todas às sete da manhã. Em uma dessas me fizeram acordar às sete pra pagar um boleto. Todos os bancos e lotéricas onde eu poderia pagar abrem às nove.

  12. thiago pinheiro

    eu sofri e nao foi pouco no meu alistamento semana passado, foi o total de 5 horas esperando no primeiro dia, 4 nos outros dois e mais 5 no ultimo, sofri? sofri! Mas nao mais que Cleber que deve ter levado na cara porquê esqueceu de capinar a calçada.

  13. Pedro

    Fiquei até a última também e não sei qual parte foi mais vergonhosa: Ficar pulando completamente pelado com mais 10 caras e assoprando a minha mão fechada para ver se tinha hérnia ou quando fui levantar o peso e falei: Senhor, acho que tá emperrado e ouvir: Tá normal, é você que não consegue levantar mais de 30 quilos.

  14. Lucas Borba

    Eu passei por todas as etapas e não queria de jeito nenhum entrar (aqui na minha cidade é direto pra aeronáutica, que a base aérea fica na cidade vizinha).
    Na última etapa, já na base aérea, tiveram várias “fases” em que os caras pediam alguns voluntários e esses voluntários arrumavam o pessoal em ordem alfabética ou qualquer coisa do tipo. Eu já tava muito triste e com certeza que ia ter que servir.
    Em um determinado momento perguntaram quem não queria servir, levantei a mão junto com uma renca de gente e fomos levados pra outro lugar. Chegando lá o militar que estava com nosso grupo falou que todos estávamos livres, que já que não queríamos não iriam nos forçar, e que ele precisava de quatro voluntários. Como eu não tinha me voluntariado ainda e ja estava livre, levantei a mão e me prontifiquei achando que seria pra organizar o pessoal em ordem alfabética.
    Assim que eu e mais três ficamos em pé, o sargento/general/qualquer coisa nos olha e diz: – vocês vão servir, faltaram quatro pra completar o grupo que vai servir.
    Eu queria me matar. Fui encaminhado pra sala de registro pra assinar a papelada (detalhe que eu não levei caneta e papel que eles pediram), quando eu já tinha aceitado o triste fim e tava quase levantando a mão pra dizer que eu não tinha caneta pra assinar os papéis, entra na sala outro militar e diz: – os quatro que se voluntariaram e vieram do grupo que não vai servir, podem voltar pra lá.
    Depois descobri que quatro caras fizeram zueira na fila da dispensa e eles fizeram os caras servirem nos nossos lugares.

    Foi um dia com muitas emoções

  15. Jonas

    JÁ TA FICANDO ENROLADO DE NOVO! Agilidade aew,pae !

  16. Ora ora, parece que temos um peixinho aqui. Deu sorte, Ygor. Eu, além de ter pego muita fila e nenhuma Demi e ter que ficar pelado na frente de um médico, levantar meu bibiu e assoprar a mão, passei o ano todo acordando cinco horas da manhã, lavando banheiro, pagando flexão e outras dessas coisas que são essenciais para a formação de um bom soldado…

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