Meu primeiro show de rock

Texto originalmente publicado no dia 19 de março de 2015
 

Até os meus 18 anos, se não me engano, eu nunca tinha ido a um show ao vivo. Quer dizer, teve um do Detonautas no Réveillon de Cabo Frio. Só que Detonautas é aquilo né, não dá pra falar que você foi a um show deles sem correr o risco levar um soco bem dado no meio da têmpora. Minha vida era essa merda aí.

Até que em 2010 recebi a notícia de que ia rolar no Rio de Janeiro um show com as bandas Carbona, Gramofocas e Costanzas. Deus que me perdoe, mas eu fiquei tão empolgado que na hora eu senti o meu pintinho descolando de meu saquinho. Fiquei mais ansioso que uma directioner e liguei na pro amigo Zé para contar a notícia.

 
– Alô
– ZÉ PUTA QUE PARIU
– Quem é?
– É O YGOR, ZÉ. VAI TER SHOW
– Quê?
– SHOW DO CARBONA COM OS GRAMOFOCAS AQUI NO RIO
– COMO ASSIM ETA PORRA CARBONA E GRAMOFOCAS
– BORA?
– EU DIGO BORA. ONDE É?
– Na Lapa
– Ô merda…
 

Naquela hora caiu a ficha de que nada nessa vida é perfeito. A porra do show poderia ser em qualquer lugar, mas não…ia ser na Lapa.

Pra quem não está familiarizado com Rio de Janeiro, eu explico: a Lapa, na teoria, é um bairro boêmio da cidade. Ponto turístico que chama atenção de turistas do mundo todo tanto pelo visual de dia quanto pelos bares e música ao vivo à noite. Na prática a Lapa é um dos nove infernos de Dante. Imagina aí um tsunami que em vez de água tem urina, chorume, gente querendo te assaltar e barulho pra todo lado. Essa é a Lapa.

 
Ilustrando melhor, essa é a Lapa de dia

 
E essa é a Lapa de noite


 

Ou seja, já não era tão bacana assim a ideia de ir ao show. Além de tudo, esse muquifo era longe demais da nossa casa. A gente teria que virar a noite por lá pra conseguir pegar um ônibus de manhã pra Nova Iguaçu e rezar pra não perder tudo (inclusive a vida) no meio do caminho de volta. Ser suburbano é uma bosta.

Mas era Gramofocas, cara. Nós fomos mesmo assim. O grupo era eu, Zé, João Victor e Bernardo. Estaríamos por conta própria naquele lugar e lá encontraríamos outros amigos. O evento aconteceria no extinto Cine Lapa, um buraco que mais parece um cenário de Jogos Mortais, só que com muita gente dentro.

 

 Olha esta POCILGA

 

Chegamos lá com antecedência e o estabelecimento ainda estava com as portas fechadas. Nós éramos basicamente quatro caipiras no meio da rua na Lapa sem saber o que fazer. Concordamos que deveríamos ficar juntos e evitar ao máximo qualquer tipo de gracinha para poupar nossa integridade.

5 minutos depois um cara extremamente suspeito, com barba desgrenhada, gorro e aspecto sujo chega do nosso lado. Puta que o pariu. Ele abre a jaqueta assim meio escondido e fala “dose de tequila por 5 reais?”. Fica aquele climão de “isso só pode ser pegadinha”. O silêncio paira no ar e o Zé, sempre sensato em situações de pressão, tenta resolver

 
– COM CERTEZA, MEU CAPITÃO! ME VÊ UMA PRA MIM E PARA OS MEUS RAPAZES
 

Ele simplesmente aceitou. O Zé nem bebe. Se o cara oferecesse MIJO pra gente o Zé aceitaria. Nisso o mendigo negociador tirou de dentro da jaqueta uma garrafa, uns copinhos plásticos, sal e limão. Quer dizer, teoricamente aquilo era sal e limão, né. Se bobear a tequila que ele botou no copo era óleo diluído de caminhão. Nunca saberíamos dizer, nunca tínhamos tomado tequila na vida.

 

O sujeito era mais ou menos uma mistura desses dois ladrões de Esqueceram de Mim

 

Daí pra frente não tinha volta. A gente se viu com aquele farelo branco na mão, um limão certamente colhido em um pomar de HIV e aquele copo sabe-se deus com o quê. O Zé, para mostrar que estava completamente no controle da situação, resolveu abrir a boca de novo.

 
– COMO É QUE A GENTE BEBERICA ESTA IGUARIA, MEU CHAPA?
 

Sério. Eu odeio o Zé. O mendigo de Wall Street pelo menos foi super solícito. Disse que era pra botar o limão na boca e depois o sal para então beber a tequila, eu acho. Sei lá. Eu realmente não aprendi direito. São só 3 etapas e ainda assim eu não sei até hoje. Enfim, bebemos o shot de Hepatite C e estávamos nos sentindo OS TRANSGRESSORES da região.

Começou o show e foram chegando mais alguns amigos. Dentre eles, a Cristal. Guarda bem essa informação: a Cristal estava empolgada para ver o show dos Gramofocas. Vou até deixar em vermelho para você não esquecer. A Cristal estava empolgada e veio de longe só para ver o show dos Gramofocas.

 

O vocalista do Costanzas era o Vin Diesel

 

Logo em seguida subiu no palco o Carbona. Ah, moleque. A chapa tava esquentando. Galera começou a ficar mais soltinha, mais aglomerada e eu, em determinado momento (possuído por aquele copo de gasolina vendido a mim como tequila), achei que seria uma boa ideia subir em uma das caixas de som do lugar para curtir o show como se eu estivesse em um festival de música alemão. Eu tava me sentindo o quinto membro da banda ali em cima, tal qual um rockstar. Na minha cabeça todos estavam pensando “olha que rapaz ousado! Vejam como este cavalheiro possui o dom da excelência”. Era meu momento.

Mas segundo testemunhas isso só durou uns 20 segundos até um segurança dar dois tapinhas na minha perna e pedir pra eu descer dali. Eu sou um fracasso.

 

O Carbona e esse efeito DESCOLADO de fotografias da night

 

Acabando o show deles, veio o grande momento da noite: Gramofocas. Puta que pariu eu amo Gramofocas. Quem me segue nas demais redes sociais já notou isso. Não da maneira que eu esperava, mas notou…

 

Invejosos.

 

Tipo, até então a galera nas apresentações anteriores estava animada com o Carbona e Costanzas. Mas broder, quando começou Gramofocas o recinto virou um purgatório. Eu não sabia 1) de onde tinha surgido tanta gente assim em tão pouco tempo 2) como aquelas pessoas fizeram para caber ali e ainda sobrar oxigênio 3) se eu sobreviveria.

 

Eu acho que tem umas 347 coisas acontecendo ao mesmo tempo nessas duas fotos

 

Mermão, eu tava desnorteado. Eu não conhecia na prática o conceito das rodinhas punk e vou te falar: só deus sabe o tanto de porrada que eu levei naquele dia. Era empurrão de um lado, cotovelada do outro…uma experiência única.

 

Olha eu sofrendo e curtindo ao lado de um cosplay do Marcelo Tas

 

O Zé, coitado, cismou de entrar em uma roda fazendo base de arte marcial. Não demorou 3 segundos e levou um soco na cara. A gente tava sendo moído ali, suando, abraçando sujeitos que não tomavam banho há pelo menos 4 dias e mesmo assim estávamos felizes. O Zé estava só o paninho da cachorra, porém num estado de euforia que a ciência ainda precisa estudar.

 

O cara já tava com a alma entregue a deus, alá

 

Foi sem dúvida um dos momentos mais legais da minha vida. No final da noite, antes de irmos embora, acabei fazendo amizade com a guitarrista do Costanzas (a Angélica, colunista do Tenho Mais Discos Que Amigos), ganhei uma palheta do Badke, vocal do Carbona, e ainda tirei uma foto com os Gramofocas.

 

A foto no caso foi tirada com uma torradeira, como vocês podem notar pela resolução

 

Alguns anos depois rolaram outros shows e tive a oportunidade de ter fotos bem mais excelentes, como essa:

 

OLHA EU CANTANDO COM OS CARAS EM 2012

 

Se o andar da carruagem continuar favorável, um dia vou ter uma foto tocando com eles no palco. Talvez eu seja só um menino sonhador. Só sei que depois desse show eu prometi a mim mesmo que nunca mais perderia nenhum.

 
[UPDATE: EU TOQUEI COM OS GRAMOFOCAS. FOI UM DOS DIAS MAIS LEGAIS DA MINHA VIDA! OLHA EU TOCANDO COM OS GRAMOFOCAS!

AHH, MAS NÃO FOI SÓ FOTO NÃO. OLHA EU EM VÍDEO TOCANDO COM OS GRAMOFOCAS

MAIS PUNK ROCKER QUE EU VOCÊ NÃO ENCONTRA POR AÍ NÃO]
 

 
A moral da história é: Detonautas é uma merda.

CENA PÓS-CRÉDITOS
 
 

Lembra da Cristal? Então. Durante o show do Carbona ela passou por nós no meio da muvuca falando “vou beber para curtir mais ainda os Gramofocas!”. Uns 40 minutos depois passa a Cristal de volta sendo carregada porque simplesmente bebeu sozinha mais do que o recinto inteiro.

 
 
A Cristal não viu o show dos Gramofocas

Minhas (quase) brigas de rua

Esses dias em minha magnífica cidade eu estava na farmácia comprando sabonetes e, no corredor ao lado, uma menina estava me encarando. Quando eu olhava, ela desviava o olhar. Por alguns minutos eu pensei “QUE ISSO TIGRÃO, SÓ ESMIUÇANDO O CORAÇÃO DA MULHERADA HEIN”, mas ainda rolava aquele sentimento de que eu conhecia a garota de algum lugar. No caminho de volta pra casa eu tive aquele estalo e lembrei quem era. Foi mágico demais. Ela foi a asquerosa responsável por eu quase apanhar na rua na minha época de escola.

 

 Deixe-me contar para vocês, meus jovens…

 

Eu estudava no Colégio Iguaçuano desde que me entendo por gente e lá pela quinta, sexta série (eu já não sei mais como chamam hoje em dia) fiz amizade com uma menina que estudava uma série abaixo da minha. Honestamente não faço a menor ideia de como começou, mas lembro que eu a considerava uma das pessoas mais legais de se conviver na época. Nós passávamos os recreios juntos, falando sobre a vida, professores e todos aqueles assuntos que adolescentes gostam. Sei lá, MTV. Em determinado momento dessa convivência, eu comecei a gostar dela. Afinal, ela era bonita, divertida e usava aparelho.

 
Por algum motivo eu achava isso muito atraente. Os tempos eram outros, me deixa.
 

Sabe aquele amorzinho adolescente em que a gente troca olhares e começa do nada a escola toda a dançar? Foi completamente oposto a isso. Eu simplesmente abri o jogo com ela e falei “Ei, eu gosto de você. Tipo, mesmo. Mas é aquilo, antes de qualquer coisa somos amigos, então quero deixar bem claro que mesmo querendo ficar contigo, eu não vou mudar a maneira como lidamos um com o outro”

O que parando pra pensar agora, foi extremamente maduro da minha parte, visto que uma atitude mais provável pro Ygor da época seria ajoelhar na frente dela e gritar “PELO AMOR DE DEUS FICA COMIGO EU SOU MUITO FEIO E VOU MORRER”. Mas fui maduro. Vou já dar o spoiler pra vocês de que não rolou porque nem eu ficaria comigo naquela época. Eu só tinha muitos amigos porque eu compensava sendo legal, mas é aquilo…

 

O padrão de beleza escolar era esse

 

E eu era assim

 

Pra minha sorte, nada mudou. Continuamos amigos, nos encontrávamos em festas no ~Country Club~ e tudo era uma maravilha. Nos afastamos nas férias de julho porque né…férias. Eu tinha muito Tony Hawk pra jogar. Nisso, no comecinho do mês de agosto, quando já voltamos a ter aulas, o negócio tava meio esquisito. Não nos falávamos mais todo dia e, acho que naturalmente, foi acontecendo essa falta de interesse dos dois lados em manter a amizade como antes. Sem brigas, sem nada. Coisas da vida.

Eis que um dia, eu em casa ainda mandando muito no Tony Hawk, ouço o telefone tocar. Na época existia um negócio chamado TELEFONE FIXO e era tipo um celular, só que pra casa inteira e sem aplicativos ou Gemidão do Zap. Eu era adolescente e adolescente gostava de atender o telefone de casa. Atendi. Era uma voz de um garoto que eu não conhecia:

 
– Alô? É o Ygor?
– Opa 😀 Sou eu. Quem é?
– Vai tomar no cu, rapá.
 

E desligou. Por mais clara que tenha sido a mensagem, eu não tinha entendido muito bem. Achei que era meu amigo Rodrigo me sacaneando, ou até mesmo …OPA o telefone começou a tocar de novo. Atendi.

 
– Alô?
– É o Ygor?
– Cara você ligou pro mesmo número, acredito que seja o Ygor sim
– Aí Ygor, eu vou te cobrir de porrada.
 

E desligou de novo. O meu interlocutor tinha esse talento incrível de ser extremamente específico e ao mesmo tempo misterioso. Eu sabia que era pra eu tomar no cu e que ele iria me cobrir de porrada. A porra do telefone tocou mais uma vez e eu tava nervoso não pelas ameaças, mas por não conseguir terminar meu Tony Hawk em paz (era o 2. Eu tava jogando com o Rodney Mullen na fase da escola).

 
– QUIÉ
– Oi Ygor! hahahah
 

Era ela, a menina. Eu achei estranho e ao mesmo tempo fiquei bastante feliz porque não nos ligávamos há muito tempo. Ela continuou:

 
– Não liga pro Henrique não. Ele tá zoando só. *risadinhas ao fundo* Estamos eu, ele e minha irmã aqui no clube. Ele tá só implicando.
– Ah sim. Hahahah. Quem é Henrique, no caso?
 

Nisso o Henrique (eu não lembro o nome real dele. Queria muito procurar no Facebook hoje) pegou o telefone e começou:

 
– Aí moleque, nem to zoando não. Vou te quebrar mesmo só pra deixar de ser otário. E po, tu era a fim dela né? Vai apanhar duas vezes porque ela não quer nada contigo, seu comédia. Depois dessa se eu fosse você, cuspia no chão e nadava. Segunda-feira depois da aula eu te pego.
 

Desligou de novo. O Henrique tinha uma séria dificuldade em falar mais de cinco frases sem desligar um telefone. Sei de duas coisas: 1) eu nunca tinha ouvido a expressão “cospe no chão e sai nadando”; 2) eu definitivamente ia apanhar segunda-feira e sequer sabia o motivo. Esse diálogo foi num sábado. Passei o fim de semana com as perninhas bambas de tanto desespero.

 

Chegou o dia do abate.

 

Não quero ficar dando voltas pra te enrolar, caro leitor. Então vou direto ao ponto: eu nunca tive emocional pra brigar. Só de pensar em sair no braço com alguém eu já ficava com dor de barriga.

Fim de aula. Era hora de eu virar cadáver. Saí da escola e lá estava o sujeito com cara de mau e as duas irmãs cacarejando atrás dele. Descobri que o menino tinha metade do meu tamanho e uns 2kg abaixo do meu peso. O que segurava o personagem ali era a cara de invocadinho que ele fazia.

Eu tenho esse sério problema de começar a rir quando vejo alguém com cara de invocadinho porque a pessoa quer parecer um bad boy mas acaba parecendo um Chihuahua. Que se foda, ri mesmo. Daí o cara ficou mais tiririca ainda. O lance é que ele foi esperto: tava sem uniforme da escola. Eu tava uniformizado. Se eu brigasse, além de correr o risco de tomar uns socos bem dados, ainda seria suspenso no Iguaçuano por causa daquela roupa.

Ri do cara e passei direto por ele. As duas cacarejando ainda. Ele começou a me seguir. “Pronto. O cabra vai me desovar em algum terreno de Nova Iguaçu”, pensei. Daí o meu plano era andar o máximo possível pra ver o quão disposto ele estava a me bater. 10 minutos andando e ainda estavam os 3 atrás de mim. Um invocadinho e duas cacarejando.

O que mais me intriga é que se ele desse uns 6 passos mais rápidos, ele me alcançava e poderia me desossar. Mas não. Ele APENAS ficou que nem um encosto atrás de mim. Era o meu shinigami particular.

 

Eu e o invocadinho

 

Os 3 queriam andar? Beleza. Subi a rua da delegacia (pra quem não é daqui de Nova Iguaçu, é uma subida insuportavelmente chata pra se fazer a pé) e decidi ir até o final. Segue abaixo um mapa do meu trajeto.

 

Beleza, na minha cabeça era um percurso muito maior, com pelo menos uns 20 minutos. Mas o Google gosta mesmo de destruir nossos sonhos.

 

Na metade do caminho encontrei meus amigos Bruno e Filipe. Eles começaram a me acompanhar e perguntaram “tá fazendo o que aqui?”. Respondi que um invocadinho e duas estudantes galináceas estavam me seguindo. Eles olharam pra trás e não tinha ninguém.

 
Venci.
 

Daí fomos pra casa do Filipe jogar Nintendo 64.

 

100% a gente

 

Durante o resto do ano o invocadinho continuava me encarando na escola (cada um com seus hobbies) e as palhaças, felizmente, nunca mais falaram comigo.

 
 
Pensando bem, eu deveria ter voltado naquela farmácia e jogado meu sabonete nela.