O maior trapézio de Belém do Pará

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 
Quando se termina um namoro que já se arrastava por meses, a melhor coisa a se fazer é ocupar a mente. Ficar em casa trancado no quarto ouvindo músicas depressivas só é bonito nos filmes, na vida real o máximo que você vai conseguir é dar um tiro na própria cabeça. Voltei a sair com os amigos, comecei a ler livros e ver filmes que estavam na minha lista faz tempo, voltei a escrever no blog e…entrei pra academia!

 

 

Durante toda a minha vida, eu sempre fugi de uma boa briga pelo medo – e certeza – de que ia levar uma surra tão grande que até os meus FILHOS iam nascer com hematomas. O tempo ia passando, cada vez mais amigos meus iam entrando para a academia e eu ia notando como isso de alguma forma afetava completamente não só o corpo mas a mente deles: na primeira semana, os comentários eram sempre “putz, tô doído demais, essa academia tá me matando”. Na segunda semana, eles já chegavam com os ombros visivelmente mais largos e dizendo “rapaz, academia é muito bom”. No segundo mês, as primeiras camisetas regata já estavam sendo usadas, sendo possível ver os primeiros músculos tomando forma nos braços.

Por volta do terceiro ou quarto mês, as regatas já davam lugar a ABADÁS, e os comentários passaram a ser coisas como “abjhbabjabja açaí com guaraná rhuahuahuahua” e “bajhabbjaba WHEY COM GRANOLA BJAABBAJBABAABA”.

A partir daí, meu amigo, foi ladeira abaixo: as camisetas foram ficando menores até sumirem de vez, os punhos não se abriam e os braços não fechavam, e quando eu me dei conta meus amigos andavam do meu lado sem camiseta exalando testosterona e Whey Protein enquanto eu continuava o mesmo nugget de frango de sempre.

Isso tudo fez com que eu formasse a ideia de que a academia era algum tipo de instituição maligna e que alguma coisa suspeita definitivamente acontecia ali, uma fábrica de Léos Stronda. Talvez fosse alguma coisa na água do bebedouro ou na música eletrônica ambiente, ou talvez as pessoas só ficassem assim de tanto cheirar o álcool usado pra limpar os equipamentos. Enfim. Mas mesmo assim, na cara e na coragem, decidi me inscrever na academia aqui perto de casa e seja o que deus quiser.

O primeiro tapa na cara veio mesmo quando me disseram que eu não podia malhar de calças jeans. Certo, tive então que comprar bermudas, camisetas de exercícios e qualquer outro tênis que não fosse All Star. O primeiro dia da academia chegou, e logo saí de casa triunfante com meus fones de ouvido e adentrei no recinto assim:

 

 – olá amigos da academia

 

Achei que ia apanhar nesse dia.

Um dos meus maiores medos de entrar na academia era justamente que as pessoas ficassem olhando pra mim e me julgando dos pés à cabeça, mas, assim como em toda a minha vida, ninguém reparou em mim. Comecei a malhar já faz um tempinho e agora já acostumei com rotina de treinos, mas no começo sempre voltava pra casa como se tivesse sido surpreendido por um grupo de caminhoneiros em um banheiro de posto de beira de estrada, espancado, carregado por um lance de escadas acima, jogado pelo mesmo lance de escadas abaixo, rolado até a rua e então atropelado pelos mesmos caminhoneiros fugindo no caminhão.

Aliás, é engraçado reparar nos vários tipos de pessoas que frequentavam o mesmo lugar que eu, e, como aqui neste blog somos adeptos do empirismo (leia-se: cago regra mesmo), tomo a minha experiência pessoal como universal: em qualquer academia de qualquer lugar do mundo, sempre tem aquele cara (ou grupo de caras) que, quando você chega, ele já está lá. Quando você sai, ele continua lá. Quando você passa de carro no final de semana na frente da academia fechada e olha pela janela, ELE AINDA CONTINUA LÁ.

É aquele cara que passou tanto tempo levantando pesos e tomando doses cavalares de proteína todos os dias que seu corpo sofreu mutações e criou músculos até onde não tem – ou não deveria ter. É o tipo de gente que volta e meia você aparece no jornal com uma necrose bizarra se espalhando pelo corpo porque um belo dia achou que injetar óleo de cozinha com três partes de anabolizante pra cavalo na batata da perna seria uma boa ideia.

 

 imagem ilustrativa

 

Tem essa garota na minha academia. Mais ou menos a minha idade, malha no mesmo horário que eu. Não faço a menor ideia do nome, mas por algum motivo imagino que seja bem bonito. Passei dias semanas elaborando na minha cabeça dezenas de frases que pudessem iniciar um possível diálogo no mínimo divertido, mas até então o melhor que eu tinha conseguido foi “oi, me empresta o álcool?”.

Um dia, finalmente reuni coragem o suficiente pra ir até lá mostrar o cara legal que eu sou. Levantei da máquina de supino, fiz meu caminho pelos diversos obstáculos da academia, desviando de pesos sendo abaixados e pés puxando cordas e braços levantando halteres – caminhar por uma academia pode ser tão perigoso quanto aquelas gincanas do Silvio Santos. Enfim, me aproximei enquanto ela descansava sentada no equipamento, e disse:

Oi!

Então, só por curiosidade, olhei pra quantidade de barras que ela levantava e…Bom, deixa pra lá.

… me empresta o álcool?

Depois desse dia, passei a malhar sempre do outro lado da academia.

Autoescola

Texto originalmente publicado no dia 08 de julho de 2014

 
Existem algumas convenções sociais que me deixam chateado com a humanidade como um todo. Uma delas é o fato de que no Brasil, com 18 anos, você já tem que estar dirigindo por aí. Eu não gosto de dirigir, então pense na minha situação ao perceber que a merda da maioridade tinha chegado e, a menos que eu fosse um motorista habilitado, eu não teria um carro para 1) me locomover com facilidade entre grandes distâncias 2) ~pegar mulherzinha na baladinha monstra de leveee rs~ 3) tunar.

 

Eu não poderia ser esse cara

 

Como eu não queria ser um perdedor, procurei o melhor curso de habilitação da minha cidade para me matricular. Não sei o que se passava naquele lugar, mas aquela era uma autoescola EXTREMAMENTE FELIZ. E não de uma maneira bacana, tipo a vida dos Ursinhos Carinhosos. Era um feliz meio incômodo, tinha aquela pitada de psicopatia naqueles funcionários.

 

 VRUM VRUM VRUM NOSSO CURSO NÃO É QUALQUER UM

 

No ato da matrícula foi aquele mar de novidades. Ganhei caneta, caderninho, apostila para aulas teóricas, chaveiro e camiseta. Se eu recebesse um beijo na boca ali mesmo, não ficaria surpreso. A primeira coisa que me informaram é que, por conta da procura, eles tinham um número muito alto de alunos e que era pra eu decidir meu turno de aulas antecipadamente. Escolhi manhã e tarde para acabar com tudo aquilo o quanto antes. Eu estava matriculado.

 

 BI BI FOM FOM VOCÊ SERÁ UM CONDUTOR BOM

 

Meu primeiro erro foi esse: ter escolhido a porra do turno da manhã. Nessa época eu ainda estava em um quadro pesado de depressão e, cá entre nós, vou lhes dar um conselho: se você está com ódio do mundo, não invente de acordar cedo. Acordar cedo só vai te fazer virar um potencial monstro. Sabe quem acordava cedo? Isso mesmo. O assassino de John Lennon, Hitler e Scar, o tio de Simba.

 

 É isso o que acontece quando você acorda cedo

 

Vou pular aqui toda a parte dos exames médicos por dois motivos: primeiro porque aquele teste psicotécnico imbecil só vai te reprovar se você for, sei lá, uma cenoura. E segundo porque eu só passei no teste de daltonismo chutando as respostas. Não quero falar sobre isso para evitar problemas com os tiras. Vamos direto para as aulas teóricas, ok?

No meu primeiro dia, às 8 da manhã (ô caralha de horário infeliz) eu estava lá e conheceria os meus colegas de classe. Percebi que aquilo não era um pré-vestibular e eles não eram exatamente todos jovens e elegantes. Na verdade isso era o que menos tinha. A maioria lá tinha pelo menos uns 30, 40 anos. E, como toda pessoa de meia-idade começando algo novo, eles estavam quase tendo um derrame de tanta ansiedade.

 
E eu putaço pois queria estar dormindo.
 

O bom de estar em uma turma em que pessoas da minha idade são raras, é que eu, desde o primeiro dia de aula, não precisei abrir a boca uma vez sequer. Velho gosta de prosa, gosta de falar dos vizinhos que já bateram o carro e desde então nunca deixaram de usar cinto de segurança. Velho gosta dessas coisas. Aquela classe era um mar de sabedoria popular. Tinha um senhor de uns 52 anos de idade, pele queimada de sol, bigode e aquela camisa regata toda feita de furinhos, ele sempre tinha uma história pra contar, um causo da vizinhança, um causo da vida. Seu nome era Jair. Conhecido pela turma como SEU JAIR.

Foram 45 horas de aulas teóricas. 45 histórias do Seu Jair. Chegou num ponto em que os professores já paravam a aula e falavam “lá veeem história do Seu Jair! :D” junto com os alunos, igual a uma porra de esquete do Zorra Total. Aquilo era um pesadelo e minha única alternativa era esperar o tempo passar. Nunca dormi em sala pois achava desrespeitoso. Por outro lado, essas aulas serviram para eu chegar ao final de Cut The Rope no iPod com todas as estrelinhas. 45h passadas e algumas semanas depois eu estava livre. Acabara a teoria (segura aí esse pretérito mais-que-perfeito). ERA HORA DE DIRIGIR.

 

 ebaaaaa

 

Mas peraí, vamos devagar.

Imagine a seguinte situação: sua alma está definhando nas profundezas do inferno por séculos e você finalmente acha que alcançou uma maneira de sair dali. Quando você está no grande portão do Inferno, praticamente se despedindo, Lúcifer te dá um tapinha no ombro e diz “vai pra onde meu nêgo fera? Estamos só começando”. Foi o que aconteceu comigo. Se eu achava que as aulas teóricas davam dor de cabeça, as aulas práticas eram um aneurisma.

Como a “procura era muito grande e tinham muitos alunos”, você tinha que marcar para ter as aulas práticas no máximo uma vez por semana porque a autoescola só tinha uns 4 carros. Vou repetir: QUATRO CARROS. Uma autoescola. Uma escola de autos. Com apenas quatro automóveis. Fico me perguntando como foi a reunião de planejamento dos imbecis responsáveis por isso.

 
– Ow, to pensando em abrir uma autoescola.
– Olha aí, interessante. O que falta?
– Os carros.
– Ah, é o de menos. Vai ter bebedouro?
– Vai, três.
– Alá, porra. Tá pronta já. Que mané carro o quê…
– Mas…
– Esquece carro, rapaz. Tudo pra você é carro eu hein…
 

Era chato e dificultava o aprendizado? Sim. Me deixou menos empolgado no primeiro dia? Não. Cheguei que nem criança em festa de aniversário, alucinadaça. Eu queria era pegar no volante, mandar uns drifts e ser aplaudido pelas ruas da cidade. Fui até com uma jaqueta maneira pra me sentir em Velozes e Furiosos. Ninguém me segurava.

 

 Eu antes de começar a aula

 

A realidade foi outra. Eu deixei o carro morrer umas 67 vezes sem nem ter saído do lugar. Soltar a embreagem devagar pra mim era um sonho inalcançável. Não tinha delicadeza. Ou eu tinha o sangue de um condutor de máquinas agrícolas correndo em minhas veias ou eu era um retardado mental. Após uma breve pensada comigo mesmo, concluí que ninguém na minha família havia manejado uma máquina agrícola na vida. Eu era só um retardado mental. Todo o meu espírito Need For Speed tinha ido embora com a minha dignidade logo no primeiro dia.

 

Eu antes de terminar a aula

 

Foram meses de aula prática até o ponto em que dirigia como um habilidoso piloto e manobrava como um experiente valet. Minhas balizas? Meu amigo, se o Seu Jair estivesse comigo naquelas aulas ele diria que jamais tinha visto balizas tão belas em sua vida. Mas é importante dar créditos ao meu professor.

O método de ensino dele não era o convencional: ele me colocava em aventuras. Eu tinha que dirigir pelos cantos mais barra-pesada da cidade. Tudo isso ao som dos batidões de funk do celular sem fone dele e ouvindo os assuntos que ele puxava sobre quantas alunas tinha comido naquele carro. Foi a primeira, inclusive, vez que ouvi o termo “MARCHETA”, que consiste no ato da aluna dirigir com uma mão no volante e outra na marcha (sendo “marcha” o nome que ele dava pro próprio pênis).

Uma coisa é bem verdade: você não vira professor de autoescola porque gosta. Você vira professor de autoescola pra comer alunas. Ele me disse aquilo uma vez e nunca mais saiu da minha cabeça o que diabos rolava naquele banco de trás. Teve uma vez em que ele falou “vamos dirigir pro outro lado da cidade, quero conhecer uma menininha que falou comigo no Facebook”. Sério. Eu tinha virado motorista particular daquele porra. O levei até a casa da garota com ele falando “deixa o motor ligado porque não sei se ela tem marido, se der qualquer merda tu arranca”.

 

 Essa cara foi a minha única reação

 

Uma coisa é certa: ele me ensinou da melhor maneira a lidar com a vida real no trânsito e pelo menos eu não estava inseguro para o grande dia da prova prática. Resolveu alguma coisa? Resolveu foi porra nenhuma. Se nas ruas eu era um Tom Cruise em Top Gun, no dia da prova eu só colocava a chave no carro e o resultado era esse:

 

 

Eu reprovei DUAS VEZES nesta bosta e não vou mentir, na primeira eu mereci. Pra minha baliza ficar pior só faltou eu ter atropelado uma velha cadeirante que estivesse passando por ali. Saí do carro com cara de “ok eu fiz merda, volto na próxima”.

Na segunda vez, o fiscal arrombado já começou respondendo o meu bom dia com um “hoje eu não to bem não”. Fiz a prova inteira com vontade de fazer cocô de tanto nervoso. Fiz o percurso de maneira impecável e na reta final ele me mandou parar. Perguntei o motivo.

 
– Tu não deu seta.
– Era uma reta. Não é preciso dar seta nessa reta. (Não era preciso)
– Eu que digo se é ou não.
– Tá, mas uma seta não me reprova. Só errei isso.
– Vai discutir comigo? Errou baliza então.
 

Ele marcou SEM PUDOR NENHUM um ponto que não existia ali na hora para mostrar que estava certo. Eu realmente não tinha o que fazer, tendo em vista que assassinatos não são bem vistos na sociedade atual. Ele trocou de lugar comigo, eu fui pro carona e ele ligou o carro. Na hora de dar partida ELE DEIXOU O CARRO MORRER. Fiquei olhando pra ele com cara de “E AGORA HEIN, Ô SAFADÃO DO TEXAS?” e ele fingiu que não aconteceu nada. Ele estava em um dia ruim e me fodi por causa disso.

Vale lembrar que entre uma prova e outra rolava um gap de um mês e pouco. O resultado disso foi: eu ficava cada vez mais inseguro por causa do espaço de tempo e cada vez mais nervoso, tendo em vista que todo esse tempo de aulas durou quase um ano (que é o prazo que você tem para conseguir sua habilitação). Se eu não passasse nessa, eu teria que começar TUDO DE NOVO.

Havia chegado o grande dia. Estava vazio. Eu aprendi com a vida que fiscais de mau humor tendem a te prejudicar. Chamaram meu nome. Puta merda, era agora. Conheci meu fiscal e ele era um senhor muito bem humorado. Ele estava conversando com um amigo enquanto seguíamos em direção ao carro:

 
– Rapaz, esse horário que o DETRAN inventou é bem ingrato né
– Nem me fala. Sem contar com esse Sol quente.
– Antes a gente fazia 10 alunos e ponto final. Agora não.
– É, quem me dera poder resolver isso.
 

NA HORA meu instinto falou mais alto e entrei na conversa com um deles.

 
– Isso aí é condição indevida de trabalho, dá processo. – Eu disse
– Sério isso? Aí, Hamilton. O cara é advogado. Fala mais.
 

Eu não era advogado, mas pelo visto eu sabia tanto de leis quanto eles, então resolvi que era hora de fingir. Não só pela minha habilitação mas pelo olhar esperançoso de Hamilton, o fiscal. Durante todo o percurso fui conversando com eles sobre como eles deveriam recorrer à justiça, inventei códigos penais, termos e instruções. Eu ajudando eles, eles me ajudando na prova com uns “opa, liga a setinha”.

Cheguei ao final sem perder nenhum ponto e eles chegaram ao final com uma motivação trabalhista nova em suas vidas. Todos nós ganhamos e hoje sou habilitado. Ainda sinto uma emoção no peito quando lembro de nos despedirmos ali e Hamilton falar “vai com Deus, doutor!”. Pobre Hamilton.

 
 
Ah, sim. Até hoje eu detesto dirigir.