13 parentes e um carnaval

Texto originalmente publicado no dia 08 de fevereiro de 2010

 
O Carnaval tá aí. Galera já se preparando para viajar e cair na perdição por uma semana. É um fenômeno incrível porque nas estradas, quando você olha pros carros ao seu redor, quase todos estão sem o tampo do porta-malas, de forma que você pode ver pelo vidro traseiro a mala socada de edredons, ventilador, colchonete e tudo aquilo que faz parecer que a pessoa tá fugindo de um apocalipse zumbi.

Eu, como todo bom carnavalesco, vou para Cabo Frio. Não gosto de zona, não gosto de calor e não gosto de praia. Pra minha sorte, em Cabo Frio tem tudo isso multiplicado por 7. Caso você não seja do Rio de Janeiro, eu te explico: Cabo Frio é uma cidade litorânea da Região dos Lagos com praias de água cristalina, areia branquinha e todos os moradores de Minas Gerais juntos.

Sério. Em época de feriado tem mais mineiro em Cabo Frio do que em Minas.

 

Olha que bonito

 

A minha família vai para lá TODO. SANTO. ANO. Carnaval em qualquer outro lugar passou a ser lenda urbana. O bacana é que eles não alugam um apartamento pra uns três, quatro pessoas. É papo de 13 cabeças num apartamento só. Sem sacanagem, parece uma porra de uma favela indiana. A parentada se diverte mesmo assim. “Só vamos usar pra dormir mesmo”, dizem. Nessa hora eles esquecem que cagam, que tomam banho e que precisam descansar.

Meu amigo, 13 pessoas pra dois banheiros está abaixo do nível de dignidade humana. Experiência própria. Lembra da abertura de O Rei do Gado? Aquele monte de bovino espremido andando na mesma direção? Era a gente voltando da praia pra tomar banho em casa.

 

Meu mundo, minha vida.

 

MAS APARTAMENTO É SÓ PRA DORMIR, NÃO É MESMO? Então vamos pras ruas. Em época de Carnaval meio que rola um senso comum de que ninguém deve se importar com porra nenhuma. Ninguém deve raciocinar nem fazer o que faria normalmente no período “Não-Carnaval” do ano. Um bom exemplo é você ir, sei lá, a um banco para sacar a grana da Kaiser e no caixa ao lado tem um cara só de sunga. Vai comprar dois reais de pão e na fila tem três cara de sunga. Isso às 7 da manhã. Até na igreja tem gente já passando o protetor pra não perder tempo na praia. Porra, até o padre usa uma berma de tactel da Billabong por baixo da batina.

 

N O R M A L

 

Mas é na praia que as coisas realmente acontecem. Você e os 13 parentes equipados com umas 70 cadeiras e guarda-sóis dão a primeira pisada na areia. A areia, claro, está quente que nem os nove círculos do Inferno. A manada começa a andar rápido exclamando “Ai, cacete” e “Quente pra caralho essa areia aí” no meio daquele mundo de guarda-sóis. Esbarra aqui, esbarra ali, joga areia na gorda deitada, esbarra mais e acha o ponto PERFEITO: de frente pro mar ao lado da barraca de um vendedor de cocos chamado Moreno.

É aquela festa. Criançada pedindo picolé pros pais, adultos ajeitando cadeiras e barracas, criançada se cagando com o picolé que ganhou dos pais e, com alguma sorte, o caçula some porque se perdeu quando voltava da água. Mãe chorando, salva-vidas pedindo informações…aquele show até a criança retardada reaparecer gritando “EU SE PERDI MÃE“.

Algumas horas depois, a supracitada localização perfeita (ao lado da barraca do Moreno, onde o seu pai provavelmente já está bebericando e conversando com o próprio Moreno sobre o Botafogo) se torna o caos: a maré subiu.

Que espetáculo! QUE ESPETÁCULO! Aquela onda vem sem piedade, como um cavaleiro do Apocalipse. Alguém da linha de frente das barracas grita o óbvio: “Ó A OOOONDA!!!“. E aí, companheiros, forte abraço. Mulherada levantando desesperadamente das cangas, homens rindo porque já estão bêbados, criançada sumindo de novo e chinelos tentando fugir para uma nova vida no mar, esperançosos. Nessa hora ninguém é de ninguém. Cada um por si. Se o mar levou teus pertences é porque Iemanjá quis assim.

Ao escurecer, todo mundo resolve ir embora. Pessoal enche as garrafinhas de Guaraviton com aquela água do raso, cheia de areia, para “limpar” os pés na orla, ir pra casa, tomar banho. E aí é aquela história dos gados…

 

Nem o Golden Antônio Fagundes resolveria a questão do nosso banheiro.

 

E fechando com chave de ouro, você tem que dormir pouco porque sempre tem aquele caralho daquele tio que acorda todo mundo cedo gritando “boooora caminhar“, “booooora pra praia” ou “tu veio pra dormir ou pra curtir?

 
 
Eu amo o Carnaval.

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12 Comentários

  1. bruna

    e quando você MORA na praia e a sua casa no carnaval vira pousada? 😂😂

  2. No momento tenho a certeza de q vc esteve junto a minha família nesses carnavais e eu nunca percebi devido a quantidade de pessoas no apartamento

  3. Melissa

    O lado bom é que VC vai pra uma praia limpinha, toda bonita.
    Aonde minha família inventa de ir não tem concha tem pedaço de azulejos, é tanto azulejos que acho que Poseidon ta reformando a casa :v a ultima vez que eu fui eu pisei num troço meu pé inchou, tive febre, achei q ia envergar com Tétano kkkkk mas felizmente to aqui e pronta pra mais um ano de praia indesejada

  4. Gogo

    Pô minha infância em Cabo Frio foi essa. A única diferença é que sou um dos mineiros e que a gente ficava mais ali pra barraca da Rose. Pedia picolé de uva pros meus pais até não dar mais se eu pudesse me alimentava só de picolé de uva

    • Essa barraca da Rose sempre foi a melhor! Minha infância e primeiros amorzinhos foram em Cabo Frio, fala sério! Melhor cidade para carnaval e férias, varias historias!!!

  5. E quando querem botar 23 pessoas numa casa que só cabe 5 com apenas um banheiro e tendo que dormir na cozinha e no baú do caminhão (sim, tenho um tio maluco que vai de caminhão).

  6. Eu não sou do rio, mas aqui em SP eu tinha minha versão de Cabo Frio, que é a praia de Bertioga. Lugar lindo Ygor, tu precisa conhecer, a areia é cinza e dura feito tijolo baiano, a água é de um tom verde esmeralda falsa de modo que você entra e não vê seus pés, o céu é na maioria das vezes nublado, já que estamos em São Paulo, e se você ignorar a vala por onde passa o esgoto a céu aberto, e os pedaços de galhos quebrados que ficam escondidinhos na areia furando seu pé, você consegue realmente se divertir como se estivesse numa das famosas praias do Caribe.

    Caso esteja interessado me dê um toque, minha família tá planejando ir pra lá esse mês, mas até agora só umas doze pessoas deram certeza, cabe mais um!

  7. Henrique

    Gente, juro a vocês que quando li “a maré subiu” fiz uma pausa dramática e nem precisei continuar a leitura: Automaticamente veio à minha mente o que acontece com a minha família, EXATAMENTE o mesmo que o Ygor escreveu, com exceção da maravilhosa referência a Iemanjá AHAUAHAUAHAAU.

    Como é que pode até a história das garrafinhas ser idêntica velho?

    E o melhor é quando a galera toda chega em casa cheirando a macaco morto a tapas na praia e começa o conflito pra saber quem vai tomar banho primeiro (no único banheiro do imóvel), enquanto os demais ficam zanzando sem ter onde sentar porque, afinal, tá todo mundo molhado!

    Grande texto, ótimas observações! KKK

  8. Parceiro eu já tô pegando raiva de Cabo Frio, desde que nasci minha família vai pra lá pelo menos uma vez no ano (obviamente sou mineiro).

  9. não importa quando eu leio esse texto eu sempre vou chorar com o “eu se perdi mãe” aaaaaaaaaaaa kkkkkkkk te amo ygão

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