O maior trapézio de Belém do Pará

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 
Quando se termina um namoro que já se arrastava por meses, a melhor coisa a se fazer é ocupar a mente. Ficar em casa trancado no quarto ouvindo músicas depressivas só é bonito nos filmes, na vida real o máximo que você vai conseguir é dar um tiro na própria cabeça. Voltei a sair com os amigos, comecei a ler livros e ver filmes que estavam na minha lista faz tempo, voltei a escrever no blog e…entrei pra academia!

 

 

Durante toda a minha vida, eu sempre fugi de uma boa briga pelo medo – e certeza – de que ia levar uma surra tão grande que até os meus FILHOS iam nascer com hematomas. O tempo ia passando, cada vez mais amigos meus iam entrando para a academia e eu ia notando como isso de alguma forma afetava completamente não só o corpo mas a mente deles: na primeira semana, os comentários eram sempre “putz, tô doído demais, essa academia tá me matando”. Na segunda semana, eles já chegavam com os ombros visivelmente mais largos e dizendo “rapaz, academia é muito bom”. No segundo mês, as primeiras camisetas regata já estavam sendo usadas, sendo possível ver os primeiros músculos tomando forma nos braços.

Por volta do terceiro ou quarto mês, as regatas já davam lugar a ABADÁS, e os comentários passaram a ser coisas como “abjhbabjabja açaí com guaraná rhuahuahuahua” e “bajhabbjaba WHEY COM GRANOLA BJAABBAJBABAABA”.

A partir daí, meu amigo, foi ladeira abaixo: as camisetas foram ficando menores até sumirem de vez, os punhos não se abriam e os braços não fechavam, e quando eu me dei conta meus amigos andavam do meu lado sem camiseta exalando testosterona e Whey Protein enquanto eu continuava o mesmo nugget de frango de sempre.

Isso tudo fez com que eu formasse a ideia de que a academia era algum tipo de instituição maligna e que alguma coisa suspeita definitivamente acontecia ali, uma fábrica de Léos Stronda. Talvez fosse alguma coisa na água do bebedouro ou na música eletrônica ambiente, ou talvez as pessoas só ficassem assim de tanto cheirar o álcool usado pra limpar os equipamentos. Enfim. Mas mesmo assim, na cara e na coragem, decidi me inscrever na academia aqui perto de casa e seja o que deus quiser.

O primeiro tapa na cara veio mesmo quando me disseram que eu não podia malhar de calças jeans. Certo, tive então que comprar bermudas, camisetas de exercícios e qualquer outro tênis que não fosse All Star. O primeiro dia da academia chegou, e logo saí de casa triunfante com meus fones de ouvido e adentrei no recinto assim:

 

 – olá amigos da academia

 

Achei que ia apanhar nesse dia.

Um dos meus maiores medos de entrar na academia era justamente que as pessoas ficassem olhando pra mim e me julgando dos pés à cabeça, mas, assim como em toda a minha vida, ninguém reparou em mim. Comecei a malhar já faz um tempinho e agora já acostumei com rotina de treinos, mas no começo sempre voltava pra casa como se tivesse sido surpreendido por um grupo de caminhoneiros em um banheiro de posto de beira de estrada, espancado, carregado por um lance de escadas acima, jogado pelo mesmo lance de escadas abaixo, rolado até a rua e então atropelado pelos mesmos caminhoneiros fugindo no caminhão.

Aliás, é engraçado reparar nos vários tipos de pessoas que frequentavam o mesmo lugar que eu, e, como aqui neste blog somos adeptos do empirismo (leia-se: cago regra mesmo), tomo a minha experiência pessoal como universal: em qualquer academia de qualquer lugar do mundo, sempre tem aquele cara (ou grupo de caras) que, quando você chega, ele já está lá. Quando você sai, ele continua lá. Quando você passa de carro no final de semana na frente da academia fechada e olha pela janela, ELE AINDA CONTINUA LÁ.

É aquele cara que passou tanto tempo levantando pesos e tomando doses cavalares de proteína todos os dias que seu corpo sofreu mutações e criou músculos até onde não tem – ou não deveria ter. É o tipo de gente que volta e meia você aparece no jornal com uma necrose bizarra se espalhando pelo corpo porque um belo dia achou que injetar óleo de cozinha com três partes de anabolizante pra cavalo na batata da perna seria uma boa ideia.

 

 imagem ilustrativa

 

Tem essa garota na minha academia. Mais ou menos a minha idade, malha no mesmo horário que eu. Não faço a menor ideia do nome, mas por algum motivo imagino que seja bem bonito. Passei dias semanas elaborando na minha cabeça dezenas de frases que pudessem iniciar um possível diálogo no mínimo divertido, mas até então o melhor que eu tinha conseguido foi “oi, me empresta o álcool?”.

Um dia, finalmente reuni coragem o suficiente pra ir até lá mostrar o cara legal que eu sou. Levantei da máquina de supino, fiz meu caminho pelos diversos obstáculos da academia, desviando de pesos sendo abaixados e pés puxando cordas e braços levantando halteres – caminhar por uma academia pode ser tão perigoso quanto aquelas gincanas do Silvio Santos. Enfim, me aproximei enquanto ela descansava sentada no equipamento, e disse:

Oi!

Então, só por curiosidade, olhei pra quantidade de barras que ela levantava e…Bom, deixa pra lá.

… me empresta o álcool?

Depois desse dia, passei a malhar sempre do outro lado da academia.

Autoescola

Texto originalmente publicado no dia 08 de julho de 2014

 
Existem algumas convenções sociais que me deixam chateado com a humanidade como um todo. Uma delas é o fato de que no Brasil, com 18 anos, você já tem que estar dirigindo por aí. Eu não gosto de dirigir, então pense na minha situação ao perceber que a merda da maioridade tinha chegado e, a menos que eu fosse um motorista habilitado, eu não teria um carro para 1) me locomover com facilidade entre grandes distâncias 2) ~pegar mulherzinha na baladinha monstra de leveee rs~ 3) tunar.

 

Eu não poderia ser esse cara

 

Como eu não queria ser um perdedor, procurei o melhor curso de habilitação da minha cidade para me matricular. Não sei o que se passava naquele lugar, mas aquela era uma autoescola EXTREMAMENTE FELIZ. E não de uma maneira bacana, tipo a vida dos Ursinhos Carinhosos. Era um feliz meio incômodo, tinha aquela pitada de psicopatia naqueles funcionários.

 

 VRUM VRUM VRUM NOSSO CURSO NÃO É QUALQUER UM

 

No ato da matrícula foi aquele mar de novidades. Ganhei caneta, caderninho, apostila para aulas teóricas, chaveiro e camiseta. Se eu recebesse um beijo na boca ali mesmo, não ficaria surpreso. A primeira coisa que me informaram é que, por conta da procura, eles tinham um número muito alto de alunos e que era pra eu decidir meu turno de aulas antecipadamente. Escolhi manhã e tarde para acabar com tudo aquilo o quanto antes. Eu estava matriculado.

 

 BI BI FOM FOM VOCÊ SERÁ UM CONDUTOR BOM

 

Meu primeiro erro foi esse: ter escolhido a porra do turno da manhã. Nessa época eu ainda estava em um quadro pesado de depressão e, cá entre nós, vou lhes dar um conselho: se você está com ódio do mundo, não invente de acordar cedo. Acordar cedo só vai te fazer virar um potencial monstro. Sabe quem acordava cedo? Isso mesmo. O assassino de John Lennon, Hitler e Scar, o tio de Simba.

 

 É isso o que acontece quando você acorda cedo

 

Vou pular aqui toda a parte dos exames médicos por dois motivos: primeiro porque aquele teste psicotécnico imbecil só vai te reprovar se você for, sei lá, uma cenoura. E segundo porque eu só passei no teste de daltonismo chutando as respostas. Não quero falar sobre isso para evitar problemas com os tiras. Vamos direto para as aulas teóricas, ok?

No meu primeiro dia, às 8 da manhã (ô caralha de horário infeliz) eu estava lá e conheceria os meus colegas de classe. Percebi que aquilo não era um pré-vestibular e eles não eram exatamente todos jovens e elegantes. Na verdade isso era o que menos tinha. A maioria lá tinha pelo menos uns 30, 40 anos. E, como toda pessoa de meia-idade começando algo novo, eles estavam quase tendo um derrame de tanta ansiedade.

 
E eu putaço pois queria estar dormindo.
 

O bom de estar em uma turma em que pessoas da minha idade são raras, é que eu, desde o primeiro dia de aula, não precisei abrir a boca uma vez sequer. Velho gosta de prosa, gosta de falar dos vizinhos que já bateram o carro e desde então nunca deixaram de usar cinto de segurança. Velho gosta dessas coisas. Aquela classe era um mar de sabedoria popular. Tinha um senhor de uns 52 anos de idade, pele queimada de sol, bigode e aquela camisa regata toda feita de furinhos, ele sempre tinha uma história pra contar, um causo da vizinhança, um causo da vida. Seu nome era Jair. Conhecido pela turma como SEU JAIR.

Foram 45 horas de aulas teóricas. 45 histórias do Seu Jair. Chegou num ponto em que os professores já paravam a aula e falavam “lá veeem história do Seu Jair! :D” junto com os alunos, igual a uma porra de esquete do Zorra Total. Aquilo era um pesadelo e minha única alternativa era esperar o tempo passar. Nunca dormi em sala pois achava desrespeitoso. Por outro lado, essas aulas serviram para eu chegar ao final de Cut The Rope no iPod com todas as estrelinhas. 45h passadas e algumas semanas depois eu estava livre. Acabara a teoria (segura aí esse pretérito mais-que-perfeito). ERA HORA DE DIRIGIR.

 

 ebaaaaa

 

Mas peraí, vamos devagar.

Imagine a seguinte situação: sua alma está definhando nas profundezas do inferno por séculos e você finalmente acha que alcançou uma maneira de sair dali. Quando você está no grande portão do Inferno, praticamente se despedindo, Lúcifer te dá um tapinha no ombro e diz “vai pra onde meu nêgo fera? Estamos só começando”. Foi o que aconteceu comigo. Se eu achava que as aulas teóricas davam dor de cabeça, as aulas práticas eram um aneurisma.

Como a “procura era muito grande e tinham muitos alunos”, você tinha que marcar para ter as aulas práticas no máximo uma vez por semana porque a autoescola só tinha uns 4 carros. Vou repetir: QUATRO CARROS. Uma autoescola. Uma escola de autos. Com apenas quatro automóveis. Fico me perguntando como foi a reunião de planejamento dos imbecis responsáveis por isso.

 
– Ow, to pensando em abrir uma autoescola.
– Olha aí, interessante. O que falta?
– Os carros.
– Ah, é o de menos. Vai ter bebedouro?
– Vai, três.
– Alá, porra. Tá pronta já. Que mané carro o quê…
– Mas…
– Esquece carro, rapaz. Tudo pra você é carro eu hein…
 

Era chato e dificultava o aprendizado? Sim. Me deixou menos empolgado no primeiro dia? Não. Cheguei que nem criança em festa de aniversário, alucinadaça. Eu queria era pegar no volante, mandar uns drifts e ser aplaudido pelas ruas da cidade. Fui até com uma jaqueta maneira pra me sentir em Velozes e Furiosos. Ninguém me segurava.

 

 Eu antes de começar a aula

 

A realidade foi outra. Eu deixei o carro morrer umas 67 vezes sem nem ter saído do lugar. Soltar a embreagem devagar pra mim era um sonho inalcançável. Não tinha delicadeza. Ou eu tinha o sangue de um condutor de máquinas agrícolas correndo em minhas veias ou eu era um retardado mental. Após uma breve pensada comigo mesmo, concluí que ninguém na minha família havia manejado uma máquina agrícola na vida. Eu era só um retardado mental. Todo o meu espírito Need For Speed tinha ido embora com a minha dignidade logo no primeiro dia.

 

Eu antes de terminar a aula

 

Foram meses de aula prática até o ponto em que dirigia como um habilidoso piloto e manobrava como um experiente valet. Minhas balizas? Meu amigo, se o Seu Jair estivesse comigo naquelas aulas ele diria que jamais tinha visto balizas tão belas em sua vida. Mas é importante dar créditos ao meu professor.

O método de ensino dele não era o convencional: ele me colocava em aventuras. Eu tinha que dirigir pelos cantos mais barra-pesada da cidade. Tudo isso ao som dos batidões de funk do celular sem fone dele e ouvindo os assuntos que ele puxava sobre quantas alunas tinha comido naquele carro. Foi a primeira, inclusive, vez que ouvi o termo “MARCHETA”, que consiste no ato da aluna dirigir com uma mão no volante e outra na marcha (sendo “marcha” o nome que ele dava pro próprio pênis).

Uma coisa é bem verdade: você não vira professor de autoescola porque gosta. Você vira professor de autoescola pra comer alunas. Ele me disse aquilo uma vez e nunca mais saiu da minha cabeça o que diabos rolava naquele banco de trás. Teve uma vez em que ele falou “vamos dirigir pro outro lado da cidade, quero conhecer uma menininha que falou comigo no Facebook”. Sério. Eu tinha virado motorista particular daquele porra. O levei até a casa da garota com ele falando “deixa o motor ligado porque não sei se ela tem marido, se der qualquer merda tu arranca”.

 

 Essa cara foi a minha única reação

 

Uma coisa é certa: ele me ensinou da melhor maneira a lidar com a vida real no trânsito e pelo menos eu não estava inseguro para o grande dia da prova prática. Resolveu alguma coisa? Resolveu foi porra nenhuma. Se nas ruas eu era um Tom Cruise em Top Gun, no dia da prova eu só colocava a chave no carro e o resultado era esse:

 

 

Eu reprovei DUAS VEZES nesta bosta e não vou mentir, na primeira eu mereci. Pra minha baliza ficar pior só faltou eu ter atropelado uma velha cadeirante que estivesse passando por ali. Saí do carro com cara de “ok eu fiz merda, volto na próxima”.

Na segunda vez, o fiscal arrombado já começou respondendo o meu bom dia com um “hoje eu não to bem não”. Fiz a prova inteira com vontade de fazer cocô de tanto nervoso. Fiz o percurso de maneira impecável e na reta final ele me mandou parar. Perguntei o motivo.

 
– Tu não deu seta.
– Era uma reta. Não é preciso dar seta nessa reta. (Não era preciso)
– Eu que digo se é ou não.
– Tá, mas uma seta não me reprova. Só errei isso.
– Vai discutir comigo? Errou baliza então.
 

Ele marcou SEM PUDOR NENHUM um ponto que não existia ali na hora para mostrar que estava certo. Eu realmente não tinha o que fazer, tendo em vista que assassinatos não são bem vistos na sociedade atual. Ele trocou de lugar comigo, eu fui pro carona e ele ligou o carro. Na hora de dar partida ELE DEIXOU O CARRO MORRER. Fiquei olhando pra ele com cara de “E AGORA HEIN, Ô SAFADÃO DO TEXAS?” e ele fingiu que não aconteceu nada. Ele estava em um dia ruim e me fodi por causa disso.

Vale lembrar que entre uma prova e outra rolava um gap de um mês e pouco. O resultado disso foi: eu ficava cada vez mais inseguro por causa do espaço de tempo e cada vez mais nervoso, tendo em vista que todo esse tempo de aulas durou quase um ano (que é o prazo que você tem para conseguir sua habilitação). Se eu não passasse nessa, eu teria que começar TUDO DE NOVO.

Havia chegado o grande dia. Estava vazio. Eu aprendi com a vida que fiscais de mau humor tendem a te prejudicar. Chamaram meu nome. Puta merda, era agora. Conheci meu fiscal e ele era um senhor muito bem humorado. Ele estava conversando com um amigo enquanto seguíamos em direção ao carro:

 
– Rapaz, esse horário que o DETRAN inventou é bem ingrato né
– Nem me fala. Sem contar com esse Sol quente.
– Antes a gente fazia 10 alunos e ponto final. Agora não.
– É, quem me dera poder resolver isso.
 

NA HORA meu instinto falou mais alto e entrei na conversa com um deles.

 
– Isso aí é condição indevida de trabalho, dá processo. – Eu disse
– Sério isso? Aí, Hamilton. O cara é advogado. Fala mais.
 

Eu não era advogado, mas pelo visto eu sabia tanto de leis quanto eles, então resolvi que era hora de fingir. Não só pela minha habilitação mas pelo olhar esperançoso de Hamilton, o fiscal. Durante todo o percurso fui conversando com eles sobre como eles deveriam recorrer à justiça, inventei códigos penais, termos e instruções. Eu ajudando eles, eles me ajudando na prova com uns “opa, liga a setinha”.

Cheguei ao final sem perder nenhum ponto e eles chegaram ao final com uma motivação trabalhista nova em suas vidas. Todos nós ganhamos e hoje sou habilitado. Ainda sinto uma emoção no peito quando lembro de nos despedirmos ali e Hamilton falar “vai com Deus, doutor!”. Pobre Hamilton.

 
 
Ah, sim. Até hoje eu detesto dirigir.

As meninas do Leblon não olham mais pra mim

Senhoras e senhores…Lucas Guedes

 

No começo do ano, depois de confirmar minhas suspeitas de que o meu grau de miopia tinha aumentado, decidi voltar a usar óculos. Viver com miopia, mesmo que pouquinha como é o meu caso, é um saco principalmente em duas situações: a) quando você quer ver um filme, mas tem que ficar apertando os olhos até encontrar um ponto em que as legendas fiquem com o mínimo de foco necessário para serem lidas; b) você tá numa parada escura à noite e tem que ficar apertando os seus olhinhos pra enxergar o nome do ônibus que tá vindo pra saber se é o seu, mas quando finalmente consegue enxergar já é tarde demais porque ele já tá quase em cima de você e aí você tem que sair correndo atrás dele porque ele parou (QUANDO para) a 5 metros de distância de você, mas aí você tropeça numa poça de água imunda e cai. Ei, isso é mais comum do que vocês imaginam!

Por um breve momento entre 2008 e 2009, eu usava óculos. Não era muito bonito – na verdade, como tudo em mim na minha adolescência, era bem feinho, coitado. Até que um dia alguém roubou ele de mim. Sim, ROUBOU. Se esgueirou pra dentro da sala quando não tinha ninguém, braços estendidos e os dedinhos retorcidos daquele jeito típico de alguém que vai fazer alguma maldade, abriu minha mochila, abriu meu estojo e colocou os óculos dentro do saco que trazia nas costas. Certo, eu sei que não foi assim, mas é um jeito muito mais legal de imaginar uma coisa tão idiota quanto alguém roubando os seus óculos. Hoje em dia eu fico pensando: que tipo de pessoa você tem que ser pra roubar os óculos de outra? Ou alguém muito cruel, do tipo que também rouba bengalas, muletas, cadeiras de rodas, incubadoras e máquinas de ressonância eletromagnética; ou um ladrão com coincidentemente o mesmo grau de miopia que eu – o que eu acho mais improvável. Sei lá.

Depois da perda dos meus queridos óculos, eu passei esse tempo todo sem nada na cara (nem mesmo vergonha, risos), até que situações como as descritas no primeiro parágrafo passaram a ser tão frequentes que eu decidi dar um basta e recuperar a porcentagem da minha visão que me foi negada pela genética. Aí eu esbarrei no primeiro problema: ok, que modelo usar?

Internet afora, eu encontrei dicas de que formato de óculos usar de acordo com o formato do seu rosto. O problema é QUAL DESSAS É A MINHA CABEÇA?

 

 

Fui analisar minha cabeça na frente do espelho de vários ângulos e achei ela meio quadrada, mas também meio redonda, mas ao mesmo tempo meio coração mas um pouco mais oval?? Perguntei pra cinco pessoas e cada uma disse um formato diferente (inclusive “de banana”, o qual, como vocês podem ver, não está representado na imagem então não existe), o que me leva a crer de que a minha cabeça é provavelmente um dodecaedro. Não existe muita informação sobre óculos para pessoas com esse formato de cabeça na internet, então tive que deixar meu coração me guiar na escolha.

Aí eu encontrei o modelo que eu queria. Esse aqui:

 
 

 

Modelo escolhido, próxima fase: encontrar a versão física do mesmo. O que significa que eu teria de, mais uma vez, enfrentar uma das minhas maiores fobias: óticas. E eu tô usando muito dois pontos, né? Olha só: desculpa.

Eu tenho um sério problema com óticas, não com as óticas em si, mas com a quantidade absurda de espelhos que elas costumam usar na decoração. Eu não sou exatamente fã da minha aparência, então toda vez que eu entro em uma ótica, pra onde quer que eu olhe, todos os lados, tudo o que eu vejo é a minha cara, e isso não só me incomoda como meio que deprime também. Entrar numa ótica consegue ser ainda pior do que entrar numa Casa dos Espelhos, porque numa ótica a única deformação está em você mesmo. Isso sem falar naqueles espelhos de aumento pra maquiagem que tem em TODAS as óticas pra você testar os óculos. Esse tipo de espelho foi projetado com o único propósito de acabar com o seu dia.

 

Esses filhos da puta. Se acham tão espertos.

 

Você sabe quando a câmera dá um close fechado no Bob Esponja e ele vira um desenho ultrarrealista? É exatamente assim que eu me sinto quando olho num desses.

Fora isso, ainda existem os vendedores de óticas, que simplesmente não falam a mesma língua que você. Cheguei na ótica, mostrei a imagem no celular, disse que queria um modelo como esse da foto, sem edição, sem firula, sem porra nenhuma. Discreto.

 
 

― ah sim sr nós temos um igualzinho eu vou buscar no deposito pro sr e já trago, ok?
― Tá bem, obrigado.
― aqui sr eu encontrei estes modelos o sr poderia estar dando uma olhada

 

― Errr, eu vou dar mais uma olhada por aí e mais tarde eu volto, pode ser?

 

Mas podia ser bem pior: todos os vendedores de ótica poderiam ser vendedores da Chilli Beans.

Chilli Beans funciona assim: existe um área ao redor de todas as Chilli Beans com um raio de cerca de 5 metros da entrada pra fora. Se você, ao passar pela frente de uma, desavisadamente pisar com o dedinho do pé dentro dessa área, um hipster bombado de 1,90m de coque samurai e tatuagens em todas as áreas visíveis do corpo imediatamente surge e te leva contra a sua vontade pra conhecer a toda a linha de óculos da coleção Outono/Inverno que acaba de chegar na loja e que vai combinar PERFEITAMENTE com seu o estilo.

 

― BOM DIA SR VC NAO GOSTARIA DE DAR UMA CONFERIDA NA NOSSA NOVA COLEÇÃO IMPERDIVEL QUE TÁ CHEGANDO HOJE??
― opa obrigado mas eu meio que tô com pressa rs
― SÓ DAR UMA CONFERIDA SEM COMPROMISSO OLHA AQUI ESSE MODELO COMO COMBINA PERFEITO COM SEU ROSTO VAMO TESTAR?
― olha desculpa mas eu to sem tempo minha mãe acabou de sofrer um acidente de carro e tA no hospital entre a vida e a morte eu tenho que
― FICOU SEN SA CIO NAL EM VOCE SUPER TRANSADO E TÁ EM PROMOÇÃO EIN 40% OFF À VISTA 2X DE 120,00 SEM JUROS NO CARTÃO SE VOCE QUISER EU EMBALO AGORA MESMO
― amigo eu nem preciso usar óculos!!!
― AQUI SEU NOVISSIMO ÓCULOS COM A QUALIDADE CHILLI BEANS™ 1 ANO DE GARANTIA E AQUI A SUA CARTEIRA MUITO OBRIGADO VOCE GOSTARIA DE CONHECER TAMBEM NOSSA NOVA COLEÇÃO DE RELOGIOS QUE BRILHAM NO ESCURO?

 

Eu tenho uma teoria sobre vendedores da Chilli Beans. Eu acho que lá atrás, no fundo de toda loja, do outro lado daquela portinha de onde saem tantos vendedores, existe na verdade um portal pro inferno, e os vendedores são nada menos que as almas dos condenados que fizeram um trato com Satanás de serem libertados da danação eterna se conseguirem atingir a cota diária de vendas. Por trás de cada “sem compromisso, sem compromisso” está um grito desesperado de socorro, e se você olhar bem no fundo dos olhos de um vendedor, você vai ver o pedido de ajuda de uma alma miserável que só quer, enfim, descansar. Já reparou como sempre que você passa na frente de uma Chilli Beans os vendedores NUNCA são os mesmos de 20 minutos atrás? Se não, vai começar a reparar agora.

No final das contas, eu acabei encontrando uma armação até que simpática em uma ótica perto de casa. A armação parece com a que eu queria, só que maior e mais quadrada do que eu gostaria, o que às vezes me faz sentir meio ridículo, como uma hipster retardada que usa óculos vintage sem grau, ama café, Clube da Luta e passa o dia no Tumblr. Ok, de fato eu tô tomando café agora mesmo, tenho livro e filme do Clube da Luta e passo o dia no Tumblr, mas mas MAS OS MEUS ÓCULOS TÊM GRAU. E eu só os uso pra ver filme e não cair na poça de água da parada de ônibus, então não julguem a mim como eu gosto de julgar os outros.

Enfim, é muito bom voltar a enxergar. Depois de tanto tempo sem poder distinguir qualquer coisa escrita a uma certa distância de mim, usar uma lente com o meu grau é como ver tudo em uma TV full HD porreta. Quando eu coloquei os óculos já prontos pela primeira vez na ótica e voltei a enxergar depois de tantos anos, me emocionei tanto que comecei a chorar, então as vendedoras se emocionaram e choraram junto comigo, e todos nós nos abraçamos e choramos e sorrimos juntos, eu, as vendedoras, uma freira e um pequeno grupo de órfãs francesas que passavam pela rua naquele momento com um filhote de cãozinho muito esperto. Foi muito bonito, e uma versão deste post dirigida pelo Steven Spielberg já está em pré-produção, com Jake Gyllenhaal no papel de Luke e Nicolas Cage no papel de óculos.

 

13 parentes e um carnaval

Texto originalmente publicado no dia 08 de fevereiro de 2010

 
O Carnaval tá aí. Galera já se preparando para viajar e cair na perdição por uma semana. É um fenômeno incrível porque nas estradas, quando você olha pros carros ao seu redor, quase todos estão sem o tampo do porta-malas, de forma que você pode ver pelo vidro traseiro a mala socada de edredons, ventilador, colchonete e tudo aquilo que faz parecer que a pessoa tá fugindo de um apocalipse zumbi.

Eu, como todo bom carnavalesco, vou para Cabo Frio. Não gosto de zona, não gosto de calor e não gosto de praia. Pra minha sorte, em Cabo Frio tem tudo isso multiplicado por 7. Caso você não seja do Rio de Janeiro, eu te explico: Cabo Frio é uma cidade litorânea da Região dos Lagos com praias de água cristalina, areia branquinha e todos os moradores de Minas Gerais juntos.

Sério. Em época de feriado tem mais mineiro em Cabo Frio do que em Minas.

 

Olha que bonito

 

A minha família vai para lá TODO. SANTO. ANO. Carnaval em qualquer outro lugar passou a ser lenda urbana. O bacana é que eles não alugam um apartamento pra uns três, quatro pessoas. É papo de 13 cabeças num apartamento só. Sem sacanagem, parece uma porra de uma favela indiana. A parentada se diverte mesmo assim. “Só vamos usar pra dormir mesmo”, dizem. Nessa hora eles esquecem que cagam, que tomam banho e que precisam descansar.

Meu amigo, 13 pessoas pra dois banheiros está abaixo do nível de dignidade humana. Experiência própria. Lembra da abertura de O Rei do Gado? Aquele monte de bovino espremido andando na mesma direção? Era a gente voltando da praia pra tomar banho em casa.

 

Meu mundo, minha vida.

 

MAS APARTAMENTO É SÓ PRA DORMIR, NÃO É MESMO? Então vamos pras ruas. Em época de Carnaval meio que rola um senso comum de que ninguém deve se importar com porra nenhuma. Ninguém deve raciocinar nem fazer o que faria normalmente no período “Não-Carnaval” do ano. Um bom exemplo é você ir, sei lá, a um banco para sacar a grana da Kaiser e no caixa ao lado tem um cara só de sunga. Vai comprar dois reais de pão e na fila tem três cara de sunga. Isso às 7 da manhã. Até na igreja tem gente já passando o protetor pra não perder tempo na praia. Porra, até o padre usa uma berma de tactel da Billabong por baixo da batina.

 

N O R M A L

 

Mas é na praia que as coisas realmente acontecem. Você e os 13 parentes equipados com umas 70 cadeiras e guarda-sóis dão a primeira pisada na areia. A areia, claro, está quente que nem os nove círculos do Inferno. A manada começa a andar rápido exclamando “Ai, cacete” e “Quente pra caralho essa areia aí” no meio daquele mundo de guarda-sóis. Esbarra aqui, esbarra ali, joga areia na gorda deitada, esbarra mais e acha o ponto PERFEITO: de frente pro mar ao lado da barraca de um vendedor de cocos chamado Moreno.

É aquela festa. Criançada pedindo picolé pros pais, adultos ajeitando cadeiras e barracas, criançada se cagando com o picolé que ganhou dos pais e, com alguma sorte, o caçula some porque se perdeu quando voltava da água. Mãe chorando, salva-vidas pedindo informações…aquele show até a criança retardada reaparecer gritando “EU SE PERDI MÃE“.

Algumas horas depois, a supracitada localização perfeita (ao lado da barraca do Moreno, onde o seu pai provavelmente já está bebericando e conversando com o próprio Moreno sobre o Botafogo) se torna o caos: a maré subiu.

Que espetáculo! QUE ESPETÁCULO! Aquela onda vem sem piedade, como um cavaleiro do Apocalipse. Alguém da linha de frente das barracas grita o óbvio: “Ó A OOOONDA!!!“. E aí, companheiros, forte abraço. Mulherada levantando desesperadamente das cangas, homens rindo porque já estão bêbados, criançada sumindo de novo e chinelos tentando fugir para uma nova vida no mar, esperançosos. Nessa hora ninguém é de ninguém. Cada um por si. Se o mar levou teus pertences é porque Iemanjá quis assim.

Ao escurecer, todo mundo resolve ir embora. Pessoal enche as garrafinhas de Guaraviton com aquela água do raso, cheia de areia, para “limpar” os pés na orla, ir pra casa, tomar banho. E aí é aquela história dos gados…

 

Nem o Golden Antônio Fagundes resolveria a questão do nosso banheiro.

 

E fechando com chave de ouro, você tem que dormir pouco porque sempre tem aquele caralho daquele tio que acorda todo mundo cedo gritando “boooora caminhar“, “booooora pra praia” ou “tu veio pra dormir ou pra curtir?

 
 
Eu amo o Carnaval.

Como eu me tornei um pedreiro

Hoje é um dia especial.  Há uns 10, 12 anos eu lia um blog chamado “Que Diabos?” (KD, pros íntimos), do luke. Por causa dele eu comecei a ler Douglas Adams, escrever no Improbabilidade e basicamente me tornei o que sou hoje. Um lixo.

De qualquer forma, sempre fui muito fã do cara e, como tudo o que eu gosto, o KD morreu. Então decidi recuperar com o luke os melhores textos daquela época linda e postar semanalmente aqui. To me sentindo um empresário que depois de anos decide organizar a volta do Los Hermanos. Tirando o fato de que Los Hermanos é um saco e o KD é incrível. Espero que vocês o amem tanto quanto eu.

Senhoras e senhores…Lucas Guedes.

 

 

Crianças, no verão de 2012, eu estava à procura de um emprego.

Nessa sociedade em que vivemos, para termos as coisas que queremos, precisamos dessa outra coisa chamada dinheiro – o que é ótimo, afinal sem ele ainda estaríamos trocando bens de consumo por cabras ou conchinhas da praia.

Até então, eu só fazia alguns bicos sempre que podia como caixa no negócio dos meus pais, o que era mais uma forma de me manter longe da cama nas horas em que eu não estava na faculdade do que de fato um emprego. Mas chegou um momento em que o salário que me davam (que só não eram cabras ou conchinhas da praia porque aí já seria sacanagem também) já não era o suficiente. Precisava sustentar meus vícios (meus jogos e meus gibis não se comprariam sozinhos), precisava pagar minhas dívidas (até pra mulher da cantina da faculdade eu devia), precisava alimentar minha namorada, meu gato e, principalmente, alimentar a mim mesmo. Precisava de um emprego de verdade.

 

 

Além do que, eu tenho um sério problema com cartão de crédito. Cartões de crédito funcionam basicamente como viagem no tempo, só que sem aquele riscos chatos como abrir um buraco no continuum espaço-tempo ou virar seu próprio pai. Digamos que você quer fazer uma compra, mas está sem dinheiro no presente. O cartão de crédito possibilita a você (vamos chamar de Você do Presente) emprestar dinheiro de você mesmo de um futuro próximo (ou Você do Futuro Próximo) – partindo do princípio que você vai ter dinheiro num futuro próximo, lógico.

O problema é quando o dia do vencimento da fatura chega para Você do Futuro Próximo e ele só tem o valor A, sendo que o dinheiro que Você do Presente pegou emprestado foi A + B. Não tendo como pagar o valor total, o Você do Futuro Próximo resolve pagar só com o que tem disponível no momento, mas promete apertar o cinto pelo resto do mês pra juntar o resto da grana necessária para que Você do Futuro Distante possa pagar a dívida no próximo mês. Aí a próxima fatura chega no futuro distante, mas Você do Futuro Distante não tem mais o valor que tinha porque não apenas o Você do Futuro Próximo gastou todo o dinheiro em comida e cerveja como também fez AINDA mais dívidas no cartão porque achava que “nah, ainda falta muito tempo, dá pra juntar a grana até lá”.

Agora, o Você do Futuro Distante tem que pagar A + B + C, sendo C os juros que começaram a correr. Então Você do Futuro Distante fica nervoso com os Vocês do passado e decide jogar esse pepino para os Vocês de Futuros Mais Distantes Ainda, até que chega uma hora em que você está devendo A + B + C + o resto do abecedário inteiro, e a única solução é um deles viajar de volta no tempo e assassinar o Você do Presente! Ou colocar ele num curso de gestão financeira, isso resolveria também.

Enfim, lá estava eu na minha jornada em busca de um emprego. Fiz currículos, espalhei vários por aí, não só em empresas de arquitetura, mas também em lojas onde eu gostaria de trabalhar (na grande maioria, livrarias ou lojas de informática). O grande problema mesmo pra mim era o horário: pouquíssimas empresas contratam funcionários sem experiência nenhuma, que só possam trabalhar meio período e que tenham a cara de trouxa que eu tenho. Fiquei também a procura de estágios, mas a maioria das empresas só procuravam estagiários que estivessem lá pelo penúltimo ano da faculdade. Eu ainda estava nos primeiros anos da faculdade de arquitetura, e até então não sabia projetar nenhuma casa que fosse mais complexa do que um retângulo com um trapézio em cima.

 


E uma árvore do lado.

 

Foi nessa situação em que um amigo da minha mãe que gerenciava uma obra em um banco surgiu e me ofereceu um emprego – não um estágio, um emprego mesmo, de carteira assinada e tudo. Era um salário mínimo, mas pra um estudante fodido que só podia trabalhar na parte da manhã, eu dei sorte demais.

Quando me contrataram, disseram que seria interessante porque eu conheceria de perto o dia-a-dia da obra, aprenderia sobre os materiais, as ferramentas, vistoriaria as plantas, as construções, etc. Seria ótimo pra mim, afinal como já me disseram várias vezes, as coisas mais importantes da profissão a gente aprende fora da faculdade. Bom, isso foi o que me disseram. Na prática, eu fui jogado num almoxarifado úmido e sujo no subsolo do prédio, numa salinha empoeirada com aquelas lâmpadas que, se não estão fazendo aquele som de zzzzzzzzzzzzzzz, é porque queimaram e eu estou no escuro de novo. Além disso, por ser uma obra, a maior parte dos meus colegas de trabalho eram pedreiros.

 


– ÔOOO, GOSTOSA

 

No meu primeiro dia de trabalho, eu coloquei a minha melhor camisa social, meus sapatos novos, penteei meu cabelinho e pus o crachá no pescoço, pronto pra causar aquela boa impressão nos chefes. Assim que pus os pés pela primeira vez no almoxarifado, eu ouvi um deles dizendo pro outro:

 
– Ê rapá, eu tava fazendo as contas aqui, e eu já devo ter comido mais de 350 bucetas.
 

E assim eu conheci o Anderson, que seria meu parceiro de almoxarifado pelos próximos 6 meses.

Por um bom tempo, era o único que eu sabia o nome. Sabe quando você é novo na sala, e tem tanta gente que parece que é impossível um dia decorar o nome de todos? Pois é. Pra mim, eram “os pedreiros” e só.

De repente, era como se eu estivesse em uma sitcom: personagem novo chega ao lugar e tem dificuldade pra se adequar ao ambiente e às pessoas de lá, resultando em várias situações cômicas e risadas de plateia pré-gravadas. O clássico trope do fish out of water.

As conversas dos pedreiros giravam sempre em torno de dois principais tópicos: mulheres e o intercurso com elas. Sabe aquele amigo mala que todo mundo tem que parece cuja mente parou de se desenvolver por volta da puberdade? De repente eu estava cercado por 30 desses amigos. Às vezes eles também comentavam sobre um amigo que falecera tragicamente (desmembrado pelo cachorro do dono da boca rival), da mulher que se separou do marido (pois esfaqueou ele e a amante 57 vezes), assuntos leves do tipo para se ter num agradável fim de tarde no trabalho.

Logo na minha primeira semana de trabalho, me convidaram para um lugar chamado Casa das Primas, o qual toda vez que eu perguntava do que se tratava eles só respondiam “quando a gente te levar lá tu vai saber”. Hoje em dia parece meio idiota não ter sacado de primeira do que se tratava, mas a Casa das Primas era nada mais que o puteiro mais próximo, para o qual eles iam toda primeira sexta-feira depois do 5º dia útil “fuder até estourar a chapuleta”, como eles gostavam de falar.

Das primeira vezes que me chamaram pra Casa das Primas, foi algo como:

 
– Vamo levar o Lucas pra Casa das Primas hoje pra apresentar pra ele!
– Ahnn, nãaao, obrigado, é que eu tenho namorada…
– E daí? Todo mundo aqui tem.
 

Ah. Hum.

Também tinha o Seu Ricardo, o chefe do almoxarifado, que ia muito com a minha cara. Claro, eu fazia merda aqui e ali, e daí tinha que aguentar ele brigando comigo. O problema é que até quando eu fazia as coisas certas ou em menos tempo do que o espero, tinha que ouvir comentários do tipo:

 
– O senhor é muito rápido. Imagina o senhor em cima de uma mulher numa noite fria de inverno.
 

Um dia, eu me dei conta de que, se fosse continuar vivendo ali naquele ambiente todo santo dia, eu precisava me adequar. Foi quando eu criei um personagem que interpretaria todo dia em que pisasse no trabalho, que seria tão pedreiro quanto os outros pedreiros. Os pedreiros inevitalmente puxariam assunto comigo, então eu teria que ser tão pedreiro quanto eles pra conversarmos de igual pra igual. Tipo uma vez que eu estava andando pela obra, quando vi eles reunidos vendo alguma coisa. Fui me aproximar pra ver do que se tratava, pra encontrar todos eles assistindo um vídeo no celular.

 
– Opa opa, eu quero ver também
– E AÍ LUCAS, O QUE TU FAZIA COM UMA DESSAS?
 

 
– Porra, mano, eu… pffffffff, porra, eu… pfffff, preciso dizer? Pôurra.
– ÊEEEEE DA-LHE LUCÃO
 

Um dia eu (fingia que) arrumava as coisas nas prateleiras, quando o Anderson me chamou pra mostrar uma coisa no celular: um vídeo amador, possivelmente filmado com o mesmo celular que o reproduzia ali, e mais possivelmente ainda pelo mesmo homem que o segurava naquele momento. Sem saber exatamente como ele esperava que eu reagisse, perguntei “… CARA, TU err, conhece essa gostosa aí?”, um tanto preocupado com a possibilidade do meu colega de trabalho estar me mostrando o próprio pau.

 
– Não. Mas olha só bem aqui, tá vendo? – ele disse, apontando pra tela. – Essa doida tem uns 35 anos.
 

Eu disse que o vídeo era um CLOSE FECHADO? Pois bem, o vídeo era um close fechado, e não era no rosto.

 
– Ué, como tu sabe?
– Sabendo, cara. Lucas… – ele começou a dizer, com a voz e a propriedade que somente um homem que já comeu mais de 350 bocetas teria. – … nessa vida eu já comi mais de 700 bucetas. Já te disse isso? Chega uma hora que só de bater o olho tu já sabe.
– Sério?
– Sério, pô. Por exemplo, deixa eu te mostrar – ele abriu outro vídeo no celular. – Ó, essa aqui, tá vendo? Aqui e aqui? Então. Essa tem uns 28. Olha essa outra aqui. Tá vendo? Essa tem uns 22. Agora, olha essa. Tá vendo isso bem aqui? Essa tem uns…
 

Então ele disse a idade e, meu deus, eu espero que ele esteja errado.

Todo dia eu aprendia uma palavra nova no trabalho, quase nenhuma relacionada à arquitetura ou engenharia. Vejam vocês, eu nunca imaginei que existissem tantos sinônimos para pênis, vaginas ou pênis em vaginas. Pra mim, que achava que já tinha aprendido todos no ensino médio, meu vocabulário se expandiu consideravelmente. Algumas eram engraçadas, outras não faziam o menor sentido, mas algumas eram uns palavrões tão cabeludos que não me deixavam dormir à noite.

Com o tempo, eu fui aprendendo o nome de cada um deles. Bem, “nome”, entre aspas. Tinha o Chupa, o Coiote, o Tropeço, o Beija, o Sassá, o Miserê, o Belezão (que tinha o costume de chamar todo os caras de Beleza), o Japonês (que era negro), o Negão (que seria engraçado, mas não era japonês), o Seu Zaca (que TODA vez que me via me dava uma balinha de café!!! Sério, ele tinha um estoque infinito), e por aí vai. E não eram todos pedreiros. Tinha o bombeiro hidráulico, o eletricista, o técnico de ar condicionado, o marceneiro, o encarregado de obras…

Um dia, o Anderson e mais alguns deles chegaram com umas sacolas do supermercado e me chamaram pra ir lá com eles. Eles tinham comprado pão, margarina, mortadela e uma garrafa de Coca-Cola, e disseram que eu podia me servir. O Seu Ricardo não gostava que a gente lanchasse no meio do expediente, então tínhamos que comer escondidos atrás de algumas estantes enquanto alguém ficava no balcão vigiando. Peguei uma fatia de mortadela, abri o pão com os dedos e, quando perguntei o que tinha pra passar a margarina, me estenderam uma faca descartável que ficava lá pelo almoxarifado (era isso ou o estilete enferrujado que o Coiote usou). Mas bom, eu já tinha visto vezes que alguns deles viravam a marmita dentro do próprio capacete e faziam ele de prato, pra depois lavar e colocar de volta na cabeça pra voltar a trabalhar, então aquilo até que foi bem higiênico em comparação.

Eu não gosto de mortadela, e com certeza devo ter pegado alguma doença aquele dia, mas quer saber? Eu nem liguei. Foi divertido estar ali, dividindo o lanche e comendo escondido entre as prateleiras do almoxarifado com aqueles caras que, se não fosse aquele emprego, eu nunca teria conhecido.

No meu tempo na empresa, eu aprendi bastante coisa. Não só como fazer uma surpresa pra minha namorada com leite condensado (“espera ela pelado em casa e vai derramando assim pelo peito até a cabeça do tico”, me ensinou o Belezão fazendo os movimentos com uma caixa de leite condensado invisível), mas também coisas que eu devo usar um dia na vida. Como instalar tomadas ou como pintar uma parede. Acabei aprendendo também, como prometido, bastante sobre os materiais e as ferramentas. Se quando eu cheguei eu não sabia nem da existência da maioria, quando saí já sabia até as situações em que cada uma devia ser usada. Além disso, aprendi como lidar e respeitar com as pessoas que, se tudo der certo, provavelmente um dia vão trabalhar comigo. Afinal, se eu chegar a algum dia ser um arquiteto, tenho que entender não só com o que eu vou trabalhar, mas com quem.

Depois de 6 meses a obra chegou ao fim, assim como o meu tempo lá. Tive que voltar mais uma vez pra buscar meus documentos e mais uma papelada necessária, e toda a piãozada que passava por mim me cumprimentava, perguntava como eu tava, pra onde ia depois dali e, claro, me convidava pra ir na Casa das Primas quando tivesse um tempo.

 
– Um dia, um dia.
– Pô, tá beleza então. Mas aí, já te contei que eu já comi mais de 1.400 bucetas?