Como eu me tornei um pedreiro

Hoje é um dia especial.  Há uns 10, 12 anos eu lia um blog chamado “Que Diabos?” (KD, pros íntimos), do luke. Por causa dele eu comecei a ler Douglas Adams, escrever no Improbabilidade e basicamente me tornei o que sou hoje. Um lixo.

De qualquer forma, sempre fui muito fã do cara e, como tudo o que eu gosto, o KD morreu. Então decidi recuperar com o luke os melhores textos daquela época linda e postar semanalmente aqui. To me sentindo um empresário que depois de anos decide organizar a volta do Los Hermanos. Tirando o fato de que Los Hermanos é um saco e o KD é incrível. Espero que vocês o amem tanto quanto eu.

Senhoras e senhores…Lucas Guedes.

 

 

Crianças, no verão de 2012, eu estava à procura de um emprego.

Nessa sociedade em que vivemos, para termos as coisas que queremos, precisamos dessa outra coisa chamada dinheiro – o que é ótimo, afinal sem ele ainda estaríamos trocando bens de consumo por cabras ou conchinhas da praia.

Até então, eu só fazia alguns bicos sempre que podia como caixa no negócio dos meus pais, o que era mais uma forma de me manter longe da cama nas horas em que eu não estava na faculdade do que de fato um emprego. Mas chegou um momento em que o salário que me davam (que só não eram cabras ou conchinhas da praia porque aí já seria sacanagem também) já não era o suficiente. Precisava sustentar meus vícios (meus jogos e meus gibis não se comprariam sozinhos), precisava pagar minhas dívidas (até pra mulher da cantina da faculdade eu devia), precisava alimentar minha namorada, meu gato e, principalmente, alimentar a mim mesmo. Precisava de um emprego de verdade.

 

 

Além do que, eu tenho um sério problema com cartão de crédito. Cartões de crédito funcionam basicamente como viagem no tempo, só que sem aquele riscos chatos como abrir um buraco no continuum espaço-tempo ou virar seu próprio pai. Digamos que você quer fazer uma compra, mas está sem dinheiro no presente. O cartão de crédito possibilita a você (vamos chamar de Você do Presente) emprestar dinheiro de você mesmo de um futuro próximo (ou Você do Futuro Próximo) – partindo do princípio que você vai ter dinheiro num futuro próximo, lógico.

O problema é quando o dia do vencimento da fatura chega para Você do Futuro Próximo e ele só tem o valor A, sendo que o dinheiro que Você do Presente pegou emprestado foi A + B. Não tendo como pagar o valor total, o Você do Futuro Próximo resolve pagar só com o que tem disponível no momento, mas promete apertar o cinto pelo resto do mês pra juntar o resto da grana necessária para que Você do Futuro Distante possa pagar a dívida no próximo mês. Aí a próxima fatura chega no futuro distante, mas Você do Futuro Distante não tem mais o valor que tinha porque não apenas o Você do Futuro Próximo gastou todo o dinheiro em comida e cerveja como também fez AINDA mais dívidas no cartão porque achava que “nah, ainda falta muito tempo, dá pra juntar a grana até lá”.

Agora, o Você do Futuro Distante tem que pagar A + B + C, sendo C os juros que começaram a correr. Então Você do Futuro Distante fica nervoso com os Vocês do passado e decide jogar esse pepino para os Vocês de Futuros Mais Distantes Ainda, até que chega uma hora em que você está devendo A + B + C + o resto do abecedário inteiro, e a única solução é um deles viajar de volta no tempo e assassinar o Você do Presente! Ou colocar ele num curso de gestão financeira, isso resolveria também.

Enfim, lá estava eu na minha jornada em busca de um emprego. Fiz currículos, espalhei vários por aí, não só em empresas de arquitetura, mas também em lojas onde eu gostaria de trabalhar (na grande maioria, livrarias ou lojas de informática). O grande problema mesmo pra mim era o horário: pouquíssimas empresas contratam funcionários sem experiência nenhuma, que só possam trabalhar meio período e que tenham a cara de trouxa que eu tenho. Fiquei também a procura de estágios, mas a maioria das empresas só procuravam estagiários que estivessem lá pelo penúltimo ano da faculdade. Eu ainda estava nos primeiros anos da faculdade de arquitetura, e até então não sabia projetar nenhuma casa que fosse mais complexa do que um retângulo com um trapézio em cima.

 


E uma árvore do lado.

 

Foi nessa situação em que um amigo da minha mãe que gerenciava uma obra em um banco surgiu e me ofereceu um emprego – não um estágio, um emprego mesmo, de carteira assinada e tudo. Era um salário mínimo, mas pra um estudante fodido que só podia trabalhar na parte da manhã, eu dei sorte demais.

Quando me contrataram, disseram que seria interessante porque eu conheceria de perto o dia-a-dia da obra, aprenderia sobre os materiais, as ferramentas, vistoriaria as plantas, as construções, etc. Seria ótimo pra mim, afinal como já me disseram várias vezes, as coisas mais importantes da profissão a gente aprende fora da faculdade. Bom, isso foi o que me disseram. Na prática, eu fui jogado num almoxarifado úmido e sujo no subsolo do prédio, numa salinha empoeirada com aquelas lâmpadas que, se não estão fazendo aquele som de zzzzzzzzzzzzzzz, é porque queimaram e eu estou no escuro de novo. Além disso, por ser uma obra, a maior parte dos meus colegas de trabalho eram pedreiros.

 


– ÔOOO, GOSTOSA

 

No meu primeiro dia de trabalho, eu coloquei a minha melhor camisa social, meus sapatos novos, penteei meu cabelinho e pus o crachá no pescoço, pronto pra causar aquela boa impressão nos chefes. Assim que pus os pés pela primeira vez no almoxarifado, eu ouvi um deles dizendo pro outro:

 
– Ê rapá, eu tava fazendo as contas aqui, e eu já devo ter comido mais de 350 bucetas.
 

E assim eu conheci o Anderson, que seria meu parceiro de almoxarifado pelos próximos 6 meses.

Por um bom tempo, era o único que eu sabia o nome. Sabe quando você é novo na sala, e tem tanta gente que parece que é impossível um dia decorar o nome de todos? Pois é. Pra mim, eram “os pedreiros” e só.

De repente, era como se eu estivesse em uma sitcom: personagem novo chega ao lugar e tem dificuldade pra se adequar ao ambiente e às pessoas de lá, resultando em várias situações cômicas e risadas de plateia pré-gravadas. O clássico trope do fish out of water.

As conversas dos pedreiros giravam sempre em torno de dois principais tópicos: mulheres e o intercurso com elas. Sabe aquele amigo mala que todo mundo tem que parece cuja mente parou de se desenvolver por volta da puberdade? De repente eu estava cercado por 30 desses amigos. Às vezes eles também comentavam sobre um amigo que falecera tragicamente (desmembrado pelo cachorro do dono da boca rival), da mulher que se separou do marido (pois esfaqueou ele e a amante 57 vezes), assuntos leves do tipo para se ter num agradável fim de tarde no trabalho.

Logo na minha primeira semana de trabalho, me convidaram para um lugar chamado Casa das Primas, o qual toda vez que eu perguntava do que se tratava eles só respondiam “quando a gente te levar lá tu vai saber”. Hoje em dia parece meio idiota não ter sacado de primeira do que se tratava, mas a Casa das Primas era nada mais que o puteiro mais próximo, para o qual eles iam toda primeira sexta-feira depois do 5º dia útil “fuder até estourar a chapuleta”, como eles gostavam de falar.

Das primeira vezes que me chamaram pra Casa das Primas, foi algo como:

 
– Vamo levar o Lucas pra Casa das Primas hoje pra apresentar pra ele!
– Ahnn, nãaao, obrigado, é que eu tenho namorada…
– E daí? Todo mundo aqui tem.
 

Ah. Hum.

Também tinha o Seu Ricardo, o chefe do almoxarifado, que ia muito com a minha cara. Claro, eu fazia merda aqui e ali, e daí tinha que aguentar ele brigando comigo. O problema é que até quando eu fazia as coisas certas ou em menos tempo do que o espero, tinha que ouvir comentários do tipo:

 
– O senhor é muito rápido. Imagina o senhor em cima de uma mulher numa noite fria de inverno.
 

Um dia, eu me dei conta de que, se fosse continuar vivendo ali naquele ambiente todo santo dia, eu precisava me adequar. Foi quando eu criei um personagem que interpretaria todo dia em que pisasse no trabalho, que seria tão pedreiro quanto os outros pedreiros. Os pedreiros inevitalmente puxariam assunto comigo, então eu teria que ser tão pedreiro quanto eles pra conversarmos de igual pra igual. Tipo uma vez que eu estava andando pela obra, quando vi eles reunidos vendo alguma coisa. Fui me aproximar pra ver do que se tratava, pra encontrar todos eles assistindo um vídeo no celular.

 
– Opa opa, eu quero ver também
– E AÍ LUCAS, O QUE TU FAZIA COM UMA DESSAS?
 

 
– Porra, mano, eu… pffffffff, porra, eu… pfffff, preciso dizer? Pôurra.
– ÊEEEEE DA-LHE LUCÃO
 

Um dia eu (fingia que) arrumava as coisas nas prateleiras, quando o Anderson me chamou pra mostrar uma coisa no celular: um vídeo amador, possivelmente filmado com o mesmo celular que o reproduzia ali, e mais possivelmente ainda pelo mesmo homem que o segurava naquele momento. Sem saber exatamente como ele esperava que eu reagisse, perguntei “… CARA, TU err, conhece essa gostosa aí?”, um tanto preocupado com a possibilidade do meu colega de trabalho estar me mostrando o próprio pau.

 
– Não. Mas olha só bem aqui, tá vendo? – ele disse, apontando pra tela. – Essa doida tem uns 35 anos.
 

Eu disse que o vídeo era um CLOSE FECHADO? Pois bem, o vídeo era um close fechado, e não era no rosto.

 
– Ué, como tu sabe?
– Sabendo, cara. Lucas… – ele começou a dizer, com a voz e a propriedade que somente um homem que já comeu mais de 350 bocetas teria. – … nessa vida eu já comi mais de 700 bucetas. Já te disse isso? Chega uma hora que só de bater o olho tu já sabe.
– Sério?
– Sério, pô. Por exemplo, deixa eu te mostrar – ele abriu outro vídeo no celular. – Ó, essa aqui, tá vendo? Aqui e aqui? Então. Essa tem uns 28. Olha essa outra aqui. Tá vendo? Essa tem uns 22. Agora, olha essa. Tá vendo isso bem aqui? Essa tem uns…
 

Então ele disse a idade e, meu deus, eu espero que ele esteja errado.

Todo dia eu aprendia uma palavra nova no trabalho, quase nenhuma relacionada à arquitetura ou engenharia. Vejam vocês, eu nunca imaginei que existissem tantos sinônimos para pênis, vaginas ou pênis em vaginas. Pra mim, que achava que já tinha aprendido todos no ensino médio, meu vocabulário se expandiu consideravelmente. Algumas eram engraçadas, outras não faziam o menor sentido, mas algumas eram uns palavrões tão cabeludos que não me deixavam dormir à noite.

Com o tempo, eu fui aprendendo o nome de cada um deles. Bem, “nome”, entre aspas. Tinha o Chupa, o Coiote, o Tropeço, o Beija, o Sassá, o Miserê, o Belezão (que tinha o costume de chamar todo os caras de Beleza), o Japonês (que era negro), o Negão (que seria engraçado, mas não era japonês), o Seu Zaca (que TODA vez que me via me dava uma balinha de café!!! Sério, ele tinha um estoque infinito), e por aí vai. E não eram todos pedreiros. Tinha o bombeiro hidráulico, o eletricista, o técnico de ar condicionado, o marceneiro, o encarregado de obras…

Um dia, o Anderson e mais alguns deles chegaram com umas sacolas do supermercado e me chamaram pra ir lá com eles. Eles tinham comprado pão, margarina, mortadela e uma garrafa de Coca-Cola, e disseram que eu podia me servir. O Seu Ricardo não gostava que a gente lanchasse no meio do expediente, então tínhamos que comer escondidos atrás de algumas estantes enquanto alguém ficava no balcão vigiando. Peguei uma fatia de mortadela, abri o pão com os dedos e, quando perguntei o que tinha pra passar a margarina, me estenderam uma faca descartável que ficava lá pelo almoxarifado (era isso ou o estilete enferrujado que o Coiote usou). Mas bom, eu já tinha visto vezes que alguns deles viravam a marmita dentro do próprio capacete e faziam ele de prato, pra depois lavar e colocar de volta na cabeça pra voltar a trabalhar, então aquilo até que foi bem higiênico em comparação.

Eu não gosto de mortadela, e com certeza devo ter pegado alguma doença aquele dia, mas quer saber? Eu nem liguei. Foi divertido estar ali, dividindo o lanche e comendo escondido entre as prateleiras do almoxarifado com aqueles caras que, se não fosse aquele emprego, eu nunca teria conhecido.

No meu tempo na empresa, eu aprendi bastante coisa. Não só como fazer uma surpresa pra minha namorada com leite condensado (“espera ela pelado em casa e vai derramando assim pelo peito até a cabeça do tico”, me ensinou o Belezão fazendo os movimentos com uma caixa de leite condensado invisível), mas também coisas que eu devo usar um dia na vida. Como instalar tomadas ou como pintar uma parede. Acabei aprendendo também, como prometido, bastante sobre os materiais e as ferramentas. Se quando eu cheguei eu não sabia nem da existência da maioria, quando saí já sabia até as situações em que cada uma devia ser usada. Além disso, aprendi como lidar e respeitar com as pessoas que, se tudo der certo, provavelmente um dia vão trabalhar comigo. Afinal, se eu chegar a algum dia ser um arquiteto, tenho que entender não só com o que eu vou trabalhar, mas com quem.

Depois de 6 meses a obra chegou ao fim, assim como o meu tempo lá. Tive que voltar mais uma vez pra buscar meus documentos e mais uma papelada necessária, e toda a piãozada que passava por mim me cumprimentava, perguntava como eu tava, pra onde ia depois dali e, claro, me convidava pra ir na Casa das Primas quando tivesse um tempo.

 
– Um dia, um dia.
– Pô, tá beleza então. Mas aí, já te contei que eu já comi mais de 1.400 bucetas?
 

Medo de Fantasmas

Existe uma pesquisa que demonstra que cerca de 79% dos medos que temos partem de uma premissa irracional, algo improvável ou, simplesmente, fruto da nossa imaginação. Ignorando o fato de que tanto essa pesquisa quanto essa porcentagem foram inventadas por mim, posso confirmar que ela é bem precisa.

 
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Essa neurose começa quando ainda somos crianças e os móveis da casa estalam. Sabe do que eu to falando? De madrugada, aquele silêncio, aquela paz e do nada um CREC que congela até o esfíncter? Hoje nós sabemos que aquilo é um fenômeno ligado a temperatura, dilatação e física geral. Mas na época o meu conhecimento científico a respeito daquilo era “Lúcifer tá subindo nos meus móveis pronto pra pular em cima de mim e dilacerar minha alma”. Eu sei que o planeta tem 7 bilhões de pessoas, mas nada me convencia de que naquela noite o Sete-Peles não resolveu usar o tempo dele pra aterrorizar a MINHA CASA.

Hoje em dia, já com 25 anos, sempre tento racionalizar o medo e acabo conseguindo, mas tem horas que é mais forte que eu. Teoricamente eu que sou ateu deveria lidar superbem com isso, mas não é raro eu ter uns mini-ataques cardíacos de vez em quando. Por exemplo, odeio ter que apagar uma luz e ficar de costas pra escuridão. Você sabe que não tem nada ali mas a sensação é de que umas 300 entidades estão te seguindo lentamente. Já aconteceu de eu dormir com todas as luzes da minha casa acesas pra não ter que lidar com seres do além.

 

luzesTODA. VEZ. É ISSO.

 

(E foda-se o meio ambiente. O meio-ambiente não vai vir aqui em casa me salvar de fantasmas porque a gente sabe que ele não faz isso. Pode até produzir umas frutas show de bola, mas salvar a gente de entidade ele não salva não)

Nessas horas eu queria ser crente porque crente não tá nem aí. Qualquer frase de crente que envolve o Satanás (veja bem, não to falando de um fantasma bunda-mole qualquer. Eu to falando é do Rei do Mal, do Pai Satã, do cara no comando) é com o crente pisando no inimigo.

Porra, se ele fala isso do próprio Diabo, imagina o que ele não faria com um espírito maligno. Se tiver que sair na porrada com uma aparição, o crente vai mesmo. Ele não tá nem aí. Ele desfigura o inimigo na porrada em nome de Cristo Rei.

 

img_6782“Se o espírito de Deus se move em mim eu desço a porrada como o Rei Davi”

 

Como eu não possuo a Espada de Javé, o Leão de Judá ou sequer o escudo da Serpente de Canaã (tô meio por fora do nome dos itens), eu sou um frouxo mesmo. Minha solução é pedir na humildade pros fantasmas me deixarem em paz. Na moral mesmo, cada um no seu canto. Já presenciei coisas que, mesmo anos depois, não consegui explicar racionalmente do que se tratavam. Nesse post vou falar especificamente de 3 contatos com o desconhecido que…bom, to precisando desabafar há anos porque são bem vergonhosos.

Sério.

 
 
1-pinscher
 

Esse é um dos que eu gostaria muito de ignorar pro resto da minha vida, mas era muito recorrente e eu não posso deixá-lo de fora. É exatamente isso que você leu: o fantasma de um Pinscher. Eu tinha uma mania de toda madrugada acordar para ir ao banheiro ou beber água na casa dos meus pais e, pelo menos uma vez por semana, acontecia a mesma coisa: eu tava saindo da cama e aí me assusto porque vejo que tem alguma coisa no chão. Quando olho diretamente pra coisa, é como se fosse um vulto no formato de um Pinscher olhando pra mim por alguns milésimos de segundos, o tempo de eu dar aquela coçada nos olhos e o negócio não estar mais lá.

Veja bem, eu não sei como funciona o outro lado, mas tenho quase certeza que Pinschers não andam por aí observando pessoas de madrugada. Eu realmente não sabia como lidar porque 1) o negócio sumia rápido 2) posteriormente eu sabia que ele estaria ali me encarando de novo 3) eu não estava com disposição para colar cartazes por aí dizendo “ENCONTREI SEU DOG FANTASMA”. Um dia ele simplesmente parou de aparecer.

Espero do fundo da minha alma que a carrocinha do Além tenha capturado aquilo.

 
 

 

Eu não tenho um nome prático para explicar esse. Eu lembro que aconteceu quando eu era criança, em plena luz do dia e com minha mãe em casa. Certamente a aparição mais abusada que já vi na minha vida. Foi assim: minha mãe estava na cozinha fazendo o almoço e eu estava todo serelepe prestes a sair da cozinha e ir para o corredor que dá no meu quarto. Assim que cheguei na porta do corredor, essa “forma” bem alta estava vindo na direção contrária numa velocidade de quem estava correndo, passou por mim e eu simplesmente caí de costas no chão.

Eu perguntei para a minha mãe “CÊ VIU ISSO?”, mas a panela de feijão era bem mais interessante que eu. Ninguém presenciou a cena. O mais curioso foi que não senti um contato físico, mas senti uma pressão que me fez cair. Fantasma estabanado do caralho.

Ah, sim. O nome. Essa é a parte mais ridícula: na minha memória, o formato do negócio era semelhante ao de inimigo do jogo de Harry Potter pra Playstation 1. Tipo uma armadura. Eu realmente procurei muito tempo uma imagem boa disso e o máximo que consegui foi essa.

 

Olha aí o derrubão do além.

 
 


 

Broder, esse eu não me conformo. Sério mesmo. Se existe um mundo dos mortos, isso deveria ser proibido entre eles. Fica aí a dica pra caso algum espírito esteja lendo esse blog: vocês perderam a linha.

Eu tinha uns 8 anos e estava dormindo sozinho no meu quarto. Da minha janela eu começo a escutar uma risada macabra. Já fiquei bolado. A risada parou por uns 10 minutos e quando eu estava voltando a dormir começou de novo. A minha janela tinha visão para uma escuridão total, então nem por um caralho que eu iria olhar o que estava acontecendo.

Definitivamente não era o vizinho porque aquele som não era som de gente. Fui no quarto dos meus pais e pedi pro meu pai me dar um auxílio ali naquela situação porque certamente o Bafomé tava querendo me carregar pros mármores do inferno. Meu pai acordou puto, falou que eu tava sonhando e me deu a solução: toma um copo de leite que você dorme.

Sim.

Eu tava numa situação de alta periculosidade e meu pai me manda tomar leite. Como se o Cramunhão fosse chegar no meu quarto pra me levar pros Vales da Danação e pensar “epa esse moleque bebeu leite. Vou ter que deixar pra próxima”.

Enfim, tomei o leite (nunca se sabe, né) e voltei pro meu quarto. Deitei na cama de bruços, tava pegando no sono e PIMBA. Aconteceu. Eu senti uma dedada no fiofó. Tá ligado aquelas dedadas superficiais que é só pra sacanear a galera? O famoso PULA-PIRATA? Então, foi isso.

Levantei desesperado, fiquei olhando ao redor tentando entender e a porra do espírito não teve nem a coragem de se manifestar. Ele só lançou o fura furico e foi embora pra sempre. Que ódio. Desde esse dia ATÉ HOJE eu não durmo mais com a bunda pra cima.

Se tem uma coisa que a vida me ensinou é que fantasma não tem ética não. Toma cuidado você também.

 


 

Bom, não preciso nem lembrar que a melhor parte desse blog são os comentários né. Conta aí embaixo sua experiência com o sobrenatural pra gente rir da sua cara.

As vezes em que achei que ia morrer

Texto originalmente publicado no dia 14 de fevereiro de 2016

 

Por longos anos da minha infância eu fui um menino de apartamento que não saía de casa pra nada. A minha vida era escola, video game e Cartoon Network. Por causa dessa superproteção, não tive a oportunidade de ser uma daquelas crianças que corriam só de camiseta e cueca no meio da rua. O saldo disso tudo (além de eu não virar um usuário de crack) é que eu me tornei um moleque frouxo.

A propósito, uma observação rápida sobre as crianças de cueca aqui. Já reparou que sempre tem uma dessas no seu bairro? É aquela criança com uma barriguinha protuberante, um umbiguinho estufado e que geralmente tem umas casquinhas de ferida no corpo que é melhor você não encostar. Depois procura bem.

E justamente por eu ser frouxo, quando finalmente tive liberdade para brincar nas ruas do meu Bairro Califórnia, eu não estava preparado. Eu simplesmente não tinha o Know-How. Além disso, o meu campo de diversão limitava-se apenas à minha rua (uma rua sem saída, diga-se de passagem). Ou seja, se todos quisessem brincar com o pessoal da rua do lado, eu não podia participar. Ir, por exemplo, à padaria, que era a dois quarteirões de distância, tratava-se basicamente uma aventura impossível.
 
 


Minha concepção de como era comprar pão

 

Nessa minha situação de não conhecer a vida como ela é, meio que perdi a noção de realidade muitas vezes. Coisas bobas eram o suficiente pra eu ficar neurótico e achar que iria a óbito em menos de 24h. Rapaz, se eu fosse contar todas as vezes em que achei que iria morrer por algo estúpido, daria pra escrever uma série de livros maior que Game of Thrones. E essas aqui foram três muito marcantes pra mim…

 
 

Quando eu tinha, sei lá, uns 7 anos, estava no quarto dos meus pais à noite vendo TV. Ao lado da cama, como toda boa cama, tinha um criado-mudo. E dentro dele um canivete do meu pai. Era um daqueles canivetes suíços bonitões da Victorinox que são vermelhos na medida certa pra chamar atenção de uma criança.

 

Olha só que bonito

 

Eu, explorador que só, esperei o momento certo para abrir a gaveta quando ninguém estivesse vendo para pegar aquele artefato e descobrir como ele funcionava. Comigo não tinha receio, fui abrindo tudo sem pensar nas consequências. Puxei tesourinha, puxei serrinha, puxei a pinça…aí tinha um que estava emperrado. Fiz força. Continuava emperrado. Força força. Agora sim estava quase indo e PLUFT. A função mais cortante do canivete mostrou que não estava ali pra sacanagem. Aquela lâmina abriu mais rápido do que um avião de caça americano. E com a mesma velocidade, o sangue que circulava no meu dedo descobriu que estava livre para viver uma nova vida. Eu tinha me cortado.

O negócio sangrou, e olha, como sangrou. Eu olhei pro meu dedo e estava lá o melado escorrendo. Até então eu não tinha visto algo assim na minha vida. Pelo menos não ao vivo e muito menos comigo. Aquele cortezinho pra mim era um massacre e no mínimo eu iria virar uma peça de açougue. Fui correndo ao banheiro lavar aquela sanguinolência porque na minha cabeça água salvaria. Eu botaria água lá e o sangue não sairia mais. Água é vida.

Só que nada impedia aquele dedo de sangrar.

 


A situação era basicamente essa

 

Qual o meu raciocínio lógico? Na escola aprendi que quando perdemos muito sangue, morremos. Ou seja, eu tava virando um cadáver ali mesmo. Comecei a chorar e a gritar no banheiro “EU TO MORRENDO, MAMÃE. ESTOU PERDENDO MEUS SENTIDOS, Ó MEUS PROGENITORES. YA NO PUEDO MÁS VIVIR, PAPÁ! ADIÓS”. Quando eles chegaram correndo a cena era eu no chão do banheiro sangrando esperando a morte me carregar.

 


eu

 

Não morri. Eu era só burro mesmo. A lição estava aprendida e só encostei naquele canivete depois de 10 anos.

 
 

Esse não foi um caso isolado, mas sim recorrente. Quando eu era criança, um dos presentes que mais ganhava da família era Lego. Na época eu não tinha muita noção e acabei não dando tanto valor quanto deveria, MAS VOCÊS JÁ VIRAM O PREÇO DO LEGO HOJE EM DIA? Com uma dessas caixas temáticas grandes você já pode dar entrada num apartamento duplex em Ipanema. Dei uma breve pesquisada aqui no Mercado Livre e estou inconformado.

 


Qual a necessidade disso, gente

 

Modéstia à parte, sempre mandei bem naquelas construções e vez ou outra me sentia o próprio Le Corbusier (acabei de colocar “melhor arquiteto do mundo” no Google e peguei o primeiro nome. Não vou mentir pra vocês). Minha carreira ia de vento em popa até o dia eu cometi o erro de ler a caixa do Lego.

Situando vocês melhor, sabe quando você pega uma bula de remédio depois de tomar, lê os efeitos colaterais e do nada começa a sentir todos ao mesmo tempo? É basicamente isso. Só que eu acredito que tenha levado a psicologia a um patamar muito maior: eu li que aquele brinquedo não era recomendado para crianças menores de 3 anos pois continha peças que poderiam ser engolidas.

Maluco…PRA QUÊ. Não teve nem desenrolo, NO ATO eu senti uma peça de Lego obstruindo a minha garganta. Isso sequer fazia sentido porque minhas duas mãos estavam segurando a caixa, eu não tinha colocado nada na boca e já tinha muito mais de 3 anos de idade. Não fez diferença: lá estava eu agoniado com a certeza de que meu sufocamento era iminente. Eu ia ficar roxo até morrer e pronto. Comecei a tossir alto como se tivesse sido envenenado com Cianeto, com as mãozinhas segurando meu pescoço e me estrebuchando no chão até meus pais chegarem no quarto.

 


eu de novo

 

O que sei é que mesmo depois de constatarmos que não havia nada na minha glote, eu continuava sentindo ela lá. Inclusive só de ter lembrado disso eu já to sentindo de novo. É hoje.

 
 

A escola primária serve não só pra te dar uma base de conhecimento e te ensinar, mas também pra aterrorizar as suas noites de sono tranquilo. Quero dizer, nas aulas de ciências a gente via coisas que uma criança não pode ver assim sem uma preparação, sabe? Tem coisa perturbadora ali, coisa que mexe com a nossa cabecinha.

Tipo, lembra daquela imagem do Ciclo da Esquistossomose? Meu amigo, eu tinha um pavor daquilo. Até hoje eu não sei como funciona. Se eu prestasse atenção demais eu ia cismar que qualquer coisa que acontecesse comigo seria esquistossomose. Se eu entendi bem, parece que eu não posso ir em um lago e cagar em um caracol, sei lá. Olha a cara desse caipira.

 


quê

 

Numa dessas aulas conheci o Tétano. Esse bad boy foi o meu terror por muitos anos porque eu sabia que o tétano era uma realidade e que ele estava pronto pra me matar a qualquer deslize. Não tinha essa de anti-tetânica não. Pra mim ele era invencível. Tu já viu como o tétano te mata? Você começa a envergar que nem um berimbau e se der mole tu vai envergando até quebrar ao meio. TU ENVERGA ATÉ MORRER. Isso não é doença, isso é praga bíblica.

Aí um dia eu estava brincando na rua com um menino chamado Pedrinho. O Pedrinho era mais velho que eu, o que nas regras das ruas, significava que eu sempre teria uma desvantagem. A brincadeira era show de bola: pegamos duas barras de ferro que achamos no chão da rua e encenamos clássicas cenas de combates de espadas. Tinha tudo pra dar certo.

Eu tava me sentindo o próprio Sephiroth de Nova Iguaçu quando num momento de distração VLÁU a espada (barra de ferro) do Pedrinho cortou minha perna. Foi um corte razoável na panturrilha, sangrou bem mas não era nada que um poderoso Band-Aid não resolvesse. Só que eu lembrei o que causou aquele corte. E lembrei das aulas de ciências.

Puta merda eu tava com tétano. Tinha nem argumento. Aquele bastão de ferro a gente pegou na rua, é o próprio tétano em forma de objeto.

Fui correndo pra casa tomar banho com aquele desespero tomando conta de mim e antes de dormir eu peguei uma camiseta e meio que amarrei meus pulsos no meu tornozelo, de forma que eu ficasse deitado em posição fetal pra não envergar até morrer durante noite. Acordei inteirão e nunca mais me preocupei com tétano.

Quer dizer, eu fui dar uma olhadinha rápida na Wikipedia e…

 


 
 

Meu deus do céu, eu nunca mais saio de casa

Aparecida, a doméstica

Texto originalmente publicado no dia 4 de junho de 2013
 

Era uma terça feira nublada de setembro como todas as terças feiras nubladas de setembro costumam ser. Eu iria voltar para casa mais cedo naquele dia por não ter tido aula na faculdade. Nada de extraordinário. Fiz meu caminho, cheguei em casa, entrei pela garagem como de costume, subi as escadas, peguei meu chaveiro do Yoshi e abri a porta da cozinha. Na sala, uma gritaria por causa de uma mulher que vivia no Forró. Era Casos de Família. A TV estava ligada porque Aparecida, a moça que limpa, mulher batalhadora, gostava de passar as roupas ouvindo a realidade da família brasileira.

 
-Oi, Aparecida! Minha mãe tá aí?
-Ai Jesus, Igu! Nem te vi chegar menino. Ó, ela tá não. Ela ficou fora o dia todo ela.
-Ah, sim. Mas tá tudo bem, Aparecida? Precisa de alguma coisa?
-Nada ô, eu me viro. Tu me conhece né. Ó, arrumei lá seu quarto.
 

Senti um calafrio. Todas as vezes em que Aparecida resolvia arrumar meu quarto, ela mudava as coisas de lugar de forma que nem eu as achava e nem ela podia me ajudar a achar. Não por má vontade, mas por não saber responder coisas do tipo “você viu meu iPod?” tendo em vista que as respostas eram “Ih Ingo, sei que é isso de ‘ai pode’ não. Só aipode tá no seu quarto, tirei nada daí” acompanhadas de um gostoso sorriso com os poucos e tímidos dentes que lhe restavam.

Cheguei no meu quarto e, aparentemente, estava tudo normal. Exceto pela webcam que costumava ficar na gaveta e que, nesse dia específico, estava acoplada ao computador. Até aí nada demais, minha mãe costumava usá-la e não guardar. Coisa de mãe que usa webcam. O que importava é que dessa vez, Aparecida tinha feito seu trabalho sem mudar nada de lugar e eu estava feliz com isso.

O que eu não sabia é que aquele era o último dia de Aparecida lá em casa contribuindo nas tarefas domésticas. No fim do turno ela me explicou que iria voltar para o Maranhão pois o irmão dela estava passando por problemas de saúde e que meus pais já haviam acertado tudo com ela. Eu odiava abraços de despedida.

 
Houve um abraço de despedida.
 

Naquele instante Aparecida disse que eu era um jovem inteligente, carismático e que torcia pelo meu sucesso. Agradeci emocionado, mesmo intrigado com aquele cheiro de Leite de Rosas que iria demorar pra sair de mim. Foi seu último adeus. Hoje em dia as belas palavras de Aparecida ainda ecoam na minha mente e me emocionam. Espero que ela esteja bem no Maranhão.

 

– 3 meses depois –

 

Praticamente recuperado de todo um processo depressivo pelo qual eu estava passando no segundo semestre de 2011, eu tinha decidido a voltar a escrever no blog. O caderno de brainstorms estava lotado, o tempo me sobrava, a saudade e inspiração estavam pegando fogo. Notas e mais notas no iPad mostravam que já estava na hora. Sentei na frente do computador, virei o meu boné como um Ash Ketchum, entrei na página inicial, cliquei em login e… minha senha não estava salva.

Puta merda.

Um mar de sentimentos passou pela minha mente. Uma tempestade de palavras pulsava nos meus neurônios. Achei que toda a esperança de voltar com o blog havia morrido. Lembrei que, por precaução, um backup das minhas senhas estava em alguma pasta do meu computador e comecei a procurá-lo. Depois de alguns minutos achei as senhas. Ao navegar pela pasta Meus Documentos para ver se tinha algum brainstorm interessante, vi que tinha uma pasta da qual nunca tinha tomado conhecimento chamada Webcam Archives. Dentro, uma outra pasta chamada Photos e dentro, um arquivo chamado September-27-2011.jpg.

Abri o arquivo e tudo passou a fazer sentido…

 

oi

 

…A FILHA DA PUTA DA APARECIDA FICAVA USANDO A PORRA DO MEU COMPUTADOR SEM EU SABER QUANDO NÃO TINHA NINGUÉM EM CASA, AQUELA HACKER DO SERTÃO. PODE UMA PORRA DESSAS? SABE-SE DEUS AS COISAS QUE ESSA MULHER VIU.

 
E eu achando que essas histórias de domésticas eram mentiras.

 


 

Olha, os comentários no post anterior com as histórias de vocês estavam SENSACIONAIS. Então já que estamos nessa coisa só nossa, nesse momento tão meu e seu, conta também Aquela História™ de quando alguma moça do lar resolveu, sei lá, deitar na sua cama quando você não estava.

Como Beijar na Boca

Texto originalmente publicado dia 22 de Julho de 2014
 

Um momento muito difícil na vida de todos nós é a puberdade. Ela pega a gente de surpresa e só percebemos as consequências reais depois de entrar na fase adulta. Veja só como ela é traiçoeira: você passa os primeiros anos de sua existência sendo uma criança pura e feliz. Sua única preocupação é curtir o momento, ganhar brinquedos e se divertir. Claro que existem as exceções, tipo aquela porra daquela Mafalda que não sabe passar uma tirinha sem ser um porre.

 

01Puta que pariu.

 

Ô garota insuportável do caralho, fico até com raiva.

De qualquer forma, Mafaldas à parte, as crianças são seres adoráveis. Conforme você chega mais perto da puberdade, já começam a aparecer os primeiros sinais de que vai dar merda logo logo: toda aquela fofura vai sendo substituída por um negócio que não sei explicar exatamente, mas costumo chamar de SÍNDROME DA CRIANÇA ESPERTINHA. É aquele período em que parece que a criatura saiu de um filme da Sessão da Tarde onde cachorros e crianças sabem de tudo enquanto os adultos são todos burros.

 

02“Tenho um plano para isso!”

 

Daí as coisas tendem a desandar cada vez mais. Você começa a dizer que não é mais criança, você agora é PRÉ-ADOLESCENTE (mas ainda quer ganhar presentes dia 12 de outubro) e o mundo, segundo sua cabeça, precisa te entender. Sobre a adolescência eu nem preciso falar nada. É só você olhar suas fotos da época que você já pensa “eta porra, que fase hein”. SPOILER: se você não acha o seu passado babaca, é porque você ainda é babaca.

E não basta ser babaca. Não. Ser babaca é pouco. Você tem que virar uma abominação humana nesse período. Começam a nascer pelos em lugares que você não dava muita atenção, começam a brotar espinhas, o cabelo fica oleoso e os hormônios te deixam com uns peitinhos disformes. Falando em hormônios, essa é a época em que você precisa…

 
03
 

Tempos complicados. Perder o BV, ou Boca-Virgem, era o ato de dar o seu primeiro beijinho em uma boca alheia que não fosse da sua mãe ou, em famílias mais perturbadas, do seu pai. Eu, que nunca fui um James Dean mirim, ficava meio apavorado com esse lance porque sabia da minha predisposição a fazer merda. Eu não queria nem que fosse sensacional, só não queria que terminasse em tragédia.

Por conta disso, comecei a pesquisar na internet qual era o procedimento adequado. Vamos destacar aqui que a internet daquela época era complicadíssima. Além de cara e discada, com uma velocidade de 56 kbps (com muita boa vontade), ela parecia ter no máximo uns 50 sites. Não tinha isso de Google em três milésimos de segundo te mostrando 7 bilhões de resultados.

Pra você ter uma noção, o único site que achei falando a respeito era um chamado “Sapecagem Jovem”, que, pensando bem agora, com certeza não era escrito por um jovem. Nesse site as dicas, que nunca vou me esquecer, eram:

 

  • Não fique nervoso com doenças;
  • Apenas acompanhe. O mais experiente irá conduzir;
  • Treine com sua mão ou com uma laranja.

 

E olha, que dicas MERDAS. A primeira eu não vou nem me dar o trabalho de explicar a neurose que causou. É como você falar pra uma visita “pode usar meu banheiro sim. É a segunda porta à direita, mas não se preocupa com o crocodilo que tem dentro do vaso não hein”. A segunda, que é a mais próxima de algum suporte, também não ajudava em porra nenhuma. Eu não sou uma batata frita ou um arrozinho pra ficar acompanhando, além disso, não tinha ninguém experiente na situação, poderia ser um caos.

 

04Tipo isso…

 

Aí vem a terceira. Eu ainda tenho dúvidas se a pessoa que escreveu isso era um sádico muito dedicado ao ponto de fazer um site sobre isso ou apenas um velho caduco e pedófilo esperando crianças mandarem mensagem para ele ajudar. Onde caralhos ficar beijando uma laranja resolve a tua vida? Isso sequer faz sentido. Sabe o pior? Eu treinei com uma laranja. Fiquei uns dias beijando ela e minha mão na esperança de me tornar um profissional. Foi inútil? Foi. Mas pelo menos foi uma belíssima história de amor que vivi ali.

O grande dia tinha chegado e eu daria meu primeiro beijo. Aconteceu, foi extremamente normal e ouso afirmar que na hora pensei em virar galã de novela porque parece que eu tinha nascido pra isso. Chora Fabio Junior.

A questão é: na época as informações corretas eram limitadas e hoje, aparentemente, também. O máximo que achei foram blogs de meninas explicando como funciona, naquele estilo Revista Toda Teen, bem mágico. Por conta disso, o Improbabilidade Infinita, que é um blog que te ama, veio trazer o GUIA DEFINITIVO DO BEIJO NA BOCA (com imagem de introdução)

 
 
05
 

Vamos lá, chegou a hora de você dar aqueles amassos™ mas não está preparado ou não sabe como proceder? Pois então largue esta porra de laranja, pare de beijar sua mão e acompanhe esses 5 passos básicos:

 
– SEJA HIGIÊNICO

É o mínimo. Na adolescência, como eu disse, você é uma pessoa esquisita, oleosa e caspenta. Então além de tomar banho e usar um perfuminho, escove essa caralha desses dentes. Dá uma geral mesmo, tipo o lava-rápido de 3 andares Hot Wheels, pelo menos na semana em que você acha que vai rolar. Lembre-se que o seu primeiro beijo envolve uma segunda pessoa e ela não merece sentir o gosto do seu Nescau da manhã enquanto te dá uns pegas.

Se você usa aparelho móvel então, faça em dobro. Se puder, faça bochecho com água sanitária duas vezes ao dia (mentira, criança retardada que chegará nesse blog pelo Google. Não bote água sanitária na boca ou você vai morrer sem nunca ter beijado alguém). Todo mundo sabe que a função primária do aparelho móvel não é corrigir os seus dentes, mas deixar sua boca com cheiro de cadáver. Eu me lembro de um amigo na escola que perdeu o BV e não tomava cuidado com seu aparelho móvel. O resultado foi a menina espalhando a experiência de beijar um esgoto e ele ficando conhecido como Renato Boquinha-de-Vala.

 
– FINJA QUE SABE

A menininha ou menininho que você vai beijar provavelmente está tão inseguro quanto você. É normal? É. É legal? Nem tanto. Por isso finja que você tá totalmente por dentro daquilo e que beijar na boca pra você é tão trivial que você já pode escrever uma tese a respeito. Faça aquela cara de “eu sei pra caralho o que eu to fazendo aqui”.

 

06“Beijo na boca? Normal”

 

Se a pessoa também estiver fazendo cara de quem sabe mais que você, não se desespere. Faça cara de quem sabe mais ainda. É uma competição e você vai ganhar. O importante é passar segurança e, na hora do beijo, apenas fazer o que você viu ao longo da vida: beijar e pronto. Tem mistério nessa porra não.

 
– PENSE NEGATIVO

Isso talvez seja uma dica pra vida. Quanto menor a expectativa, mais proveitoso o momento. Sei lá, vá com a consciência de que você pode vomitar durante o beijo, algum dos dois desmaiar, arrancar um pedaço da boca alheia com os dentes e, acredite em mim, fazer cocô nas calças de tanto nervoso. Na hora possivelmente não vai acontecer nada disso e as coisas ocorrerão melhor do que você esperava.

Lembre-se sempre da dica 2: finja que tudo aquilo ali é normal pra você. Mesmo que você se cague todo, faça cara de quem estava esperando exatamente isso.

 

06“Cagar na calça? Normal”

 

 
– CONTROLE A LINGUINHA

Se você vai beijar de língua, entenda que é necessário pegar leve. Já fiquei com uma garota cuja língua achava que era a Dora Aventureira e desbravou cada canto da minha cavidade oral. Eu me senti estuprado. Se eu colocasse uma jiboia adulta dentro da minha boca, seria menos desconfortável que aquilo. Eu tive sorte de ela ter respeitado meus sentimentos e não ter enfiado a língua dentro do meu esôfago, ter feito uma endoscopia ali mesmo.

 

07“Foi bom pra você?”

 

É bem bizarro dizer isso, mas explicando melhor, a sua língua vai apenas ficar “acariciando” a outra e não simulando uma final de UFC bucal.

 
– BAIXE A BOLA

Aêêê, você oficialmente ~perdeu o BV~ de uma vez por todas. E agora? Contar pra todo mundo?! Não, imbecil. Fique na sua. Você está em fase escolar, TODO O PLANETA vai saber sem você precisar abrir a boca. Então faça aquela mesma cara de quem está mais que acostumado e ainda saia com a impressão de que você tem maturidade e não precisa ficar se vangloriando por aí.

Ah, apenas lembrando que você não tem maturidade e precisa sim ficar se vangloriando por aí, mas esse blog tem o intuito de te tornar COOL. E só para não dizer que não avisei: você irá manter a velha expressão de segurança, mas estará feliz demais para se conter nos primeiros dias e sua cara ficará assim:

 
08
 

O importante é curtir. Você está pronto.

 


 

Como eu já disse várias vezes, a parte dos comentários aqui sempre foi um espetáculo à parte com as pessoas contando suas histórias. Conta aí como foi a catástrofe do seu primeiro beijo pra gente rir de você.